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Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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terça-feira, 2 de junho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz - 'Backrooms: Um Não-Lugar'

Sinopse: Acompanha Clark, um vendedor de móveis que, em 1990, descobre no porão de sua loja um portal para os "Backrooms" — um labirinto infinito de salas e corredores amarelos surreais.

Não é de hoje que certas lendas urbanas surgem na internet atiçando a curiosidade do público. Talvez um dos pioneiros nesse fenômeno tenha sido justamente "A Bruxa de Blair" (1999), cujos realizadores venderam o filme como um documentário verídico. Aumentando a sensação de autenticidade, eles criaram um site com informações sobre a lenda da bruxa, dando a entender que os três protagonistas estavam realmente mortos. Isso aconteceu nos primórdios da rede e serve de modelo até os dias de hoje.

Contudo, há mitos modernos que nascem na internet e servem de base para a criação de curtas e longas-metragens. Um desses casos é a misteriosa lenda das "Backrooms", que surgiu anos atrás: um conceito no qual pessoas caem em uma espécie de dimensão paralela e labiríntica, descrita como uma série infinita de corredores vazios, com paredes amareladas, carpete úmido e o som incessante de luzes fluorescentes. Em 2019, o jovem diretor Kane Parsons lançou um curta-metragem inspirado nessa creepypasta, alcançando um sucesso estrondoso — o suficiente para ser convidado pelo prestigiado estúdio A24 a realizar Backrooms: Um Não-Lugar (2026), que explora ainda mais esse mistério.

Na trama, acompanhamos Clark (Chiwetel Ejiofor), um vendedor de móveis que faz uma descoberta intrigante no porão de sua loja. O local se transforma em uma espécie de labirinto onde diversos espaços novos surgem, possivelmente abrindo portas para outra realidade. Inquieto com a situação, Clark convence Kat (Lukita Maxwell), sua funcionária, e Bobb (Finn Bennett), namorado dela, a explorarem a extensão do lugar para entender sua magnitude. No entanto, quando Clark desaparece, a Dra. Mary Kline (Renate Reinsve), sua terapeuta, resolve ir atrás dele.

Quem já assistiu ao curta não irá estranhar a abertura do longa, que basicamente resgata o mesmo cenário misterioso, moldado por texturas de VHS dos anos noventa que se casam com perfeição com o subgênero found footage (ou falso documentário). Porém, ao contrário da maioria dos espectadores, que logicamente se lembrará de "A Bruxa de Blair", a introdução me fez recordar o filme nacional "Os Jovens Baumann" (2018), de Bruna Carvalho Almeida. Além de partilhar do formato found footage, a obra brasileira também possui toda essa estética analógica e nostálgica através das imagens de arquivo.

Só por essa abertura, o filme já nos provoca uma forte aflição, despertando uma sensação quase claustrofóbica. O que vem a seguir é uma trama original que sustenta bem as quase duas horas de projeção. A premissa se alinha a dois protagonistas que, já fragilizados por seus problemas particulares, acabam imersos em um cenário que testará suas sanidades. É então que o filme se envereda por assuntos não resolvidos; o teor psicológico ganha destaque e prende a nossa atenção do início ao fim.

Clark é um personagem essencialmente fracassado, que vê seu negócio em ruínas e encontra na descoberta dos misteriosos corredores uma desculpa para escapar de uma vida previsível. Por outro lado, a Dra. Mary revela logo de início carregar um passado traumático, utilizando esse elemento como combustível para ajudar outras pessoas a não caírem no abismo da loucura. Por conta disso, uma vez que os personagens se encontram no derradeiro cenário principal, a verdadeira faceta de cada um se revela, dando-nos a dimensão de suas reais naturezas.

Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve nos brindam com atuações poderosas. O primeiro transita com maestria entre a mediocridade de sua rotina e a revelação de alguém que estava escondido dentro de si a partir do momento em que adentra a dimensão. O roteiro nos coloca de frente com questões que vão desde traumas mal resolvidos até o lado mais obscuro da mente humana, questionando até que ponto o nosso psicológico pode influenciar a realidade à nossa volta. Seria o labirinto uma forma de manifestação de nossas próprias memórias, por vezes distorcidas?

