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Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já 98 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento e Cinesofia. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Cine Especial: 'THE MANDALORIAN' - Faroeste Espacial

Sinopse: Após a história de Jango e Boba Fett, outro guerreiro surge no universo de Star Wars. O Mandaloriano é ambientado após a queda do império e antes do surgimento da Primeira Ordem. A trama acompanhará as histórias de um atirador nos confins da galáxia longe da autoridade da Nova República. 

George Lucas sempre disse que quando criou "Star Wars" ele buscou inspiração nos filmes de aventura, faroeste e aventuras literárias como o "Senhor dos Anéis". Assistir hoje ao clássico "Star Wars - Uma Nova Esperança" (1977) é encontrar ali algumas fórmulas de sucessos do passado, como no caso, por exemplo, dos filmes de faroeste de John Ford ou de Sergio Leone. Eis que então, vindo do universo expandido de "Star Wars", testemunhamos a série de oito capítulos "The Mandalorian", que não só nos brinda com uma trama independente dos filmes do cinema, como também é uma bela homenagem aos clássicos filmes de faroeste e de boa aventura.
A saga conta a história de um guerreiro solitário de um grupo chamado Mandaloriano, que também vive como um mercenário e caçador de recompensas, viajando pelos territórios esquecidos e marginais do espaço. Em uma missão, ele tem como objetivo raptar um misterioso bebê alienígena para ser usado uma experiência misteriosa. Porém, O caçador decide tomar um novo rumo nesta missão e que irá leva-lo a uma saga de proporções.
Em certa ocasião George Lucas disse que se arrependeu da forma que criou o final para o caçador de recompensas Boba Fett no filme "Star Wars - O Retorno de Jedi". Segundo ele, jamais imaginou que aquele visual e o lado misterioso do personagem acabaria ganhando tantos fãs no decorrer do tempo. Justiça seja feita, pois embora tenham criado um personagem novo, "The Mandalorian" vem para corrigir esse grande erro.
Boba Fett foi um personagem criado através da imagem do cavaleiro solitário, do caçador de recompensas dos filmes de faroestes de antigamente e principalmente daqueles estrelados por Clint Eastwood na “trilogia dos dólares” orquestrada por Sergio Leone. Na série, vemos essa ideia sendo expandida, ao vermos mais desses caçadores de recompensas que vivem em missões clandestinas em capturar vivo ou morto determinado bandido e para assim obter algum lucro. Um cenário extremamente familiar para os amantes do gênero bang bang mas tudo se passando em algum planeta do espaço de uma galáxia muito distante.
O protagonista Mando pode até não ser o Boba Fett, mas carrega com honras o sucesso que o personagem havia obtido e se tornando a alma da série como um todo. Pedro Pascal, conhecido pela série “Narcos”, surpreende em uma atuação contida, porém, certeira ao transmitir uma pessoa com um passado nebuloso, mas que aos poucos é desvendado ao longo do tempo. Além disso, a série explora muito bem a mitologia dos mandalorianos, sem muita complexidade e tão pouco tendo o dever de se conectar por demais com o universo idealizado por George Lucas.
Embora faça parte do universo expandido de "Star Wars", a série pode ser muito bem vista pelos marinheiros de primeira viagem que nunca sequer viram um capítulo da franquia no cinema, pois a intenção principal aqui não é essa. Esse universo criado por George Lucas é tão rico de personagens, seres e lugares que não é preciso exatamente liga-lo sempre a imagem do guerreiro Jedi, pois se há um universo tão vasto de possibilidades nunca é demais ao criar uma trama fresca e que caminhe com as suas próprias pernas.
Para isso, a Disney contratou gente de peso para o trabalho.  Jon Favreau, responsável pela trilogia do "Homem de Ferro", encabeçou a tarefa como diretor de alguns episódios, como produtor e roteirista da produção, Porém, Taika Waititi, diretor de "Thor: Ragnarok" (2017) surpreende em um episódio que não deve nada para uma produção cinematográfica, além de dar voz ao personagem IG-11 que rouba a cena.
Além disso, a série é cheia de personagens cativantes um melhor do que o outro. Se o diretor e ator Werner Herzog, realizador de clássicos como "Nosferatu" (1979), nos chama atenção pelo seu vilão com intenções misteriosas, por outro lado, Nick Noute surpreende como Kuiil, um alienígena sábio e que nos conquista facilmente todas vezes que ele surge em cena. Mas é na figura do bebê Yoda que nos conquista pela sua fofura e nem é preciso dizer que nesta altura do campeonato já tem até mesmo bonequinhos de todas as formas nas lojas especializadas sobre a franquia.
Com um começo, meio e fim bem amarrados, mas deixando uma ponta solta para eventual nova temporada, "The Mandalorian" é uma prova que o universo "Star Wars" não vive somente da imagem do cavaleiro Jedi e que sim pode nos brindar com boas histórias e uma aventura muito bem desenvolvida.  


