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Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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quarta-feira, 29 de julho de 2026

Cine Dica: Streaming – 'Não Se Preocupe, Querida'

Sinopse: Alice (Florence Pugh) é uma dona de casa que vive em uma comunidade utópica e aparentemente perfeita nos anos 1950 ao lado de seu marido, Jack (Harry Styles).

Olivia Wilde já pode ser apontada como uma das grandes promessas da direção contemporânea. Começando a carreira como atriz no cinema e na TV, a realizadora surpreendeu na comédia "Fora de Série" (2019), onde estreou no comando de um longa, e mais recentemente com "O Convite" (2026), que aponto facilmente como uma das melhores comédias dos últimos anos. No meio desse percurso, ela lançou o divisivo "Não Se Preocupe, Querida" (2022) — um filme que vem crescendo bastante à medida que o tempo passa.

Na trama, Alice vive com o marido e os colegas de trabalho dele, acompanhados de suas esposas, em um isolado condomínio em pleno anos 1950. As mulheres vivem reclusas no local, onde passam o dia esperando o regresso dos companheiros. No entanto, o tom idílico começa a ruir quando uma das moradoras passa a questionar o objetivo do misterioso Projeto Vitória, mantido em segredo pelos homens. Ao começar a investigar o seu entorno, a vida perfeita do casal se desfaz conforme os segredos da empresa vêm à tona.

Ao pensar sobre o cinema estadunidense convencional dos anos 1950, enxergo uma realidade plástica que pouco condizia com o mundo real daquela época. O próprio governo norte-americano vendia a ideia de uma sociedade perfeita e intocável. Com o passar do tempo, ficou claro que aquele "cartão-postal" não resistiria aos anos 1960, impulsionado por movimentos sociais e feministas que redefiniram a sociedade.

Na sociedade atual, é impensável reduzir a mulher ao papel de mero adorno do lar, ainda que parcelas conservadoras e machistas almejem o retorno desse passado patriarcal. Wilde acerta ao estruturar uma crítica ácida a homens que não aceitam a perda do papel de dominadores e se sentem ameaçados por mulheres independentes. Contudo, a forma como a realizadora constrói essa narrativa para explorar tais temas é o que torna o filme tão especial.

Com uma direção de arte e uma fotografia que resgatam as cores quentes dos "anos dourados", a diretora constrói um cenário impecável — perfeito até demais —, fazendo com que a própria protagonista duvide daquela perfeição. Aliada a uma montagem ágil, cujos jogos de câmera traduzem a mente confusa de Alice, a trama nos conduz por um enigma. Embora a premissa da realidade simulada não seja novidade para fãs de ficção científica (lembrando clássicos como "Matrix" ou a série "Black Mirror"), as raízes e motivações dessa simulação tornam o longa assustadoramente próximo da nossa realidade.

Sendo uma das grandes atrizes de sua geração, Florence Pugh carrega o filme com maestria. Seu olhar contestador é o convite principal para desvendarmos o mistério junto com ela. A própria Olivia Wilde interpreta uma personagem ambígua, que demonstra saber da verdade, mas cujas motivações revelam o quanto foi persuadida por um sonho absurdo. E se por um lado Harry Styles vive um marido fracassado que toma a pior decisão possível, por outro, Chris Pine surpreende com uma atuação intimidadora — com discursos que não soam muito diferentes de certos políticos atuais e falsos profetas.

Em suma, o longa alinha com precisão o suspense de ficção científica a dilemas sociais e ideologias retrógradas que insistem em se perpetuar. O final abrupto é um acerto que faz o filme continuar ecoando na mente, provocando debates e teorias. Um filme provocativo, feito sob medida para desafiar a roda de conversa entre cinéfilos.

"Não Se Preocupe", Querida ganha força com o tempo e se consolida como um testemunho contundente da visão de direção de Olivia Wilde.



Onde Assistir: Netflix.

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Cine Dica: Newsletter Cinemateca Capitólio - 30 de julho a 5 de agosto de 2026

 Últimas sessões dos indicados ao Prêmio Grande Otelo, mostra de filmes de Robert Altman, o premiado Futuro Futuro e David Bowie em cartaz na Cinemateca Capitólio.

