Sinopse: Descendentes de uma jovem do final do século XIX herdam a sua casa e trazem à tona diversos segredos de família.
A cidade de Paris já serviu de cenário para inúmeros filmes, figurando com frequência em histórias que envolvem viagens no tempo. Em "Meia-Noite em Paris" (2011), por exemplo, Woody Allen nos convida a passear por uma época em que a Cidade Luz era impregnada por uma efervescência cultural que moldou o século XX de forma sem precedentes. "As Cores do Tempo" (2025) segue por uma cartilha parecida, mas constrói sua premissa de maneira verossímil e extremamente bem-vinda.
Dirigido por Cédric Klapisch, o longa acompanha quatro primos com vidas bastante distintas que descobrem compartilhar a mesma árvore genealógica. A partir daí, acompanhamos duas linhas narrativas paralelas: a dos primos no presente, buscando compreender o passado de sua antepassada Adele — que visitou Paris em 1895 em busca da mãe —, e a jornada desses mesmos jovens para se reencontrarem em meio a essa história recém-descoberta. Não demora para que pinturas e fotografias antigas comecem a revelar muito mais do que eles imaginavam.
Klapisch conduz esse trânsito entre passado e presente de forma muito fluida. Enquanto muitos diretores poderiam se atrapalhar com as idas e vindas temporais, o realizador demonstra a proeza de fazê-lo de modo simples e direto, valendo-se de soluções visuais inventivas que reforçam a verossimilhança da trama. Em determinado momento, por exemplo, Adele percebe alguém batendo à sua porta e, em uma transição elegante, vemos os primos do presente adentrando o mesmo espaço nos dias de hoje.
Curiosamente, embora ambientadas em épocas distantes, ambas as tramas giram em torno da busca pelas próprias raízes para encontrar um sentido para a vida. Se por um lado Seb e seus primos se veem perdidos em uma realidade contemporânea em que a aceleração da informação e a tecnologia sufocam o cotidiano, a trajetória de Adele tampouco foi fácil — marcada não apenas pela tentativa de compreender o abandono materno, mas também por viver em um período de transformações profundas no mundo.
É instigante observar o paralelo traçado entre a omnipresença da tecnologia atual e os primeiros passos da fotografia no final do século XIX, que acompanham a jornada de autodescoberta de Adele. Essa aproximação permite que o roteiro brinque com a presença de figuras históricas, desde menções a Victor Hugo até a participação marcante de Claude Monet. Vale destacar também a abordagem bem-humorada com que os primos tentam se "teletransportar" para a época de sua ancestral, rendendo algumas das sequências mais divertidas do filme.
Acima de tudo, "As Cores do Tempo" reflete sobre os dilemas humanos que atravessam gerações, separados por uma linha muito tênue entre o ontem e o hoje. O filme também insere uma crítica sutil ao capitalismo acelerado, que muitas vezes atropela a preservação histórica e o patrimônio da memória. Fica o lembrete de que nunca é tarde para olhar para trás, reconhecer o encanto do passado e perceber como ele ainda pode ressoar no nosso presente — desde que saibamos preservá-lo.
"As Cores do Tempo" é uma viagem emocionante e muito agradável por uma Paris do passado cativante, perfeita para tempos atuais tão carentes de boas ideias e sensibilidade.
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