Onde Assistir: Em breve no Brasil pelo Disney+   

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Cine Dica: Durante a Quarentena Assista: 'A Despedida'

Sinopse: A família de uma senhora descobre que ela possui apenas mais algumas semanas de vida e decide não a informar a respeito do diagnóstico. Em vez disso, seus filhos e netos tentam arranjar um casamento surpresa para unir a todos. 

Diz o ditado que a mentira tem perna curta e cabe dizermos sempre a verdade haja o que houver. Porém, a mentira também serve para afastar a dor, pois a verdade pode ser muito dolorosa em determinada situação, mas cabe a pessoa refletir até onde quer chegar para ocultar essa real situação. "A Despedida" mostra uma situação incomum, porém, humana e do qual muitos irão se identificar com ela.
Dirigido por Lulu Wang, conhecida mais pelo seu trabalho no filme "Póstumo" (2014), o filme se concentra quando uma família de uma doce senhora descobre que ela possui apenas mais algumas semanas de vida. Eles decidem não revelar a respeito do diagnóstico. Em vez disso, seus filhos e netos tentam arranjar um casamento de última hora para que todos os parentes mais distantes possam vê-la por uma última vez sem que ninguém saiba o que está acontecendo de verdade.
Embora seja moldado com um assunto muito delicado, Lulu Wang surpreende ao alinhar momentos dramáticos com um humor refinado e fazendo do filme uma genuína comédia dramática que nos faz rir e se emocionar a cada instante da projeção. Ao mesmo tempo, em termos visuais, o filme é gostoso de ser assistido, cuja a fotografia iluminada possui cores cheias de vida e reconfortantes para a realidade daquela família que se encontra em uma difícil tarefa. Vale ressaltar a edição, em que alguns momentos ela se torna dinâmica e que dá um bom ritmo para a trama.
Em termos de história, ela pode ser interpretada sobre o real quadro de uma família tradicionalista, não somente chinesa, como também de diversos povos dessa terra. Em tempos de correria em que somos presos ao relógio, vemos alguns familiares ali presos a questão econômica, sobre qual países, seja China ou EUA, que dá mais recursos para a pessoa, mas fazendo com que a própria se esqueça do que é mais precioso para a vida dela. Curiosamente, é um assunto que rende alguns momentos de humor ácido e a cena em que a família discute sobre esse assunto durante o jantar é disparado um dos melhores momentos da trama como um todo.
Curiosamente, é um filme que trata sobre os valores familiares, mas que são, por vezes, esquecidos devido ao dia a dia em que as pessoas sempre se encontram em constante movimento. Por conta disso, fala sobre como as pessoas de hoje cada vez mais optam em serem frias, ao não querer se expressar com relação aos seus reais sentimentos, quando na realidade se esquecem de revelar para si a sua real pessoa como um todo. Dito isso, é preciso ressaltar como os realizadores foram engenhosos em falar até mesmo sobre os lares de um passado distante, em que hoje se encontram extintos, mas que relembrados se encontram cada vez mais dourados.
Delicado, porém, gostoso de ser assistido, "A Despedida" transita entre humor e a emoção ao valorizar as raízes da família e sobre o que nos faz realmente humanos no dia a dia. 

Onde Assistir: Exibido gratuitamente do dia 04 a 09 de Agosto Cine Farol Santander Online. Mais informações cliquem aqui.  