A Cinemateca Capitólio recebe até domingo as últimas sessões da mostra que vem exibindo com sucesso os 16 longas indicados ao Prêmio Grande Otelo 2026, premiação anual da Academia Brasileira de Cinema que reconhece as produções nacionais de destaque entre os lançamentos da última temporada. A partir de terça-feira, 4 de agosto, tem início uma pequena mostra dedicada a Robert Altman (1925-2006), um dos grandes nomes do cinema norte-americano do século XX. Ambas programações dividem horários com o longa gaúcho em estreia Futuro Futuro, de Davi Pretto, vencedor do Festival de Brasília no ano passado.

Já na sexta-feira, 31 de julho, às 19h30, ocorre mais uma edição do projeto Raros, com a exibição do drama de suspense Maldita Paixão (1980), único longa dirigido pelo célebre fotógrafo Gordon Willis. Sábado e domingo, dias 1º e 2 de agosto, às 15h, a Sessão Vagalume exibe o clássico Labirinto – A Magia do Tempo, de Jim Henson, com Jennifer Connelly e David Bowie.

Mais informações em www.capitolio.org.br/programacao

terça-feira, 28 de julho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'A Fabulosa Máquina do Tempo'

Sinopse: Meninas brincam no árido interior brasileiro, equilibrando-se entre o passado difícil de suas mães e os sonhos fantásticos que inventam para o futuro.

Uma das coisas que mais me fascina quando um documentário foca em crianças é o quanto elas acabam sendo sinceras perante a realidade em que convivem e com relação ao que lhes é ensinado. No documentário "Últimas Conversas" (2015), de Eduardo Coutinho, uma menina esbanja total sinceridade sobre quem é Deus, em uma resposta que surpreendeu até mesmo o veterano cineasta. "A Fabulosa Máquina do Tempo" (2026) mistura o teor documental com pitadas de ficção e o lado mais cru do dia a dia dessas jovens.

Dirigido por Eliza Capai, os eventos que ocorrem na tela se passam no sertão do Piauí, onde meninas navegam entre cultos evangélicos, redes sociais e sonhos de futuro. Ao inventarem uma máquina do tempo, elas revisitam as histórias duras de suas mães e avós, marcadas pela pobreza e pela desigualdade, e viajam para um futuro onde se enxergam livres e realizadas. Entre brincadeiras e fabulação, elas questionam o que significa se tornar mulher.

Eliza Capai opta por poucos recursos, mas os utiliza para realizar uma obra criativa que expande a imaginação das crianças. A simples ideia de imaginá-las viajando no tempo se torna o ponto de partida para que as jovens testemunhem as palavras de suas mães sobre o passado, estabelecendo um paralelo com suas próprias vidas e com como poderia ser o seu futuro. Nota-se, por exemplo, que ainda vigora uma cultura patriarcal naquele local, onde o homem é visto como uma figura dominante enquanto a mulher deve obedecer às suas ordens.

Porém, o documentário procura não abordar esse machismo de forma solene, mas sim de maneira sensível e reflexiva, através do olhar inocente de jovens que ainda estão descobrindo o mundo. Há tanto perguntas feitas pela cineasta quanto momentos em que a realização apenas deixa a câmera rodar enquanto as meninas são elas mesmas ou imaginam o que poderiam ser na vida adulta — uma curiosa transição entre o documental, a ficção e a fábula, unindo criatividade e inocência.

Em suma, o filme é um retrato de uma nova geração que ainda engatinha perante uma realidade nacional cada vez mais complexa, na qual se misturam religião e política, e cujos valores ultrapassados insistem em ter espaço no nosso futuro. É um documentário sobre a esperança de um amanhã melhor, onde o acesso à informação pode formar uma geração mais consciente, desde que orientada por aqueles que nutrem a cultura. Afinal, nunca é demais sonhar com um futuro mais dourado.

"A Fabulosa Máquina do Tempo" é a união da linguagem documental, da ficção e do olhar puro de uma geração que pode, quem sabe, se tornar nossa nova esperança.


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Cine Dica: PROGRAMAÇÃO CINEBANCÁRIOS 30 DE JULHO A 05 DE AGOSTO

 CineBancários exibe estreia de “A Fabulosa Máquina do Tempo” e “Não sei Viver sem Palavras”, sobre Ignácio de Loyola Brandão, na cinesemana de 30 de julho

Premiado documentário de Eliza Capai estreia junto de filme sobre um dos grandes nomes da literatura brasileira; “Pequenas Criaturas” segue em cartaz na sala

Estreia dia 30 de julho o documentário “A Fabulosa Máquina do Tempo”, após estrear mundialmente no Festival de Berlim. Dirigido por Eliza Capai e rodado no Piauí, o filme acompanha de perto um grupo de meninas, que, através de conversas e brincadeiras, revelam um universo lúdico que dialoga diretamente com temas que vão desde a complexidade do casamento e das diferenças de gênero até as alegrias da infância.

