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Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Cine Especial: Clube de Cinema - 'Corra Lola, Corra'

 Nota: Filme exibido para os associados no dia 15/08/26.

Os anos noventa foram a era de ouro para aqueles que curtiam a MTV, canal que exibia os mais diversos videoclipes que entraram para a história. Foi através desse período que muitos diretores começaram a carreira na direção musical, como David Fincher e Spike Jonze. Porém, além daqueles que migraram dessa área, houve também cineastas que buscavam inspiração na estética dos videoclipes para realizar seus longas-metragens para o cinema.

Vale salientar que isso não se restringiu aos EUA, espalhando-se pelo mundo. Na Alemanha, por exemplo, surgiram realizadores que começaram a fazer filmes experimentais, explorando não só a linguagem rápida ao estilo MTV, mas também utilizando as primeiras câmeras digitais em um período de transição entre o analógico e o digital. Nessa época surgiu Tom Tykwer, cineasta que filmava curtas-metragens desde os onze anos de idade e que, em 1998, lançou "Corra Lola, Corra" — um dos filmes que melhor sintetizou a fusão da linguagem do videoclipe com o universo da sétima arte.

Na trama, Manni (Moritz Bleibtreu), o coletor de uma quadrilha de contrabandistas, esquece no metrô uma sacola com 100.000 marcos e acaba sendo roubado por um mendigo. Ele tem apenas 20 minutos para recuperar o dinheiro ou será morto pelo seu chefe, Ronnie. Sem opção, Manni telefona para Lola (Franka Potente), sua namorada, que vê como única solução pedir ajuda ao pai (Herbert Knaup), presidente de um banco. Assim, Lola corre pelas ruas de Berlim, mas algo inesperado acontece em sua jornada.

O loop temporal (ou laço temporal) é um recurso da ficção em que um período específico de tempo se repete. Quando um limite de tempo é atingido, tudo reinicia e volta ao ponto de partida. No cinema, esse recurso narrativo já foi usado em diversos longas, do drama à comédia. "Feitiço do Tempo" (1993) foi um dos precursores desse formato e serviu de grande influência ao longo da década de noventa.

Embora parta de uma premissa similar, Tom Tykwer faz um trabalho completamente diferente aqui: ele pega apenas vinte minutos de história e os apresenta de três formas distintas, mostrando como qualquer passo em falso faz com que Lola e as pessoas com quem ela cruza tenham destinos completamente diferentes. Vemos Lola correndo em direção ao pai em três ocasiões; quando algo dá errado, o tempo "reseta" para recomeçar tudo do zero em uma nova chance. É como um jogo de videogame em que o personagem morre, ocorre o game over, mas logo se ganha uma nova vida para tentar novamente.

É curioso notar o que acontece quando Lola cruza com determinados personagens — seja uma senhora conservadora irritada ou um rapaz de bicicleta querendo vendê-la. Dependendo de como se dá esse encontro, os destinos dessas pessoas mudam drasticamente em cada versão, mostrando que basta uma pequena ação para alterar os rumos de uma vida. Isso nos é apresentado por meio de fotografias em flash-forward inseridas rapidamente, com uma edição frenética.

Todo o filme segue esse ritmo acelerado, combinando uma montagem dinâmica a passagens em desenho animado e uma trilha sonora techno contagiante (da qual a própria Franka Potente cantou algumas faixas). O uso das primeiras câmeras digitais fica evidente em cenas como a conversa entre o pai da protagonista e sua amante no escritório. Nesses momentos, a imagem assume uma textura mais precária, revelando como os realizadores ainda estavam aprendendo a manejar essa nova ferramenta e a incorporá-la à linguagem cinematográfica.

Se por um lado esse aspecto do vídeo envelheceu com as marcas de seu tempo, por outro o filme continua mais fresco do que nunca. É um dos trabalhos mais dinâmicos do período ao equilibrar ação, ficção e boas doses de reflexão. Correndo quase sem parar, Franka Potente entrega uma atuação marcante na pele da personagem que percorre pontos conhecidos de uma Berlim ainda em metamorfose após a queda do muro. Lola cruza tanto com gerações acostumadas com o país dividido quanto com jovens que cresceram sob um novo mundo e promessas nem sempre cumpridas.

