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Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Cine Especial: Clube de Cinema - 'Sangue Ruim'

Nota: Filme exibido para os associados no dia 22/08/26

Se há uma palavra que melhor define Leos Carax, essa palavra seria peculiaridade — algo que senti claramente ao assistir a "Holy Motors" (2012) e compreender a dimensão de sua visão autoral como um todo. Em seus filmes não há nada convencional, mas sim uma espécie de experimento constante usado como pretexto para explorar os melhores recursos cinematográficos disponíveis. Talvez, essa sua forma de fazer cinema não pretenda meramente contar uma história, mas sim fazer com que o público sinta a própria linguagem cinematográfica.

Em seu clássico "Sangue Ruim" (1986), adentramos a história de Alex (Denis Lavant) e Anna (Juliette Binoche), que se conhecem no coração de uma Paris desprovida de amor, cujas cores quentes dos anos oitenta surgem sufocadas por um constante temor. Tudo se passa em um futuro distópico ameaçado pelo vírus STBO, que mata casais que se relacionam sem sentimento. Qualquer semelhança com o pavor da AIDS naquela época não é mera coincidência.

Contudo, não é apenas de forma metafórica que o realizador constrói sua narrativa: ele convida o público a imergir em uma trama onde os recursos visuais se tornam parte integrante — e de forma alguma gratuita — do enredo. O protagonista Alex sente-se isolado em uma realidade mórbida, na qual qualquer passo em falso afeta quem está ao seu redor. Mesmo recém-saído de uma prisão onde esteve por quinze meses, a liberdade não se traduz em libertação, mas em um novo patamar de sua própria solidão.

Curiosamente, Alex possui o talento da ventriloquia e usa esse dom para se comunicar quando seu lado exausto já se encontra saturado do mundo que o cerca. Diante de um futuro incerto, ele retoma o contato com velhos conhecidos de seu falecido pai, cuja morte deixou uma dívida com uma mulher estrangeira que agora o assombra. Sua missão passa a ser roubar de uma clínica a cura para o vírus, para que os parceiros de seu pai a vendam e quitem o débito o quanto antes.

Nessa missão quase suicida, Alex conhece Anna, namorada de um dos parceiros do seu pai. Ela desperta nele um sentimento incomum de carinho que contagia também quem assiste. No entanto, ele ainda nutre sentimentos por sua namorada (interpretada por Julie Delpy) e anseia por fugir, viajando sem rumo até que os pneus gastem. Mas a fuga de Alex não é apenas do mundo real; há nele um desejo de escapar para dentro da própria mente em momentos em que o diretor tem muito a dizer, cabendo a cada espectador compreender a sua maneira.

Naquela que é uma das melhores sequências do filme, o protagonista corre em um ritmo frenético ao som de Modern Love, de David Bowie — cena histórica que serviria de inspiração, anos mais tarde, para um momento marcante no genial "Frances Ha" (2012). O diretor, por sua vez, faz questão de focar a câmera na plenitude dos rostos de Juliette e Julie, cujos olhares dizem muito mais do que meras palavras. Vale salientar que este foi um dos primeiros grandes papéis de Juliette Binoche no cinema; sua delicadeza em cena já deixava transparecer a complexidade de atuações marcantes que viria a construir ao longo de sua exemplar carreira.

O lado transparente de sua personagem revela tanto uma pessoa gentil quanto inocente perante uma realidade por vezes opressora. Uma de suas primeiras cenas que chama a atenção é quando ela surge caindo de paraquedas desacordada, como se o protagonista se visse na obrigação de salvá-la, vislumbrando ali a chance de um recomeço. É fascinante notar como eles formam um raro exemplo de casal cinematográfico que não se consolida fisicamente em cena, o que torna a conexão entre eles ainda mais preciosa.

Ao final, o protagonista encontra um destino cruel, mas não sem antes deixar uma marca de seu sangue no rosto de Anna. O sangue não a contamina; pelo contrário, funciona como um impulso que a faz libertar-se e correr sem rumo. Ambientada em uma pista de pouso, a cena final de Juliette torna-se antológica, pois Leos Carax nos passa a nítida impressão de que ela está abrindo as asas e voando.