Recentemente, no Cine PE, o longa conquistou o Troféu Calunga nas categorias de Melhor Longa-metragem pela ABRACCINE; Melhor direção (Eliza Capai); Melhor trilha sonora (Décio 7 com participação especial de Juliana Linhares); e Melhor Atriz, concedido ao coletivo de meninas que protagonizam juntas o filme. A Mostra Ecofalante contemplou a produção com o prêmio de Melhor Longa-metragem pelo voto popular e concedeu Menção Honrosa. Além disso, o filme esteve no FICA - Festival Internacional de Cinema Ambiental, em Goiás, na Mostra  Macambira, no Rio Grande do Norte, e passou anteriormente pelo É Tudo Verdade, principal festival de documentários da América Latina.

“A Fabulosa Máquina do Tempo” reforça também a projeção internacional do cinema brasileiro. O filme conquistou o prêmio de Melhor Feito Técnico-artístico da Competição Ibero-americana de Documentários do Festival Internacional de Cinema de Guadalajara (FICG). Além disso, teve exibições no Festival Internacional de Cinema de Shanghai, consolidando uma trajetória notável do longa, que foi iniciada na estreia mundial no Festival de Berlim, abrindo a Mostra Generation Kplus, e se expandiu para eventos de destaque como: Krakow Film Festival, na Polônia; Festival Internacional de Cine en Puerto Vallarta, no México; Thessaloniki International Documentary Festival, na Grécia; Festival Cinematográfico Internacional del Uruguay; e Festival Internacional de Cine de Cartagena de Índias, na Colômbia.

Ignácio de Loyola Brandão desvendado pelas lentes do filho, fotógrafo e cineasta

A outra estreia da semana é “Não sei Viver sem Palavras”, documentário sobre Ignácio de Loyola Brandão, um dos principais nomes da literatura brasileira, dirigido pelo filho do escritor, André Brandão. Nascido em Araraquara (SP) em 1936, Ignácio inscreveu seu nome na literatura brasileira com romances, crônicas, livros infanto-juvenis, biografias, relatos de viagens, peças de teatro, entre tantos outros textos. O documentário resgata de forma bastante pessoal essa trajetória a partir de depoimentos do escritor e um rico material de arquivo. O longa teve sua première no Festival do Rio e também foi exibido na Mostra de São Paulo.

O filme nasceu na pandemia, quando, vivendo novamente com seu pai, André começou a filmar despretensiosamente o cotidiano deles. Depois, percebeu que desse material poderia surgir um documentário. “O filme é muito caseiro, feito a poucas mãos. Fizemos oito entrevistas de duas a três horas cada, principalmente na casa dele, mas também no bairro Praça Roosevelt, onde morou por dez anos quando chegou em São Paulo, na biblioteca municipal e na estação de trem de Araraquara - lugares importantes na história dele”, resume o diretor.

André, que teve uma longa carreira como fotógrafo, e fez uma transição para o cinema em 2015, conta que muito do material de arquivo do filme veio do próprio Ignácio. O artista mantém bastante organizada uma rica coleção de materiais: “Atrelado ao escritório dele tem um pequeno quartinho, com muitas caixas, e cada uma tem muitos envelopes dentro. A maioria dos envelopes tem fotos, mas tem também uma boa quantidade com cartões postais, programas de peças, de museus, exposições etc. E cada envelope tem um texto escrito do lado de fora , explicando, em detalhes, o que tem lá dentro”.

Além disso, André encontrou nesse arquivo 38 rolos de Super-8, todos filmados pelo escritor durante a década de 1970. Essas imagens acabaram se tornando uma parte importante do filme. Numa camada mais íntima, são imagens da família, de São Paulo, dele próprio, Araraquara, Berlim, até do nascimento do cineasta.

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PROGRAMAÇÃO CINEBANCÁRIOS DE 30 DE JULHO A 5 DE AGOSTO


ESTREIAS:


A FABULOSA MÁQUINA DO TEMPO

Brasil/Documentário/2025/70 min.

