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Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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sexta-feira, 24 de julho de 2026

Cine Especial: Revisitando 'O Retrato de Dorian Gray'

Os monstros da Universal foram o carro-chefe do estúdio por muito tempo, popularizando personagens clássicos da literatura. No decorrer do tempo, porém, o público amadureceu e chegou a um ponto em que não estava mais satisfeito com as velhas fórmulas de sucesso. Pode-se dizer que, entre os anos quarenta e cinquenta, o público apreciava um bom filme de terror, mas que acrescentasse algo que fizesse refletir sobre seus próprios medos interiores.

"Sangue de Pantera" (1942), dirigido por Jacques Tourneur, por exemplo, possuía elementos já vistos no cinema de horror da época, mas com uma seriedade mais elevada, em que o teor do gênero e o realismo andavam de mãos dadas. É uma pena que não tenham surgido mais títulos como esse naquele período, pois é sempre interessante apreciar obras que vão contra a tendência da época. Enfim, chegamos então a "O Retrato de Dorian Gray" (1945), um filme elegante e sombrio, mas cuja ideia do lado sobrenatural da situação fica somente na superfície.

Dirigido por Albert Lewin e baseado na obra de Oscar Wilde, o filme conta a história de Dorian Gray (Hurd Hatfield), um jovem rico apresentado ao mundo hedonista de Londres pelo lorde Henry Wotton (George Sanders). Um dia, Basil Hallward (Lowell Gilmore), um amigo artista, resolve fazer uma pintura para retratar a beleza jovial de Dorian. O jovem gosta tanto do retrato que declara que, se pudesse, daria até mesmo a alma para permanecer com aquele visual para sempre. A partir de então, todos os pecados e a idade de Dorian são transferidos para a pintura, enquanto ele continua com sua juventude intacta.

Oscar Wilde foi um escritor à frente de seu tempo, ao ponto de não se arrepender e não esconder sua homossexualidade em tempos conservadores. Condenado por isso, arruinado e com a saúde debilitada, exilou-se em Paris, onde morreu tragicamente de meningite em 1900, aos 46 anos. Seu legado foi redimido postumamente, com sua obra literária sendo reconhecida à medida que o tempo passava.

Pode-se dizer que "O Retrato de Dorian Gray" possui um forte subtexto homoerótico, embora não de forma explícita, para não ser julgado pela justiça conservadora da época. Dorian Gray fica perambulando pelos bares à noite em meio a homens que buscam um refúgio para serem eles mesmos fora do alcance de um olhar intolerante. A libertinagem do protagonista, por sua vez, pode ser uma representação do lado cada vez mais deteriorado de seu quadro, enquanto ele continua com sua beleza intacta.

A hipótese de uma maldição vinda da estátua de um gato egípcio serve somente como cortina de fumaça, pois o desejo do protagonista por sua juventude se torna ainda mais forte do que qualquer possibilidade vinda do lado fantástico da trama. Albert Lewin capricha em uma direção precisa, em que cada cena foi feita para ser refletida e analisada, sintetizando o lado psicológico dos personagens em tela. O tom sugestivo das palavras vindas de Dorian acaba sendo mais mortal do que um mero ato físico, fazendo com que as pessoas que um dia o amaram se afastem, caindo em sua desgraça particular no decorrer do tempo.

Hurd Hatfield se sai bem ao interpretar um Dorian Gray com uma cordialidade fria, cuja beleza angelical esconde um ser sombrio, mas que, no fundo, não desejava exatamente estar aprisionado perante seus próprios desejos. Além de um grande elenco, o filme possui uma fotografia em preto e branco elegante, na qual o toque de cores ao revelar a mudança gradual do quadro se torna um toque de gênio por parte dos realizadores — um efeito que nos assusta em um primeiro momento e que funciona até mesmo nos dias de hoje.

