Muitos filmes que assisti quando criança me marcaram bastante, principalmente pelo fato de eu não estar preparado para eles. Em alguns casos, foram longas que vi no Supercine, da Rede Globo, e que assisti acompanhado de minha mãe, que fazia questão de estar ao meu lado nessas sessões. "A Hora da Zona Morta" (The Dead Zone, 1983) foi um desses títulos que me pegaram desprevenido e que, com o passar do tempo, só cresceram na minha memória.
Dirigido pelo mestre David Cronenberg e baseado na obra de Stephen King, o filme conta a história de Johnny Smith (Christopher Walken), um professor de literatura prestes a se casar que sofre um grave acidente de carro e fica cinco anos em coma. Ao recobrar a consciência, descobre que perdeu sua carreira e sua noiva, Sarah Bracknell (Brooke Adams). Em contrapartida, adquiriu poderes paranormais que lhe permitem ver o futuro. Ele passa a ter a capacidade de alterar o curso dos acontecimentos, o que estabelece seu grande dilema: interferir ou sofrer sozinho ao antever as tragédias prestes a acontecer?
Entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980, as obras literárias de Stephen King eram adaptadas em profusão para o cinema, alcançando enorme sucesso — movimento impulsionado pelo impacto de "Carrie, a Estranha" (1976). No entanto, ficou célebre o atrito entre o escritor e o diretor Stanley Kubrick ao adaptar "O Iluminado" (1980), já que o longa se distanciou da fonte original para se tornar uma obra mais autoral do cineasta do que do próprio autor. Esperava-se, portanto, que a direção de David Cronenberg pudesse ter um destino semelhante, mas não foi exatamente o que ocorreu.
Vindo de uma carreira construída com produções autorais marcantes, como "Videodrome - A Síndrome do Vídeo" (1983), assumir uma adaptação de um escritor tão popular poderia não parecer o território mais propício para um realizador de estilo tão vincado. Contudo, é fascinante notar como o longa funciona perfeitamente como adaptação. Quem leu o livro reconhecerá diversas passagens transpostas fielmente para a tela, ainda que certas tramas tenham sido sintetizadas — caso do romance entre o protagonista e sua noiva, que teve o tempo de tela reduzido. A meu ver, o realizador optou por focar na dimensão humana de um homem que acorda do coma após anos e descobre um dom que pode ajudar os outros, mas ao custo de um fardo devastador.
Em vez de adentrar o gênero fantástico de forma imediata, Cronenberg prefere ancorar os personagens em um território de forte realismo dramático. Por conta disso, nos simpatizamos genuinamente com o protagonista: temos tempo de conhecê-lo antes do famigerado acidente. A partir do momento em que ele acorda, ficamos cada vez mais intrigados com suas dores e com os limites a que esse dom o levará.
Com uma estética de contornos góticos — muito característica do suspense e do horror da época —, o longa ostenta um visual elegante e mórbido que continua a fascinar. Não envelheceu; pelo contrário, apurou-se como um bom vinho. Destaco a sequência em que o protagonista investiga o assassinato de uma jovem em uma praça, cuja revelação sobre o culpado choca até hoje. Lembro-me perfeitamente do impacto da cena da tesoura — e quem já assistiu ao filme sabe do que estou falando.
Vindo de uma ascensão meteórica após ser agraciado com o Oscar de Ator Coadjuvante por "O Franco Atirador" (1978), Christopher Walken nos brinda com uma interpretação marcante. Seu Johnny Smith é uma figura tragicamente presa a uma dádiva que só lhe traz dor, enquanto busca desesperadamente entender o propósito de sua condição. Curiosamente, a resposta para o seu tormento surge na figura do candidato a presidente Greg Stillson.
Era o início dos anos 1980, e o mundo ainda vivia sob a sombra da Guerra Fria. O presidente era Ronald Reagan, ex-ator que prometia uma nova utopia ao povo americano enquanto desgastava a nação em conflitos geopolíticos e econômicos. O Greg Stillson apresentado na trama não é apenas uma caricatura megalomaníaca do cenário reaganista, mas também um anteparo profético de lideranças populistas e de extrema-direita, tornando esse trecho do filme mais atual do que nunca. Martin Sheen brilha ao interpretar um sujeito consumido por suas próprias ambições, mestre em persuadir uma multidão sedenta por falsas promessas.
O desfecho surge de forma abrupta, porém extremamente corajosa para os padrões da época, marcando profundamente minha infância. Vale lembrar que o livro ganhou outra adaptação anos mais tarde, desta vez para a TV na série "O Vidente" (2002–2007), embora sem alcançar o status cult que o filme de Cronenberg consolidou com o tempo. Outra curiosidade instigante: no início do longa, Johnny sugere aos seus alunos a leitura de "A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça"; anos depois, em 1999, o próprio Christopher Walken interpretaria o lendário vilão na adaptação dirigida por Tim Burton.
Lançado no Brasil em uma apurada edição física pela Obras Primas do Cinema, "A Hora da Zona Morta" é um verdadeiro sobrevivente ao teste do tempo — e uma daquelas obras inesquecíveis que marcaram a minha juventude.
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