Essa questão ganha força após testemunharmos momentos de puro suspense, nos quais o susto não vem de forma fácil ou barata. O terror se constrói em elementos-chave, fazendo com que o peso de determinadas figuras que surgem ao fundo do corredor se torne profundamente desconcertante. Mesmo com um orçamento visivelmente contido, Kane Parsons conduz o público, já em sua estreia em longas-metragens, a um verdadeiro pesadelo que remete àqueles sonhos tenebrosos nos quais corremos atrás de uma saída para acordar, mas acabamos apenas adentrando outra sala infernal. Nada mal para um realizador tão jovem e que ainda tem muito a oferecer.

Infelizmente, o filme perde um pouco de sua força quando determinadas passagens tentam entregar explicações parciais sobre aquela realidade. Ao meu ver, além de parecerem teorias arquitetadas unicamente para justificar uma eventual sequência, essas respostas quebrantam o mistério; seria muito mais rico deixar que o próprio espectador tirasse suas conclusões. Ao menos os minutos finais são corajosos, encerrando a projeção de forma aberta, assustadora e bastante anti-hollywoodiana.

"Backrooms: Um Não-Lugar" é a prova de que lendas urbanas da internet, por vezes despretensiosas, podem render excelentes ideias e se transformar em um verdadeiro espetáculo de horror psicológico nas telas de cinema.

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Cine Dica: Newsletter de 4 a 10 de junho

 Cinemateca Capitólio segue exibindo clássicos de Marilyn Monroe e estreia o drama brasileiro Dolores

A programação da Cinemateca Capitólio entre os dias 4 e 10 de junho tem como destaque a estreia do drama brasileiro Dolores (2025), de Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar, que divide horários com a segunda semana da mostra dedicada ao centenário da atriz Marilyn Monroe, comemorado em 1º de junho último, com a exibição de sete títulos marcantes de sua filmografia: Torrentes de Paixão, O Rio das Almas Perdidas, Os Homens Preferem as Louras, Como Agarrar um Milionário, O Pecado Mora ao Lado, Nunca Fui Santa e Os Desajustados.

Dolores é um projeto originalmente concebido pelo diretor Chico Teixeira, como complemento da trilogia formada ainda por Casa de Alice e Ausência. A morte prematura de Teixeira fez com que o filme fosse realizado por Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar. A atriz Carla Ribas interpreta a personagem-título, uma mulher de 65 anos que tem a premonição de abrir um cassino. Isso, porém, se torna um problema, uma vez que ela já foi viciada em jogos. Dolores tem uma relação tensa com a única filha, Deborah (Naruna Costa), mas é próxima da neta, Duda (Ariane Aparecida), que trabalha numa loja de armas e sonha em se mudar para os Estados Unidos.

A dupla da direção também assina o roteiro e aponta que a solidariedade e o sentido de comunidade são temas caros à trilogia e, em especial, a esse filme. “É muito comum à experiência feminina você aprender com as trocas quase secretas, em particular, que se dão exclusivamente com outras mulheres. São trocas e ensinamentos que se dão num abraço, numa conversa, no meio de um trabalho ou num esbarrão na rua, e que vão formando uma teia de ensinamentos que produzem sobrevivência física mas também existencial. Queríamos retratar isso. Esse mundo de mulheres que acordam cedo, dormem tarde, sonham acordadas e movimentam o constroem o nosso país.”

Dolores já foi exibido no Festival Internacional de Roterdã, na Mostra de Tiradentes, no Festival de San Sebastian, onde fez sua estreia mundial, na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, no Festival do Rio e no Panorama Coisa de Cinema, em Salvador.

Finalmente, no sábado e domingo, às 15h, a Cinemateca Capitólio recebe mais uma edição da Sessão Vagalume, que neste mês de junho apresenta a clássica animação Alice no País das Maravilhas, versão de 1951 dos estúdios Disney para o célebre livro de Lewis Carroll.

Confira a programação completa da sala no site oficial clicando aqui. 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz - 'Natal Amargo'

Sinopse: Duas histórias paralelas: a de Elsa (Bárbara Lennie), uma publicitária que sofre um ataque de pânico após a morte da mãe e viaja para Lanzarote para lidar com o luto, e a de Raúl (Leonardo Sbaraglia), um roteirista que busca inspiração em sua própria vida.