Sob uma ótica interpretativa, o longa oferece múltiplas leituras: desde a possibilidade de obter uma segunda chance na vida até a importância de tomar decisões para alcançar o nosso melhor. A cena em que Lola dá a mão a um homem sofrendo um ataque cardíaco dentro de uma ambulância não serve apenas para acalmá-lo, mas funciona como sua própria redenção particular nessa cruzada contra o tempo. Ao final, testemunhamos uma recompensa selada, deixando os personagens diante de um futuro aberto e indefinido.

"Corra Lola, Corra" permanece como um dos mais belos e autênticos representantes da geração MTV, tendo se tornado um clássico cult atemporal.

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Cine Dica: Clube de Cinema: "Sangue Ruim" (22/08) na Cinemateca Paulo Amorim

Neste sábado (22/08), às 10h15 da manhã, o Clube de Cinema de Porto Alegre promove uma sessão do filme Sangue Ruim, de Leos Carax, protagonizado por Denis Lavant e Juliette Binoche.

Segundo longa-metragem de Carax, Sangue Ruim combina elementos de ficção científica, cinema noir e referências à Nouvelle Vague para construir uma história de amor atravessada por uma epidemia peculiar: um vírus que atinge aqueles que se relacionam sem estar apaixonados. Celebrado por seu experimentalismo e momentos de grande impacto visual, o filme acompanha personagens movidos por desejos, hesitações e relações instáveis em um cenário marcado pela paixão, pelo crime e pelo desencanto.


Confira os detalhes da sessão:


SESSÃO DE SÁBADO NO CLUBE DE CINEMA

📅 Data: Sábado, 22/08, às 10h15 da manhã

📍 Local: Sala Eduardo Hirtz – Cinemateca Paulo Amorim

Casa de Cultura Mário Quintana – Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico, Porto Alegre

Sangue Ruim (Mauvais sang)

França, 1986, 119min

Direção e roteiro: Leos Carax

Elenco: Denis Lavant, Juliette Binoche, Michel Piccoli, Julie Delpy

Sinopse: Em uma Paris afetada por uma epidemia que contamina aqueles que fazem sexo sem amor, Alex é procurado pelos antigos parceiros criminosos de seu pai para participar do roubo de um soro experimental. Ao abandonar a namorada Lise e se envolver no plano, ele conhece Anna, por quem se apaixona, enquanto a missão o conduz ao submundo do crime.


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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Cine Dicas: Estreias do Final de Semana (20/08/26)

SÓ POR UMA NOITE

Sinopse: Owen, que acabou de ser abandonado em seu relacionamento, e a romântica e esperançosa Allie podem ser os únicos solteiros na cidade em busca de algo além de um encontro casual. Ambos sentem uma conexão especial quando se conhecem, mas uma série de desencontros e situações paralelas complicam a noite, mantendo-os separados.


SOBRENATURAL - AGORA ENTRE NÓS

Sinopse: Gemma é uma jovem mãe que cria sua filha na casa onde cresceu e descobre que pode viajar para O Além. Quando algo maligno passa a persegui-la, Gemma descobre uma habilidade que muda tudo: ela não apenas entra em O Além — ela pode trazer o que vive lá de volta ao mundo real. 


AMIGAS SEM FILTRO

Sinopse: Três amigas planejam um fim de semana de descanso em um spa de luxo, mas tudo sai do controle quando a integrante mais imprevisível do grupo aparece sem avisar.


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Cine Dica: Newsletter Cinemateca Capitólio - 20 a 26 de agosto de 2026

Cinema brasileiro, memória e visibilidade lésbica em destaque na Cinemateca Capitólio

Após uma breve pausa, a Cinemateca Capitólio retoma sua programação nesta quinta-feira (20) com uma semana que reúne cinema brasileiro contemporâneo, debates, lançamentos e sessões especiais. Entre os destaques estão o retorno de Futuro Futuro, de Davi Pretto, e Os Ruminantes, de Tarsila Araújo e Marcelo Cordeiro de Mello, além de uma programação especial dedicada à visibilidade lésbica, com os filmes Ferro’s Bar e The Watermelon Woman, e sessão gratuita de Solange seguida de debate com o diretor.


