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Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte.Me acompanhem no meu: X: @cinemaanosluzFacebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Cine Dica: Em Cartaz - 'Fogaréu'

Sinopse: Fernanda retorna à fazenda de seu tio em Goiás após anos distante, trazendo as cinzas de sua falecida mãe adotiva.

Quando buscamos nossas próprias raízes, podemos tanto rejeitar nossa real origem quanto abraçá-la por inteiro. Em "Açúcar" (2017), de Sérgio Oliveira e Renata Pinheiro, vemos uma protagonista em busca do direito às suas terras, tendo que aceitar mistérios sobre de onde veio e confrontar os próprios preconceitos. "Fogaréu" (2026) segue uma premissa familiar, desvendando a história hipócrita do lado conservador de um pedaço de terra do Brasil.

Dirigido por Flávia Neves, o filme acompanha Fernanda, que volta para a fazenda da família em Goiás para trazer as cinzas de sua mãe. Sua presença e a busca obstinada pela verdade sobre suas raízes abalam a fachada dessa elite agrária conservadora, fazendo com que seu tio latifundiário (Eucir de Souza), em plena campanha para prefeito, a veja como uma ameaça. Não demora para que a jovem descubra segredos familiares que permaneciam adormecidos ao longo dos anos.

A Procissão do Fogaréu, na Cidade de Goiás, é uma tradicional encenação religiosa da Semana Santa (Quarta-feira Santa) realizada desde 1745 na antiga capital goiana. Os participantes, chamados de farricocos, vestem túnicas compridas e chapéus cônicos pontiagudos (capuzes) para representar os soldados romanos que perseguiram e prenderam Jesus Cristo.

Flávia Neves faz questão de apresentar essa encenação logo na abertura do filme para causar um efeito imediato no espectador: o desavisado logo pensará tratar-se da Ku Klux Klan em terras brasileiras. Essa relação de causa e efeito é intencional, principalmente em tempos em que o conservadorismo retrógrado assola o país e renova o receio de retrocessos. Contudo, o longa nos lembra que essa realidade talvez estivesse ao nosso lado há muito mais tempo do que imaginamos.

Fernanda pertence a essa família tradicional, mas suspeita de suas reais origens e, sobretudo, das ligações dos povos indígenas com aquelas terras. O filme não apenas faz uma crítica ácida aos latifundiários que tentam apagar a memória dos verdadeiros donos da terra, como também revela como o poder econômico empurra esses corpos para as margens da sociedade. A cena em que Fernanda observa esses povos incrustados e definhando nos cantos da cidade sintetiza com precisão essa engrenagem.

Desde sua atuação como a jovem Clara em "Aquarius" (2016), Bárbara Colen chama atenção por composições contidas, mas que dominam a cena por sua aura enigmática. Aqui, sua personagem transita entre a lucidez, a obsessão e a busca pela lógica em meio a fatos chocantes. Já o tio é a perfeita encarnação da hipocrisia de certas elites regionais contemporâneas, cujos crimes e abusos nunca podem ser pronunciados, apenas enterrados.

A diretora demonstra ótima maturidade nas transições de cena: raramente sabemos se o que vemos são sonhos, delírios ou a pura realidade, criando fragmentos que nos estimulam a formular nossas próprias teorias. O ato final deixa o desfecho em aberto, como se a realizadora exigisse do espectador a construção de um veredito sobre o que testemunhou — ainda que lance um tênue fio de esperança nos últimos minutos. A cena final da protagonista simboliza a caminhada de um Brasil rumo a um futuro incerto, enquanto as sombras conservadoras continuam a nos assombrar.

"Fogaréu" é o retrato contundente da busca por origens cujas raízes tentam ser apagadas pelos aproveitadores de sempre.



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Cine Dica: Programação CineBancários 05 a 11 de novembro

 FEITO PIPA e VICENTINA PEDE DESCULPAS são as estreias de 5 de novembro no CineBancários

Filme representante do Brasil no Óscar 2027, com Lázaro Ramos no elenco, divide a programação com novo longa de Gabriel Martins, premiado no Festival do Rio

Feito Pipa, longa-metragem dirigido por Allan Deberton, estreia no CineBancários em 5 de novembro, junto de Vicentina Pede Desculpas, filme premiado no Festival do Rio. A sala da Casa dos Bancários exibe também Medley, longa de Ana Luiza Azevedo.