Direção: Eliza Capai

Sinopse: No sertão do Piauí, meninas de 10 anos navegam entre TikTok, cultos evangélicos e sonhos de futuro. Ao inventarem uma máquina do tempo, revisitam as histórias duras de suas mães e avós, marcadas pela pobreza e desigualdade, e viajam para um futuro onde se enxergam livres e realizadas. Entre brincadeiras e fabulação, elas questionam o que significa se tornar mulher. Um filme sobre o delicado limiar entre infância e adolescência, narrado por quem ainda está vivendo essa travessia.



NÃO SEI VIVER SEM PALAVRAS

Brasil/Documentário/2026/81 min.

Direção: André Brandão

Sinopse: Um filme sobre um dos grandes nomes da literatura brasileira: Ignácio de Loyola Brandão — escritor, jornalista, cinéfilo, observador atento da realidade, sonhador. Subvertendo os papéis, este documentário transforma o contador de histórias em personagem principal de uma narrativa que entrelaça os muitos homens que existem em um só. Muito mais do que uma biografia, porém, “Não Sei Viver Sem Palavras” é um devaneio pelas obras, memórias e desejos de Loyola. Além de um encontro. Um jogo de lembranças e invenções, em que um filho, o diretor André Brandão, se debruça sobre o pai para decifrá-lo — ou se perder ainda mais em seus labirintos narrativos.

EM CARTAZ:


PEQUENAS CRIATURAS

Brasil/Drama/ 2025/ 106min.

Direção: Anne Pinheiro Guimarães

Sinopse: Helena e a família se mudam para a futurista Brasília de 1986, mas ela é deixada para trás pelo marido em uma viagem de negócios. Frustrada, Helena lida com a adaptação à cidade desconhecida e as crises do filho adolescente e do caçula, de sete anos.

Elenco:  Carolina Dieckmann, Letícia Sabatella, Caco Ciocler




HORÁRIOS DE 30 DE JULHO A 5 DE AGOSTO

(não há sessões nas segundas)

15h: PEQUENAS CRIATURAS

17h: NÃO SEI VIVER SEM PALAVRAS

19h: A FABULOSA MÁQUINA DO TEMPO


Ingressos: Os ingressos podem ser adquiridos a R$ 14 na bilheteria do CineBancários. Idosos (as), estudantes, bancários (as), jornalistas sindicalizados (as), portadores de ID Jovem e pessoas com deficiência pagam R$ 7. São aceitos cartões nas bandeiras Banricompras, Visa, MasterCard e Elo. Nas quintas-feiras, a meia-entrada (R$ 7) é para todos e todas.


CineBancários

Rua General Câmara, 424 – Centro – Porto Alegre

Mais informações pelo telefone (51) 3030.9405 ou pelo e-mail cinebancarios@sindbancarios.org.br


Amanda Zulke 

CineBancários | SindBancários 

(51) 3030-9400 | (51) 99920-6484

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'A Noite de Alaíde'

Sinopse: Um retrato sensível e contemporâneo da artista Alaíde Costa, combinando muita música, arquivos inéditos, atores e uma abordagem poética da memória. Revela a força estética e emocional de Alaíde, que atravessou diferentes períodos da cultura brasileira sem fazer concessões.

Os documentários brasileiros sobre artistas da música têm me feito sentir, nos últimos anos, como se entrasse em uma máquina do tempo para adentrar cada vez mais a nossa cultura musical. Entre altos e baixos, sempre haverá aquele filme que procura se diferenciar dos outros, mesmo quando fica um pouco aquém do esperado. "A Noite de Alaíde" (2025) fala menos sobre a artista em si ao se enveredar mais pela estética, mas a tentativa não deixa de ser curiosa.

Dirigido por Liliane Mutti, o filme conta a história de Alaíde Costa, garota nascida no subúrbio carioca que passa a frequentar as rodas da Zona Sul do Rio de Janeiro nos anos 1950 e 1960. Lá, obtém reconhecimento por sua voz ao lado de nomes como Tom Jobim, João Gilberto e tantos outros. Porém, no ápice da carreira, Alaíde começa a ser ignorada pelas gravadoras. Junto a Johnny Alf, outro pioneiro negro da Bossa Nova, ela é vetada da lendária apresentação no Carnegie Hall, em Nova York. Prestes a completar noventa anos, ela finalmente obtém o reconhecimento tardio.

