Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte.
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“Pantufa e cobertor” é a nova mostra da Sala Redenção, o cinema da UFRGS. A programação reúne filmes de diversas décadas e gêneros cinematográficos que, em comum, evocam conforto e aconchego a quem assiste. As exibições acontecem entre os dias 13 e 24 de julho, com entrada franca e aberta à comunidade em geral. Durante este período, a Sala Redenção recebe doações de agasalhos para posterior distribuição a entidades assistenciais.
A mostra estreia no dia 13, às 16h, com uma sessão especial em celebração ao Dia do Rock. Em seguida, às 19h, é exibido “Charada” (1963) de Stanley Donen, longa-metragem estrelado por Audrey Hepburn e Cary Grant. O filme, vencedor do BAFTA Film Awards e indicado ao Oscar e ao Globo de Ouro, acompanha Regina, uma viúva perseguida por criminosos que querem roubar a fortuna de seu falecido marido.
Outros destaques da programação são “Homem do futuro” (2011), de Cláudio Torres, comédia de estética hollywoodiana estrelada por Wagner Moura; “Playlist” (2021), de Nine Antico, homenagem à Nouvelle Vague Francesa; e “Meu bolo favorito” (2024), do casal iraniano Maryam Moqadam e Behtash Sanaeeha, premiado no Festival Internacional de Cinema de Berlim, em 2024.
A mostra também conta com uma sessão-surpresa em homenagem a Yasujirô Ozu, no dia 17 de julho, às 19h. A obra do diretor e roteirista japonês retrata temas como casamento, relações familiares e transformações da sociedade japonesa. O uso da câmera próxima ao chão, na altura do olhar de alguém sentado em um tatame, marcou o estilo do cineasta, ganhando o nome de “tatami shot”.
A Sala Redenção está localizada no Campus Centro da UFRGS, com acesso mais próximo pela Rua Eng. Luiz Englert, 333. A mostra “Pantufa e cobertor” tem apoio de À La Carte, Agência Nacional do Cinema (Ancine), Instituto Cervantes, Aliança Francesa Porto Alegre, IFCinéma, Sesc e Vitrine Filmes.
Confira a programação completa no site oficial da sala clicandoaqui.
Nos primórdios de sua carreira, Pedro Almodóvar talvez tivesse o desejo de extravasar, através de sua arte, algo que não podia ser colocado em prática nos tempos do Franquismo (1939 - 1975). Se isso já era notado em "Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão"(1980), logo foi escancarado em "Maus Hábitos" (1983), obra que fez vários setores ainda defensores dos tempos ditatoriais irem à loucura. "Que Fiz Eu Para Merecer Isto?"(1984) é a desconstrução da família politicamente correta — aquela que sempre esteve lá, porém de forma censurada.
Na trama, Gloria (Carmen Maura) é uma dona de casa infeliz, casada com Antônio (Ángel de Andrés López), um motorista de táxi grosseiro e infiel. Gloria é obrigada a trabalhar incessantemente para sustentar a família, que ainda é composta por um filho traficante, uma sogra excêntrica e outro adolescente, que ela decide "vender" ao seu dentista. Para completar, Gloria, viciada em anfetaminas e remédios, entra em uma fase de abstinência e passa a perder o controle.
Embora a produção tenha sido feita após a extinção da ditadura franquista, no meu entendimento, o filme pode ser interpretado como um simbolismo ou uma representação dos primeiros anos da vida do cineasta como um todo. Os dois irmãos vistos na tela, por exemplo, parecem alter egos de sua pessoa quando jovem — muito embora essa talvez não tenha sido a intenção consciente do realizador, permitindo que o espectador tire suas próprias conclusões. Em contrapartida, as mulheres da história funcionam como a manifestação dos diversos tipos de personalidades femininas que rodeavam o diretor em tempos hoje longínquos.
Se levarmos em conta essa representação de sua juventude, a ideia se solidifica ao notarmos que a fotografia do lado de fora daqueles apartamentos é um tanto acinzentada, como se não houvesse muita expectativa positiva. Em contraposição, o apartamento, mesmo sendo um cenário minúsculo, é repleto de cores quentes e fotografias de artistas, escondendo alguns prazeres que aquela família oculta dos olhares externos. Se em "Maus Hábitos" as personagens buscavam refúgio no convento para suprir suas necessidades, aqui a família tradicional não esconde, do lado de dentro do lar, que está mais fragmentada do que nunca.