Embora a solução final para Dorian seja um tanto quanto previsível, tanto a obra literária quanto essa adaptação para o cinema sobreviveram ao teste do tempo. Conheci o filme primeiramente há vários anos pelo SBT, na extinta sessão Cine Belas Artes, e mais recentemente em uma sessão do Cine Clássicos pela Cinemateca Capitólio, de Porto Alegre. Revisitando a obra, percebo o quanto Oscar Wilde guardava seus desejos interiores, usando o talento da escrita para transmitir esse lado tão calado pela sociedade conservadora de sua época.

"O Retrato de Dorian Gray" é um filme de horror elegante, com teor psicológico e muito à frente de seu próprio tempo.

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Cine Especial: Sessão dupla no Clube de Cinema: "Os Desajustados" (25/07) e "Persépolis" (26/07)

 Neste final de semana, teremos mais uma sessão dupla no Clube de Cinema.

No sábado (25/07), nos reunimos às 10h15 da manhã na Cinemateca Capitólio para uma sessão do filme Os Desajustados. Escrito por Arthur Miller e dirigido por John Huston, a obra reúne Marilyn Monroe, Clark Gable e Montgomery Clift em um drama sobre personagens que já não conseguem encontrar seu lugar no mundo em que vivem. Revisitando os temas do western em um contexto contemporâneo, o filme contrapõe o imaginário do Velho Oeste a uma realidade marcada pelo desencanto e pela transformação.

No domingo (26/07), nosso encontro é às 10h15 na sala Eduardo Hirtz da Cinemateca Paulo Amorim, onde assistiremos Persépolis. Baseado nos quadrinhos de Marjane Satrapi, o filme acompanha a formação de uma jovem iraniana entre a Revolução Islâmica e a experiência do exílio. Com traço inspirado na obra original, a animação articula memórias pessoais e transformações históricas para retratar os impactos das mudanças políticas sobre a vida cotidiana.

Confira os detalhes da programação:


SÁBADO (25/07, 10h15min)


Os Desajustados (The Misfits)

EUA, 1961, 125min

Direção: John Huston

Roteiro: Arthur Miller

Elenco: Clark Gable, Marilyn Monroe, Montgomery Clift

Sinopse: Recém divorciada, Roslyn conhece um velho cowboy e um pequeno grupo de homens que sobrevivem capturando cavalos selvagens no deserto de Nevada. À medida que os vínculos entre eles se estreitam, afloram conflitos entre diferentes modos de vida, enquanto cada personagem enfrenta as dificuldades de se adaptar a um tempo que parece já não lhes pertencer.

📍 Local: Cinemateca Capitólio – Rua Demétrio Ribeiro, 1085 – Centro Histórico, Porto Alegre

Sobre o Filme: Marcado como sendo o último filme dos astros Clark Gable e Marilyn Monroe, "Os desajustados" pode ser visto de forma metafórica. O título do longa tanto se refere  com relação aos cavalos selvagens caçados em cenas de extrema competência técnica quanto os protagonistas do filme, tão perdidos quanto os animais. Gay leva uma vida nômade, sem ãncoras, buscando a liberdade a todo custo. Perce ganha dinheiro em rodeios mas também sonha em nunca viver de um salário fixo, assim como não consegue se envolver de verdade em nenhum relacionamento. Guido é incapaz de deixar no passado o amor que sente pela falecida mulher, o que atrapalha sua vida sentimental. 

E Roslyn, no meio de três homens calejados, machucados pela vida, tenta dar a eles um rumo, um porto seguro, uma chance de recomeçar a viver, mesmo que perceba que talvez a pessoa errada seja ela. "Os desajustados" é, no fundo, uma obra sobre a solidão e o desespero que une as pessoas.


DOMINGO (26/07, 10h15)

Persépolis (Persepolis)

França, 2007, 95min

Direção e roteiro: Marjani Satrapi e Vincent Paronnaud

Elenco: Chiara Mastroianni, Catherine Deneuve, Danielle Darrieux, Simon Abkarian, Gabrielle Lopes Benites, François Jerosme

Sinopse: Marjane cresce em Teerã durante os anos que antecedem a Revolução Islâmica e presencia as profundas mudanças impostas pelo novo regime. Entre a juventude no Irã e o período em que vive na Europa, ela enfrenta os desafios de construir sua identidade em meio às tensões entre liberdade, pertencimento e exílio.