Embora seja um documentário, é interessante observar que Liliane Mutti cria passagens encenadas para retratar Alaíde desde a infância até a fase adulta. Interpretada por quatro atrizes, a própria artista usa sua voz como narradora — o que nos faz entender o quão próxima ela esteve da realização do projeto. Se por um lado isso pode soar um tanto pretensioso, por outro, há de se reconhecer o esforço da cantora em relembrar passagens que com certeza ainda lhe doem muito.

Curiosamente, as reconstituições foram trabalhadas com o uso da rotoscopia, técnica em que animadores desenham ou pintam por cima de filmagens reais, quadro a quadro. O resultado é instigante: parece que testemunhamos uma HQ em movimento, ao mesmo tempo em que relembra clássicos da animação norte-americana do século passado. Um artifício estético que ganha peso ao sintetizar a nostalgia de uma época que não voltará.

É interessante observar que Alaíde Costa testemunhou grandes transformações da nossa música, como a Bossa Nova e o Clube da Esquina. Porém, ela nunca se viu totalmente presa a rótulos de movimentos, mantendo-se fiel à sua essência sem se render às exigências mercadológicas das gravadoras da época — que, naturalmente, visavam ao lucro em primeiro lugar. Se por um lado essa postura por vezes dificultou seu alcance comercial, por outro, garantiu sua integridade artística.

Em suma, o tempo se torna o melhor juiz. Embora o documentário não explore a artista como um todo de forma primordial, o longa cumpre o papel de registro e reparação histórica para alguém que só queria viver de sua arte, a despeito dos percalços impostos por uma sociedade conservadora. O filme se encerra com Alaíde, aos noventa anos, conquistando o espaço que lhe foi negado no passado — um desfecho sem preço. A justiça é tardia, mas não falha.

"A Noite de Alaíde" pode ser um registro parcial de uma das maiores vozes da MPB, mas é um convite irresistível para quem deseja conhecê-la.

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Cine Dica: Nova mostra da Sala Redenção homenageia trilhas sonoras icônicas do cinema

“Sons da estrada” é a nova mostra da Sala Redenção, o cinema da UFRGS. A programação reúne road movies com trilhas sonoras marcantes que retratam histórias de liberdade e autodescoberta, entre um posto de combustível e outro, no calor sufocante do deserto ou sob o neon melancólico de uma lanchonete perdida na beira da pista. As sessões são gratuitas e acontecem entre os dias 27 de julho e 7 de agosto em dois horários, às 16h e às 19h.

A abertura da programação, no dia 27, traz dois longas-metragens vencedores do Oscar na década de 1990. O primeiro deles acompanha a viagem de duas drag queens e uma mulher trans pelo deserto australiano, ao som de “I Will Survive” de Gloria Gaynor; o segundo retrata a aventura de uma dupla de amigas em busca de liberdade, embalada por “The Ballad Of Lucy Jordan”, de Marianne Faithfull. Músicas de Pink Floyd, Jevetta Steele, The Kings, Jim Bowen Pickers e Eddie Vedder que marcaram época também estão presentes na mostra, que, no total, apresenta sete filmes ao público.

A Sala Redenção está localizada no Campus Centro da UFRGS, com acesso mais próximo pela Rua Eng. Luiz Englert, 333.


Programação:


Sessão 1

Austrália

“I Will Survive” – Gloria Gaynor

27/07 | segunda-feira | 16h

04/08 | terça-feira | 19h


Sessão 2

Estados Unidos

“The Ballad Of Lucy Jordan” – Marianne Faithfull

27/07 | segunda-feira | 19h

04/08 | terça-feira | 16h


Sessão 3

Estados Unidos

“Come In Number 51, Your Time Is Up” – Pink Floyd

28/07 | terça-feira | 16h

03/08 | segunda-feira | 19h


Sessão 4

Estados Unidos

“Calling You” – Jevetta Steele

28/07 | terça-feira | 19h

05/08 | quarta-feira | 16h


Sessão 5

Índia

“Powerman” – The Kings

29/07 | quarta-feira | 16h

07/08 | sexta-feira | 19h


Sessão 6

Estados Unidos

“Freedom of Expression” – Jim Bowen Pickers

29/07 | quarta-feira | 19h

31/07 | sexta-feira | 16h


Sessão 7

Estados Unidos

“Society” – Eddie Vedder

30/07 | quinta-feira | 16h

05/08 | quarta-feira | 19h


Confira a programação completa no site oficial da sala clicando aqui. 