Estrelado por Yuri Gomes, Teca Pereira e Lázaro Ramos, Feito Pipa estreou na Berlinale 2026, onde conquistou dois prêmios, e passou por importantes festivais internacionais, entre eles o Festival Internacional de Cinema de Guadalajara, no México e o Festival Internacional de Cinema de Cartagena das Índias (FICCI), na Colômbia, onde também foi premiado.

Feito Pipa acompanha Gugu (Yuri Gomes), um menino de quase 12 anos apaixonado por futebol que vive ao lado da avó Dilma (Teca Pereira), responsável por criá-lo de maneira livre e afetuosa. Ele vive seu primeiro desafio quando precisa encarar a possibilidade de morar com o pai (Lázaro Ramos), um homem incapaz de expressar seus sentimentos. Rodado em Quixadá, no sertão do Ceará, o filme constrói uma narrativa delicada sobre amadurecimento, pertencimento, afeto e liberdade. O elenco conta também com Carlos Francisco (O Agente Secreto) e Georgina Castro (O Céu de Suely).

Desde sua estreia mundial em Berlim, em fevereiro deste ano, Feito Pipa vem construindo uma das mais expressivas trajetórias internacionais do cinema brasileiro em 2026. O longa conquistou os dois principais prêmios da mostra Generation Kplus, o Crystal Bear (Urso de Cristal), concedido pelo Júri Jovem, e o Grande Prêmio do Júri Internacional, tornando-se um dos grandes destaques do festival alemão. Na sequência, o filme abriu o Festival Internacional de Cinema de Cartagena das Índias (FICCI), na Colômbia, onde também recebeu o prêmio de Melhor Interpretação para o jovem ator Yuri Gomes. Logo depois, conquistou mais dois importantes reconhecimentos no Festival Internacional de Cinema de Guadalajara, no México: Prêmios Maguey de Melhor Filme e Melhor Interpretação para Yuri Gomes e Teca Pereira.

Vicentina Pede Desculpas

Após conquistar três Troféus Redentor no Festival do Rio, Vicentina Pede Desculpas, novo longa-metragem dirigido por Gabriel Martins (“Marte Um”), chega aos cinemas brasileiros em 5 de novembro, com distribuição da Malute. Produzido pela Filmes de Plástico em parceria com a Netflix, o filme é protagonizado por Rejane Faria, com atuação destacada em festivais internacionais.

Na 28ª edição do Festival do Rio, o longa foi premiado nas categorias Melhor Direção de Longa-Metragem de Ficção e Melhor Roteiro, ambas para Gabriel Martins, além de Melhor Longa-Metragem de Ficção pelo Voto Popular.

Em Vicentina Pede Desculpas, Rejane interpreta uma professora aposentada de 75 anos que precisa lidar com a morte do filho e com as dúvidas que cercam a tragédia. Em uma atuação marcada pela contenção e pela sensibilidade, a atriz conduz a narrativa de uma mulher que, diante de uma perda irreparável, tenta compreender o que aconteceu e encontrar caminhos para seguir em frente.


Sobre o filme:

Numa manhã ensolarada em Belo Horizonte, um ônibus lotado segue para o centro da cidade. Ao cruzar um viaduto, o veículo desvia repentinamente, sai da pista e cai na avenida abaixo. Um passageiro fica gravemente ferido, enquanto todos os outros, incluindo Wesley, o motorista, morrem.

A tragédia domina os noticiários de televisão e as manchetes dos jornais em todo o país. Após a análise das imagens das câmeras de segurança, começam a circular especulações de que o motorista poderia ter provocado o acidente intencionalmente.

Vicentina, uma professora aposentada de 75 anos e mãe de Wesley, fica devastada com a tragédia e sem saber como seguir em frente. Em busca de respostas, ela decide procurar as famílias das vítimas e pedir desculpas. Ao longo desse percurso, encontra diferentes formas de lidar com a dor e descobre que as respostas que procura nem sempre são aquelas que esperava.