📍 Local: Cinemateca Paulo Amorim, Sala Eduardo Hirtz  – Casa de Cultura Mário Quintana – Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico, Porto Alegre.

Sobre o Filme: Um longa comovente, trágico e ao mesmo tempo cheio de humor, sobre a ignorância, a intolerância e a forma como ás pessoas que continuam a lutar contra as suas conseqüências e por fazer a diferença. Satrapi, que além de assinar a obra original co-realiza o filme, nasceu em Teerão em 1969, onde viveu antes de se mudar para Viena e, depois, para França. Em 2000, foi publicado o primeiro álbum da série, editado em Portugal três anos depois pelas Edições Polvo.

Outro artista de BD, Vincent Parannaud - também conhecido como Winshluss, um premiado autor francês de banda desenhada alternativa - assina também a adaptação ao cinema da obra. Indicado a vários prêmios ao redor do mundo "Persépolis" é um filme para ser visto e revisto por pessoas de todas as idades principalmente por ser uma obra corajosa por atacar um regime intolerante. 

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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz - 'Pequenas Criaturas'

Sinopse: Helena e a família se mudam para a futurista Brasília de 1986, mas ela é deixada para trás pelo marido em uma viagem de negócios.

Embora seja a capital do país, a cidade de Brasília sempre me pareceu sem vida, com suas arquiteturas futuristas que não condizem com as nossas expectativas. Portanto, é difícil imaginar um cenário como esse para um filme de ficção. Embora haja vários documentários sobre o tema, em termos de ficção o único que me veio à memória foi "Faroeste Caboclo" (2013). "Pequenas Criaturas" (2026) talvez seja uma obra que fortaleça ainda mais esse meu pensamento sobre a capital, mas que também nos ensina a nos esforçarmos para fazer a diferença em um cenário moribundo.

Dirigido por Anne Pinheiro Guimarães, o longa acompanha a história de Helena (Carolina Dieckmann), uma mãe deixada para trás pelo marido sob o pretexto de uma viagem de negócios. Passada no ano de 1986, a trama mostra a mudança da família para a mais nova capital do país, que promete um futuro promissor. A protagonista terá que lidar com um filho adolescente irritado e uma criança de 8 anos que enxerga a vida de um jeito diferente de todos os outros.

O ano é 1986, um momento marcante após a redemocratização, no qual o país passava por uma nova metamorfose repleta de promessas a serem alcançadas. Porém, Brasília surge quase como um cartão-postal sem vida, onde até mesmo o clima não é dos melhores, fazendo muitos se perguntarem como chegaram ali. A família central da trama se faz essa pergunta quase o tempo todo, precisando se reanimar aos poucos para não ser sugada pelo desânimo.

Conhecida por seus papéis televisivos, Carolina Dieckmann parece estar vivendo uma nova etapa em sua carreira cinematográfica. Somente neste ano, a atriz atua em dois filmes, sendo o primeiro (Des)controle. É interessante assistir a ambos e perceber a versatilidade da intérprete, já que as duas personagens são completamente diferentes, provando que ela pode ir mais longe do que se imagina nas telas. Aqui, sua personagem se encontra vazia por dentro ao ser abandonada em uma cidade desconhecida, tendo que cuidar dos dois filhos sozinha.

Curiosamente, suas atitudes começam a mudar a partir do momento em que atropela acidentalmente um cachorro e busca reanimá-lo dentro de casa. Sua iniciativa funciona como um incentivo para se reerguer perante um futuro indefinido, tentando abrir brechas para que outros se aproximem. Esse acolhimento é muito bem representado pelos vizinhos, interpretados por Letícia Sabatella e Caco Ciocler, que percebem a protagonista pedindo socorro, mesmo quando ela não grita isso aos quatro ventos.