Quem acompanha Pedro Almodóvar desde sempre sabe muito bem que alguns dos seus filmes nada mais são do que uma representação de sua própria pessoa, ou de eventos que presenciou ao longo da vida. "Dor e Glória"(2019), por exemplo, é quase um filme biográfico sobre ele e seus amores não correspondidos. "Natal Amargo"(2026) é mais um longa que sintetiza esse pensamento e que, talvez, revele seu conflito interno perante os rumos do cinema atual neste momento.

Na trama, acompanhamos duas histórias paralelas que se desenrolam entre Madri e as Ilhas Canárias. De um lado, a ex-diretora de cinema Elsa (Bárbara Lennie) perdeu a mãe durante as festas de Natal e afoga-se no trabalho. Não tendo espaço para lidar com o luto, um ataque de pânico severo a obriga a tirar uma pausa e viajar para Lanzarote, nas Ilhas Canárias, ao lado de sua amiga Patricia, que vive uma crise no casamento. O outro ponto de vista da trama acompanha Raúl Durán (Leonardo Sbaraglia), um diretor e roteirista que enfrenta dificuldades para obter algo construtivo para o seu novo roteiro.

Inicialmente, a premissa do filme me lembrou o longa Mais "Estranho que a Ficção"(2006), de Marc Forster, no qual uma escritora criava a história trágica de um determinado protagonista que acabava se cruzando com sua criadora na reta final da trama. Porém, aqui não há um cruzamento literal de criador e criatura; em vez disso, vemos um diretor quase aposentado tentando elaborar uma história original ao se inspirar em pessoas próximas, enquanto acompanhamos, de forma paralela, o conto que ele elabora. Ou seja, vemos duas narrativas interligadas, em que a trama fictícia continuará dependendo de até que ponto o escritor está disposto a ir para encerrar a sua obra.

Se formos analisar mais a fundo, seria o próprio Pedro Almodóvar falando um pouco sobre si, sobre as pessoas próximas a ele e sobre como elas lidam com o luto no decorrer da vida. Tanto Raúl Durán como sua personagem Elsa seriam alter egos do realizador em cena, já que ambos possuem em comum a predileção pelo cinema, mas convivem com a falta de ideias criativas. O luto, por sua vez, talvez não seja somente sobre seus conhecidos próximos, mas também com relação a si mesmo.

Bárbara Lennie, Aitana Sánchez-Gijón, Victoria Luengo e Milena Smit possuem todas as características das musas que o cineasta apresentou ao longo de sua carreira. Porém, ao mesmo tempo, suas respectivas personagens revelam uma nova faceta do papel da mulher dentro do universo de Almodóvar ao terem que lidar com os novos dilemas de um mundo atual sempre em movimento, cuja vida quase sempre vai se transmutando. Por conta disso, o luto e os amores não resolvidos são os pilares que tornam a trama bastante curiosa, para dizer o mínimo.

E se, por um lado, o personagem de Leonardo Sbaraglia fica em segundo plano no início, por outro, sua figura começa a roubar a cena no momento em que sua criatividade fica escassa e ele passa a ser contrariado por aqueles que acham errado usar pessoas reais e próximas para elaborar uma trama fictícia. É então que o intérprete fala por Almodóvar, ao nos dizer que a sua criatividade talvez tenha certos limites, além de não aceitar muito bem o fato de que, hoje, cada vez mais cineastas se vendem ao streaming. Não chega a ser um grito de desespero partindo do cineasta, mas sim uma forma de dizer o quanto ele se encontra decepcionado com o cenário atual da sétima arte.

É um filme que possui todas as características primordiais do diretor, desde as cores quentes e as homenagens a Madri até o amor ao próprio cinema, tudo embalado pela trilha sonora de seu companheiro e compositor de longa data, Alberto Iglesias. Contudo, inicialmente, talvez venha a ser um filme incompreendido do realizador, pois não é sempre que vemos um cineasta fazer um longa para colocar para fora o seu descontentamento com os rumos da arte que tanto preza. Porém, talvez seja exatamente por isso que o filme venha a ser, aos poucos, reconhecido no seu devido tempo.

"Natal Amargo" talvez não seja somente a síntese da maneira como as pessoas lidam com o luto, mas também a forma de Pedro Almodóvar expressar seu descontentamento com relação aos rumos que o cinema está tomando.


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Cine Dica: Cinema brasileiro ganha protagonismo na Sala Redenção

A fim de celebrar as pluralidades das narrativas nacionais e homenagear grandes trajetórias da sétima arte, a Sala Redenção promove a mostra “BR: do clássico ao contemporâneo”. A programação fica em cartaz entre os dias 1º e 17 de junho, com entrada franca e aberta à comunidade em geral.