Com direção, roteiro e história original de Gabriel Martins, o filme aborda o luto, a culpa e as possibilidades de reparação diante de uma tragédia coletiva.

Além de Rejane Faria, o elenco reúne Maíra Azevedo, Grace Passô, Karine Teles, Renato Novaes, Thalma de Freitas, Flávio Bauraqui, Giovanna Heliodoro e Giovanni Venturini, entre outros.


PROGRAMAÇÃO CINEBANCÁRIOS DE 5 A 11 DE NOVEMBRO


ESTREIA:


FEITO PIPA

Brasil/Ficção/2026/ 93min.

Direção: Allan Deberton

Sinopse: Gugu é um menino de quase 12 anos, sonhador e apaixonado por futebol, que vive com a avó Dilma, uma professora aposentada que o cria de forma livre e afetuosa, sem se preocupar com os julgamentos dos moradores da cidade. A relação do garoto com o pai Batista é difícil, feita de ausências, expectativas e afetos não ditos. Avó e neto moram sozinhos ao lado da barragem de Araújo Lima que, após anos de seca, começa a revelar as ruínas de uma antiga cidade submersa, trazendo à tona lembranças que mudaram a vida da família.

Elenco: Yuri Gomes (Gugu), Lázaro Ramos (Batista), Teca Pereira (Dilma), Georgina Castro, Castro Francisco, e apresentando as crianças Luan Vasconcelos, Beatriz Carwile, Nathyel Martins, Manuela Paulino, Pablo Vinícios e Enzo Uejo.


VICENTINA PEDE DESCULPAS

Brasil/Ficção/2026/ 148min.

Direção: Grabriel Martins

Sinopse: Em Belo Horizonte, um ônibus lotado desvia e cai de um viaduto, causando a morte de quase todos os passageiros e do motorista, Wesley. Com a investigação apontando a possibilidade de suicídio por parte do motorista, sua mãe, Vicentina — uma professora aposentada de 75 anos —, decide caminhar pela cidade para procurar individualmente cada uma das famílias das vítimas e pedir desculpas em nome do filho.

Elenco: Rejane Faria, Maíra Azevedo, Giovanna Heliodora, Thalma de Freitas,Grace Passo, Bárbara Colen.



EM CARTAZ:


MEDLEY

Brasil/Ficção/2025/ 96min.

Direção: Ana Luiza Azevedo

Sinopse: A jovem Lola vive em conflito com a mãe e carrega o trauma da ausência  do pai, de quem guarda poucas lembranças. Ao viajar sozinha nas férias para uma cidade do interior, ela entra para uma equipe de natação competitiva e, enquanto tenta vencer o bloqueio que a impede de nadar no estilo borboleta, embarca em uma jornada de autodescoberta que revela segredos do passado de sua família.

Elenco: Mel Maia, Guthierry Sotero, André Ramiro, Alana Cabral, Mariana Lima



HORÁRIOS 05 a 11 de NOVEMBRO

(não há sessões nas segundas-feiras)

14h45: MEDLEY

16h30: VICENTINA PEDE DESCULPAS

19h10: FEITO PIPA


Ingressos

Os ingressos podem ser adquiridos a R$ 14 na bilheteria do CineBancários. Idosos (as), estudantes, bancários (as), jornalistas sindicalizados (as), portadores de ID Jovem e pessoas com deficiência pagam R$ 7. São aceitos cartões nas bandeiras Banricompras, Visa, MasterCard e Elo. Nas quintas-feiras, a meia-entrada (R$ 7) é para todos e todas.


CineBancários

Rua General Câmara, 424 – Centro – Porto Alegre

Mais informações pelo telefone (51) 3030.9405 ou pelo e-mail cinebancarios@sindbancarios.org.br


Amanda Zulke 

CineBancários | SindBancários 

(51) 3030-9400 | (51) 99920-6484

terça-feira, 3 de novembro de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'O Bosque Selvagem'

Sinopse: A adolescente Prue McKeel vê seu irmão caçula, Mac, ser raptado por uma revoada de corvos a mando de uma misteriosa feiticeira.