É preciso reconhecer que os filhos da protagonista também roubam a cena. O pequeno Lorenzo Mello dá um verdadeiro show de interpretação, mesmo quando está usando uma máscara do clássico "O Planeta dos Macacos" (1968). Já Theo Medon interpreta o típico jovem que transita entre a rebeldia e a busca por um ponto de equilíbrio em uma realidade que por vezes não o aceita. A presença dos dois em cena dá um tempero a mais ao longa, fazendo com que o espectador se preocupe com o futuro de ambos.

O misterioso vizinho interpretado por Fernando Eiras possui diversas camadas a serem analisadas, mesmo com poucos momentos em cena. Se em um primeiro momento podemos suspeitar de sua figura, logo constatamos que ele está gritando por dentro, pedindo atenção e motivações para continuar existindo nesse ambiente nada acolhedor. O personagem sintetiza muito bem o significado do título do longa: os seres humanos são pequenas criaturas em um mundo maior, mas que gritam para serem ouvidos, mesmo quando isso parece impossível.

Em suma, o filme é melancólico, mas ao mesmo tempo esperançoso à sua maneira, ao explorar personagens que buscam acolhimento e seu lugar no mundo. Pessoas partem por certos motivos, mas cabe a nós seguirmos em frente, mesmo quando fomos deixados para trás. Anne Pinheiro Guimarães constrói um retrato sobre o Brasil de ontem — não muito diferente do cenário de hoje —, obtendo um êxito notável.

"Pequenas Criaturas" é sobre recomeçar em um cenário hostil, mas que se torna mais reconfortante à medida que baixamos a guarda para sermos acolhidos por aqueles que realmente se importam.


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Cine Dica: Cinesemana de 23 a 29 de julho de 2026

A última cinesemana de julho destaca a estreia da produção gaúcha FUTURO FUTURO, quarto longa-metragem do diretor Davi Pretto e consagrado com os principais prêmios do Festival de Brasília 2025. Outra novidade é PEQUENAS CRIATURAS, novo filme da diretora Anne Pinheiro Guimarães e que traz uma história ambientada em Brasília na década de 1980.

A programação da semana segue com vários filmes elogiados, como o longa-metragem francês A DIVINA SARAH BERNHARDT, em que Sandrine Kiberlain dá vida a uma das maiores atrizes de todos os tempos; e também O CONVITE, da diretora Olivia Wilde, campeão absoluto de público e que coloca em cena dois casais que discutem as relações.Também continuam em exibição dois títulos baseados na vida e obra de grandes autores: FRANZ é uma elogiada produção da polonesa Agnieszka Holland sobre o escritor Franz Kafka, enquanto FANON destaca o trabalho do psiquiatra Franz Fanon na Argélia.

Esta é a última semana para conferir os longas PRIMAVERA, do cineasta italiano Damiano Michieletto, e UMA INFÂNCIA ALEMÃ, em que o cineasta Fatih Akin mostra as consequências da guerra a partir do olhar de um menino de 12 anos. Entre as sessões especiais desta semana estão PINK FLOYD – THE WALL, clássico da década de 1980 escolhido para a Sessão Nostalgia, além do segundo programa do ciclo PRESERVAÇÃO E HISTÓRIA DO CINEMA GAÚCHO, com títulos restaurados do acervo audiovisual do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa.

Confira a programação completa no site oficial da cinemateca clicando aqui.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'A Divina Sarah Bernhardt'

Sinopse: O longa foca na sua vida íntima e extravagante, destacando seu espírito transgressor, relacionamentos abertos e a luta contra desafios pessoais, como uma grave amputação de perna.

