Sinopse: O protagonista embarca em uma corrida contra o tempo para enfrentar as consequências de seus atos e provar que é o salvador da humanidade, antes que o desastre que desencadeou destrua o planeta.
Alejandro González Iñárritu gosta de colocar o dedo na ferida e fazer com que suas obras se tornem pontos fora da curva no cinema norte-americano. Se "O Regresso" (2015) era uma síntese sobre o sangue derramado para a construção de um novo mundo, e "Birdman" (2014), uma crítica ácida da própria Hollywood sucumbida às franquias, "Digger" (2026) talvez seja reavaliado no decorrer do tempo — pois é um filme que dá um tapa na cara não somente dos donos do poder, mas da própria sociedade.
Na trama, acompanhamos o homem mais poderoso do mundo que, após provocar um desastre ambiental de proporções globais, inicia uma missão intensa para reparar os danos que ele mesmo causou e provar ser o salvador da humanidade. Em uma corrida contra o tempo, precisa enfrentar as consequências de suas decisões antes que a crise saia completamente do controle e ameace o futuro do planeta. Nessa trajetória, o bilionário cruza o caminho de algumas das figuras mais influentes do mundo, incluindo o presidente dos Estados Unidos.
Desde o início de sua carreira, Tom Cruise já havia provado ser um ótimo ator — basta resgatarmos "Nascido em 4 de Julho" (1989) para termos essa dimensão. Porém, como todo astro norte-americano de grande porte, Cruise acabou se rendendo ao sistema que move as engrenagens da indústria: tornar-se o pilar de uma franquia duradoura, no seu caso, Missão: Impossível. Trabalhando anos a fio nesse tipo de produção, ficamos desacostumados a vê-lo em papéis que se distanciem desse molde (sendo sua hilária participação em "Trovão Tropical", de 2008, um espanto à parte).
Aqui, porém, Cruise se desfaz de qualquer vaidade ao se entregar a um personagem que se revela uma representação da mentalidade governamental atual. Seu Digger é uma caricatura dos poderosos — principalmente daqueles que tratam os EUA como um grande rancho cujo gado precisa ser alimentado a todo custo. Neste caso, o "alimento" é a profusão de petróleo explorada à exaustão ao longo dos séculos, culminando em um inevitável acidente ecológico.
Digger, contudo, não é um farsante que esconde sua essência; ele aponta o dedo contra a própria humanidade, que implorou por combustível ao longo das décadas enquanto ele apenas correspondia ao consumismo desenfreado. A cena em que o protagonista discursa perante uma população à beira do apocalipse é, desde já, uma das melhores do ano. Digger encarna tudo o que mais tememos na atualidade, mas que nós mesmos criamos para satisfazer necessidades em constante definhamento. São momentos como esse que geram espanto e fazem brotar um sorriso amarelo no canto da boca, revelando que o futuro nebuloso se torna quase hilário: tínhamos tudo para evitá-lo, mas optamos pela energia e pelo conforto a qualquer preço.
Tudo isso surge orquestrado por Iñárritu, que consegue realizar uma curiosa transição entre a linguagem cinematográfica e a teatral. Essa fórmula, por sua vez, vinha sendo testada por Wes Anderson desde A "Crônica Francesa" (2021), pois acredito que ambos os realizadores perceberam que a Sétima Arte chegou a um ponto em que talvez seja preciso olhar para o passado e resgatar velhas formas de narrativa, ainda que soar estranho para as novas plateias em um primeiro momento. Essa construção aliada a uma produção de grande escala também me fez recordar o maravilhoso "Sinédoque, Nova York" (2008), obra que merece ser permanentemente redescoberta.
Vale salientar que Iñárritu é ainda mais corajoso ao retratar a grande potência americana sucumbindo perante o poderio chinês, em uma decadência comandada por Donald Trump. Se Digger é a engrenagem desse poder moribundo, a figura do presidente do país, brilhantemente interpretado por John Goodman, torna-se tragicômica — momentos que remetem às melhores situações de Doutor Fantástico (1964), clássico de Stanley Kubrick. Pelo visto, a humanidade continua sem aprender com os erros do passado.
Ao final, fica a constatação de que o filme de Iñárritu corre o risco de ser menosprezado no presente para só ser reavaliado com o tempo. Afinal, não é sempre que encaramos de frente nossos próprios temores em uma obra que escancara o quanto nos encaminhamos para um declínio civilizatório sem conserto. A cena final é impactante não apenas para quem viveu os tempos de pandemia, mas como um alerta sobre o que teremos de enfrentar logo adiante.
"Digger" será ignorado por parcela do grande público porque este já não aceita ouvir a verdade — e é justamente isso que faz do longa um dos mais corajosos do ano.
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