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quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Cine especial: “Boca a Boca”


Para poder ficar curioso e sem conter Spoiler, deixo aqui, uma pequena contribuição sobre o seriado “Boca a Boca” lançado pela Netflix em 2020. Basicamente este texto poderia ser iniciado com o resumo simplificado do seriado: “Em uma cidade do interior do Brasil, o pânico se espalha quando uma doença misteriosa transmitida pelo beijo contamina os adolescentes” (Fonte: https://www.netflix.com/br/title/80994298 Visualizado em 28/07/2020).
Entretanto, prefiro começar com uma visão mais ampla do que foi observado. De acordo com Esmir Filho o diretor do seriado, ele apresenta o vírus do conservadorismo”. Não somente o vírus do conservadorismo mas de diversas diferenças sociais expostos diariamente, nos noticiários. O tempo, a trama, o visual e a ideia do seriado inevitavelmente, nos apresenta a situação vivenciada por nós, atualmente, o Covid -19.
Boca a Boca conta a história de uma cidade fictícia chamada Progresso e esta cidade cinematográfica, fica localizada em Goiás Velho, perto de Brasília. A comunidade começa a ser acometida com um vírus que infecta os jovens pelo beijo e esta relação de vírus, espera pela cura, divisões sociais e a ganância dos que são mais abastados é bem comparada a nossa situação atual. Os elementos de brasilidade são o ponto forte desta série. A trilha sonora é sensacional e cabe um destaque do hit em versão rave da música “boi da cara preta” que ao longo do seriado, vai nos dizer muito sobre o verdadeiro problema da cidade.

O típico tratamento do passado colonial
Temos uma reflexão garantida do processo de colonização realizado no Brasil, com a fazenda que observamos no seriado chamada Colônia. O Brasil passa aqui de uma forma muito natural e as relações de emprego são diferenciadas pelo seu status. O outro aqui, é um ser passivo e que percebe o seu não pertencimento ao mundo da Colônia. A relação de trabalho é dando moradia, alimentação e um salário mínimo de trabalho porém, quando não se está mais apto a realização do trabalho na Colônia, o dono te dispensa, não se importando com suas condições de saúde pois, “as regras são claras e expostos a estes empregados desde o início”.
Além disso vale fazer um destaque na menina negra do seriado. Esta, nos apresenta as suas dificuldades e barreiras para estar inserida em determinados meios sociais, porém, ela possui uma diferença dos demais, elas se impõe e nos apresenta seu local de fala.

As inspirações do diretor
O diretor apresenta em sua inspiração o quadrinho Black Hole e o filme chamado “Os Famosos e os Duendes da Morte” (2010).

As duas inspirações tratam de assuntos parecidos com o que está sendo abordado no seriado e, de como isso se reflete nos dias atuais. A ideia do diretor era falar sobre assuntos como a chegada do HIV, que dividiu demais as relações sociais quando descoberto e assuntos que possuem um quadro social de preconceito contra algumas raças, classes sociais e corpos. Segundo o diretor a ideia era partir para um quadro deste tipo, porém, o lançamento coincidiu com o momento pandêmico que nos encontramos e o jogo por assim dizer, virou.
Um dos fatores relevantes do seriado é a questão de termos necessidades que se aplicam como urgentes e a tolerância que nos parece ser fácil, porém, isso eu deixo como um ponto de vista a ser pensado.

Conclusão
Ainda não temos retorno do diretor sobre uma continuação do seriado, devido ao momento pandêmico que estamos sofrendo. Tomei cuidado com a escrita e evitando contar os segredos de Boca a Boca, pelo fato, do seriado possuir apenas 6 episódios, isso estragaria a curiosidade dos leitores em ao menos dar uma olhada e conhecer os fascinantes protagonistas deste seriado. Seria de muito agrado poder saber como as coisas se desenrolaram na cidade de Progresso, depois dos acontecimentos que foram observados. A indicação que fica é a de ver o seriado com os olhos bem abertos e com a mente no modo aceite o inesperado.

Referências:
Página oficial da Netflix. Disponível em: https://www.netflix.com/br/title/80994298 Visualizado em 28/07/2020.
PRISCO, L. “Boca a boca é sobre o vírus do conservadorismo”, diz diretor Esmir Filho. Disponível em: https://www.metropoles.com/entretenimento/televisao/boca-a-boca-e-sobre-o-virus-do-conservadorismo-diz-diretor-esmir-filho. Visualizado em 28/07/202.

