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Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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terça-feira, 18 de agosto de 2026

Cine Dica: Streaming – 'Elize: Sombras de Uma Mulher'

Sinopse: O filme reconta a trajetória de Elize Matsunaga, desde suas origens humildes até o casamento conturbado com o empresário Marcos Matsunaga, culminando no trágico assassinato ocorrido em 2012.

Muitos se perguntam o que leva uma pessoa a cometer um crime hediondo. Longas como "A Menina que Matou os Pais" (2021) e "O Menino que Matou Meus Pais" (2021) debruçaram-se sobre o caso Richthofen, mas acabaram deixando mais dúvidas do que respostas para o público. Já "Elize: Sombras de Uma Mulher" (2026) aborda outro crime que chocou o país, mas sob a perspectiva da própria autora do ato.

Dirigido por Felipe Vellas, o filme retrata a vida de Elize, uma mulher que recorre à prostituição para se sustentar e pagar os estudos. A reviravolta acontece ao se casar com um rico empresário de São Paulo; contudo, o que parecia um conto de fadas logo se transforma em um pesadelo repleto de conflitos que a levam ao limite — cenário que culminaria em um dos crimes mais conhecidos da história recente do Brasil.

O longa pode ser facilmente acusado de parcialidade, já que praticamente toda a narrativa se sustenta na versão apresentada por Elize às autoridades após sua prisão. Em função disso, testemunhamos os fatores que a teriam levado ao ato: desde os abusos sofridos ainda jovem no ambiente familiar até a convivência com as práticas nada saudáveis do marido. Essa construção oferece ao espectador uma dimensão prévia da tragédia anunciada.

Curiosamente, Felipe Vellas opta por expor a cena do crime logo no início, fazendo com que o evento vá e volte na linha temporal. O ato do esquartejamento fica reservado à reta final e só não se torna excessivamente grotesco ou chocante devido aos inteligentes jogos de câmera da direção. Contudo, a força da cena não reside apenas na decupagem técnica, mas também no talento da atriz Lorena Comparato.

Conhecida por seu trabalho na série Impuros, Lorena aceitou um dos maiores desafios de sua carreira ao interpretar uma figura real e complexa, cujas motivações são questionadas até hoje. É instigante observar como a intérprete constrói uma ambiguidade para a personagem: seu olhar revela uma alma partida, incapaz de ser restaurada pelos recursos materiais ao seu redor. Um papel espinhoso, no qual a atriz obtém nítido êxito.

Em suma, o filme expõe os gatilhos que podem conduzir alguém ao caminho sem volta. Não há heróis ou vilões maniqueístas na trama, mas sim pessoas comuns que cometem erros irreversíveis. Se, por um lado, o longa falha ao priorizar de forma quase exclusiva a versão de Elize, por outro, convida à reflexão sobre a nossa própria fragilidade diante dos desgostos da vida — demonstrando que dinheiro algum compra a felicidade quando a realidade ao redor se revela hipócrita.

"Elize: Sombras de Uma Mulher" é um filme sobre um crime hediondo, mas que, sob a superfície do sensacionalismo, ilumina os elementos sombrios de uma tragédia anunciada.


Onde Assistir: Netflix 

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Cine Dica: PROGRAMAÇÃO CINEBANCÁRIOS 20 A 26 DE AGOSTO

 Vencedor da Mostra Tiradentes, ‘Anistia 79’ estreia em 20 de agosto no CineBancários

Dirigido por Anita Leandro, longa-metragem que traz à tona o registro histórico de um grande encontro internacional pela anistia no Brasil, realizado em Roma, divide a programação da cinesemana com ‘Honestino’ e ‘Rio de Clarice’

Depois de conquistar os prêmios de Melhor Filme da competição Olhos Livres e do Júri Popular na Mostra de Cinema de Tiradentes, além do prêmio de Apoio à Distribuição no FID Marseille, Anistia 79, novo longa-metragem de Anita Leandro, chega aos cinemas brasileiros em 20 de agosto, com distribuição da Embaúba Filmes. O CineBancários estreia em sua programação o documentário, que parte de imagens inéditas da Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, realizada em Roma, em junho de 1979. Esses registros históricos do processo de anistia, de grande atualidade, convidam o espectador a julgar os crimes do passado e a elaborar uma memória da ditadura militar.