Carmen Maura brilha ao interpretar uma mulher à beira de um ataque de nervos, que busca satisfação fora do casamento, mas não tem essa necessidade correspondida. Além disso, seu lado frio se torna tão acentuado que ela não hesita em entregar um dos filhos a um dentista possivelmente pedófilo, culminando em momentos desconcertantes, para dizer o mínimo. Porém, tudo é tratado com a maior naturalidade, pois os absurdos cotidianos daquela família fazem com que essa situação se torne um mero detalhe.
O filme aborda a questão da impotência, porém não somente a sexual, mas também a incapacidade daquelas pessoas em contornar os problemas que surgem. Dessa impotência nasce a frieza, fazendo com que alguns personagens tratem de certos assuntos com total banalidade, sem se importar com as consequências. Porém, uma vez que o inevitável acontece, os personagens que surgem na tela — dentro ou fora do apartamento — já estão completamente sugados por seus próprios devaneios.
Ao final, o filme nos revela o destino daquela família: cada um segue o seu devido caminho, enquanto a mãe se vê sozinha, da maneira que finalmente queria. Porém, quando um dos filhos retorna para casa, revela-se um elemento simbólico: se anteriormente todos queriam se livrar uns dos outros naquele cenário, no fim, viram-se impotentes perante a solidão. No meu entendimento, Almodóvar nos diz que se tornou o que é hoje graças ao papel primordial das mulheres em sua realidade, quase nunca se sentindo impotente perante tempos em que ainda não se tinha uma noção clara sobre o próprio futuro.
"Que Fiz Eu Para Merecer Isto?" é uma das obras fundamentais do início da carreira de Pedro Almodóvar e revela as raízes primordiais que moldaram a sua identidade artística.
"O que fiz para merecer isto?", clássico de Pedro Almodóvar, na sessão de segunda-feira dia 13, às 20h, no Cineclube Torres.
No sábado, dia 11, o Cineclube Torres estará também presente na III Mostra de Artes na Galeria Ten Caten, com uma seleção de cartazes desenhados pelo Tommaso Mottironi. Na próxima segunda, no âmbito do ciclo de filmes de julho, com protagonistas femininas ligadas a trabalhos domésticos, tem a oportunidade de (re)ver uma comédia dramatica do renomado Pedro Almodóvar. Em "O que fiz para merecer isto?" Gloria (Carmen Maura) trabalha dobrado para sustentar o marido infiel e uma sogra exploradora. Mas a dupla jornada, o vício em remédios controlados e o bairro problemático levam a uma espiral de acidentes e confusões.
'"Que Fiz Eu Para Merecer Isto? se destaca entre os filmes menos estilizados de Almodóvar, mas talvez seja um dos mais importantes no retrato e problematização dos dilemas urbanos e domésticos da classe trabalhadora de Madri (e de grande parte do mundo ocidental). Densa população, moradias quase inabitáveis, analfabetismo, delinquência juvenil, abuso de drogas e desemprego em índices altíssimos – ainda maiores para as mulheres. Tudo devidamente retratado e criticado, ainda que com gargalhadas garantidas e a assinatura singular de Pedro Almodóvar.' (Conrado Heoli)
As sessões serão realizadas às segundas-feiras às 20h na Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, na rua Pedro Cincinato Borges 420, em parceria com a Up Idiomas Torres e com entrada franca até a lotação do espaço.No sábado, às 16 na Galeria Ten Caren (R. Júlio de Castilhos, 477) o vernissage da III Mostra de Artes, com 6 artistas convidados, incluindo o designer dos mais de 100 cartazes do Cineclube Torres. (Ver matéria anexa)
O Cineclube Torres é uma associação sem fins lucrativos, em atividade desde 2011; Ponto de Cultura certificado pela Lei Cultura Viva federal e estadual; Ponto de Memória pelo IBRAM; Biblioteca Comunitária no Mapa da Cultura, Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística certificada pelo Ministério do Turismo (Cadastur); Selo Destaque no Turismo da Georrota Cânions do Sul.