Em tempos atuais dominados pela animação digital e alinhados ao advento da inteligência artificial, o estúdio Laika foge de todas as tendências e faz um verdadeiro cinema de guerrilha. Usando a velha, porém maravilhosa, técnica de animação em stop-motion, o estúdio lançou obras-primas ao longo dos anos, como "Coraline" (2009) e "Kubo e as Cordas Mágicas" (2016). "O Bosque Selvagem" (2026) talvez seja o feito mais ambicioso da casa, no qual uma escala técnica descomunal se alinha a uma bela história para ser apreciada na grande tela.

Dirigido por Travis Knight, do recente "Mestres do Universo" (2026), o filme nos faz acompanhar a saga da jovem Prue McKeel, que precisa recuperar seu irmão mais novo de uma horda de corvos raptores. Mac foi levado para um território desconhecido além dos limites de Portland, um lugar que se imaginava existir apenas nos contos de fadas. Decidida a salvar o irmão, a protagonista se aventura na floresta ao lado de seu amigo nerd, Curtis, revelando um universo muito mais surpreendente do que se podia imaginar.

Com mais de duas horas de projeção, o longa nos fisga de imediato graças ao seu visual deslumbrante, no qual a fotografia se entrelaça com uma direção de arte de encher os olhos. Além disso, é incrível como o figurino se sobressai ao construir um mundo mágico com identidade própria, que se torna ainda mais verossímil à medida que o tempo passa. Mas o que mais espanta é o fato de a obra ter sido realizada quadro a quadro de uma forma jamais vista.

Rodado ao longo de sete anos, o estúdio Laika não poupou esforços na realização do projeto baseado na obra de Colin Meloy. Cada segundo de projeção foi feito de forma perfeccionista, exigindo paciência extrema de seus realizadores, mas, ao mesmo tempo, explicitando a paixão pela arte do cinema. O resultado é um longa de coração puro, no qual o calor humano se faz presente de corpo e alma, tornando-o extremamente rico em termos visuais e narrativos.

O enredo, por sua vez, não traz grandes novidades, apostando na clássica jornada sobre superar temores e enfrentar adversidades mesmo quando a batalha aparenta estar perdida. Prue se apresenta como uma jovem cética em relação ao mundo fantástico — mesmo encarando animais falantes, magia e tudo o que antes considerava impossível. Aos poucos, ela se dá conta de que tem muito mais a ver com aquele universo mágico do que com o mundo real, no qual convivia quase sempre em tom de conformismo.

Curtis é o típico nerd "gente como a gente", que se encanta com aquele cenário que julgava existir apenas nas mesas de RPG, descobrindo que terá muito a aprender e enfrentar se quiser sobreviver. Contudo, a Rainha Viúva Alexandra é a melhor e mais trágica personagem em cena. Suas motivações para trazer o filho de volta à vida fazem com que o espectador se identifique com ela, mesmo quando percebemos que sua lucidez está prestes a se extinguir. A cena de abertura já nos dá a dimensão sombria de sua história — e, para se ter uma ideia, me fez relembrar os melhores trabalhos de Guillermo del Toro.

Falando em lado sombrio, este é, sem sombra de dúvida, o longa mais violento da Laika, a ponto de as mortes de alguns personagens surgirem de forma inesperada, podendo até assustar os mais jovens. Em contrapartida, o ato final nos brinda com um tom épico: o embate entre o bem e o mal em uma impressionante batalha campal que não deve nada à trilogia "O Senhor dos Anéis", impressionando ainda mais pela sua escala grandiosa. É um belo exemplo de épico animado feito com paixão, e não com o mero interesse de arrecadação de bilheteria.

"O Bosque Selvagem" é a mais nova obra-prima do estúdio Laika, provando que as velhas técnicas de animação ainda podem nos brindar com belas histórias para serem apreciadas no cinema.


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Cine Dica: Clube de Cinema - "As Pequenas Margaridas" (05/11, quinta) na Sala Redenção da UFRGS

Nesta quinta-feira (05/11), às 19h, o Clube de Cinema dá continuidade ao ciclo temático "Nouvelle Vague e suas influências", promovido em parceria com a Sala Redenção da UFRGS, com uma sessão especial do filme As Pequenas Margaridas, de Vera Chytilová.