“Não se trata de um filme temático sobre anistia”, diz a diretora, “mas de um filme sobre a emoção de 11 pessoas que viveram esse processo, diante de imagens de arquivo onde elas aparecem”. Esses registros nos transportam para a plenária do Senado Italiano, que sediou a Conferência Internacional pela Anistia e as Liberdades Democráticas no Brasil, evento que reuniu centenas de exilados brasileiros e defensores de direitos humanos de diversos países, engajados na luta pela anistia e pelo fim da ditadura. Essas imagens, registradas por dois exilados, ficaram guardadas num porão, em Paris, por quase meio século, até que Anita Leandro encontrasse uma cópia do material em cassetes mini-DVs, sem som, em uma biblioteca da Universidade de Nanterre, nos arredores de Paris, especializada em questões políticas da América Latina.

“Assistindo àquelas imagens mal digitalizadas, reconheci personagens importantes da resistência à ditadura militar”, conta a diretora. “A bibliotecária me colocou, então, em contato com Hamilton Lopes dos Santos, o autor do material de arquivo”. Exilado em Paris, durante a ditadura, Hamilton alugou uma câmera, reuniu uma pequena equipe e partiu para Roma, sem dinheiro e sem experiência em cinema, movido apenas pela vontade de deixar um registro do evento para as gerações futuras. Durante três dias, ele filmou a Conferência Internacional pela Anistia. São quase duas horas de material, rodado em 16mm, preto e branco, com um som cristalino, que oferece ao momento presente um balanço emocionante de uma história de muita luta. 

Anistia 79 mostra esse material a pessoas que aparecem nas imagens e registra suas reações diante desses vestígios do passado. As filmagens são um diálogo entre passado e presente, que se prolonga na mesa de montagem. Graças a essa circularidade do tempo, o debate sobre a anistia desencadeado nos anos 70 chega até nós em toda a sua atualidade, chamando a atenção para a manutenção do aparato repressivo da ditadura e a impunidade dos torturadores e militares responsáveis por crimes contra a humanidade. Para o jornalista Felipe Lott, do Le Monde Diplomatique, este filme, “não apenas descerra as portas do mundo, onde a canção foi decepada, como também permite a abertura do nosso porão interno, fechado a sete chaves”.

O novo longa de Anita Leandro dialoga diretamente com Retratos de Identificação (2014), onde ela reconstitui a trajetória da exilada Maria Auxiliadora Lara Barcellos, desde sua prisão e tortura até o suicídio, no exílio, em Berlim. Em Anistia 79, outra vítima da ditadura ocupa o centro da narrativa: Denise Crispim. As imagens de seu depoimento no Tribunal Bertrand Russell II, em 1974, abrem o filme. Presa e torturada quando estava grávida, Denise não consegue falar e seu testemunho é lido por um jurista. Quatro anos antes, seu marido, o combatente Eduardo Leite, conhecido como “Bacuri", havia sido preso, torturado por mais de 100 dias e assassinado no DOPS de São Paulo por agentes do Estado. Décadas depois, Anita Leandro vai ao encontro de Denise para mostrar-lhe, não essas imagens do Tribunal, que ela já conhecia, mas outras, inéditas, atravessadas pela esperança no futuro, as imagens da Conferência de Roma, onde ela aparece ao lado da filha, Eduarda, uma linda criança, sorridente, que nasceu na prisão e encontrou refúgio no exílio, em Roma.


PROGRAMAÇÃO CINEBANCÁRIOS DE 20 A 26 DE AGOSTO


ESTREIA:


ANISTIA 79

Brasil/Documentário/105min.

Direção: Anita Leandro

Sinopse: Roma, junho de 1979. Exilados brasileiros filmam a Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, o maior encontro da esquerda brasileira fora do país. Quase meio século depois, essas imagens reacendem o debate sobre a manutenção do aparato repressivo da ditadura e a impunidade dos torturadores.


EM CARTAZ:


RIO DE CLARICE

Brasil/Drama/2025/

Direção: Taciana Oliveira, Barbara Kahane, Eunice Gutman, Nicole Allgranti e Maria Luiza Aboim.

