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Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Cine Especial: Clube de Cinema – 'Roma de Fellini'

 Nota: Filme assistido pelos associados no último dia 27/09/26

Federico Fellini foi um realizador que começou sua carreira no cinema quando o neorrealismo italiano já dava os seus últimos sinais, o que permitiu ao cineasta colocar em prática sua visão particular. Todavia, é notório quanto desse movimento ele trouxe para a sua filmografia, entrelaçando-o ao seu lado criativo no desenvolvimento de histórias marcantes. "Roma de Fellini" (1972) pode ser visto tanto como uma autobiografia do realizador quanto como uma análise de Roma — em suas entranhas e em sua superfície — ao longo da história.

No longa, vemos a capital da Itália — a Cidade Eterna para os íntimos, por sua trajetória milenar — como um ponto de encontro de diversas narrativas que sintetizam o próprio papel da humanidade na Terra. Fellini vivenciou o cotidiano da cidade em diferentes etapas de sua trajetória: desde a chegada ainda criança (Stefano Mayore), passando pela fase jovem (Peter Gonzales), até os tempos contemporâneos.

Transitando entre a reconstituição de época da juventude do realizador e os tempos calorosos do início dos anos setenta, Fellini constrói uma visão sobre a cidade que tanto ama. Trata-se de uma Roma que passou por maus bocados durante a Segunda Guerra Mundial e cuja reconstrução serviu de molde para o movimento neorrealista. Não estamos diante de um filme convencional — o próprio diretor deixa isso escancarado já na abertura —, e tudo o que podemos fazer é desfrutar de suas imagens inventivas. Não há exatamente um protagonismo em cena, a não ser a própria Roma.

Curiosamente, "Amarcord" (1973) costuma ser apontado como a grande reconstituição da juventude do cineasta. Aqui, porém, sua própria figura fica em segundo plano, enquanto ele decide caminhar pelas ruas da cidade com a câmera, observando pessoas comuns em seu dia a dia e sintetizando os elementos de um momento em que a capital sofria profundas transformações com a passagem do tempo. Há, por exemplo, um atrito evidente entre a velha guarda italiana e a nova geração que surgia naquele período — em que sexo, amor e drogas ditavam o ritmo, fazendo a geração passada temer pelo futuro do país.

Há, contudo, uma hipocrisia latente em relação a isso, venha ela do lado conservador ou da própria Igreja tradicional, que não esconde o submundo do prazer: desde as mulheres livres pelas ruas até a cultura do teatro e da música, revelando uma faceta à italiana com a qual o espectador logo se identifica. Nesse cenário, vemos figuras que se entregam à comida, à bebida e a uma malandragem que corre solta em cenas deveras hilárias.

Porém, o ápice do longa se encontra quando Fellini se entrega por completo ao registro documental, especialmente na rodovia onde filma de tudo um pouco: discussões no trânsito, acidentes e protestos a todo momento. A câmera é trêmula, por vezes em plano-sequência, fazendo da viagem uma experiência quase sensorial. Arrisco dizer que é um dos melhores momentos da carreira do realizador, pois a verossimilhança e o imaginário do cineasta se casam de uma forma raras vezes vista.

Há espaço até mesmo para adentrarmos o subsolo de Roma, que mais parece uma cidade subterrânea abandonada cuja história começa a se deteriorar diante dos nossos olhos — uma forma de nos dizer que o tempo tudo destrói e que cabe a nós, meros mortais, mantermos a memória viva para termos noções do que fomos um dia. Ao final, vemos motociclistas correndo sem rumo, mal sabendo o que reserva o futuro misterioso em que hoje vivemos.

"Roma de Fellini" é uma declaração de amor do diretor à sua cidade e uma síntese de sua genialidade em narrar histórias sobre o próprio berço da civilização ocidental.

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Cine Dicas: Estreias do Final de Semana (02/10/26)

 DIGGER

Sinopse: A trama acompanha o homem mais poderoso do mundo que, após causar uma catástrofe global, inicia uma missão frenética para se redimir e provar que é o salvador da humanidade. Em uma corrida contra o tempo, ele precisa enfrentar as consequências de seus atos antes que o desastre que desencadeou destrua tudo.


VERITY

Sinopse: Lowen Ashleigh é contratada por Jeremy Crawford para escrever romances para sua esposa Verity, autora de best-sellers, que não consegue terminar de escrever após um acidente.