Uma das principais obras da Nova Onda Tchecoslovaca, As Pequenas Margaridas aposta na experimentação formal para construir uma sátira irreverente das convenções sociais e dos papéis atribuídos às mulheres. Suas protagonistas, duas jovens chamadas Marie, desafiam as expectativas de comportamento ao transformar encontros com homens mais velhos em oportunidades para satisfazer seus próprios desejos. Com uma montagem fragmentada, mudanças entre o preto e branco e o colorido e sequências que rompem com a narrativa convencional, Chytilová faz da desordem uma forma de contestação política e estética.

Após a sessão, haverá um bate-papo com Leonardo Bomfim, pesquisador, curador e crítico de cinema. O ciclo "Nouvelle Vague e suas influências" é uma ação de extensão da Sala Redenção (UFRGS) em parceria com o Clube de Cinema de Porto Alegre, oferecendo certificados de participação aos inscritos e possibilitando o aproveitamento de horas complementares aos estudantes. Inscreva-se!


Confira os detalhes da sessão:

SESSÃO DE QUINTA-FEIRA NO CLUBE DE CINEMA

📅 Data: 05/11 (quinta-feira), às 19h

📍 Local: Sala Redenção – UFRGS

R. Eng. Luiz Englert, 333 – Bairro Farroupilha, Porto Alegre

🎤 Sessão comentada com Leonardo Bomfim

🎟️ Entrada franca e aberta à comunidade

As Pequenas Margaridas (Sedmikrásky)

Tchecoslováquia, 1966, 77min


Direção: Vera Chytilová

Roteiro: Chytilová, Ester Krumbachová, Pavel Jurácek

Elenco: Jitka Cerhová, Ivana Karbanová, Jirina Myskova

Sinopse: Duas jovens chamadas Marie decidem que, se o mundo está corrompido, elas também podem agir sem regras. Entre encontros com homens mais velhos, refeições extravagantes e brincadeiras cada vez mais destrutivas, as duas protagonizam uma sucessão de episódios que desafiam as convenções sociais e a própria lógica narrativa.

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segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Cine Especial: Próximo Cine Debate - 'Vidas Secas'

A linguagem cinematográfica e a literária são realidades distintas, e nem sempre o cruzamento entre ambas resulta em algo satisfatório aos nossos olhos. O cinema norte-americano, por exemplo, coleciona adaptações literárias que oscilam perigosamente entre a qualidade e a mediocridade — sendo um claro exemplo disso a dispensável adaptação de O "Código Da Vinci" (2006). Não é exatamente o que acontece em solo brasileiro, onde muitas vezes testemunhamos uma transição harmoniosa entre essas linguagens. Talvez quem melhor tenha se saído bem nessa empreitada tenha sido o cineasta Nelson Pereira dos Santos.

Ao lado de Glauber Rocha, o diretor é apontado como um dos fundadores do Cinema Novo, movimento cinematográfico que não apenas nos brindou com o viés mais autoral do cinema nacional, mas também expôs a verdadeira realidade de um país cujas mudanças pareciam emperradas. Nelson Pereira dos Santos demonstrava desde jovem uma predileção pela literatura, mesmo quando suas primeiras realizações, "Rio, 40 Graus" (1955) e "Rio, Zona Norte" (1957), nasceram de roteiros originais de sua autoria. No entanto, essa faceta literária ganhou contornos definitivos a partir de sua obra-prima, "Vidas Secas" (1963).

Baseado no clássico homônimo de Graciliano Ramos, o filme retrata uma família miserável que tenta escapar da seca no sertão nordestino. Fabiano (Átila Iório), Sinhá Vitória (Maria Ribeiro), os dois filhos e a cachorra Baleia vagam sem rumo e quase sem esperanças pelos confins do interior, sobrevivendo à força bruta da natureza e à crueldade dos homens.