Leos Carax cria, portanto, um longa-metragem à frente do seu tempo, no qual a paixão não reside apenas no amor carnal, mas em sentimentos que lutam para não serem doutrinados por uma realidade cheia de regras. O espectador pode até esperar por uma consumação romântica tradicional, mas recebe a entrega de uma paixão lírica e profundamente humana, embalada por toda a genialidade e peculiaridade que o diretor emana.

"Sangue Ruim" é o amor sob o olhar único de Leos Carax — uma obra cuja linguagem nada convencional a torna verdadeiramente inesquecível.

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Cine Dica: Sessão dupla no Clube de Cinema: Mostra de Cinema Metropolitano (29/08) + "Franz" (30/08)


Neste final de semana, teremos sessão dupla no Clube de Cinema!

No sábado (29/08), às 10h da manhã, nos reunimos na Cinemateca Capitólio para uma sessão especial em conjunto com o Circuito de Cinema Metropolitano RS. Serão exibidas duas produções recentes realizadas na Região Metropolitana (Enquanto a Partida Durar, de Léo Moura, e Companheiro de Viagem, de Adriano Legionário), além de Au Revoir Shirlei, clássico do cinema gaúcho da década de 1990, acompanhado de uma apresentação inédita de seu making off. Após a sessão, haverá ainda um bate-papo com o diretor do filme, Gilberto Perin, e a produtora executiva Alice Urbim.

No domingo (30/08), nosso encontro é às 10h15 da manhã na sala Eduardo Hirtz da Cinemateca Paulo Amorim para uma sessão de Franz, filme da diretora polonesa Agnieszka Holland sobre a vida e a obra de Franz Kafka. O filme acompanha diferentes momentos da vida do escritor, de sua infância à idade adulta, passando por seus conflitos familiares, relacionamentos amorosos, trabalho e dedicação à literatura. Em vez de seguir uma narrativa biográfica convencional, a história combina passado e presente para aproximar o escritor de suas inquietações, especialmente o conflito entre seguir sua própria vocação e corresponder às expectativas que recaem sobre ele.


Confira os detalhes da programação:


SÁBADO (29/08, 10h)

Mostra de Cinema Metropolitano RS

📍 Local: Cinemateca Capitólio – Rua Demétrio Ribeiro, 1085 – Centro Histórico, Porto Alegre. Exibição dos filmes: Enquanto a Partida Durar, Companheiro de Viagem, Au Revoir Shirlei

🎤 Após a sessão, bate-papo com Gilberto Perin e Alice Urbim


DOMINGO (30/08, 10h15)

Franz

Polônia e República Tcheca, 2025, 127min

📍 Local: Cinemateca Paulo Amorim, Sala Eduardo Hirtz  – Casa de Cultura Mário Quintana – Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico, Porto Alegre

Direção: Agnieszka Holland

Roteiro: Marek Epstein

Elenco: Idan Weiss, Daniel Dongres, Jenovéfa Boková, Carol Schuler, Sebastian Schwarz, Katarina Stark, Peter Kurth, Ivan Trojan, Sandra Korzeniak, Aaron Friesz, Carol Schuler, Gesa Shermuly, Jan Budar, Josef Trojan

Sinopse: O filme acompanha Franz Kafka em diferentes momentos de sua vida, desde a infância até os anos de maturidade, passando por seus conflitos familiares, relacionamentos e pelo trabalho que dividia espaço com sua vocação literária.


Nos vemos no final de semana!

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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Cine Dica: Em Cartaz — "Honestino"

Sinopse: Fusão entre documentário e ficção, o filme conta a história de Honestino Guimarães, líder estudantil da geração de 1968, presidente da UNE e aluno da UnB. Preso cinco vezes por sua militância, Honestino foi sequestrado em 1973, aos 26 anos, tornando-se uma das centenas de pessoas desaparecidas na ditadura militar.