As cinebiografias tendem a seguir a fórmula de sempre ao revelar a consagração, o declínio e a redenção do artista. Se por um lado há títulos convencionais, por outro existem aqueles que fogem do previsível e se encaminham para algo além do comum, como foi o caso do maravilhoso "Piaf – Um Hino ao Amor" (2007). "A Divina Sarah Bernhardt" pode não possuir o mesmo quilate, mas surpreende com seu requinte visual e uma atuação feminina digna de nota.

Dirigido por Guillaume Nicloux, a trama se situa entre o final do século XIX e os primeiros anos do novo século. Exatamente nessa época, Sarah Bernhardt (Sandrine Kiberlain) brilhava como uma grande atriz, rosto do movimento Art Nouveau e uma das pioneiras do cinema. Ela é considerada por muitos a primeira estrela mundial da história. O filme mergulha na vida da artista e nos apresenta um novo lado de uma das precursoras do teatro mundial.

Guillaume Nicloux cria uma abertura que faz uma bela homenagem à maneira como os primeiros filmes do cinema mudo eram apresentados ao grande público, representando tempos mais dourados nos quais a arte, como um todo, era o que dava vida às pessoas. Mas do auge surge a decadência: a primeira aparição da protagonista, já no fim de sua vida, representa o encerramento de uma era, atiçando a curiosidade do público sobre o que aconteceu antes. É então que o cineasta vai e volta no tempo, apresentando um mosaico de informações sobre a atriz.

Tendo atuado em diversas peças — inclusive no Brasil —, Sarah Bernhardt foi alguém à frente do seu tempo; uma espécie de Madonna cuja essência primordial era forte demais para um único corpo, fazendo com que ele não suportasse tanta intensidade por muito tempo. Entre o sucesso, bebidas, sexo e festas, vem a decadência gradual — sem jamais perder a força de suas palavras, principalmente perante aqueles que não souberam compreendê-la. Sandrine Kiberlain nos brinda com uma atuação soberba ao se entregar de corpo e alma a uma personagem histórica que fez toda a diferença no universo da atuação.

O filme não explora apenas a sua forte personalidade, mas também o desejo incontrolável de manter seus amantes por perto para não se sentir sozinha. Dentre eles, sua principal paixão foi Lucien Guitry (Laurent Lafitte), cujas idas e vindas ao decorrer dos anos desencadeiam situações irreversíveis. Ao mesmo tempo, a narrativa sobre essa paixão proibida, desabafada pela própria protagonista, esclarece nuances de sua história e torna o desfecho mais dramático — para não dizer trágico.

Com um figurino deslumbrante alinhado a uma belíssima direção de arte, o filme é uma declaração de amor aos tempos em que a França respirava cultura, mas enfrenava os olhares conservadores da sociedade. Sarah Bernhardt enfrentou tudo isso se entregando a performances teatrais que lhe cobraram um alto preço. Ao final, ela sai de cena, mas seu legado permanece intacto — e as cenas finais simbolizam isso com maestria.

"A Divina Sarah Bernhardt" não é somente a cinebiografia de uma artista, mas também uma ode a uma época dourada para os amantes do teatro, na qual atuar tinha um significado muito mais profundo.

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Cine Dica: Newsletter Cinemateca Capitólio - Semana 23 a 29 de Julho de 2026

 Cinemateca Capitólio estreia Futuro Futuro, de Davi Pretto, e segue exibindo filmes indicados ao Prêmio Grande Otelo 2026

A Cinemateca Capitólio continua exibindo entre os dias 23 e 29 de julho a mostra que reúne os 16 longas indicados ao Prêmio Grande Otelo 2026, premiação anual da Academia Brasileira de Cinema que reconhece as produções nacionais de destaque entre os lançamentos da última temporada. A programação divide horários com a estreia do longa gaúcho Futuro Futuro, de Davi Pretto, vencedor do Festival de Brasília no ano passado.


Mais informações em www.capitolio.org.br/programacao

terça-feira, 21 de julho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'O Convite'

Sinopse: Joe e Angela decidem quebrar a rotina do casamento convidando os vizinhos Hawk e Pina para jantar.

