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Sócio do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já 97 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura e Cinema e Movimento. Atualmente sou colaborador do site Cinesofia. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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quarta-feira, 8 de maio de 2019

Cine Dica: Em Cartaz: ‘A Sombra do Pai’ - Os Zumbis do Brasil

Sinopse: Dalva (Nina Medeiros), uma menina de 9 anos, se torna responsável por sua casa quando seu pai, o pedreiro Jorge (Julio Machado), fica doente. Órfã de mãe, ela precisa deixar de lado a infância para cuidar do pai, que por sua vez, tem que lidar com a frustração de perder aspectos de sua paternidade. 

No filme "Trabalhar Cansa" (2011), o horror não surge através de fantasmas ou monstros, mas sim da própria insegurança vinda do mundo de fora e que nos aflige no dia a dia. O cinema "pós-terror" tem nos brindado com títulos cada vez mais humanos e que fala sobre as incertezas e retrocessos atuais que se espalham pelo mundo. "A Sombra do Pai' segue essa tendência, onde a estrutura de uma família faz com que a situação se torne assustadora e fazendo com que qualquer fórmula já vista e revista dentro do gênero fique pelo caminho.  
Dirigido por Gabriela Amaral Almeida, do filme "Animal Cordial" (2018), o filme conta a história de  Dalva (Nina Medeiros), uma menina de 9 anos e que durante o dia é cuidada pela sua tia Cristina (Luciana Paes). O seu pai Jorge (Julio Machado), trabalha como pedreiro de um prédio e o que acaba fazendo dele um ausente na vida da filha. A partir do momento que Jorge fica doente, Dalva começa a passar por transformações e fazendo dela a principal mulher dentro da casa.  
Apresentação do filme começa de uma forma bem curiosa, já que a cineasta opta em deixar que a câmera conte, mesmo que não por muito tempo, sobre quem são aqueles personagens em meio ao ambiente mórbido, porém, realístico. Em um primeiro momento, por exemplo, acreditamos que Dalva e Cristina sejam mãe e filha e que essa última esteja tendo um caso fora do casamento. Aos poucos, então, descobrimos que ela é tia da menina e que Jorge é na realidade o seu irmão.  
Essa quebra de perspectiva se deve, principalmente, pela escolha certeira da menina que interpreta Dalva. Nina Medeiros é surpreendentemente idêntica a Luciana Paes, sendo que a semelhança se sobressai ainda mais quando uma encara a outra em cena. Aliás, a pequena atriz possui uma presença de peso fortíssima, graças ao seu olhar profundo e do qual faz de sua personagem alguém muito mais complexo do que nós imaginavamos.   
Complexidade, aliás, é o que move os personagens na trama, já que cada um deles parece que carrega uma cruz perante as situações rotineiras, porém, suficientes para colocarem cada um deles na corda bamba. Jorge, por exemplo, sofre com a perda da esposa, com o descaso vindo do estado, de um emprego desumano e por não saber se interagir com a sua própria filha. Ela, por sua vez, gosta de criar certas simpatias, para obter o que deseja e tentar uma reaproximação com a sua família.  
É nesse ponto que Gabriela Amaral Almeida cria um paralelo com o seu filme com relação ao quadro familiar brasileiro atual, do qual a desunião vem de muitos fatores, desde os desentendimentos, como também dos próprios rumos políticos em que o país está vivendo. A casa, por exemplo, parece um ambiente cheio de cicatrizes, cheios de histórias, mas que, algumas delas, são omitidas pelos próprios protagonistas. Contudo, mesmo morta, a presença da mãe se torna constante na vida deles, ao ponto de ficarmos nos perguntando se ela está provocando os acontecimentos que ocorrem na história ou se tudo não passa de uma infeliz coincidência.  
Curiosamente, a cineasta faz um curioso paralelo do seu filme com os clássicos do horror "Cemitério Maldito" (1989) e "A Noite dos Mortos Vivos" (1968), em que ambos os casos traz à tona assuntos como a vida pós morte. Porém, Gabriela Amaral Almeida opta por um caminho inverso, ao fazer com que fórmulas de sucesso do horror vistas naqueles clássicos se tornam datadas, fazendo do seu filme mais crível, pois o próprio mundo real já é muito mais assustador do que qualquer morto vivo. Em tempos cada vez mais incertos e nebulosos, Gabriela Amaral Almeida opta, então, por um caminho mais criativo, ao invés de cair no óbvio.  
"A Sombra do Pai" sintetiza o lado sombrio de um Brasil atual cada vez mais zumbi e que teima em não querer acordar. 

Nota: o filme foi exibido ontem no Cinebancários de Porto Alegre, com a presença da própria Gabriela Amaral Almeida e seguida por um debate. O filme seguirá em cartaz na sala na sessão das 17horas. Cinebancários: Rua General da Câmara, nº 424. Centro Histórico de Porto Alegre. 
  

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