Filmes e livros existem para abrir janelas para o passado e resgatar histórias que não podem ser esquecidas. Como o brasileiro é conhecido por ter "memória curta", torna-se indispensável ler e assistir a obras que retratam o lado mais sombrio de tempos ditatoriais — os quais hoje, infelizmente, ainda encontram quem os defenda. "Honestino" (2026) é um filme necessário, sobretudo para alertar os desavisados sobre o que realmente foi o período da ditadura militar no Brasil.

Dirigido por Aurélio Michiles e estrelado por Bruno Gagliasso, o longa retrata a trajetória do líder do movimento estudantil da UnB, que se tornou uma das vítimas do regime. Brutalmente assassinado aos 26 anos, o Estado só reconheceu a responsabilidade por seu homicídio décadas depois. Ainda assim, a obra evidencia os traumas profundos deixados nos estudantes de Brasília.

Aurélio Michiles constrói uma curiosa transição entre a linguagem documental e a reconstituição de época. No campo da ficção, Honestino é interpretado por Bruno Gagliasso, cuja atuação serve como fio condutor pela jornada que o personagem percorre entre a transição democrática e os anos de chumbo. O ponto alto da produção é a maneira habilidosa como o diretor estrutura a narrativa.

As imagens transitam entre filmagens amadoras, arquivos de imprensa e fotografias históricas, ganhando uma força expressiva na tela. Além disso, a narrativa é costurada por depoimentos marcantes de familiares, amigos e companheiros de luta da época em que Honestino vivia na clandestinidade, mas continuava articulando a oposição ao regime. O documentário explora como o advento do AI-5, que perdurou por dez anos, tornou a repressão ainda mais violenta contra aqueles que ousavam se opor ao sistema.

O longa poderia ser facilmente rotulado como mais uma entre tantas produções atuais sobre os 21 anos de ditadura no Brasil. Porém, em tempos de desinformação, fake news e ascensão da extrema-direita no Brasil e no mundo, o filme se firma como uma peça urgente e relevante para quem busca conhecimento, lançando luz sobre figuras históricas que lutaram por transformações. A memória do brasileiro pode ser curta, mas iniciativas como esta são fundamentais para provocar um despertar em relação ao passado e ao presente que nos cerca.

"Honestino" equilibra ficção e documento histórico de forma precisa, revelando mais um capítulo indispensável da nossa história que jamais deve ser esquecido.

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Cine Dica: Cinesemana de 27 de agosto a 2 de setembro de 2026

A cinesemana de 27 de agosto a 2 de setembro marca a estreia de MUITO PRAZER, de Jorge Furtado. Em seu novo filme, o diretor gaúcho conta uma história sobre três jovens que tentam reabrir um motel decadente e apostam em estratégias pouco convencionais. Outras novidades são NOSSO SEGREDO, de Grace Passô, filme vencedor do Festival de Cinema de Gramado, e O APEGO, longa francês protagonizado por Valeria Bruni Tedeschi e que conquistou o prêmio César de melhor filme em 2026.

Segue em cartaz AS CORES DO TEMPO, trama na qual o diretor francês Cédric Klapisch proporciona uma delicada viagem pelo tempo a partir das memórias de uma jovem que viveu em Paris no final do século XIX. Também ganha mais uma semana de exibição o longa REFÉM POR UM FIO, em que o diretor Gus Van Sant recupera um drama policial que paralisou os Estados Unidos na década de 1970. O público ainda tem a oportunidade de conferir dois sucessos da nossa bilheteria: ACAMPAMENTO MIASMA - SEXO, ADOLESCÊNCIA E MORTE, um filme de terror slasher dirigido por Jane Schoenbrun; e O CONVITE, da diretora Olivia Wilde, sobre dois casais que discutem as relações.

Esta é a última semana para conferir A PROFESSORA DE PIANO, parceria da atriz Isabelle Huppert com o diretor Michael Haneke; e também os longas UMA INFÂNCIA ALEMÃ, do diretor FatihAkin, e HONESTINO, misto de documentário e ficção sobre o líder estudantil sequestrado pela ditadura militar brasileira

Confira a programação completa no site oficial da cinemateca clicando aqui. 

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Rio de Clarice'

Sinopse: Longa-metragem brasileiro que adapta cinco contos clássicos de Clarice Lispector para o cinema.