Futuro Futuro retorna à programação com sessão especial e debate

Vencedor do Troféu Candango de Melhor Longa-Metragem na Mostra Competitiva do Festival de Brasília em 2025, Futuro Futuro, de Davi Pretto, retorna à programação da Capitólio em novo horário, às 15h. Na quarta-feira (26), às 19h, o filme ganha uma sessão especial seguida de debate com o diretor e integrantes do elenco, que irão conversar sobre os processos criativos da obra e as relações entre direção e atuação.


Os Ruminantes revela uma história inédita do cinema brasileiro

Mais recente estreia da Capitólio, Os Ruminantes, de Tarsila Araújo e Marcelo Cordeiro de Mello, recupera a história por trás do roteiro de A Hora dos Ruminantes, escrito em 1967 por Luiz Sergio Person e Jean-Claude Bernardet. O projeto, radical tanto em sua proposta estética quanto política, jamais chegou a ser filmado. Exibido em importantes festivais, como o É Tudo Verdade e a Mostra Competitiva do CineOP, o documentário apresenta documentos inéditos e confidenciais preservados no Arquivo Nacional, estabelecendo um diálogo entre a história do projeto cinematográfico, a Ditadura Militar brasileira e Hollywood.


Dia Nacional da Visibilidade Lésbica e 12ª Jornada Lésbica Feminista

A programação desta semana também marca o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica e integra a 12ª Jornada Lésbica Feminista, reafirmando a importância da ocupação dos espaços públicos e culturais como forma de preservar memórias e fortalecer a visibilidade lésbica. A programação presta homenagem à memória de Luana Barbosa, mulher negra, lésbica e periférica, assassinada há dez anos.

Na quinta-feira (20), às 19h, uma sessão especial de Ferro’s Bar, produzido pelo Cine Sapatão, será seguida pelo lançamento do livro Na Noite Lésbica: O Levante do Ferro’s Bar, de Julia Kumpera. O encontro contará com a presença da autora, de Rita Quadros, diretor do filme, e terá mediação de Nanni Rios e Leila Lopes.

Na sexta-feira (21), às 19h, a Capitólio recebe uma sessão gratuita de The Watermelon Woman, cultuado filme dirigido e protagonizado por Cheryl Dunye. O longa permanece em cartaz em mais três sessões, nos dias 22, 23 e 26, com ingressos pagos.

Solange tem sessão gratuita seguida de debate

Na terça-feira (26), às 19h, o premiado longa-metragem curitibano Solange, dirigido por Nathália Tereza e Tomás von der Osten, ganha uma sessão única e gratuita na Cinemateca Capitólio. O filme, que passou por importantes festivais internacionais, entre eles o New York African Film Festival, será seguido de debate com Tomás von der Osten, que estará em Porto Alegre especialmente para a sessão. Um dos destaques da produção é a atuação de Cássia Damasceno, que interpreta a protagonista.

Confira a programação completa no site oficial da cinemateca clicando aqui. 

Cine Dica: Cinesemana de 20 a 26 de agosto de 2026

A cinesemana de 20 a 26 de agosto marca a estreia da produção mais recente do festejado diretor Gus Van Sant, que em REFÉM POR UM FIO encena um drama policial que paralisou os Estados Unidos na década de 1970. Outra novidade é AS CORES DO TEMPO, trama na qual o diretor francês Cédric Klapisch proporciona uma delicada viagem pelo tempo a partir das memórias de uma jovem que viveu em Paris no final do século XIX.

Sucesso de público, ACAMPAMENTO MIASMA: SEXO, ADOLESCÊNCIA E MORTE, é um filme de terror slasher dirigido por Jane Schoenbrun, enquanto outro favorito do público é O CONVITE, da diretora Olivia Wilde, sobre dois casais que discutem as relações. Seguem em cartaz HONESTINO, misto de documentário e ficção que recupera a trajetória de Honestino Guimarães, líder estudantil sequestrado pela ditadura militar brasileira, e também CHAMPAGNE: UMA VIAGEM DE PAI E FILHO, do diretor holandês Tim Kamps, que faz um relato emocionante do reencontro entre um pai doente e seu filho distante.