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Cine Especial: Revisitando 'O Retrato de Dorian Gray'

Os monstros da Universal foram o carro-chefe do estúdio por muito tempo, popularizando personagens clássicos da literatura. No decorrer do tempo, porém, o público amadureceu e chegou a um ponto em que não estava mais satisfeito com as velhas fórmulas de sucesso. Pode-se dizer que, entre os anos quarenta e cinquenta, o público apreciava um bom filme de terror, mas que acrescentasse algo que fizesse refletir sobre seus próprios medos interiores.

"Sangue de Pantera" (1942), dirigido por Jacques Tourneur, por exemplo, possuía elementos já vistos no cinema de horror da época, mas com uma seriedade mais elevada, em que o teor do gênero e o realismo andavam de mãos dadas. É uma pena que não tenham surgido mais títulos como esse naquele período, pois é sempre interessante apreciar obras que vão contra a tendência da época. Enfim, chegamos então a "O Retrato de Dorian Gray" (1945), um filme elegante e sombrio, mas cuja ideia do lado sobrenatural da situação fica somente na superfície.

Dirigido por Albert Lewin e baseado na obra de Oscar Wilde, o filme conta a história de Dorian Gray (Hurd Hatfield), um jovem rico apresentado ao mundo hedonista de Londres pelo lorde Henry Wotton (George Sanders). Um dia, Basil Hallward (Lowell Gilmore), um amigo artista, resolve fazer uma pintura para retratar a beleza jovial de Dorian. O jovem gosta tanto do retrato que declara que, se pudesse, daria até mesmo a alma para permanecer com aquele visual para sempre. A partir de então, todos os pecados e a idade de Dorian são transferidos para a pintura, enquanto ele continua com sua juventude intacta.

Oscar Wilde foi um escritor à frente de seu tempo, ao ponto de não se arrepender e não esconder sua homossexualidade em tempos conservadores. Condenado por isso, arruinado e com a saúde debilitada, exilou-se em Paris, onde morreu tragicamente de meningite em 1900, aos 46 anos. Seu legado foi redimido postumamente, com sua obra literária sendo reconhecida à medida que o tempo passava.

Pode-se dizer que "O Retrato de Dorian Gray" possui um forte subtexto homoerótico, embora não de forma explícita, para não ser julgado pela justiça conservadora da época. Dorian Gray fica perambulando pelos bares à noite em meio a homens que buscam um refúgio para serem eles mesmos fora do alcance de um olhar intolerante. A libertinagem do protagonista, por sua vez, pode ser uma representação do lado cada vez mais deteriorado de seu quadro, enquanto ele continua com sua beleza intacta.

A hipótese de uma maldição vinda da estátua de um gato egípcio serve somente como cortina de fumaça, pois o desejo do protagonista por sua juventude se torna ainda mais forte do que qualquer possibilidade vinda do lado fantástico da trama. Albert Lewin capricha em uma direção precisa, em que cada cena foi feita para ser refletida e analisada, sintetizando o lado psicológico dos personagens em tela. O tom sugestivo das palavras vindas de Dorian acaba sendo mais mortal do que um mero ato físico, fazendo com que as pessoas que um dia o amaram se afastem, caindo em sua desgraça particular no decorrer do tempo.

Hurd Hatfield se sai bem ao interpretar um Dorian Gray com uma cordialidade fria, cuja beleza angelical esconde um ser sombrio, mas que, no fundo, não desejava exatamente estar aprisionado perante seus próprios desejos. Além de um grande elenco, o filme possui uma fotografia em preto e branco elegante, na qual o toque de cores ao revelar a mudança gradual do quadro se torna um toque de gênio por parte dos realizadores — um efeito que nos assusta em um primeiro momento e que funciona até mesmo nos dias de hoje.

Embora a solução final para Dorian seja um tanto quanto previsível, tanto a obra literária quanto essa adaptação para o cinema sobreviveram ao teste do tempo. Conheci o filme primeiramente há vários anos pelo SBT, na extinta sessão Cine Belas Artes, e mais recentemente em uma sessão do Cine Clássicos pela Cinemateca Capitólio, de Porto Alegre. Revisitando a obra, percebo o quanto Oscar Wilde guardava seus desejos interiores, usando o talento da escrita para transmitir esse lado tão calado pela sociedade conservadora de sua época.

"O Retrato de Dorian Gray" é um filme de horror elegante, com teor psicológico e muito à frente de seu próprio tempo.

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