A palavra antologia refere-se a uma coleção de textos, músicas ou filmes reunidos em uma única obra. Quando procuro me lembrar do meu primeiro contato com esse tipo de estrutura, vem-me à mente os longas de horror do estúdio inglês Amicus, que, por sua vez, baseavam-se em clássicos literários ou até mesmo em HQs, como "Contos da Cripta". No "caso de Rio de Clarice" (2026), trata-se de um filme que explora o universo literário da escritora Clarice Lispector, tornando-se uma espécie de cartão de visita para aqueles que nunca leram seus contos.

Dirigido por Eunice Gutman, Maria Luiza Aboim, Taciana Oliveira, Barbara Kahane e Nicole Algranti, o filme reúne cinco adaptações dos contos da escritora em episódios comandados por essas cinco diretoras. Inspirando-se nas obras "Feliz Aniversário", "Mal-estar de um Anjo", "A Bela e a Fera", "Amor" e "Preciosidade", o filme explora o lado intimista de Clarice e o universo particular das mulheres.

Sem sombra de dúvida, a adaptação mais famosa da obra de Clarice Lispector para o cinema é "A Hora da Estrela" (1985), de Suzana Amaral, na qual a ingenuidade da protagonista faz com que nos identifiquemos de forma profunda. Uma das últimas adaptações a que eu havia assistido no cinema foi "A Paixão Segundo G.H." (2023), de Luiz Fernando Carvalho, que explorava a solidão e as divisões de classe afetando a protagonista em um verdadeiro jogo psicológico. Esses elementos narrativos são vistos novamente nesta nova adaptação.

Baseado nos contos da autora, as cinco diretoras conseguem retratar com certo êxito os aspectos de tempos mais conservadores, nos quais as mulheres buscam se colocar à frente daquela realidade sufocante. "Feliz Aniversário", por exemplo, é a representação de uma personagem não alinhada à hipocrisia familiar — uma família que se vende como perfeita, mas não consegue esconder seus "esqueletos no armário" ao longo da história. Em todos os episódios, a figura masculina fica em segundo plano, como se a presença dos homens fosse irrelevante ou até alienada perante a complexidade do universo feminino.

Particularmente, gostei muito do segmento "Mal-estar de um Anjo", graças à atuação da atriz Letícia Spiller. Inicialmente, a ex-paquita nunca havia me convencido como atriz, percepção que começou a mudar a partir de sua atuação no curta "O Pulso" (1997), dirigido por José Pedro Goulart. Aqui nesta trama, nota-se como a intérprete consegue nos transmitir toda a dúvida e confusão mental a partir do momento em que conhece outra personagem dentro de um táxi, fazendo disso o ponto de ignição para seus conflitos internos.

Em suma, são histórias sobre o papel das mulheres perante um mundo dominado por homens, onde os abusos moral e físico se fazem presentes, mas sem fazer com que elas sucumbam às sombras. Clarice Lispector talvez tenha visto desde cedo o lado duro desse universo cheio de regras, fazendo com que suas personagens se desprendam de correntes invisíveis impostas pela sociedade. Ao menos até aqui, as adaptações cinematográficas têm feito jus à sua força.

"Rio de Clarice" é um convite instigante para aqueles que nunca adentraram o universo literário de Clarice Lispector, despertando o desejo de procurar seus livros no sebo mais próximo.


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Cine Dica: Newsletter Cinemateca Capitólio - 27 de agosto a 2 de setembro

Mostra Hector Babenco, festival POADOC e últimas exibições de Futuro Futuro e Os Ruminantes na semana da Cinemateca Capitólio

A Cinemateca Capitólio encerra seu mês de agosto em alto estilo, realizando entre os dias 27 e 30 de agosto uma pequena mostra dedicada ao diretor argentino-brasileiro Hector Babenco (1946–2016), que completaria 80 anos em 2026. Autor de uma das mais importantes filmografias do cinema brasileiro, Babenco também teve uma breve passagem pelo cinema americano após o sucesso internacional de O Beijo da Mulher Aranha (1985), assinando duas grandes produções hollywoodianas, Ironweed (1987) e Brincando nos Campos do Senhor (1991). A mostra organizada pela Capitólio em homenagem ao diretor destaca justamente essa fase da carreira de Babenco, exibindo ainda os três títulos que o consagraram no Brasil, O Rei da Noite (1975), Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977) e Pixote, a Lei do Mais Fraco (1980). Todos filmes menos conhecidos das novas gerações de espectadores, há muito tempo não exibidos no cinema, e em versões restauradas, com cópias em DCP.