A QUEDA 2: NO LIMITE

Sinopse: De luto pela morte de sua irmã Shiloh, Jax Hunter cria um laço com Luce, a amiga corajosa de Shiloh. Juntas, elas enfrentam a perigosa passarela suspensa do Monte Kwan, na Tailândia. Quando um deslizamento de rochas as deixa presas em uma estreita prancha a mais de 3.000 metros de altitude, Jax precisa enfrentar seus medos para sobreviver.

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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Clube de Cinema: "Meu Tio" (03/10) na Cinemateca Paulo Amorim

Neste sábado (03/10), o Clube de Cinema de Porto Alegre se reúne às 10h15 da manhã na sala Eduardo Hirtz da Cinemateca Paulo Amorim para assistir a comédia Meu Tio, de Jacques Tati.

O filme constrói uma sátira da vida moderna a partir do contraste entre dois mundos. De um lado, a casa dos Arpel, equipada com aparelhos e soluções automatizadas que tornam o cotidiano cada vez mais rígido e impessoal; de outro, o bairro onde vive o Sr. Hulot, marcado pelo improviso, pelo barulho e pela convivência entre seus moradores. No centro dessa oposição está Gerard, que encontra no tio uma possibilidade de escapar das regras e convenções do universo familiar.


Confira os detalhes da sessão:


SESSÃO DE SÁBADO NO CLUBE DE CINEMA

📅 Data: Sábado, 03/10, às 10h15

📍 Local: Sala Eduardo Hirtz – Cinemateca Paulo Amorim

Casa de Cultura Mário Quintana – Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico, Porto Alegre


Meu Tio (Mon oncle)

França e Itália, 1958, 117min

Direção: Jacques Tati

Roteiro: Jacques Tati, Jacques Lagrange e Jean L'Hôte

Elenco: Jacques Tati, Jean-Pierre Zola, Adrienne Servantie, Lucien Frégis, Betty Schneider, Jean-François Martial, Dominique Marie, Yvonne Arnaud, Adelaide Danieli

Sinopse: Gerard vive com os pais em uma casa moderna e automatizada no subúrbio de Paris, mas o menino gosta de visitar seu tio Hulot, que mora em um bairro mais simples e movimentado. A convivência entre os dois se torna motivo de preocupação para os pais de Gerard, que tentam afastá-lo da influência do tio.


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Cine Dica: Cinesemana de 1 a 7 de outubro de 2026

 Atenção: devido às eleições, a Cinemateca Paulo Amorim não terá programação neste domingo, dia 4.

A cinesemana que abre o mês de outubro traz quatro novos filmes à programação da Cinemateca Paulo Amorim. Um deles é o aguardado NAZA, documentário de Rachel Szor e Yuval Abraham que traz relatos importantes sobre as vítimas das operações militares de Israel em Gaza. Outro título festejado é RAN, de Akira Kurosawa, que volta aos cinemas em cópia restaurada para marcar os 40 anos de sua estreia. A música brasileira é tema de um documentário dedicado a um nome importante da década de 1970: AS DORES DO MUNDO: HYLDON, de Emílio Domingos e Felipe David Rodrigues. Também garantimos espaço para o novo filme do criativo diretor Guto Parente, que combina humor e terror em MORTE E VIDA MADALENA.

Seguem em cartaz os longas europeus TRÊS VEZES ADEUS, da diretora espanhola Isabel Coixet; e MIRRORS NO. 3, do alemão Christian Petzold. O público ainda tem chance de assistir à comédia MUITO PRAZER, de Jorge Furtado, sobre três jovens que tentam reabrir um motel decadente. Alguns títulos continuam prestigiados pelo público, como é o caso da ficção brasileira VIRTUOSAS, de Cíntia Bittar, além do documentário GONZAGUINHA, DA MAIOR LIBERDADE, dirigido por Susanna Lira e vencedor do Festival de Gramado. Em sexta semana e compartilhando os horários, seguem na programação A QUINTA PORTUGUESA, de Avelina Prat; e AS CORES DO TEMPO, de Cédric Klapisch.

Para quem ainda não viu, ACAMPAMENTO MIASMA: SEXO, ADOLESCÊNCIA E MORTE, de Jane Schoenbrun, terá duas sessões de despedida nesta semana.

Confira a programação completa da cinemateca clicando aqui. 