Esta é a última semana para conferir A PROFESSORA DE PIANO, parceria da atriz Isabelle Huppert com o diretor Michael Haneke e que completa 25 anos; e também os longas FRANZ, da polonesa Agnieszka Holland, e UMA INFÂNCIA ALEMÃ, do diretor Fatih Akin. 

Confira a programação completa no site oficial da cinemateca clicando aqui. 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Cine Dica: Streaming – 'Cabo do Medo'

Sinopse: Ex-presidiário sai da prisão para se vingar da advogada que o defendeu.

"Cabo do Medo" (1991), do mestre Martin Scorsese, é uma verdadeira obra-prima do gênero suspense, cuja atuação monstruosa de Robert De Niro assombrou uma geração inteira. Baseado na obra do escritor John D. MacDonald, lançada em 1957, o romance havia sido levado pela primeira vez ao cinema em 1962, dirigido por J. Lee Thompson e estrelado por Gregory Peck como o advogado Sam Bowden e Robert Mitchum como o psicopata Max Cady. Agora, eis que chega a versão em minissérie pela Apple TV+, que surpreende por sua fidelidade à fonte original, mesmo tendo sido atualizada para os novos tempos.

Criada por Nick Antosca e produzida pelo próprio Martin Scorsese ao lado de Steven Spielberg, a trama gira em torno da família de um casal de advogados que começa a ser ameaçada quando o criminoso que ajudaram a condenar sai da prisão em busca de vingança. Uma vez solto, Max Cady (Javier Bardem) decide transformar a vida de sua ex-advogada Anna (Amy Adams) e do promotor Tom Bowden (Patrick Wilson) em um verdadeiro inferno. Para piorar, os filhos do casal acabam sendo seriamente atingidos por esse evento.

Ouvira com muita desconfiança sobre essa nova versão, mas logo me interessei ao saber que Scorsese estava envolvido no projeto. O resultado é uma minissérie que respeita sua fonte e, principalmente, o legado que o filme de 1991 construiu, mantendo até mesmo a trilha sonora assustadora composta por Bernard Herrmann para a primeira versão do clássico de 1962. O resultado, porém, não é mero saudosismo, mas um belo exemplo de que histórias do passado podem sim ser recontadas para os novos tempos, desde que conduzidas com maestria.

Além de uma direção segura, autoral e que remete aos truques de câmera operados por Scorsese em sua versão pessoal, a minissérie obtém seu maior êxito através do elenco. Amy Adams se sai bem como a versão feminina da defensora de Max no passado — que, por um motivo obscuro, deixou que ele fosse condenado pelo promotor e agora seu marido, brilhantemente interpretado por Patrick Wilson. Ambos possuem uma química curiosa, sem esconder que seus respectivos personagens guardam segredos nas entrelinhas que aos poucos são revelados no decorrer dos episódios.

Destaque também para a atuação dos jovens atores que interpretam os filhos, sendo Lily Collias um talento a ser observado de perto em futuros projetos. Porém, a minissérie pertence a Javier Bardem, que se entrega a uma atuação tão assustadora quanto a de Robert De Niro. Se em "Onde Os Fracos Não Têm Vez" (2007) Bardem nos assustava na pele de um inesquecível matador profissional, aqui ele nos assombra por sua capacidade de persuasão, fazendo com que todos caiam em seu jogo maléfico.

Curiosamente, a série dá espaço para algumas subtramas, como o surgimento de uma filha misteriosa de Max e de outros parentes que nos dão a dimensão de como sua infância foi complexa. Ponto alto para o retorno da atriz Juliette Lewis — que deu vida à jovem filha do casal na versão de 1991 — interpretando aqui uma personagem misteriosa com forte ligação com Max. Não é preciso ser um gênio para notar que, além dela, outros elementos remetem ao clássico original, como a presença do barco, utilizado porém em um momento de tensão inédito.