A mostra Hector Babenco 80 Anos é realizada em parceria com a HB Filmes e tem entrada franca, com distribuição de senhas 30 minutos antes das sessões. A mostra dedicada a Hector Babenco divide horários com os longas brasileiros Futuro Futuro e Os Ruminantes, em suas últimas exibições. A partir de terça-feira, a Cinemateca Capitólio recebe a programação do festival de documentários POADOC.

Confira a programação completa no site oficial da cinemateca clicando aqui. 

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Cine Dica: Em Cartaz - 'Muito Prazer'

Sinopse: Um motorista de aplicativo herda um motel em ruínas e se envolve em um esquema inusitado de gravação de clientes para sair das dívidas.

Em "Motel Destino" (2024), um foragido endividado se esconde em um motel e passa a conviver naquele universo proibido. Em "Pagando Bem, Que Mal Tem?" (2008), um grupo de amigos decide filmar filmes eróticos para pagar as contas. Una as duas ideias no mesmo longa e temos "Muito Prazer" (2026), comédia criativa de Jorge Furtado que fala muito sobre os tempos atuais, nos quais estamos cada vez mais sujeitos a ser capturados por câmeras indiscretas.

Na trama, conhecemos Rubem (Daniel de Oliveira), que herda o motel de seu falecido tio. No local ainda vive Grace (Luisa Arraes), ex-funcionária que também se encontra atolada em dívidas. Ao lado da especialista em vídeo Nalva (Samantha Jones), eles decidem usar o estabelecimento para filmar os clientes dentro dos quartos e faturar na internet — sem saber que isso é apenas a ponta do iceberg.

Jorge Furtado é aquele tipo de cineasta que sabe transitar por diversos gêneros, da comédia ao drama, passando pelos documentários. No caso do humor, ele alcança um tom refinado, alinhado a doses de reflexão que conquistam a nossa simpatia de imediato. Foi assim com o genial "O Homem Que Copiava" (2003) e com "Saneamento Básico", O Filme (2007) — este último, uma verdadeira aula sobre como realizar um longa de baixo orçamento com extrema criatividade. Em "Muito Prazer", a premissa não foge a essa regra.

Com pouco dinheiro no bolso, os protagonistas passam a produzir conteúdo adulto de forma indireta, utilizando os clientes do motel em ação e manipulando as imagens para deixar tudo mais interessante. É aí que mora a inteligência do diretor: criar um mosaico sobre até que ponto a imagem pode ser alterada hoje em dia, combinando velhos recursos de vídeo ao avanço da inteligência artificial no nosso cotidiano. O resultado é uma trama que dosa momentos de humor refinado com pitadas calientes, sem nunca soar grosseira ou apelativa.

Destaque para Daniel de Oliveira, um ator versátil que raramente explorou a veia cômica e que aqui surpreende em cena. Sua química com Luisa Arraes é outro ponto alto: a atriz constrói uma personagem inicialmente enigmática e carismática, que aos poucos revela suas reais facetas à medida que baixa a guarda para o protagonista. Embora o espectador preveja o rumo da relação, o casal central conquista do início ao fim.

Em suma, Jorge Furtado constrói uma narrativa repleta de simbolismos familiares a quem acompanha os debates sobre o sexo explícito no ambiente virtual. O mérito do longa é nos lançar nesse universo não pelo choque, mas pela provocação: faz refletir sobre como o tema se tornou banal e corriqueiro, a ponto de nem o conservadorismo atual conseguir silenciá-lo. Ou aceitamos o mundo como ele é, ou continuamos acreditando na cegonha.

"Muito Prazer" é um belo exemplo de como o humor pode ser inteligente sem descambar para o apelo fácil — mesmo quando decide espiar o que acontece entre quatro paredes.

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