Serviço:
O que: Exibição do filme "O que fiz para merecer isto?" (1984) de Pedro Almodóvar
Onde: Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, junto à escola Up Idiomas, Rua Cincinato Borges 420, Torres
Quando: Segunda-feira, 13/7, às 20h
Ingressos: Entrada Franca, até lotação do local (aprox. 22 pessoas).
Cineclube Torres
Associação sem fins lucrativos
Ponto de Cultura – Lei Federal e Estadual Cultura Viva
Ponto de Memória – Instituto Brasileiro de Museus
Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística - Cadastur
Nota: Filme Exibido para os associados no dia 02/07/26.
Sinopse: Depois de 12 anos, François (Jean-Claude Brialy) retorna à sua vila, na França, onde passou toda a infância. Ele percebe que a localidade não sofreu grandes mudanças, ao contrário das pessoas, que nem mais reconhece. François dedica especial atenção ao seu problemático amigo Serge (Gérard Blain), que passa o dia inteiro às voltas com a bebida, sem dar qualquer atenção à esposa grávida.
A partir de meados da década de 1950, Chabrol e os seus colegas críticos - Eric Rohmer, François Truffaut, Jean-Luc Godard e Jacques Rivette - foram veementes na condenação do cinema francês contemporâneo, expressando a insatisfação com a tradição, enquanto que foram simultaneamente chamados para uma revisão radical da forma em que os filmes eram feitos e o que seria mais relevantes para um público moderno. Na década que se seguiu, todos estes cinco cinéfilos tiveram a sua oportunidade de pegar numa câmera e mostrar a sua própria visão do cinema. Claude Chabrol foi o primeiro a fazê-lo, mas, ironicamente, seria o último a encontrar o sucesso neste novo trabalho.
Os primeiros filmes de Chabrol são muito diferentes dos filmes com os quais ele é mais conhecido hoje, dramas psicológicos com um toque hitchcockiano, sombrios e um pouco bem-humorados. Estes filmes parecem ser obra de um realizador completamente diferente - mais experimental, mais ousado, mais disposto a chocar o público. "Nas Garras do Vício" (1958) não é o mais ilustre dos trabalhos iniciais de Chabrol, mas é um dos seus filmes mais interessantes, em que já podemos ver os temas que predominam nos últimos anos, nomeadamente um desgosto para a moralidade burguesa falhada. Estilisticamente, o filme parece ter sido influenciado por obras italianas neo-realistas da década anterior. Chabrol rodou o filme inteiro em exteriores, empregando atores não profissionais para todos os papéis secundários e autores bastante inexperientes para os papéis principais. O local é sombrio, fotografia de baixo contraste a preto e branco com ausência de iluminação artificial dão ao filme um sentido austero da realidade que não poderia ser mais diferente da elegância polida de filmes posteriores de Chabrol.
"Nas Garras do Vício"reúne três dos atores que viriam a ser estreitamente associados à Nouvelle Vague francesa: Jean-Claude Brialy, Gérard Blain e Bernadette Lafont. Muitos especialistas consideram este, verdadeiramente, o primeiro filme da Nouvelle Vague.
No sábado (11/07), nos reunimos no Instituto Goethe às 10h15 da manhã para assistir Os Peixes Dourados, de Alireza Golafshan. Partindo de uma premissa inusitada, a comédia utiliza elementos do gênero road movie para desmontar estereótipos sobre deficiência e expor, com ironia, os preconceitos e constrangimentos presentes nas relações cotidianas.
Já no domingo (12/07), às 10h da manhã, exibiremos o clássico Uma Mulher Sob Influência, de John Cassavetes, na Sala Eduardo Hirtz da Cinemateca Paulo Amorim. Um dos grandes marcos do cinema independente norte-americano, o filme acompanha a crise de uma família para investigar os limites entre afeto, sofrimento psíquico e as pressões sociais que moldam as relações humanas, sustentado pelas interpretações memoráveis de Gena Rowlands e Peter Falk.