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Cine Dica: Streaming — 'Fim da Rua'

Sinopse: Um estranho fenômeno cósmico arranca abruptamente a pacata vizinhança da Rua Oak de seu subúrbio e a transporta para um lugar desconhecido e irreconhecível.

David Robert Mitchell se tornou uma grande promessa para os amantes do cinema de horror a partir do genial "A Corrente do Mal" (2014). De lá para cá, porém, o realizador não lançou muitos títulos de mesmo porte, tendo como seu último destaque o intrigante "O Mistério de Silver Lake" (2018). Em "Fim da Rua" (Flowervale Street, 2026), o cineasta prometia muito, mas entregou uma obra no mínimo peculiar — para dizer o mínimo.

A trama se passa nos anos 1980 e acompanha o casal Denise (Anne Hathaway) e Greg (Ewan McGregor), que enfrenta uma crise no relacionamento enquanto gerencia a rotina familiar com os dois filhos adolescentes. Entretanto, tudo muda quando uma tempestade abrupta transporta toda a vizinhança para a era dos dinossauros. Isolados, os quatro são forçados a cooperar para sobreviver e tentar retornar a 1980, em uma jornada repleta de ação e tensão.

Dito isso, acredito que o filme teria alcançado um impacto muito maior se a grande reviravolta não tivesse sido escancarada nos trailers de divulgação. Quem conseguir assistir ao longa sem muitas informações prévias certamente irá se surpreender, já que os dinossauros surgem de forma gradual, alimentando o suspense e fazendo o público se perguntar o que realmente está acontecendo. Até atingir esse ponto, há uma construção muito eficiente da dinâmica familiar, criando personagens com os quais nos identificamos com facilidade.

É fato que a produção pega carona na constante onda de nostalgia dos anos oitenta, tornando-se um prato cheio de referências. O cenário de subúrbio não difere muito do clássico "E.T.: O Extraterrestre" (1982), assim como o pavor de uma família diante do inexplicável remete a "Poltergeist" (1982) — ambos ligados à estética de Steven Spielberg. No entanto, é inevitável que "Jurassic Park" (1993) venha à mente do espectador. Apesar das semelhanças, é curioso observar a escolha criativa dos realizadores em retratar dinossauros com penas, reforçando o vínculo evolutivo entre essas criaturas e as aves modernas.

Em relação ao elenco, pode-se dizer que 2026 é o ano de Anne Hathaway. Após grandes projetos como "O Diabo Veste Prada 2" e "A Odisséia", Hathaway entrega aqui uma atuação segura como uma mãe que tenta resolver os dilemas familiares por meio da escrita, mas precisa se transformar rapidamente para encarar feras pré-históricas se quiser manter todos vivos. Ewan McGregor, por sua vez, tem um papel mais contido, surgindo como a peça de apoio fundamental para manter a família unida em meio ao caos.

O ponto mais curioso do longa é a coragem de David Robert Mitchell ao inserir cenas pontuais de violência gráfica que beiram o gore, algo inusitado para um filme com vocação de grande apelo popular. O ato final, porém, cede a soluções mais convencionais — especialmente ao resolver o destino de um dos protagonistas de um jeito que lembra bastante a clássica série "O Elo Perdido" (1974). Para quem aprecia teorias sobre viagem no tempo, o desfecho oferece um prato cheio, ainda que deixe no ar aquela sensação incômoda de que nem tudo foi executado com o devido esmero.

No fim das contas, "Fim da Rua" é uma espécie de "estranho no ninho" no cenário dos blockbusters atuais. Pode não agradar a todos os públicos, mas certamente vale a visita pela sua proposta fora do comum.


Onde Assistir: Prime Vídeo. 

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Cine Dica: Newsletter Cinemateca Capitólio - 1º a 7 de outubro de 2026

Cinemateca Capitólio tem semana com cinema tcheco e derradeiras exibições de filmes de Robert Altman


A semana da Cinemateca Capitólio entre 1º e 7 de outubro segue exibindo a programação da Mostra Literakino: Entre Palavras e Imagens da Tchecoslováquia, inaugurada em 22 de setembro último. Com curadoria de Leonardo Bomfim e Věra Matysíková, a mostra reúne mais de 30 filmes, realizados entre 1930 e 1980, com títulos que estabelecem um diálogo com a literatura. A programação desta semana inclui uma sessão especial do projeto Raros, na sexta-feira, dia 2 de outubro, com a primeira exibição no Brasil da versão recentemente restaurada de Conjunto Habitacional, de Věra Chytilová (a mesma diretora do cultuado As Pequenas Margaridas), que teve sua estreia mundial no último Festival de Berlim, na seção Berlinale Classics. E também uma edição especial da Sessão Vagalume, no sábado e no domingo, às 15h, com o programa Marionetes Tchecas, com três animações realizadas em stop motion, uma técnica na qual os tchecos são reconhecidos internacionalmente como mestres.

