Sinopse: Ao contrário do Superman, Kara Zor-El (Milly Alcock) cresceu em Krypton e testemunhou sua destruição. Quando um adversário implacável a ataca, ela faz uma aliança improvável em uma épica jornada interestelar de vingança e justiça.
"Supergirl: Mulher do Amanhã" (2021) é, sem sombra de dúvida, uma das melhores HQs de super-heróis dos últimos anos. A encruzilhada da protagonista em buscar o seu lugar no mundo após testemunhar a destruição de seu planeta natal foi escrita por Tom King e ilustrada pela brasileira Bilquis Evely. É uma história definitiva sobre a personagem, o que me fez temer ainda mais pela sua adaptação no cinema.
James Gunn sabia da total responsabilidade que tinha em mãos ao comandar o novo universo DC nas telas. Assim, quando um longa inspirado nessa incrível história foi anunciado, muitos acompanharam o desenvolvimento do projeto passo a passo. Após o sucesso de "Superman" (2025), as esperanças dos fãs só aumentavam — mesmo quando eu preferia manter os pés firmes no chão, para dizer o mínimo. Pois bem, "Supergirl" (2026) não é exatamente fiel à sua fonte original, mas a sua essência está lá, chamando a nossa atenção com um enredo que foge do convencional dentro do gênero.
Dirigido por Craig Gillespie, de "Eu, Tonya" (2017), o filme conta a história de Kara Zor-El (Milly Alcock), que testemunhou o colapso de Krypton aos 14 anos de idade e agora, aos 21, sofre uma crise de identidade por não saber como se encaixar no novo mundo em que vive. Em outro planeta, Kara se encontra com Ruthye Marie Knoll (Eve Ridley), uma alienígena com um desejo ardente de vingança contra o mercenário Krem (Matthias Schoenaerts), responsável pela morte de sua família. Inicialmente, Kara não está interessada em ajudá-la; porém, a partir do momento em que o vilão envenena Krypto, a protagonista decide se aliar a Ruthye para buscar um antídoto e, consequentemente, partir para a desforra.
Inspirado na HQ citada, o filme remete a algumas passagens que já se tornaram conhecidas para aqueles que leram essa obra-prima. No entanto, o longa possui personalidade própria ao não ser uma cópia exata do conto, mesmo quando bate aquela pontada de desejo de que o projeto fosse 100% fiel. Mas estamos falando de um filme que faz parte de um projeto maior e que possui forte interligação com o novo Superman do cinema.
Ainda assim, a obra pode ser apreciada sem a obrigação de ter visto outros longas ou séries anteriores. O que vemos aqui é uma protagonista com superpoderes incríveis, mas que não sabe lidar com a dor do luto e com um novo mundo que não é seu, enquanto tenta buscar dentro de si uma razão para colocar em prática o lado virtuoso que seu primo tanto lhe ensinou. Por conta disso, é hilário vê-la bêbada, curtindo uma música pop e sem se preocupar com o que virá em seguida.
Consagrada na série "A Casa do Dragão", Milly Alcock carrega o filme nas costas com garra, raiva e uma doçura em cena que nos faz identificar facilmente com ela. Nós nos emocionamos com os flashbacks, que nos dão a real dimensão da dor que ela guarda e procura afogar nas baladas espaciais. No momento em que ela se dá conta de que precisa agir, ocorre um belo casamento entre efeitos visuais e ação: a cena em que ela manifesta seus poderes através do sol amarelo se torna um dos melhores momentos de todo o filme.
Eve Ridley, por sua vez, tem a missão ingrata de interpretar uma personagem que acaba se tornando uma mera desculpa para colocar a protagonista em movimento. Ainda assim, podemos interpretá-la como uma representação de nós, espectadores, perante o fato de compreender as motivações de Kara e suas lições de moral sobre não querer matar os vilões da história. A química entre as duas funciona bem, mas muito se deve ao talento da própria Milly Alcock.
Já Matthias Schoenaerts entrega um vilão nada memorável, mas ao menos detestável o suficiente para desejarmos o pior para ele, principalmente quando é revelada a sua exploração de jovens garotas como escravas. Neste ponto, o filme remete a algo parecido com o que foi visto em "Mad Max: Estrada da Fúria" (2015) — e, curiosamente, o longa possui muitos dos elementos do universo apocalíptico orquestrado por George Miller. É interessante observar também como a produção adota uma tecnologia retrô com relação a alguns planetas vistos na tela, o que remete diretamente ao clássico cult "Blade Runner" (1982).
E embora eu tenha dito que o filme funciona de forma independente do restante do universo DC, é curiosa a inserção do personagem Lobo na trama. Inexistente na HQ que serviu de base, Lobo é colocado na história de forma gratuita e não acrescenta em nada à narrativa, a não ser pelo fato de testemunharmos um visual 100% fiel à sua contraparte dos quadrinhos. Jason Momoa nasceu para o papel, mas sua participação especial serve apenas para nos fazer desejar um filme solo do personagem.
Mesmo sendo um blockbuster da temporada de verão norte-americana, os realizadores ao menos não caíram na tentação de usar efeitos em CGI desnecessários do começo ao fim. O filme ganha um peso muito maior quando as protagonistas estão com os pés firmes no chão. Ainda assim, é preciso reconhecer que as cenas de voo da personagem são belíssimas, além de virem entrelaçadas com uma trilha sonora econômica, mas extremamente emocionante. E falando em música, prepare-se para momentos de grande surpresa, principalmente para nós, brasileiros, que apreciamos a boa música do nosso país.
Infelizmente, o filme derrapa em alguns elementos de ação dispensáveis, principalmente por serem repetitivos e parecidos com o que já vimos em outras produções de James Gunn. Ao menos a solução final que a protagonista encontra para Ruthye e para si mesma reflete o quanto a personagem é falha e humana, fazendo-nos compreender o seu sacrifício para que sua companheira não enfrente a mesma dor que ela carregou no passado. Pode não ser um desfecho tão corajoso quanto o da HQ oficial, mas a essência está ali.
"Supergirl" foge das fórmulas convencionais e já desgastadas do gênero, brindando-nos com uma aventura espacial digna e que poderá ser melhor reconhecida com o passar do tempo.
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