Confira os detalhes da programação:
SÁBADO (11/07, 10h15)
Os Peixes Dourados (Goldfische)
Alemanha, 2019, 112min
Direção e roteiro: Alireza Golafshan
Elenco: Tom Schilling, Jella Haase, Birgit Minichmayr, Axel Stein, Luisa Wöllisch
Sinopse: Após ficar paraplégico em um acidente, um ambicioso gestor financeiro organiza uma viagem à Suíça ao lado dos moradores de uma residência para pessoas com deficiência, usando a excursão como pretexto para recuperar dinheiro escondido. A inesperada convivência transforma a jornada em uma divertida aventura que confronta preconceitos e redefine o significado de normalidade.
📍 Local: Instituto Goethe Rua – 24 de Outubro, 112 – Moinhos de Vento, Porto Alegre
🎟️ Entrada franca e aberta à comunidade
DOMINGO (12/07, 10h)
Uma Mulher Sob Influência (A Woman Under the Influence)
Estados Unidos, 1974, 146min
Direção e roteiro: John Cassavetes
Elenco: Peter Falk, Gena Rowlands, Fred Draper, Lady Rowlands
Sinopse: Mabel e Nick tentam preservar o equilíbrio de sua vida familiar enquanto enfrentam o desgaste da rotina, dificuldades de comunicação e o crescente sofrimento emocional da protagonista, retratando a fragilidade dos vínculos afetivos e as pressões exercidas pelas expectativas sociais sobre a vida doméstica.
📍 Local: Sala Eduardo Hirtz da Cinemateca Paulo Amorim – Casa de Cultura Mário Quintana – Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico, Porto Alegre
Sinopse: Após a perda do marido, uma mulher enlutada busca consolo com seus sogros na isolada casa de campo da família. No entanto, o reencontro logo se transforma em um inferno na Terra quando o Livro dos Mortos liberta forças demoníacas que os transformam em Deadites um por um.
Moana
Sinopse: Moana acompanha Moana Waialiki, uma jovem corajosa que vive em uma ilha e sonha em explorar o oceano além das margens que cercam seu lar.
Primavera
Sinopse: Cecilia, uma violinista talentosa confinada em um orfanato, conhece Vivaldi, que se torna seu professor. Sob a mentoria dele e por meio de sua música, ela ganha coragem para se libertar do destino que lhe foi imposto e seguir sua verdadeira paixão.
Últimos dias da mostra itinerante da Cinemateca Brasileira e retrospectiva de indicados ao Prêmio Grande Otelo em cartaz na Cinemateca Capitólio
A Cinemateca Capitólio segue com uma programação que coloca em destaque o cinema brasileiro. Entre os dias 9 e 12 de julho acontecem as últimas exibições da mostra A Cinemateca é Brasileira – Da Comédia ao Drama, em cartaz desde 16 de junho. Nestes últimos dias, serão exibidos os longas Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, de Roberto Farias, Los Silencios, de Beatriz Seigner, Últimas Conversas, de Eduardo Coutinho, Morto não Fala, de Dennison Ramalho, Abrigo Nuclear, de Roberto Pires, A Hora e Vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos, Candinho, de Abílio Pereira de Almeida, O Homem do Pau-Brasil, de Joaquim Pedro de Andrade, São Bernardo, de Leon Hirszman, O Menino e o Mundo, de Alê Abreu, Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós, e O Estranho Mundo de Zé do Caixão, de José Mojica Marins, e os curtas Escasso, de Clara Anastácia e Gabriela Gaia Meirelles, A Entrevista, de Helena Solberg, O Pedestre, de Otoniel Santos Pereira, A Velha a Fiar, de Humberto Mauro, Lé com Cré, de Cassandra Reis, e O Duplo, de Juliana Rojas. Todas as sessões da mostra têm entrada franca.
A partir de terça-feira, dia 14 de julho, a Cinemateca Capitólio dá início à programação dedicada ao Prêmio Grande Otelo 2026, que este ano exibirá os 16 filmes indicados às categorias de melhor documentário, melhor drama e melhor comédia, nesta que é a mais importante premiação do cinema brasileiro. Nos dias 14 e 5 de julho, serão exibidos Velhos Bandidos, Sonhar com Leões, Ritas, Mambembe, Apocalipse nos Trópicos e Hora do Recreio (aguarde divulgação específica). Todas as exibições também terão entrada franca.