Sinopse: Longa-metragem brasileiro que adapta cinco contos clássicos de Clarice Lispector para o cinema. O filme foi dirigido por uma equipe de cinco cineastas mulheres e explora temas como família, identidade, desejo e epifanias femininas. A obra é composta por cinco segmentos independentes:

Amor (dirigido por Taciana Oliveira): A clássica história da epifania de uma dona de casa que, da janela do ônibus, vê um homem cego mascando chiclete. Preciosidade (dirigido por Barbara Kahane): Retrata a trajetória de uma jovem em processo de amadurecimento após lidar com a ausência paterna e um episódio de violência/assédio. Mal-estar de um Anjo (dirigido por Eunice Gutman): Um mergulho psicológico na vida de uma mulher que, após uma sessão de terapia, é confrontada por conflitos internos. A Bela e a Fera ou uma Ferida Grande Demais (dirigido por Nicole Allgranti): Abordagens sobre a dualidade, o desejo e a essência feminina através da lente única da autora. Feliz Aniversário (dirigido por Maria Luiza Aboim): Uma reunião familiar tensa e dramática pelos 89 anos de Dona Anitta, revelando mágoas e fissuras nas relações.

Elenco: Letícia Spiller, Letícia Isnard, Louise Cardoso, Lucélia Santos e Hugo Bonemer



HONESTINO


Brasil/Documentário-Drama/2025/ 86min.

Direção: Aurélio Michiles

Sinopse: Fusão entre documentário e ficção, o filme conta a história de Honestino Guimarães, líder estudantil da geração 1968, presidente da UNE e aluno da UnB. Preso cinco vezes por sua militância, Honestino foi sequestrado em 1973, aos 26 anos, e é uma das centenas de desaparecidos da ditadura militar. Baseado em cartas, poemas e imagens de arquivo, dezenas de depoimentos de familiares, amigos e militantes e cenas interpretadas por Bruno Gagliasso. 

Elenco: Bruno Gagliasso


HORÁRIOS DE 20 A 26 DE AGOSTO

(não há sessões nas segundas)


15h: RIO DE CLARICE

17h: HONESTINO

19h: ANISTIA 79


Ingressos

Os ingressos podem ser adquiridos a R$ 14 na bilheteria do CineBancários. Idosos (as), estudantes, bancários (as), jornalistas sindicalizados (as), portadores de ID Jovem e pessoas com deficiência pagam R$ 7. São aceitos cartões nas bandeiras Banricompras, Visa, MasterCard e Elo. Nas quintas-feiras, a meia-entrada (R$ 7) é para todos e todas.



CineBancários

Rua General Câmara, 424 – Centro – Porto Alegre

Mais informações pelo telefone (51) 3030.9405 ou pelo e-mail cinebancarios@sindbancarios.org.br


Amanda Zulke 

CineBancários | SindBancários 

(51) 3030-9400 | (51) 99920-6484

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Cine Dica: Em Cartaz — 'FUTURO FUTURO'

Sinopse: K., um homem sem memória, é acolhido por um trabalhador solitário em um bairro empobrecido de Porto Alegre. Castigada por chuvas incessantes, a cidade serve de cenário para uma realidade de desigualdade extrema e inteligência artificial avançada.

Diferente do que muitos imaginam, o cinema brasileiro conta com uma rica tradição de produções que exploram questões universais através da ficção científica. Títulos recentes como "Bacurau" (2019) e "O Último Azul" (2025) usam o gênero para projetar e refletir sobre os dilemas políticos de um Brasil historicamente instável. Em "Futuro Futuro" (2026), quarto longa escrito e dirigido pelo gaúcho Davi Pretto, essa premissa ganha um contorno singular ao incorporar traumas coletivos e recentes do nosso cotidiano à narrativa.

A trama se passa em um futuro próximo, em uma quebrada distópica de Porto Alegre onde a tecnologia de inteligência artificial, embora avançada, está ao alcance das classes populares. O elemento central dessa presença é um assistente virtual — no estilo da Alexa —, cuja interface emite uma chamativa luz vermelha. É nesse ambiente que acompanhamos K. (Zé Maria Pescador), um homem desmemoriado acolhido por um velho clickworker solitário (João Carlos Castanha).

K. sofre de "neurodeflação súbita", uma erosão cognitiva de causas desconhecidas que provoca distúrbios neurológicos severos, como a perda da capacidade de formular imagens mentais e a amnésia total. Embora a narrativa dialogue com tropos clássicos da ficção científica já explorados no cinema e na literatura, Pretto utiliza a distopia para construir uma profunda reflexão sobre o momento presente e as crises imprevisíveis que passamos a enfrentar.

