Sinopse: Lowen Ashleigh (Dakota Johnson), uma escritora em dificuldades financeiras, aceita o trabalho de sua vida: tornar-se ghostwriter da famosa autora Verity Crawford (Anne Hathaway).
Quando escrevi sobre o filme "A Criada" (2026), destaquei o fato de que o longa seria um passo à frente para os leitores que começaram a pegar o gosto pela leitura a partir de obras como "Cinquenta Tons de Cinza", mesmo com algumas de suas irregularidades latentes. Porém, sempre há espaço para retroceder uma ideia, pois certos fetiches são difíceis de ser jogados de lado — sobretudo quando, no fundo, são encarados como politicamente incorretos. "Verity"(2026) parece procurar exatamente esse público moldado pela obra de E. L. James, o que não significa necessariamente que seja uma boa ideia.
Dirigido por Michael Showalter e baseado no livro de Colleen Hoover, o filme acompanha Lowen Ashleigh (Dakota Johnson), uma escritora falida que recebe uma chance de se reestruturar ao ser contratada como ghostwriter de Verity Crawford (Anne Hathaway). Verity, uma autora de estrondoso sucesso, sofreu um grave e misterioso acidente de carro que a deixou paralisada e impossibilitada de continuar sua franquia literária. A convite do marido de Verity, Jeremy Crawford (Josh Hartnett), Lowen muda-se temporariamente para a casa do casal a fim de estudar as anotações e mergulhar na mente da autora.
O filme resgata a linguagem típica do suspense erótico noventista, mas sem esconder as caraterísticas habituais de uma adaptação de bestseller. Nota-se, por exemplo, que diversos desdobramentos soam inverossímeis em cena — engrenagens que funcionam melhor nas páginas de um livro, mesmo quando os realizadores tentam fazer os devidos ajustes para que o produto lembre mais o cinema. A adaptação de "O Código Da Vinci" (2006) serve até hoje como um manual do que não fazer em uma transposição literária, mas, pelo visto, muitos cineastas ainda não assimilaram a lição.
No geral, é uma obra que busca seduzir o público interessado no glamour, no homem bonito e bem-sucedido cercado por uma aura de mistério. Se a fórmula continua rendendo bilheterias, é porque ainda há apelo no tema, mesmo quando a execução cinematográfica soa ligeiramente artificial. No caso de "Verity", o filme acaba se sustentando graças ao empenho de parte do elenco.
Dakota Johnson retorna a um território familiar ao de "Cinquenta Tons de Cinza", mas aqui sua submissão transita entre o desejo por Jeremy e a obsessão voyeurística em adentrar a psique de Verity. E se, por um lado, Josh Hartnett figura entre os papéis mais engessados do cinema norte-americano recente, Anne Hathaway cumpre seu papel com louvor ao dar vida a uma personagem complexa e cheia de camadas.
O longa ganha seu melhor formato nas cenas em flashback, nas quais a mente enigmática de Verity é revelada por meio de seus manuscritos, mantendo o espectador sem saber exatamente onde termina a realidade e onde começa a ficção. O problema é que o filme falha na manutenção do mistério central e no clima de clausura dentro da casa: quando as grandes revelações vêm à tona, percebemos que o público já havia matado a charada muito tempo antes. Restam algumas sequências de suspense tecnicamente bem construídas, mas que se esvaziam pelo desgaste da previsibilidade.
Trata-se de uma narrativa que funciona incomparavelmente melhor na literatura. Hollywood demonstra, mais uma vez, sua dificuldade em criar um casamento harmonioso entre a fonte original e a linguagem propriamente cinematográfica, resultando em uma obra sem alma e incapaz de resistir ao teste do tempo. O filme indubitavelmente fará sucesso com os leitores fervorosos do romance, mas dificilmente será lembrado como um marco de adaptação.
"Verity" é o típico caso de transposição literária que fica aquém do esperado por se agarrar excessivamente ao livro e esquecer a autonomia do cinema.
Faça parte:
Facebook : www.facebook.com/ccpa1948