Confira a programação completa no site oficial da cinemateca clicando aqui.
Sinopse: Nanning é um menino de 12 anos que vive na remota ilha de Amrum durante os últimos dias da Segunda Guerra Mundial.
Fatih Akın é um realizador autoral, mesmo ao conduzir obras que aparentam ser muito distintas entre si. Se por um lado ele explora a degradação do ser humano em "O Bar Luva Dourada" (2019), por outro, investiga um país ainda assombrado pelo fascismo em "Em Pedaços" (2017). "Em Uma Infância Alemã" (2025), o diretor descortina os impactos da guerra pela perspectiva de uma criança e mostra como ela precisa aprender a lidar com os ventos da mudança.
A trama se passa nas semanas finais da Segunda Guerra Mundial e acompanha, na reclusa ilha de Amrum, a vida do jovem Nanning. Os dias do menino se resumem a caçar focas no mar traiçoeiro da região, pescar à noite e ajudar a mãe a alimentar a família, trabalhando em uma fazenda perto de casa. Apesar das dificuldades e da rotina exaustiva, a vida de Nanning se torna uma jornada de constante aprendizado sobre como encarar as adversidades trazidas pela queda iminente de seu próprio país.
Não é de hoje que o cinema retrata a Segunda Guerra através do olhar infantil. Basta lembrarmos de bons exemplos como o premiado "jojo Rabbit" (2019), de Taika Waititi, para termos uma síntese de como a ingenuidade pode ser desconstruída pela realidade nua e crua. Porém, se naquele longa havia toques de fantasia e humor satírico, aqui o lado cru e realista rodeia o jovem protagonista do começo ao fim, obrigando-o a amadurecer precocemente diante dos percalços cotidianos.
O filme não se limita aos acontecimentos do fim da guerra; ele também explora com propriedade o papel da família perante o conflito — dividida entre aqueles que escolhem lutar pela pátria e os que decidem recomeçar do zero em outro país. Isso acaba por revelar outra faceta do ser humano em tempos de hitlerismo. A mãe do protagonista, por exemplo, tem interesse em denunciar traidores da causa e tampouco se imagina vivendo em uma nação derrotada. Essa atmosfera gera um conflito interno no jovem, que passa a acreditar piamente que, se conseguir um pão branco para a mãe, conseguirá reanimar suas forças.
Por conta disso, o jovem adentra uma verdadeira encruzilhada em busca dos ingredientes para o alimento. Nessa jornada, ele não apenas se depara com o estado de espírito do povo alemão naquele momento histórico, mas também descobre camadas ocultas do passado de sua própria família. Curiosamente, essa busca obstinada por ingredientes remete ao recente "O Bolo do Presidente" (2024), uma vez que ambos os longas exploram os reflexos do autoritarismo na vida comum, mesmo em épocas e países distintos.
Jasper Billerbeck entrega uma excelente atuação como o pequeno protagonista. Seu personagem muda gradativamente para melhor, demonstrando um altruísmo tocante até mesmo com aqueles que o perseguem no decorrer da história. Além disso, o longa discute a busca por um papel social diante de um mundo em profunda transformação, onde os indivíduos já não sabem ao certo onde se encaixar. Se por um lado a grande guerra finalmente caminha para o fim, por outro, há o desafio de se redescobrir perante a nova realidade que surge.
Fatih Akın ainda presta uma bela homenagem a um clássico literário de Herman Melville (Moby Dick), inserindo o livro na trama como uma pequena peça narrativa, mas que ganha um significado grandioso no desfecho. No fim das contas, o filme nos ensina que, mesmo nos tempos mais sombrios, a prática do bem é essencial para nos mantermos humanos e vivos, ainda que para isso seja necessário atravessar verdadeiros obstáculos. Vale salientar que a obra é baseada nas memórias de infância do renomado roteirista Hark Bohm, que de fato cresceu na ilha germânica de Amrum.
"Uma Infância Alemã" é, fundamentalmente, sobre o fim precoce da inocência em tempos de guerra e intolerância.