A enchente devastadora que assolou o Rio Grande do Sul em 2024, por exemplo, é integrada à diegese da obra, reforçando que a tragédia climática permanece um problema urgente e contínuo. Ao entrelaçar esse trauma à trama tecnológica, Davi Pretto entrega um longa que se desacopla do padrão das grandes produções nacionais recentes, assumindo o papel de um verdadeiro "estranho no ninho". Essa sensação de inadequação sintetiza a própria jornada de K., que busca apenas encontrar um lugar em um mundo cujo amanhã parece completamente incerto.

Consagrado no Festival de Cinema de Brasília de 2025 com quatro prêmios do Júri — Melhor Filme, Roteiro, Montagem e uma Menção Especial para a atuação de Zé Maria Pescador —, o longa também se destaca pelo rigor estético. A fotografia saturada em tons avermelhados transforma Porto Alegre em um cenário claustrofóbico e desconfortável, revelando uma sociedade perdida em sua própria dependência tecnológica e gradativamente desconectada da sua humanidade.

"Futuro Futuro" é um "peixe fora d'água" no panorama do cinema brasileiro contemporâneo — e é justamente por essa coragem de fura-bolhas que merece ser visto.


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Cine Dica: Telas do Medo

 INSCRIÇÕES ABERTAS

Curso

TELAS DO MEDO: O QUE O HORROR NOS ENSINA?

de Lucas Bitencourt Fortes

* Datas: 12 e 13 / Setembro (sábado e domingo)

* Local: Cinemateca Capitólio (Rua Demétrio Ribeiro, 1085 - Centro - Porto Alegre - RS)

* Horário: 14h30 às 17h30


Apresentação

O Cinema de Horror consolidou-se, ao longo de sua história, como um dos gêneros cinematográficos mais expressivos da cultura contemporânea. Muito além do entretenimento, suas narrativas dialogam com medos, tensões, conflitos e transformações sociais, convertendo-se em importantes espaços de produção de significados sobre o mundo. Monstros, epidemias, fantasmas, psicopatas, criaturas sobrenaturais e cenários apocalípticos não constituem apenas elementos ficcionais, mas também formas simbólicas por meio das quais diferentes sociedades expressam inquietações relativas a questões políticas, econômicas, culturais e de identidade.

Objetivos

O curso Telas do Medo: O Que o Horror nos Ensina?, ministrado por Lucas Bitencourt Fortes, vai analisar o potencial pedagógico presente nas produções cinematográficas do gênero de Horror, compreendendo-as como pedagogias culturais que produzem significados, ensinam modos de compreender o mundo e participam da constituição de identidades, diferenças e formas de subjetivação.


Informações / Inscrições

https://cinemacineum.blogspot.com/2026/08/telas-do-medo.html

domingo, 16 de agosto de 2026

Cine Especial: Próximo Cine Debate – 'Steve'

Sinopse: É um dia decisivo na vida de Steve (Cillian Murphy), o dedicado diretor de um reformatório inglês nos anos 90.

Tim Mielants é um cineasta belga que construiu uma sintonia notável ao dirigir Cillian Murphy. Após trabalharem juntos na terceira temporada de "Peaky Blinders" (2013-2022) e na adaptação de "Pequenas Coisas Como Estas" (2024), a parceria se repete em "Steve" (2025). Aqui, o diretor extrai ao máximo o talento do ator em meio a uma trama que coloca todos os personagens à beira de um ataque de nervos e rebeldia.

Com roteiro assinado por Max Porter, inspirado em seu próprio livro (Shy), acompanhamos um único dia na vida do protagonista Steve (Cillian Murphy), diretor de um reformatório inglês na década de 1990. Enquanto tenta proteger a integridade da instituição e evitar o seu iminente fechamento, ele enfrenta a deterioração de sua própria saúde mental, esgotada pela exaustão e pelas exigências do trabalho. Em paralelo aos esforços de Steve, o jovem Shy (Jay Lycurgo) lida com os traumas do passado e a escassez de perspectivas para o futuro.

O subgênero de filmes ambientados em reformatórios não é novidade na história do cinema. Infelizmente, algumas obras acabam passando despercebidas pelo grande público, como o elogiado "O Reformatório Nickel" (2025). "Steve", contudo, conta com a vantagem de ser estrelado por um ator vencedor do Oscar — embora a narrativa entregue muito mais do que apenas um grande nome no elenco.