Publicado originalmente entre 1937 e 1938, o romance de Graciliano sintetizava um Nordeste desassistido, castigado pela estiagem e abandonado pelo poder público. O que vigorava era o jugo de proprietários de terras e coronéis que mandavam e desmandavam em um cenário onde a única alternativa para os oprimidos era o trabalho braçal exaustivo ou a marcha por caminhos infindáveis em busca de subsistência. É nesse contexto inóspito que acompanhamos a família central da trama, que, em sua cruzada pelo deserto, encontra uma casa abandonada e o vislumbre frágil de um futuro melhor.

Nota-se a permanência da atmosfera literária no decorrer do filme, sobretudo em passagens em que os personagens articulam reflexões e frases que parecem transcender a miséria imediata de sua realidade, emprestando um olhar filosófico sobre um mundo que parece esquecido por Deus. Já nos minutos iniciais, por exemplo, Nelson Pereira dos Santos introduz uma trilha sonora marcada por um rangido metálico incômodo — o som da porteira —, preparando o espectador para a aspereza do que virá. Vemos, portanto, figuras humanas destituídas de quase tudo, onde a esperança permanece como o único refúgio perante aquele inferno na terra.

Átila Iório e Maria Ribeiro brilham intensamente ao dar vida ao casal central, transitando com precisão entre a falsa esperança e os dilemas cotidianos da sobrevivência. O Fabiano de Átila busca manter a dignidade e a firmeza pela família, mesmo cedendo à tentação dos jogos de azar, enquanto Maria constrói uma Sinhá Vitória de força inabalável diante da opressão. São atuações de um naturalismo impressionante, que nos dão a genuína impressão de não estarmos diante de atores, mas de pessoas reais corporificando aquele calvário.

As duas crianças, por sua vez, encarnam a inocência acuada por uma realidade hostil, buscando consolo nas raras brincadeiras ao lado da cachorra Baleia. Esta, aliás, assume uma presença magnética em cena: seu olhar atento e observador transmite uma consciência impressionante daquela tragédia social nos momentos em que contracena com os demais. Consequentemente, sua sequência final se torna não apenas dolorosamente chocante, mas a síntese definitiva do fim da inocência para aqueles meninos, forçados a amadurecer diante de um amedrontador desconhecido.

Embora tenha estréia comercial ampla em agosto de 1964, o filme foi exibido antecipadamente em São Paulo nas duas primeiras semanas de março do mesmo ano — justamente no período do golpe civil-militar que viria a estrangular os rumos do Cinema Novo. Exibido no Festival de Cannes, o longa foi laureado com o prêmio da OCIC e o prêmio dos cinemas de arte, alcançando sólida repercussão internacional. É célebre a anedota de que os realizadores fizeram questão de levar a cadela que interpretou Baleia à França, sabendo que o público europeu certamente questionaria se o animal havia sido ou não abatido de verdade em cena.

Aclamada unanimemente pela crítica desde o lançamento, a obra foi alçada ao patamar de patrimônio cinematográfico. Em novembro de 2015, figurou na 3ª posição da lista dos 100 Melhores Filmes Brasileiros de Todos os Tempos, organizada pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), posição reiterada na atualização da mesma lista em maio de 2026.

Revisto hoje, percebe-se o quanto o Nordeste evoluiu em termos de políticas culturais, emprego e infraestrutura ao longo das décadas. Contudo, a seca persiste, assim como a fratura social e a desigualdade de classes, alimentadas por aqueles que insistem em fazer valer a lei do mais forte em detrimento dos vulneráveis. É por essa razão incômoda que a obra-prima de Nelson Pereira dos Santos permanece tão atual: porque o deserto escaldante, em múltiplos sentidos, infelizmente ainda não terminou para muitas famílias.

"Vidas Secas" permanece como um dos pilares sagrados do Cinema Novo, um dos maiores filmes brasileiros de todos os tempos e o testemunho definitivo de como transpor a literatura para a tela grande com genialidade e vigor inabaláveis.

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Cine Dica: Próximo Cineclube Torres - "Nosso Segredo"

 No feriado de dia 2 de novembro, segunda às 20h, vai ter sessão normal no Cineclube Torres, com exibição especial do filme "Nosso Segredo" de Grace Passô.