Também nesta semana ocorrem as últimas exibições da mostra As Mulheres de Altman, que destaca quatro filmes do grande cineasta americano que têm protagonismo feminino: Uma Mulher Diferente, Imagens, Três Mulheres e James Dean, o Mito Sobrevive.

Toda a programação tem entrada franca, com retirada de senhas 30 minutos antes de cada sessão. Confira a programação completa da Cinemateca clicando aqui. 

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Mirrors No. 3'

Sinopse: A estudante Laura (Paula Beer) sobrevive milagrosamente a um grave acidente de carro no interior que resulta na morte de seu namorado.

Christian Petzold é hoje apontado como um dos principais diretores do cinema alemão contemporâneo, e motivos para isso não faltam. Em "Afire" (2023), por exemplo, o universo da literatura transitava por situações verossímeis que se tornavam tão impressionantes quanto qualquer ficção. Em seu mais recente filme, "Mirrors No. 3" (2025), o cineasta coloca pessoas comuns frente a frente, mas cujas dores acabam fazendo com que elas se atraiam.

Na trama, a jovem Laura (Paula Beer) é uma estudante de piano que se envolve em um estranho acidente de carro no campo. Ela sobrevive, mas fica profundamente abalada, sobretudo após a morte do namorado. Ao testemunhar a situação, Betty (Barbara Auer) resolve acolhê-la em sua casa. Assim, Laura aos poucos passa a integrar a família de Betty, embora haja algo de estranho pairando no ar.

Petzold prefere não nos entregar muitas explicações sobre os reais sentimentos dos protagonistas no primeiro ato; temos dimensão do que enfrentam apenas através de suas ações e reações. Laura, por exemplo, aparenta estar deprimida, o que logo nos faz perceber que seu relacionamento já havia terminado há um bom tempo. Antes do acidente, ela fixa o olhar para Betty na estrada como se ali estivesse um mistério curioso a ser explorado aos poucos.

Por mais mórbido que seja, o acidente se torna uma mera justificativa para que as duas protagonistas comecem a interagir, ainda que tenham se conhecido em uma situação atípica. Petzold constrói uma narrativa aparentemente simples, mas cujas atitudes dos personagens beiram o absurdo — soar de forma profundamente humana justamente pelas falhas expostas em cada expressão. É notável a opção do diretor por deixar que tiremos nossas próprias conclusões, mesmo quando algumas se mostram infundadas.

Uma das minhas passagens preferidas do longa é a apresentação do filho e do marido de Betty, interpretados pelos atores Enno Trebs e Matthias Brandt. É por meio deles que chegamos a suspeitar, num primeiro momento, que Betty possa estar enfrentando problemas mentais — principalmente quando pensam que ela inventou uma personagem imaginária. Logo em seguida, porém, Laura surge em cena diante deles, fazendo com que essa hipótese caia por terra a partir dos olhares espantados de pai e filho.

Não há explicação explícita sobre o porquê de ambos estarem fora da casa de Betty, mas há algo do passado que os assombra, e a figura de Laura surge como uma espécie de ponto de equilíbrio que talvez eles não tivessem há tempos. Ao meu ver, Petzold transmite a ideia de que o vazio pode ser preenchido por um novo recomeço, mesmo quando tudo se inicia de maneira imprevisível. Conforme certas revelações vêm à tona, as mágoas afloram, mas vão sendo amenizadas aos poucos.

Em suma, Christian Petzold demonstra excelente forma ao elaborar tramas complexas a partir de uma premissa simplista, porém extremamente instigante. O longa termina em aberto, fazendo a história permanecer em nossos pensamentos e nos instigando sobre qual será o próximo passo do realizador. "Mirrors No. 3" é o cinema autoral de Petzold em sua forma mais enxuta, mas não menos fantástica.

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