Com longas-metragens de terror, comédia, drama, filmes históricos e de faroeste, a mostra “BR: do clássico ao contemporâneo” traduz a multiplicidade de Brasis que existem em um só país. A produção de Kleber Mendonça Filho, “O agente secreto” (2025), premiada no 78º Festival de Cannes e representante do Brasil no Oscar 2026, é o grande destaque da mostra. A programação também contempla “Oeste outra vez” (2024), grande vencedor do 52º Festival de Gramado; “Noites paraguayas” (1982), “Bar Esperança” (1983) e “Suçuarana” (2024).

Na segunda semana, a Sala Redenção homenageia Antônio Pitanga, diretor e ator com mais de 65 anos de carreira. São exibidos três filmes com Antônio no elenco – “Ladrões de Cinema” (1977), de Fernando Coni Campos; “Barravento” (1961), de Glauber Rocha; e “Quilombo” (1984), de Carlos Diegues –, além de “Malês” (2024), longa-metragem dirigido pelo cineasta que, em abril deste ano, venceu o Troféu Jangada de Melhor Filme no 28º Festival de Cinema Brasileiro de Paris.

A mostra tem apoio do Centro Técnico Audiovisual do Ministério da Cultura, Vitrine Filmes, CineSESC e Cinemateca Brasileira.

Confira a programação completa no site oficial da sala clicando aqui. 

domingo, 31 de maio de 2026

Cine Dica: Streaming – 'Demolidor: Renascido (2ª Temporada)'

Sinopse: Acompanha Matt Murdock operando na clandestinidade junto a Karen Page. Enquanto isso, Wilson Fisk, agora prefeito de Nova York, institui lei marcial e cria uma Força-Tarefa Anti-Vigilantes.

Em minha crítica sobre a temporada anterior, apontei o fato de o estúdio não ter criado um recomeço do zero para o personagem, preferindo dar continuidade a eventos apresentados na época da Netflix. Isso resultou em um primeiro ano por vezes irregular, mas que já plantava ideias promissoras — desde que os realizadores respeitassem o fato de que o Demolidor é um dos heróis mais humanos das histórias em quadrinhos e aproveitassem a chance de construir uma narrativa criativa. Felizmente, "Demolidor: Renascido – 2ª Temporada" (2026) não é apenas superior à sua predecessora, mas consegue subir o degrau que o herói tanto precisava.

Na trama, o prefeito Wilson Fisk sufoca a cidade de Nova York enquanto persegue o inimigo público número um: o vigilante de Hell’s Kitchen. Por trás da máscara com chifres, Matt Murdock tenta contra-atacar a partir das sombras para derrubar o império corrupto do Rei do Crime e retomar seu lar. Para isso, velhos aliados ressurgem e articulam silenciosamente uma resistência.

Começando a história exatamente de onde parou, a série explora a fundo o papel das redes sociais, mostrando como elas servem tanto a favor quanto contra Fisk, que tenta controlar a cidade com mão de ferro. O Demolidor torna-se um herói ainda mais clandestino, cujos passos podem ser vigiados por qualquer um que deseje capturá-lo. Ponto para os roteiristas, que decidiram elevar o grau de perigo, deixando o protagonista cada vez mais encurralado.

Em termos de ação, os realizadores acertaram ao não cometer o erro de abusar de CGI nas lutas. Em vez disso, construíram cenas verossímeis, com planos-sequência impactantes e um nível de violência elevado — inédito para um estúdio que costuma colocar a mão no freio. Embora pertença ao mesmo universo dos Vingadores, o Demolidor sempre foi um herói suburbano; o dilema e a brutalidade vistos na tela não diferem muito do que ocorre nas grandes metrópoles hoje em dia. A verossimilhança aumenta à medida que Fisk não mede esforços para se manter no poder, usando a força bruta para esmagar a oposição.

Talvez esse seja o maior acerto deste ano: alinhar-se a temas contemporâneos do mundo real, onde discursos de extrema-direita não medem esforços para usar a desinformação e a influência digital para persuadir a população. Ao mesmo tempo, a oposição se organiza no mesmo ambiente virtual, criando um embate ideológico feroz de todos os lados. Qualquer semelhança com a realidade — especialmente em tempos em que o Brasil vive pré-campanhas para as próximas eleições — não é mera coincidência.