Postado por: Ana Lúcia Schmidt Castelo
Centro/RJ, Brasil.
Mestranda em Administração, graduada em Pedagogia, Arquivologia e concluindo a graduação em Letras. Apaixonada por cinema com preferência por filmes de terror e colaboradora do Blog: “Cinema cem anos de luz, Arte e reflexão” do amigo Marcelo Castro Moraes.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Cine Dica: Durante a Quarentena Assista: ‘AMOR SANGUE DOR’

Sinopse: Uma misteriosa fotógrafa caminha pela noite paulistana à procura de mais uma vítima para seus clicks. Sensações e sentimentos se fundem em um encontro inusitado.

Dirigido por Magnum Borini e tendo o seu primeiro corte exibido agora pelo Youtube, "Amor Sangue Dor" é um filme experimental que se envereda para o gênero fantástico, mas que fala um pouco sobre os nossos tempos atuais indefinidos em que vivemos.  O primeiro ato vai mais para o lado filosófico, sobre as grandes metrópoles de hoje com as suas inúmeras pessoas aglomeradas e das quais convivem entre o consumo e desejos, por vezes, reprimidos por conta de pessoas dispostas a querer exterminá-los. Destaque pela bela fotografia em preto e branco e que fisga a nossa atenção desde o início.
Do segundo ato em diante conhecemos a protagonista, uma vampira (Aline Szpakowski), cuja a sua profissão é a fotografia e nos dando a entender que em sua primeira cena ela havia a pouco bebido sangue de determinada vítima. Porém, ela conhece uma garota (Rute Nascimento), da qual podemos imaginar que se tornará a sua próxima vítima, mas algo acontece de diferente e faz com que tenhamos diversas interpretações com relação ao que vem a seguir. O filme termina novamente com uma fotografia em preto e branco e testemunhamos a protagonista em estado solitário e seguindo sem rumo.
No meu entendimento, "Amor Sangue Dor" fala sobre os tempos conservadores e retrógrados atuais, dos quais muitas pessoas desejam satisfazer os seus desejos mais primitivos, mas tendo receio devido ao que os outros irão pensar a respeito. Ao vermos uma vampira se contendo ao não sugar o sangue que tanto anseia seria uma representação sobre os nossos medos ao vivermos em uma sociedade cada vez mais hipócrita e violenta na medida em que o tempo passa. Curto, mas "Amor Sangue Dor" é eficaz em sua proposta em nos fazer pensar sobre nós mesmos em tempos cada vez mais indefinidos. 

Onde assistir: Pelo Youtube clicando aqui. 


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segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Cine especial: “O que o filme Bacurau, pode nos ensinar hoje?”


Chegamos ao ano de 2020 e junto com ele, uma grande crise sanitária, sem indícios de término. Identificamos nesta pandemia chamada de Corona vírus, ou mais conhecida como Covid-19, que assola o mundo inteiro, algumas características inseridas no cinema.
Bacurau, é um filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Lançado em 2019, este filme apresenta diversos significados simbólicos e bastante representativos do Brasil. Uma das diversas características marcantes da película é que, em sua totalidade, ele aborda temas que parecem ser uma distopia tais como, políticos corruptos, drogas, prostituição, diferenças entre raças e a visão sobre o outro. Os pontos apontados são de um filme com uma realidade baseada em fatos porém, em Bacurau, podemos perceber um Brasil, com estéticas de fome, sonhos e uma pedagogia que paira a violência (Bentes, 2019).
De acordo com Bentes (2019), o filme Bacurau se aproxima dos filmes de Glauber Rocha como “Deus e o Diabo na terra do Sol” de 1964 ou de “O Dragão da maldade contra o santo Guerreiro, de 1969”, devido a sua “invenção de um imaginário rural brasileiro catártico, que realiza uma política vinda do povo” (Bentes, 2019).