Se há um ponto falho a destacar, é justamente o final. No decorrer dos episódios, a trama flui de forma bastante fresca, mesmo para quem já conhece a história, escapando de comparações diretas com as versões anteriores. Infelizmente, o último episódio falha ao mimetizar por demais o desfecho do clássico de 1991, como se os realizadores fossem obrigados a isso, quando poderiam ter optado por algo mais criativo.

Isso faz com que a minissérie termine meio em aberto, sugerindo uma possível continuação. A meu ver, é um risco desnecessário: o conto possui começo, meio e fim bem amarrados e, ao inventar novos desdobramentos, corre o sério risco de se tornar repetitivo. Ainda assim, com o sucesso da produção, não me surpreenderia ver Max retornando do inferno mais uma vez.

"Cabo do Medo" é uma grata surpresa para os amantes do clássico de Scorsese, funcionando perfeitamente para os dias atuais e surpreendendo por suas incríveis atuações.


Onde Assistir: Apple TV. 

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terça-feira, 18 de agosto de 2026

Cine Dica: Streaming – 'Elize: Sombras de Uma Mulher'

Sinopse: O filme reconta a trajetória de Elize Matsunaga, desde suas origens humildes até o casamento conturbado com o empresário Marcos Matsunaga, culminando no trágico assassinato ocorrido em 2012.

Muitos se perguntam o que leva uma pessoa a cometer um crime hediondo. Longas como "A Menina que Matou os Pais" (2021) e "O Menino que Matou Meus Pais" (2021) debruçaram-se sobre o caso Richthofen, mas acabaram deixando mais dúvidas do que respostas para o público. Já "Elize: Sombras de Uma Mulher" (2026) aborda outro crime que chocou o país, mas sob a perspectiva da própria autora do ato.

Dirigido por Felipe Vellas, o filme retrata a vida de Elize, uma mulher que recorre à prostituição para se sustentar e pagar os estudos. A reviravolta acontece ao se casar com um rico empresário de São Paulo; contudo, o que parecia um conto de fadas logo se transforma em um pesadelo repleto de conflitos que a levam ao limite — cenário que culminaria em um dos crimes mais conhecidos da história recente do Brasil.

O longa pode ser facilmente acusado de parcialidade, já que praticamente toda a narrativa se sustenta na versão apresentada por Elize às autoridades após sua prisão. Em função disso, testemunhamos os fatores que a teriam levado ao ato: desde os abusos sofridos ainda jovem no ambiente familiar até a convivência com as práticas nada saudáveis do marido. Essa construção oferece ao espectador uma dimensão prévia da tragédia anunciada.

Curiosamente, Felipe Vellas opta por expor a cena do crime logo no início, fazendo com que o evento vá e volte na linha temporal. O ato do esquartejamento fica reservado à reta final e só não se torna excessivamente grotesco ou chocante devido aos inteligentes jogos de câmera da direção. Contudo, a força da cena não reside apenas na decupagem técnica, mas também no talento da atriz Lorena Comparato.

Conhecida por seu trabalho na série Impuros, Lorena aceitou um dos maiores desafios de sua carreira ao interpretar uma figura real e complexa, cujas motivações são questionadas até hoje. É instigante observar como a intérprete constrói uma ambiguidade para a personagem: seu olhar revela uma alma partida, incapaz de ser restaurada pelos recursos materiais ao seu redor. Um papel espinhoso, no qual a atriz obtém nítido êxito.

Em suma, o filme expõe os gatilhos que podem conduzir alguém ao caminho sem volta. Não há heróis ou vilões maniqueístas na trama, mas sim pessoas comuns que cometem erros irreversíveis. Se, por um lado, o longa falha ao priorizar de forma quase exclusiva a versão de Elize, por outro, convida à reflexão sobre a nossa própria fragilidade diante dos desgostos da vida — demonstrando que dinheiro algum compra a felicidade quando a realidade ao redor se revela hipócrita.

"Elize: Sombras de Uma Mulher" é um filme sobre um crime hediondo, mas que, sob a superfície do sensacionalismo, ilumina os elementos sombrios de uma tragédia anunciada.


Onde Assistir: Netflix 

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