No elenco, Charlie Cox cumpre seu papel com a segurança de sempre, mas é Deborah Ann Woll, como Karen Page, quem se supera, construindo uma personagem dividida entre o bom senso e o desejo de fazer justiça com as próprias mãos após tantas perdas. Contudo, Vincent D'Onofrio rouba a cena em momentos de pura intensidade. Seu Rei do Crime está convicto de que age em defesa de Nova York, nem que para isso precise transformar a cidade em um verdadeiro inferno na Terra. Os episódios finais não só oferecem as melhores atuações do elenco, como também elevam a produção a um novo patamar, superando suas contrapartes do gênero.

Contando ainda com uma participação especial de Jessica Jones, a segunda temporada de "Demolidor: Renascido" já se consolida como o ápice do herói nas telas até aqui. Uma obra que tira o espectador da zona de conforto e surpreende a cada episódio.

Onde Assistir: Disney+

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sábado, 30 de maio de 2026

Cine Dica: Streaming - 'Marvel Zombies' / 'Olhos de Wakanda'

 'Marvel Zombies'

"What If...?" (2021) foi talvez uma das séries de animação mais criativas do período inicial em que a Marvel apostou alto na produção de filmes e séries para o Disney+. Ao explorar as diversas histórias do multiverso, os roteiristas expandiram seu leque de originalidade, mesmo quando a série decaiu em sua terceira e última temporada. Porém, a produção abriu brecha para a criação de "Marvel Zombies" (2025), onde o simples fato de não pertencer ao universo principal serve para que os realizadores façam o que bem entenderem com a narrativa.

Contando com as vozes de atores como Awkwafina, David Harbour e Simu Liu no elenco original, a série narra a história a partir dos acontecimentos de "What If…?", em que membros dos Vingadores se transformam em zumbis e dão início a um apocalipse em nível global. Agora, os sobreviventes precisarão unir forças para se proteger enquanto buscam uma cura para o vírus.

Por ter apenas quatro capítulos, a série não perde tempo com muitas explicações, mesmo quando os roteiristas aproveitam ao máximo diversos personagens do estúdio já vistos em séries ou no cinema. Para o espectador de primeira viagem, a quantidade de informações pode até parecer confusa, mas a trama diverte pela sua imprevisibilidade, principalmente ao usar personagens populares da casa como zumbis em cenas dignas de um filme de horror. O destaque fica para Elizabeth Olsen, que dá voz à sua Feiticeira Escarlate e fortalece a fé dos fãs de que ela poderá, um dia, retornar ao seu papel no cinema.

Com um final em aberto e extremamente apocalíptico, "Marvel Zombies" é um sinal de que o estúdio ousa, aos poucos, arriscar-se em projetos alternativos como este, mesmo quando a narrativa se atrapalha ligeiramente ao apresentar tantos personagens ao mesmo tempo.


Onde Assistir: Disney+

'Olhos de Wakanda'

"Pantera Negra" (2018) foi mais do que outra aventura heroica da Marvel; foi uma forma de o estúdio tocar em assuntos políticos espinhosos, desde o preconceito e a colonização até conflitos de potências pelo mundo. Infelizmente, o segundo filme, "Pantera Negra: Wakanda para Sempre" (2022), veio enfraquecido devido à ausência de Chadwick Boseman, embora ainda mantivesse uma temática mais adulta e alinhada com a aventura. "Olhos de Wakanda" (2025) traz um novo frescor à franquia ao explorar o passado deste reino e lançar a possibilidade de novas histórias serem contadas.

Com vozes de Cress Williams, Patricia Belcher e Lynn Whitfield no elenco de dublagem, a trama foca nos Guerreiros de Wakanda, cuja missão é viajar pelo mundo para resgatar perigosos artefatos feitos de vibranium. Ambientada em diferentes períodos de tempo, a série explora o famoso país de T'Challa e aprofunda ainda mais o Universo Cinematográfico Marvel (MCU).

Diferente de "Marvel Zombies", os realizadores optaram aqui por um visual mais colorido, rico em detalhes e que explora o lado cultural de épocas distintas. O ponto positivo é que cada episódio pode ser apreciado como uma trama independente, mesmo quando, no quarto episódio, revela-se que tudo está conectado através dos artefatos preciosos perdidos na história. Em meio a isso, como não poderia deixar de ser, a série possui diversas cenas de ação e luta, coreografadas de uma forma que o espectador compreenda perfeitamente o que está acontecendo na tela.