Esta política vinda do povo é que pode ser aprendida nos dias atuais, como uma pedagogia voltada a um novo aprendizado de nossas relações sociais e capitalistas que temos com nosso mundo. Um exemplo prático é o que fazer diante de um capitalismo que se impõe em nossa sociedade, como a única forma de subsistência possível? O filme traz esta noção de que, se tudo quebrar, estamos prontos para nos adaptar, será? Reconhecer que a trágica violência nos leva a lutar por nossa sobrevivência, já é um ponto a pensar.
Fatores que podemos apresentar como uma escola da vida conforme, aborda Freire (1967), não é o medo da liberdade mas sim, a transferência de conhecimento e a criação de possibilidades para sua construção e produção deste conhecimento. Este conhecimento fica muito explicito nas relações sociais dentro da cidade de Bacurau.
Um político corrupto e inescrupuloso que leva a cidade a ter sua própria organização coletiva, um espécie de autogestão conforme, cita Motta (1981) e que esta autogestão seria um lugar fundamental de autonomia coletiva, Ou seja, seria o lugar da iniciativa social, onde o grupo se administra livre e de forma espontânea pelos seus interesses comuns (Motta, 1981). O poder coletivo de decisões da cidade, impõe um líder que não necessariamente, dita as regras mas, que informa aos indivíduos da cidade, uma forma de comportamento e adequação, diferenciadas das que estamos condicionados a sofrer.
As divisões dentro da cidade são claras e cada um sabe seu lugar. As vantagens sustentáveis que esta organização possui é aquilo em que coletivamente ela usa com prontidão e adquire seus conhecimentos (Davenport e Prusak, 1998). A comunidade de Bacurau utiliza seu espaço de forma a garantir sua sustentabilidade, sem prejudicar seu ambiente.
Além disso a autogestão da cidade, implica em algumas tendências irregulares tais como, um poder paralelo que auxilia e ajuda a comunidade nos momentos de crise. As nuances de Bacurau são evidentes demais para serem deixadas de lado e nos remete a uma categoria afirmativa de dados do que temos nos dias atuais. Na gestão de Bacurau, observamos uma tendência de desnaturalizar o capitalismo vigente, quebrar regras e identificar-se como um ser social e não fora de um mapa, que também não temos ideia de quem o desenhou.
Traços coloniais existentes em Bacurau, são muito representativos e percebemos a intervenção dos “colonizadores” em dar significado a sua origem e raça, como se isso, fosse de fato, algo relevante, visto que raça foi uma criação colonial para garantir a retroalimentação de um trabalho escravo direcionado aos negros, índios e judeus, justificando assim, os “outros” como subalternizados e seres de extrema ignorância (Mignolo, 2003).
Por citar capitalismo, não se assuste se ver a única nota em dinheiro do filme, ser dada pelos turistas que chegam a cidade. Como a cidade funciona sem o ritmo tradicional do pague e leve, não fazemos a mínima ideia de como se sustenta mas temos uma noção, de que a cidade possui outras regras, apesar de não se incomodar com o dinheiro vindo de outras práticas não tradicionais.
Quando chegamos ao cinema, sentamos na poltrona e o filme começa pensamos: “nossa que gente primitiva”, isso é uma forma de reproduzir as histórias únicas que conhecemos nossa vida inteira, a história apenas de quem venceu e o perigo de uma história única, de acordo com
Adichie (2019) é que ela, é contada apenas pelos vencedores, que da mesma forma que usurparam, estupraram, escravizaram, roubaram e determinaram características nos “outros”, beneficiando-se de um “status” de ser racional, erudito, culto e com características que devem ser mais representadas dentro da sociedade só o são tão belos e desenvolvidos, devido a carnificina empregada em sua gestão e controle.
Em Bacurau não é diferente, os “outros” são os despreparados, assim pensamos e o filme, leva você a sentir um arrepio pois, seu final é surpreendente. Ainda não conferiu este filme? Então veja, disposto a tomar um susto e de sair sem entender se o filme é de fato numa cidade fictícia. Preste bastante atenção na televisão da cidade e na forma de organização e comunicação repassada. Uma comunicação tão eficiente, que derruba até a política vigente.
O mercado da morte aparece em Bacurau e nos envia para a nossa realidade de mortes pelo Covid-19 em todo o Brasil, e no mundo, podemos assim dizer. Baseado apenas em fatos, Bacurau, nos reserva surpresas e nos permite uma sensação de dever cumprido. Um sensação de acordo com Spivak (1985) de um subalterno poder falar, de um subalterno se organizar, sobreviver sem ajuda política, de existir sendo considerado excluído.
Espero que as reflexões deste texto consigam fazer com que o filme Bacurau, exista não apenas como o “outro” mas como forma de poder e reflexão crítica sobre as condições sociais existentes em nosso mundo, vale ressaltar que a trajetória está mudando, só não percebe quem aceita de bom grado, uma história única e não reconhece que antes, já existia uma cultura existente com suas regras, padrões, cultura e sobrevivência.
Pois bem, se vier, venha em paz.