Não é de hoje que o cinema se casa com perfeição com a arte do teatro, existindo diversos longas cujas tramas se passam em um único cenário. Se por um lado temos clássicos de tribunal como "12 Homens e uma Sentença" (1957), do outro, temos comédias refinadas como "Deus da Carnificina" (2011) e "Qual o Nome do Bebê?" (2011). "O Convite" (2026) se alinha aos dois últimos citados, tornando-se uma das melhores surpresas do ano.

Dirigido por Olivia Wilde (de "Fora de Série", 2019), na trama conhecemos Joe (Seth Rogen) e Angela (Olivia Wilde), um casal que se vê preso no marasmo da relação. Para sair da rotina, eles decidem convidar os seus vizinhos Hawk (Edward Norton) e Piña (Penélope Cruz) para jantar. No entanto, o que era para ser uma noite tranquila com coquetel se transforma em um evento repleto de reviravoltas inesperadas, onde segredos picantes começam a vir à tona.

Dividindo a carreira entre o cinema e séries de TV, Olivia Wilde surpreendeu nos últimos anos como diretora, e aqui ela obtém o equilíbrio perfeito. Nota-se, por exemplo, que logo na abertura temos a noção de que tudo se passará naquele apartamento, mas a realizadora opta por fazer um verdadeiro jogo de cenas: o uso dos espelhos nos dá a dimensão precisa da ação e reação do casal central e de como eles interagem no primeiro ato. Percebe-se o cuidado no domínio da cena não apenas pela forma de filmar, mas também pelo fato de a própria diretora estar à frente da câmera atuando com maestria.

Bebendo da fonte de realizadores autorais da comédia como Woody Allen, a diretora constrói personagens que transitam da lucidez à beira de um ataque de nervos na tentativa de sair da rotina e se sentirem mais vivos. A personagem de Olivia, por exemplo, sintetiza uma pessoa em busca de uma razão para continuar nesse casamento, nem que para isso precise se submeter a situações hilárias, para dizer o mínimo. A química entre ela e Seth Rogen é impecável ao representarem um casal em crise, mas que busca alguma fórmula para prosseguir junto.

Uma vez que o outro casal entra em cena, o filme nos brinda com um dos diálogos mais afiados do ano, no qual facilmente caímos na risada através de piadas criativas e ousadas, mas nunca apelativas. O que temos aqui é uma comédia adulta, feita para divertir, mas que ao mesmo tempo provoca reflexões sobre as complexidades dos relacionamentos contemporâneos. Nada melhor do que rir de uma desgraça com a qual nos identificamos facilmente.

E como é bom rever Edward Norton em cena — uma das grandes promessas do final do século passado que provou, e continua provando, o quanto tem a oferecer à sétima arte. Porém, é Penélope Cruz quem coloca o filme no bolso ao interpretar uma mulher que sabe exatamente o que quer em relação a relacionamento e sexo, colocando esses assuntos na mesa com total naturalidade e deixando o casal central de queixo caído. Não me surpreenderia se, no ano que vem, ela fosse novamente indicada ao Oscar, mesmo que sua personagem guarde semelhanças com o papel que lhe garantiu a estatueta em "Vicky Cristina Barcelona" (2008).

Com desdobramentos surpreendentes, a narrativa nos conduz por momentos em que cada protagonista revela sua verdadeira faceta, fazendo com que nos conectemos com eles à medida que a trama avança. O ato final é um belo exemplo de como o humor pode transitar por elementos dramáticos sem jamais soar piegas, mostrando-se extremamente humano. O final aberto quanto ao destino dos dois casais é mais do que proposital: como nossos próprios relacionamentos do lado de cá da tela guardam incertezas parecidas, compreendemos perfeitamente a situação deles.

"O Convite" é, desde já, uma das melhores comédias do ano. Nele, Olivia Wilde prova que o gênero continua pulsando forte — bastam um roteiro criativo e a sensibilidade necessária para arrancar do público um grande sorriso.

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