Se o estúdio for inteligente, a série pode se tornar uma fonte rica para a criação de diversas histórias distintas em próximas temporadas. O lado ruim é o vício do estúdio em sempre querer interligar o passado com algum evento futuro que já testemunhamos no cinema ou na TV. Ao menos, a principal interligação só é revelada no último minuto do capítulo final, e essa revelação genuinamente me surpreendeu.

"Olhos de Wakanda" é um sopro de ar fresco para os fãs da franquia, provando que nunca é demais exercer a criatividade dentro de um universo já tão estabelecido.

Onde Assistir: Disney+

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sexta-feira, 29 de maio de 2026

Cine Especial: Revisitando 'Mestres do Universo'

É curioso observar que alguns filmes fracassados se tornam cults ao serem revisitados ao longo dos anos. O que leva essas produções a ganharem esse status talvez se deva ao fato de os realizadores não terem se esforçado para obter um orçamento maior, realizando seus projetos com o que tinham à disposição. O resultado acaba gerando produções visualmente precárias, mas nas quais conseguimos sentir a paixão de se fazer cinema vinda dos envolvidos.

Talvez um dos melhores exemplos seja "Plano 9 do Espaço Sideral" (1959), do diretor Ed Wood, apontado por muitos como um dos piores filmes já feitos. Porém, Wood tinha uma obsessão em rodar suas histórias mesmo sem nenhum centavo no bolso, e, por conta disso, sentimos essa persistência em cena. Essa mesma teimosia se fazia presente nos longas produzidos pelo lendário estúdio Cannon Films.

A Cannon tornou-se mítica durante os anos 1980 ao ser comandada pelos primos israelenses Menahem Golan e Yoram Globus. Eles sempre investiam em projetos do gênero de ação onde tudo era exagerado: a violência, as atuações e as inúmeras explosões no decorrer das tramas. São deles, por exemplo, "Braddock: O Super Comando" (1984), "Stallone Cobra" (1986) e "Guerreiro Americano" (1985). Só de lembrar esses títulos já nos desperta certa nostalgia, principalmente para quem os assistiu durante a década de 80, seja em uma sessão do Domingo Maior ou em tempos em que a Sessão da Tarde era bem mais politicamente incorreta.

Com o orçamento curto compensado pelo bom dinheiro vindo das bilheterias e locações ao longo dos anos, o estúdio resolveu dar um passo mais ambicioso. Passaram a apostar em superproduções para atrair o grande público, e um desses projetos mais audaciosos foi justamente "Mestres do Universo" (1987). A produção baseou-se no clássico desenho animado que, por sua vez, nascera para impulsionar as vendas dos brinquedos colecionáveis da Mattel. O sucesso da linha infantil foi gigantesco, e muitos fãs esperavam ver seu herói preferido transposto para o cinema.

Dirigido por Gary Goddard — que curiosamente não comandou mais nenhum longa depois deste —, o filme nos mostra o maquiavélico Esqueleto (Frank Langella) invadindo o Castelo de Grayskull e fazendo da Feiticeira (Christina Pickles) sua prisioneira. O herói He-Man (Dolph Lundgren) e seus aliados Mentor (Jon Cypher), Teela (Chelsea Field) e Gwildor (Billy Barty) acabam sendo enviados à Terra por meio da Chave Cósmica, uma invenção de Gwildor que permite a abertura de portais entre quaisquer pontos do universo. Esqueleto, então, resolve vir ao nosso planeta para recuperá-la. O problema é que o artefato caiu nas mãos da jovem Julie Winston (Courteney Cox) e de seu namorado Kevin (Robert Duncan McNeill), que mal sabem da importância do objeto.

Com um orçamento de 22 milhões de dólares — o que para os padrões modestos do estúdio era uma cifra astronômica —, o filme tornou-se um verdadeiro fracasso na época, arrecadando pouco mais de 16 milhões de dólares durante sua exibição nos cinemas. Contudo, com o passar do tempo, ganhou status de cult à medida que os fãs do desenho lhe deram uma segunda chance.