Referências:
CHIMAMANDA, N, A. O perigo de uma história única. Editora: Companhia das letras. 2019.
DAVENPORT, T, H.; PRUSAK, L. Conhecimento Empresarial; como as organizações gerenciam o seu capital intelectual. Rio de Janeiro: Campus, 1998. 237p
IVANA, B. Bacurau e síntese do Brasil brutal. Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/bacurau-kleber-mendonca-filho/. Visualizado em 30/07/2020.
MIGNOLO, W. Histórias Globais/projetos Locais. Colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.
MOTTA, F, C, P. Burocracia e autogestão (a proposta de Proudhon). São Paulo, Brasiliense, 1981.
PAULO, F. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra LTDA, v. 199, 1967.
SPIVAK, G, C. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora: UFMG, 133p., 2010 [1985].

Postado por: Ana Lúcia Schmidt Castelo
Centro/RJ, Brasil.
Mestranda em Administração, graduada em Pedagogia, Arquivologia e concluindo a graduação em Letras. Apaixonada por cinema com preferência por filmes de terror e colaboradora do Blog: “Cinema cem anos de luz, Arte e reflexão” do amigo Marcelo Castro Moraes.

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Cine Especial: 'Constantine' - 15 Anos Depois


"Uma Viagem Alucinante. Este Legado de Blade Runner é um Deleite para os Olhos e Para a Mente". 

Richard Collis - TIME 

Talvez essa seja uma comparação um tanto que exagerada para aquela época, mas acho que eu sei onde o crítico queria chegar. Embora não tenha sido fiel a sua fonte nas HQ, "Constantine" foi observado de perto por críticos de cinema e colecionando fãs na medida em que o tempo foi passando. Quinze anos se passaram e o filme ganhou de forma merecida o seu status de cult e motivos para isso é o que não faltam.
É bom lembrar que o filme foi lançado em 2005, época em que os estúdios estavam atirando para todos os lados para conseguir algum lucro com as adaptações de HQ. Após o estouro de "X-Men" (2000) e "Homem Aranha" (2002), era questão de tempo para que inúmeros personagens fossem levados para o cinema, mas Constantine era uma espécie de um tiro no escuro. Conhecido mais pelos leitores de HQ, o personagem na época não tinha esse apelo popular que tem hoje, mas que na minha opinião colaborou para que o filme fosse melhor trabalhado.
O problema com relação a ser fiel a sua fonte original é gerar um sério risco de o filme perder a chance de obter a sua personalidade própria. Pegamos, por exemplo, adaptação do livro "O Código Da Vinci"(2006) para o cinema, da qual foi fiel a sua fonte, porém, ficou preso nesta questão e se tornando um filme sem sal. Não é o caso que acontece com "Constantine" e acho que muito disso se deve a Francis Lawrence.

