Na abertura, em que Zorg (Jean-Hugues Anglade) e Betty (Béatrice Dalle) transam na frente do quadro da Mona Lisa, "Betty Blue" (1986) acaba se tornando contagiante na medida em que os minutos passam. Um curioso caso de filme dramático em que a história de amor, e não exatamente as coisas que eles prezam, se tornam o foco principal. Zorg, é um pau para toda obra, não tendo muitas ambições no decorrer de sua vida. Ao conhecer Betty a mesma acaba morando com ele e ambos vivem uma tórrida relação que transita entre o amor e a loucura.
"Betty Blue" pode ser interpretado tanto a frente do seu tempo como também como um longa que sintonizou a nova geração daquele período de 1986. Pode ser analisado como uma representação de uma geração francesa que buscava a sua identidade própria. Zorg vai até o fundo do poço por Betty, desde agredir, roubar e até mesmo quase a matar. Tudo por Betty, mesmo com a possibilidade de leva-lo à ruína iminente.
Assim como alguns títulos franceses da época, "Betty Blue" parece um longa estrangeiro que copia o que o cinema norte americano apresentava naqueles tempos, onde as falsas promessas quase nunca eram alcançadas, mas que Hollywood vendia como água. Com planos abertos, o diretor Jean-Jacques Beineix elabora planos abertos onde apreciamos os cenários e o dia a dia do casal de protagonistas. A trilha-sonora de Gabriel Yared é triste, porém, nos conquista de uma maneira contagiante.
Mesmo sendo o seu papel de estreia, Béatrice Dalle está magistral como Dalle, uma personagem bela, porém, uma verdadeira entidade da natureza imparável e que não mede esforços para obter os seus sonhos mesmo quando parece tudo impossível. Em suas três horas de duração, sendo inclusive a versão do diretor, o longa explora em potência máxima como a protagonista mudou a vida de Zorg, um filho de uma Segunda Guerra distante e sendo considerado descartável em uma França que não sabe ao certo em que direção trilhar.
Zorg escreve como ninguém as suas memórias, mas deixa em um canto qualquer da casa sem ao menos tentar a possibilidade de ser publicado por uma editora. Betty, por sua vez, surge em sua vida com uma energia sem igual, sendo que ela foge de algo que nós desconhecemos e sonhando alto por uma realidade que se assemelha aos contos de fadas que tanto anseia em obter. Juntos eles dão de encontro com a paixão e cujo sexo se torna uma forma de esquecer os dilemas da vida que tanto os aflige a cada dia que passa.
Essa relação que transita entre o céu e o inferno faz com que o casal central mude de vida a todo momento, sendo de pintores de casas de refugiados para vendedores de piano na casa de um amigo. Tudo girando em uma forma de melhorar o amor que ambos passam, mesmo correndo certo risco de entrarem em um labirinto sem fim em que as emoções os traem a todo momento. Ao final, o destino acaba se tornando cruel, onde os sonhos estilhaçados fazem ambos serem levados ao inferno astral, mesmo quando um fio de esperança surja mesmo de uma forma tão tardia.
"Betty Blue" possui uma identidade própria ao conseguir explorar aquele casal de protagonistas que possuem uma imensa paixão, mas que infelizmente obtém também uma força destruída que os levam ao amargurado fim. Por mais que tenham força de vontade parece que Zorg e Betty chegam ao ponto que a desistência em não continuar lutando seria uma forma de manter o que haviam construído e para que assim, ao menos um deles, possa se lembrar dos melhores momentos. Uma representação de uma parcela francesa em busca do seu lugar no mundo e qual ainda viveria com mudanças ao final do século.
"Betty Blue" é o retrato de uma geração oitentista em busca de uma paixão genuína, mas que acaba dando de encontro com a sua própria aura destrutiva.
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