Para começar, Mielants não poupa esforços para nos imergir naquele cenário — por vezes acolhedor, por vezes infernal. Sua câmera desliza com facilidade por corredores, salas de professores e salas de reunião, onde as discussões se tornam cada vez mais acaloradas à medida que o tempo avança. O filme explora a virtude daqueles profissionais em querer ajudar os jovens, evidenciando o contraste com a omissão governamental, mais interessada em mover as engrenagens do sistema do que em investir em uma educação que acolha os excluídos.

Por conta disso, vemos um belo casamento entre a direção e o elenco. Cillian Murphy se entrega ao personagem de corpo e alma; sua obsessão em ajudar aqueles garotos levanta questionamentos no espectador, mas aos poucos compreendemos suas motivações e o motivo de seu ritmo incansável mesmo quando tudo parece ruir. Quando detalhes de seu passado vêm à tona, percebemos que Steve não é apenas uma figura virtuosa, mas alguém em busca de redenção para aplacar seus próprios fantasmas.

Vale destacar também o excelente elenco jovem. A obra explora uma estética quase documental inserida na ficção, conferindo um tom ainda mais cru e naturalista às cenas. Nota-se que parte das sequências nasce do improviso, onde os atores reagem organicamente à urgência do ambiente — aquele espaço que representa, ao mesmo tempo, uma segunda chance e a iminência do declínio. O destaque vai para Jay Lycurgo, que protagoniza momentos angustiantes e leva os personagens ao seu redor a testarem os próprios limites.

Em suma, o filme é um belo exemplo de direção autoral aliada a atuações entregues e viscerais. Resta aguardar a próxima colaboração entre Tim Mielants e Cillian Murphy, parceria que continua rendendo obras marcantes. Em "Steve", caminhamos lado a lado com o protagonista para adentrar seus conflitos e sua constante busca pela paz de espírito.


Onde Assistir: Netflix

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Cine Dica: Próximo Cineclube Torres - 'O Cheiro da Papaia Verde'

 Sessão do Cineclube Torres de segunda-feira, dia 17 às 20h, com o filme franco-vietnamita "O cheiro da papaia verde" (1993) de Tran Anh Hung.

O filme encerra o ciclo de filmes de julho com protagonistas femininas ligadas a trabalhos de limpeza e faxinas, na Sala Audiovisual Gilda e Leonardo. Mui trabalhou a vida inteira como empregada. O seu último e mais recente trabalho foi em uma família muito rica da alta sociedade chinesa. Agora, anos depois, ela é casada com um pianista e pouco se lembra dos tempos difíceis da juventude. Mas tem uma coisa que a faz sempre relembrar do passado: o cheiro do mamão papaia verde.

Serviço:

O que: Exibição do filme "O Cheiro da Papaia Verde" (1993) de Tran Anh Hung (França/Vietnam)

Onde: Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, junto à escola Up Idiomas, Rua Cincinato Borges 420, Torres

Quando: Segunda-feira, 17/8, às 20h

Ingressos: Entrada Franca, até lotação do local (aprox. 22 pessoas).


Cineclube Torres

Associação sem fins lucrativos

Ponto de Cultura – Lei Federal e Estadual Cultura Viva

Ponto de Memória – Instituto Brasileiro de Museus

Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística - Cadastur


CNPJ 15.324.175/0001-21

Registro ANCINE n. 33764

Produtor Cultural Estadual n. 4917

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Cine Especial: Revisitando 'A Hora da Zona Morta'

Muitos filmes que assisti quando criança me marcaram bastante, principalmente pelo fato de eu não estar preparado para eles. Em alguns casos, foram longas que vi no Supercine, da Rede Globo, e que assisti acompanhado de minha mãe, que fazia questão de estar ao meu lado nessas sessões. "A Hora da Zona Morta" (The Dead Zone, 1983) foi um desses títulos que me pegaram desprevenido e que, com o passar do tempo, só cresceram na minha memória.

Dirigido pelo mestre David Cronenberg e baseado na obra de Stephen King, o filme conta a história de Johnny Smith (Christopher Walken), um professor de literatura prestes a se casar que sofre um grave acidente de carro e fica cinco anos em coma. Ao recobrar a consciência, descobre que perdeu sua carreira e sua noiva, Sarah Bracknell (Brooke Adams). Em contrapartida, adquiriu poderes paranormais que lhe permitem ver o futuro. Ele passa a ter a capacidade de alterar o curso dos acontecimentos, o que estabelece seu grande dilema: interferir ou sofrer sozinho ao antever as tragédias prestes a acontecer?

Entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980, as obras literárias de Stephen King eram adaptadas em profusão para o cinema, alcançando enorme sucesso — movimento impulsionado pelo impacto de "Carrie, a Estranha" (1976). No entanto, ficou célebre o atrito entre o escritor e o diretor Stanley Kubrick ao adaptar "O Iluminado" (1980), já que o longa se distanciou da fonte original para se tornar uma obra mais autoral do cineasta do que do próprio autor. Esperava-se, portanto, que a direção de David Cronenberg pudesse ter um destino semelhante, mas não foi exatamente o que ocorreu.

Vindo de uma carreira construída com produções autorais marcantes, como "Videodrome - A Síndrome do Vídeo" (1983), assumir uma adaptação de um escritor tão popular poderia não parecer o território mais propício para um realizador de estilo tão vincado. Contudo, é fascinante notar como o longa funciona perfeitamente como adaptação. Quem leu o livro reconhecerá diversas passagens transpostas fielmente para a tela, ainda que certas tramas tenham sido sintetizadas — caso do romance entre o protagonista e sua noiva, que teve o tempo de tela reduzido. A meu ver, o realizador optou por focar na dimensão humana de um homem que acorda do coma após anos e descobre um dom que pode ajudar os outros, mas ao custo de um fardo devastador.

Em vez de adentrar o gênero fantástico de forma imediata, Cronenberg prefere ancorar os personagens em um território de forte realismo dramático. Por conta disso, nos simpatizamos genuinamente com o protagonista: temos tempo de conhecê-lo antes do famigerado acidente. A partir do momento em que ele acorda, ficamos cada vez mais intrigados com suas dores e com os limites a que esse dom o levará.

Com uma estética de contornos góticos — muito característica do suspense e do horror da época —, o longa ostenta um visual elegante e mórbido que continua a fascinar. Não envelheceu; pelo contrário, apurou-se como um bom vinho. Destaco a sequência em que o protagonista investiga o assassinato de uma jovem em uma praça, cuja revelação sobre o culpado choca até hoje. Lembro-me perfeitamente do impacto da cena da tesoura — e quem já assistiu ao filme sabe do que estou falando.

Vindo de uma ascensão meteórica após ser agraciado com o Oscar de Ator Coadjuvante por "O Franco Atirador" (1978), Christopher Walken nos brinda com uma interpretação marcante. Seu Johnny Smith é uma figura tragicamente presa a uma dádiva que só lhe traz dor, enquanto busca desesperadamente entender o propósito de sua condição. Curiosamente, a resposta para o seu tormento surge na figura do candidato a presidente Greg Stillson.

Era o início dos anos 1980, e o mundo ainda vivia sob a sombra da Guerra Fria. O presidente era Ronald Reagan, ex-ator que prometia uma nova utopia ao povo americano enquanto desgastava a nação em conflitos geopolíticos e econômicos. O Greg Stillson apresentado na trama não é apenas uma caricatura megalomaníaca do cenário reaganista, mas também um anteparo profético de lideranças populistas e de extrema-direita, tornando esse trecho do filme mais atual do que nunca. Martin Sheen brilha ao interpretar um sujeito consumido por suas próprias ambições, mestre em persuadir uma multidão sedenta por falsas promessas.

O desfecho surge de forma abrupta, porém extremamente corajosa para os padrões da época, marcando profundamente minha infância. Vale lembrar que o livro ganhou outra adaptação anos mais tarde, desta vez para a TV na série "O Vidente" (2002–2007), embora sem alcançar o status cult que o filme de Cronenberg consolidou com o tempo. Outra curiosidade instigante: no início do longa, Johnny sugere aos seus alunos a leitura de "A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça"; anos depois, em 1999, o próprio Christopher Walken interpretaria o lendário vilão na adaptação dirigida por Tim Burton.

Lançado no Brasil em uma apurada edição física pela Obras Primas do Cinema, "A Hora da Zona Morta" é um verdadeiro sobrevivente ao teste do tempo — e uma daquelas obras inesquecíveis que marcaram a minha juventude.


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