Conhecido na época pela direção de vídeo clipes, Lawrence optou em adaptar somente o essencial das HQ e moldando a história para se encaixar melhor na linguagem cinematográfica. O resultado é um filme cheio de personalidade, onde o cineasta cria uma visão pessoal sobre aquele universo de anjos e demônios e cujo o seu visual é a sua principal fonte de sucesso. Embora a trama se passe na ensolarada Los Angeles, o filme é sombrio, elegante, como se estivéssemos assistindo a um filme noir de antigamente, mas moldado com ingredientes sobre a questão da fé e o papel do bem e o mal na vida dos homens e das mulheres.
Nos minutos em que nos é apresentado o protagonista, Lawrence cria um belo jogo de câmera, ao fazer enquadramentos em que sempre nos mostra os personagens indo em nossa direção, como se houvesse uma intenção vinda deles em quebrar a quarta parede. Porém, isso é uma forma de se casar com a proposta principal da história, onde os personagens sempre desejam avançar em querer chegar algum lugar, desde os demônios querendo entrar em nosso mundo, como também o próprio Constantine em querer fugir do inferno ao seu encalço. É bom lembrar que, embora a trama seja superficialmente inspirado no clássico "Hábitos Perigosos" de Garth Ennis, a inserção da questão do câncer que aflige o personagem é explorada aqui de uma forma mais simples e verossímil para os olhos do cinéfilo.
Além disso, Lawrence surpreende nas continuidades de cada cena, cuja a simetria acaba se casando uma com a outra. Pegamos, por exemplo, a cena em que Ângela (Rachel Weisz) acorda de um terrível pesadelo. Em sua cama se encontra o seu gato que começa a tossir pelos. Imediatamente a cena é cortada para Constantine correndo em direção a sua pia e cuspir catarro cheio de sangue.
Essas simetrias estão espalhadas em quase todo o filme, como se elas se direcionassem para um único objetivo e levando os seus protagonistas consigo. Por conta disso, temos um filme do qual foi realizado na preocupação de se fazer cinema e não somente uma adaptação fiel a sua fonte verdadeira. Já a história em si, ela não é muito diferente com relação a tantos filmes de rituais ou possessões antes daquela época, mas é graças a direção autoral e segura do cineasta é o que fez toda a diferença. Embora com alguns efeitos visuais e cenas de ação, eles são inseridos para melhor compreendimento da trama e a ótima cena em que o protagonista desce ao inferno, uma espécie de Los Angeles em pleno apocalipse, sintetiza muito bem isso.
Outra questão é o seu elenco, composto por inúmeros talentos e do qual cada um colaborou para obter o melhor desempenho possível. Criticado ao ser escolhido para interpretar o personagem, Keanu Reeves fez o que pode em cena, ao ponto de ficar até mesmo pálido de tanto fumar diversas vezes durante as filmagens. Não é preciso ser adivinho sobre o que levou a Warner a escolher ele, já que na época o ator a recém havia estrelado a franquia milionária "Matrix" e a intenção, obviamente, era continuar obter lucro que o ator atraia naqueles tempos. Independente disso, eu particularmente gosto do ator interpretando o personagem, mesmo quando ele se distancia das verdadeiras raízes de sua fonte.
Por sua vez, Rachel Weisz rouba a cena em momentos importantes da trama, ao interpretar as irmãs gêmeas Ângela e Isabel. Weisz entrega um papel de peso ao dar vida a Ângela, ao se apresentar como uma personagem cética com relação as questões do céu e o inferno, mas aprendendo que elas são reais da pior maneira possível. Não deixa de ser assombrosa a sua atuação quando ela testemunha o corpo da sua irmã falecida e cuja a cena impressiona, tanto pelo seu desempenho, como também graças a direção de Lawrence que deixa o momento ainda mais dramático.
Curiosamente, a ala coadjuvante é outro fator determinante para o sucesso do filme. Tilda Swinton surpreende ao interpretar o anjo Gabriel e cujo o seu sarcasmo nos brinda com humor sombrio contagioso. E se por um lado há um jovem em cena chamado Shia Labeouf interpretando o personagem Chas que poderia ser facilmente ser descartado, do outro, Djimon Houson cria para o seu personagem Midnite um ar de ambiguidade com relação aos seus sentimentos em optar em ser neutro. Agora, a grande surpresa fica por conta da atuação de Peter Stormare como Lúcifer, um personagem que já foi levado aos cinemas de diversas maneiras, mas aqui ele interpreta do seu jeito e cuja a sua apresentação na história pegou muitas pessoas na época desprevenidos.

Logicamente, o final deixa algumas pontas soltas para uma continuação, mas da qual jamais aconteceu. Porém, o filme funciona muito bem independente disso, fazendo com que críticos e fãs o visitassem diversas vezes e ganhando assim um melhor reconhecimento. Mas com os boatos de que Keanu Reeves deseja muito retornar ao personagem, que hoje tem um apelo popular muito maior do que aquela época, quem sabe essa sequência não venha em breve ganhar a luz do dia.
"Constantine" é um filme sobrevivente em meio a tantas franquias de adaptações de HQ para o cinema, ao passar pelo teste do tempo e se tornar um cult de forma merecida mesmo com os seus detratores em volta. 

Onde Assistir: Em DVD, Blu-Ray e Netflix.  

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quinta-feira, 30 de julho de 2020

Cine Dica: Durante a Quarentena Assista: 'O Babadook'

Sinopse: Amelia, viúva e ainda atormentada pela violenta morte do marido, tenta lidar com o medo de monstros que aterroriza seu único filho.