O filme, ganhador do Festival de Gramado deste ano, vai inaugurar o ciclo Novembro Negro, e oferecer, exatamente no dia de finados, uma visão peculiar sobre o luto. "Nosso Segredo" é mais que um filme, é uma experiência audiovisual que desperta no espectador emoções e reflexões profundas sobre a morte. É a história de uma família negra que tenta reconstruir sua rotina após uma perda recente. Enquanto cada um foge do luto e o silêncio se instala na casa, o filho caçula, Tutu, guarda um segredo misterioso e inquietante.

Carregado de simbologias e de mistério, o filme foi o grande vencedor do 54º Festival de Cinema de Gramado em agosto, onde conquistou os Kikitos de Melhor Longa-Metragem Brasileiro, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte. A sessão conta com a parceria especial com a Vitrine Filmes e a Sessão Vitrine Petrobrás e ocorre na Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, com entrada franca até lotação do espaço. A sessão integra o projeto do Cineclube Torres denominado "Torres na Rede Cultural", uma realização pela PNAB do ministério da cultura do governo federal através do sistema Procultura da Secretaria da Cultura do Governo do Rio Grande do Sul.

O Cineclube Torres é um espaço democrático que se fundamenta no respeito e valorização dos direitos humanos, em atividade desde agosto 2011 e constituída como associação sem fins lucrativos; Ponto de Cultura certificado pela Lei Cultura Viva federal e estadual; Ponto de Memória pelo IBRAM; Biblioteca Comunitária no Mapa da Cultura, Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística certificada pelo Ministério do Turismo (Cadastur); Selo Destaque no Turismo da Georrota Cânions do Sul.

Serviço:

O que: Exibição do filme "Nosso Segredo" (2026) de Grace Passô (Brasil) 

Onde: Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, junto à escola Up Idiomas, Rua Cincinato Borges 420, Torres 

Quando: Segunda 2/11, às 20h

Ingressos: Entrada Franca, até lotação do local (aprox. 22 pessoas).

Cineclube Torres

Associação sem fins lucrativos

Ponto de Cultura – Lei Federal e Estadual Cultura Viva

Ponto de Memória – Instituto Brasileiro de Museus

Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística - Cadastur


CNPJ 15.324.175/0001-21

Registro ANCINE n. 33764

Produtor Cultural Estadual n. 4917

Cine Dica: Mostra celebra a multiplicidade do cinema negro na Sala Redenção

Entre os dias 3 e 17 de novembro, em alusão ao Dia Nacional da Consciência Negra, a Sala Redenção apresenta a mostra gratuita “A harmonia cósmica do sim”, que celebra a potência estética, crítica e política do cinema negro. O nome resgata a formulação de Frantz Fanon, um dos mais importantes nomes do pós-colonialismo, de que o ser humano é, fundamentalmente, “um sim vibrando com as harmonias cósmicas”.

Um dos destaques da mostra é a homenagem à cineasta e roteirista Sara Gómez, que, por meio de seu “cine imperfecto”, representou a comunidade afro-cubana e feminista e retratou as marcas do colonialismo em seu território. Da cineasta, são exibidos “De certa maneira” (1977), primeiro longa-metragem de ficção dirigido por uma mulher cubana; e o documentário “Uma ilha para Miguel” (1968), sobre o período posterior à revolução que derrubou a ditadura de Fulgêncio Batista.

A programação ainda contempla, entre outros títulos, os longas-metragens “Ventos de agosto” (2014), de Gabriel Mascaro, que acompanha as mudanças no cotidiano de uma vila costeira a partir da chegada de um pesquisador; e “Kasa Branca” (2024), de Luciano Vidigal, em que um grupo de amigos responde ao avanço do Alzheimer em uma matriarca com um pacto de afeto e celebração pelos dias que lhe restam.

A Sala Redenção está localizada no Campus Centro da UFRGS, com acesso mais próximo pela Eng. Luiz Englert, 333. A mostra “A harmonia cósmica do sim” tem apoio de Vitrine Filmes, Sesc e Filmes de Plástico.

Confira a programação completa no site oficial da sala clicando aqui.