Porém, é preciso ser muito fã da franquia para não reconhecer o lado nitidamente precário da produção, a começar pela abertura. O Castelo de Grayskull é visivelmente uma maquete, assim como o reino de Eternia, que surge ao fundo da cena antes de ser destruído pelas forças do vilão. Ao que tudo indica, boa parte do orçamento foi investida na construção interna do palácio de Grayskull, apontado na época como um dos maiores cenários já construídos em estúdio.

Logicamente, muita fantasia vista na animação acabou ficando de fora das telas. Os fãs sentiram a ausência do Gato Guerreiro e do atrapalhado Gorpo. Este último exigiria uma quantidade de efeitos especiais que o orçamento não cobriria, forçando os produtores a criarem um novo alívio cômico, o anão Gwildor, que acabou se tornando uma figura central e um tanto forçada na trama. Falando em efeitos visuais, eles já eram considerados datados para a época; vistos hoje, revelam de forma escancarada a maneira artesanal como foram concebidos.

Visualmente, o longa se distancia do desenho e se aproxima muito mais da estética estabelecida pela franquia Star Wars, que era a grande febre do período. Vale destacar que os anos 80 foram recheados de aventuras de fantasia científica, que nos deram pérolas como "Flash Gordon" (1980), "Krull" (1983) e "Willow - Na Terra da Magia" (1988). Curiosamente, enquanto alguns faziam sucesso imediato, outros fracassavam para só obter reconhecimento tardio.

Outro mérito a ser destacado em Mestres do Universo é o seu elenco, a começar por Dolph Lundgren. Na época, ele já era conhecido por seu papel em "Rocky IV" (1985) e buscava um filme que finalmente lhe desse o protagonismo. Fisicamente, ele convencia muito bem como He-Man, mas seu sotaque sueco era tão carregado que os realizadores cogitaram usar um dublador para o ator. A ideia foi descartada, e o resultado final ficou registrado nas telas.

Sorte a nossa que Frank Langella entregou um Esqueleto espetacular, deliciosamente teatral, distante da versão puramente infantil do desenho e nitidamente inspirado no Imperador Palpatine de "O Retorno de Jedi" (1983). Langella aceitou o papel porque seu filho era muito fã da série, e o ator abraçou o projeto com tanta seriedade que, até hoje, menciona o Esqueleto como um dos papéis mais divertidos e marcantes de sua carreira.

Outra presença curiosa é a de Meg Foster como Maligna — uma das atrizes de olhos mais marcantes daquela década, mas que frequentemente caía em produções duvidosas. Porém, a maior surpresa para o espectador contemporâneo é ver Courteney Cox bem antes de sua consagração na série "Friends" e na franquia "Pânico". Curiosamente, é ela quem carrega o maior peso dramático da trama, metendo-se no lugar errado e na hora errada no meio desse embate intergaláctico.

Não é preciso ser um gênio para notar que a vinda dos personagens para a Terra foi uma desculpa de roteiro para economizar no design de produção, já que recriar o universo de Eternia exigiria fundos que a Cannon simplesmente não tinha. O que resta é uma aventura despretensiosa, repleta de tiros de laser, atuações canastronas e lutas de espada. Curiosamente, o clímax entre He-Man e Esqueleto foi filmado logo após o estúdio ordenar o encerramento abrupto das gravações por falta de verba.

Gary Goddard teve que tirar leite de pedra para concluir a obra. Para que a emblemática luta de espadas final acontecesse, o diretor teve que tirar dinheiro do próprio bolso para financiar as filmagens e aproveitar os últimos dias dos atores no set. É nítido, nesse momento, que quase não há cenários ao fundo, pois boa parte do estúdio já havia sido desmontada. É o melhor exemplo de como essa produção se tornou complexa e caótica devido à escassez financeira.

Devido ao fracasso desta e de outras produções subsequentes (como Superman IV), a Cannon Films encerrou suas atividades no início dos anos 1990. Quando olhamos para trás, percebemos o quanto o estúdio foi corajoso ao peitar projetos grandiosos com pouco dinheiro, garantindo sua sobrevivência através do mercado de VHS. O filme do He-Man pode ter sido um dos pregos no caixão do estúdio, mas seu legado permanece intacto.

"Mestres do Universo" é o exemplo perfeito de um fracasso monumental que se transformou em uma deliciosa aventura cult e escapista, feita para não ser levada a sério do começo ao fim.


Onde Assistir: Claro tv+

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