Clássicos do cinema de horror como "O Bebê de Rosemary" (1968) e "O Exorcista (1973) sobrevivem ao teste do tempo graças ao fato deles possuírem diversas camadas de interpretação com relação as suas tramas. O filme de  William Friedkin, por exemplo, pode simplesmente ser tachado como um filme de possessão demoníaca, como também uma história em que se explora os poderes ocultos da mente humana. "O Babadook" (2014) segue com perfeição essa minha teoria e podendo ser lembrado facilmente nos próximos anos como um dos melhores filmes de horror do nosso tempo.
Dirigido pela cineasta Jennifer Kent, o filme conta a história de Amelia (Essie Davis), que no passado ela havia perdido o seu marido em um acidente de carro quando ambos estavam indo no hospital para ela dar à luz.  Mesmo tendo o seu filho Samuel (Noah Wiseman) ela ainda não superou a trágica perda e o garoto começa a sonhar diariamente que um monstro que se encontra em um livro está assombrando ambos. Mas até onde isso é sonho e realidade?
Por ser de origem Australiana se percebe que é uma produção que se difere das americanas, tanto pelo seu visual, como também pelo seu ritmo e que dá espaço para uma construção melhor na apresentação dos seus personagens principais. Isso logicamente afasta aquele cinéfilo que está acostumado com o gênero de horror convencional norte americano, do qual possui diversos sustos a cada momento, mas quase não nos dá tempo para nos simpatizarmos com os personagens principais ou exigir um roteiro mais complexo. Em ambos os casos eles se encontram e "O Babadook", de uma forma bem dirigida e cujo o roteiro pode ser interpretado de diversas formas.
Se formos simplifica-lo, ele pode ser interpretado como mais um filme sobre uma casa mal assombrada, mas a trama não se limita essa ideia tantas vezes usada. Ao invés disso, testemunhamos uma protagonista transitando entre a lucides e a dor que ainda não cicatrizou pela perda do seu marido. Além disso, ela precisa enfrentar o dia a dia de ter um filho super ativo e fazendo com que o seu lado lúcido transite para a beirada do precipício.
Essie Davis, estrela de filmes como "Casamento às Avessas" (2010), nos brinda aqui com a melhor atuação da sua carreira. Se no princípio sentimos pena de sua personagem por sofrer de um trauma do passado, além de não conseguir conter o seu filho super ativo, por outro lado, logo começamos a temer pela vida desse último a partir do momento em que ele começa a ser assombrado por uma possível entidade fantasmagórica e pela própria mãe que começa a dar sinais de descontrole sem precedentes.
Podemos supor que ela esteja também sendo afetada pelas manifestações que ocorrem na casa, mas o problema, talvez, se encontre muito mais embaixo do que a gente imagina. Ao nunca colocar para fora a sua dor devido ao passado trágico, a protagonista começa despeja-lo em momentos de grande conflito e fazendo ela se tornar um perigo para si e para o seu próprio filho. Não me surpreenderia, por exemplo, se atuação da atriz serviu de inspiração para o trabalho de Toni Collette em "Hereditário" (2018) e para quem viu o filme de Ari Aster sabe muito bem o que eu estou dizendo.
Já a figura de Babadook em si é um deleite para os amantes do gênero fantástico, pois ele parece um cruzamento de  Sr. Hyde do clássico "O Médico e o Monstro" e Nosferatu. Neste último caso, tanto a figura do ser, como também da própria casa, parecem extraídos dos melhores momentos do expressionismo alemão, do qual os filmes em si daquela época exploravam os significados dos sonhos e da imaginação de um povo alemão esmagado após a 1ª Guerra Mundial. Seria, portanto, a figura de Babadook uma manifestação dos sentimentos reprimidos da protagonista devido ao seu passado trágico pela perda do seu marido?
Aliás, a figura do marido é bastante usada no decorrer da trama e fazendo com que esse meu pensamento se fortifique cada vez mais quando revisitei o filme pela segunda vez. Mas em termos técnicos o filme também nos conquista, principalmente por ele não ser sufocado pela pirotecnia dos efeitos visuais hoje em dia, mas sim sendo ele moldado de uma maneira mais simples de como se fazia cinema de horror de antigamente e tendo um efeito mais verossímil possível. Além disso, o filme presta uma bela homenagem aos grandes clássicos do gênero fantástico, que vai desde curtas de Méliès, como também "O Fantasma da Ópera" (1925), "O Parque Macabro" (1962), "As Três Máscaras do Terror" (1963).
Com um final que nos deixa mais perguntas do que resposta, mas sendo algo proposital para pensarmos na obra por um longo tempo, "O Babadook" é um ótimo filme de horror ao obter a proeza e nos assustar e questionar sobre qual é a verdadeira origem sombria que se manifesta ao longo de sua trama.   


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