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Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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terça-feira, 1 de setembro de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte'

Sinopse: Jovem cineasta vai ao encontro de uma atriz reclusa para convencê-la a voltar a participar de uma franquia slasher.

O gênero slasher foi um dos mais explorados entre o final dos anos 1970 e toda a década de 1980. Já moribundo no início dos anos 1990, esse tipo de filme foi revitalizado a partir do primeiro "Pânico" (1996), o que fez com que os estúdios voltassem a explorá-lo à exaustão para obter grandes lucros. Porém, mais do que filmes de horror, essas produções carregavam uma metáfora impregnada em seus projetos.

Na trama, sempre víamos jovens na mais pura azaração, dispostos a fazer sexo de qualquer jeito. Contudo, havia sempre aquela jovem inocente e virgem que se tornava a única sobrevivente da história. Olhando para trás, observa-se que o assassino era uma espécie de representação do temor em relação aos tempos da AIDS: bastava os personagens fazerem sexo para logo serem punidos. Por mais violentos que fossem, esses filmes não deixavam de ser conservadores — alinhados com uma mentalidade que, hoje, seria politicamente incorreta, para dizer o mínimo.

"Acampamento Sinistro" (1983), por exemplo, seria uma produção completamente inviável nos dias de hoje, já que poderia facilmente ser taxada como transfóbica. Porém, assim como o primeiro Pânico, esses longas podem ser revitalizados desde que se explorem os acertos e erros de sua época, tornando a obra uma leitura curiosa para as novas plateias. "Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte" (2026) não é somente uma homenagem a esse subgênero do horror, mas também uma crítica ácida sobre a mentalidade de tempos passados e da própria Hollywood.

Dirigido por Jane Schoenbrun (de "Eu Vi o Brilho da TV", 2024), o longa acompanha a história de uma jovem cineasta queer (Hannah Einbinder) contratada para comandar os bastidores de um reboot da franquia de terror conhecida como Camp Miasma. Ela, por sua vez, decide reencontrar a atriz que protagonizou as cenas finais do longa original — interpretada por Gillian Anderson — e busca nela uma forma de fazer uma nova releitura do clássico. Porém, acontecimentos estranhos fazem com que ela enxergue uma nova realidade, despertando nela algo antes adormecido.

O público acostumado com as velhas regras de um determinado gênero fica tão preso ao convencional que, quando surge um filme que quebra essas fórmulas, ele se torna, em um primeiro momento, incompreensível. Em "A Natureza da Violência" (2024), por exemplo, assistimos à história pela perspectiva do monstro, e não de suas vítimas. "Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte" vai por um caminho similar ao desconstruir o gênero e criar uma nova visão sobre o assunto.

Logo no início do filme, Jane Schoenbrun brinca com o universo slasher ao explorar o quanto os estúdios exploram em potência máxima um determinado sucesso para gerar continuações intermináveis, spin-offs, refilmagens, reboots e produtos para a massa usufruir. Já o cenário principal da trama é explicitamente falso, como se a realizadora nos dissesse para não levarmos aquilo a sério, mas sim os pontos que desconstroem o gênero. Quando a protagonista finalmente se encontra com a atriz reclusa, o filme mostra a que veio.

Conhecida mundialmente como a protagonista da série "Arquivo X" (1993–2002), Gillian Anderson é uma presença que domina a cena assim que surge. Seu olhar peculiar não esconde o fato de ter descoberto, logo cedo, o que realmente move as engrenagens de um estúdio que apenas explorava o lado erótico das jovens moças do passado. Carregando essa bagagem, ela acaba influenciando a percepção da jovem cineasta dentro da trama, além de saber lidar com a própria sexualidade de forma mais aberta. Curiosamente, é notório que a diretora faz um paralelo da personagem de Gillian Anderson com a figura de Norma Desmond, do clássico "Crepúsculo dos Deuses" (1950), tornando essa observação ainda mais rica para os cinéfilos que apreciam o cinema clássico.

Hannah Einbinder nos brinda com uma atuação ainda mais complexa do que se imagina. Ela se apresenta como alguém de mente aberta em relação aos relacionamentos e ao sexo, mas que ainda não liberou seu verdadeiro eu por completo. Sua adoração pelo slasher clássico seria uma forma de reprimir seus verdadeiros desejos, mesmo tendo consciência das mensagens subliminares e conservadoras daquela época. A atuação de ambas juntas em cena é digna de nota: o desejo nasce de forma gradual, nada impulsiva, indo na contramão de quem espera algo imediatamente explícito.

O filme pode ser interpretado das mais diversas formas, inclusive de maneira surreal. Basta pegarmos como exemplo a cena em que as duas personagens centrais assistem ao clássico dentro da trama: o assassino surge no lago e começa a matar os jovens do acampamento de forma absurdamente cartunesca, despertando um riso involuntário. Ao mesmo tempo, é por essa passagem que o filme faz uma crítica certeira aos meios politicamente incorretos de se criar uma história de horror em outros tempos.

Jane Schoenbrun acerta ao homenagear e alfinetar o slasher, que por muito tempo usou a figura de jovens mulheres para despertar o monstro da trama — quando, na verdade, o próprio monstro era uma alusão a tempos mais conservadores e hipócritas. Na reta final, a obra cai de cabeça na mais pura metalinguagem ao sugerir que talvez tenhamos culpa por alimentar Hollywood a produzir tantas franquias intermináveis, seja no horror ou em qualquer outra fórmula de sucesso. Quando vemos as duas protagonistas despertas em relação a isso, elas cruzam com uma sociedade alienada e consumista, que já não se importa com o que assiste ou consome, desde que continue entretida em suas bolhas particulares.

"Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte" funciona tanto como uma bela homenagem ao gênero slasher quanto como uma inteligente crítica construtiva sobre a mentalidade politicamente incorreta desse tipo de cinema e da indústria hollywoodiana.


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Cine Dica: Newsletter Cinemateca Capitólio - 3 a 9 de setembro de 2026

 Festival de documentários, estreia brasileira e cinema ucraniano em destaque na Cinemateca Capitólio

A semana da Cinemateca Capitólio entre 3 e 9 de setembro será movimentada, com atrações que incluem lançamento exclusivo de longa brasileiro premiado, festival de documentários, programação infantil, mostra de filmes ucranianos e nova edição da sessão Clássicos. Até sábado, 5 de setembro, a Capitólio segue recebendo a programação do festival de documentários POA Doc.

Na quinta-feira acontece a estreia exclusiva de um dos títulos brasileiros mais elogiados do ano, Aquele que Viu o Abismo, de Gregorio Gananian e Negro Leo. O filme teve sua estreia durante a Mostra de Cinema de Tiradentes em 2024, onde recebeu o prêmio de Melhor Filme na mostra Olhos Livres. Após exibições em diversos festivais e mostras no país (incluindo o festival Cine Esquema Novo em 2024), o filme finalmente chega aos cinemas. Com uma atmosfera magnética a partir de um visual alucinante e de uma trilha sonora perturbadora, a trama se projeta em um futuro distópico, dominado por uma organização misteriosa que recruta civis sob a promessa de uma vida melhor. Bebendo diretamente na fonte do cinema de invenção brasileiro, o filme desafia as narrativas convencionais para propor uma experiência profundamente sensorial.

Para a criançada, a atração da Sessão Vagalume de setembro é o clássico Babe, o Porquinho Atrapalhado, com sessões sábado e domingo, às 15h. Dirigido por Chris Noonan, o filme é uma adaptação do romance The Sheep-Pig (1983), também conhecido nos Estados Unidos como Babe: The Gallant Pig, do escritor britânico Dick King-Smith. O enredo gira em torno de um porquinho que deseja fazer o trabalho de um cão pastor. Centenas de animais foram necessários para a produção do filme. Os animais centrais foram interpretados por uma combinação de porcos reais com réplicas animatrônicas. Um filme que marcou mais de uma geração de jovens cinéfilos.

Mostra de cinema ucraniano

No domingo, dia 6 de setembro, às 19h, a Cinemateca Capitólio inaugura a mostra Dias de Cinema Ucraniano, que vai apresentar ao público portoalegrense uma cinematografia pouco conhecida no Brasil. A abertura será com o clássico Sombras dos Ancestrais Esquecidos, de Sergei Paradjanov. A mostra, que se estende até o dia 16 de setembro, está passando por 8 cidades brasileiras (Brasília, Curitiba, Prudentópolis, Ribeirão Preto, Belo Horizonte, Salvador, Rio de Janeiro e Porto Alegre). A realização é da Fundação de Caridade Dveri, de Kiev, e conta com o apoio da Embaixada da Ucrânia no Brasil, da Agência Estatal de Cinema da Ucrânia, da Representação Central Ucraniano-Brasileira, da Associação Ucraniano-Brasileira de Relações e Artes, da Aliança Francesa e do Goethe-Institut.

A mostra Dias de Cinema Ucraniano traz ao público brasileiro a diversidade do cinema da Ucrânia, com filmes que abordam história, identidade, tradição, sociedade e cultura, buscando ampliar as percepções sobre o país no Brasil nestes tempos de guerra, revelando a força de uma cinematografia com estética própria, humor, memória histórica e diferentes formas de experimentação artística.

A mostra na Cinemateca Capitólio exibe seis longas metragens (quatro ficções e dois documentários), incluindo títulos recentes com passagem por festivais importantes como Cannes (Pamfir) e Visions du Réel (Fragmentos de Gelo).

Confira a programação completa no site oficial da Cinemateca clicando aqui. 

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Cine Especial: Clube de Cinema - 'Franz'

 Nota: Filme exibido para os associados no dia 30/08/26

Sinopse: O filme acompanha Franz Kafka em diferentes momentos de sua vida, da infância aos anos de maturidade, abordando seus conflitos familiares, relacionamentos e o trabalho burocrático que dividia espaço com sua verdadeira vocação literária.

Franz Kafka foi um dos maiores gênios da literatura mundial, cujo reconhecimento pleno só veio após sua morte precoce. Entender as raízes de sua obra exige uma análise profunda — mesmo que, por vezes, até os estudos mais dedicados arranhem apenas a superfície. "Franz" (2025) opta por uma abordagem que se envereda para o lado humano do escritor, oferecendo uma clara noção de suas motivações ao conceber determinadas histórias.

Dirigida por Agnieszka Holland, a trama acompanha Kafka desde a infância em Praga até sua morte na Áustria, no período pós-Primeira Guerra Mundial. Testemunhamos seus primeiros passos na escrita, a difícil relação com o pai — que exigia sua dedicação ao escritório de seguros —, o início da amizade com seu editor Max Brod e os complexos relacionamentos amorosos com Felice Bauer e Milena Jesenská. Aos poucos, fica claro para aqueles ao seu redor que ninguém é capaz de controlá-lo.

Holland constrói uma linha narrativa peculiar, em que passado, presente e futuro se cruzam sem prévio aviso, exigindo atenção constante do espectador. Acompanhamos a infância dura do protagonista e seu amadurecimento ao colocar em prática o que verdadeiramente anseia, mesmo quando vai contra as expectativas paternas. Nesse aspecto, cabe destacar a atuação de Peter Kurth, que constrói uma figura paternal autoritária, mas de forma surpreendente, revelando uma dinâmica entre pai e filho muito mais complexa do que se poderia imaginar.

Além disso, a cineasta surpreende ao colocar o protagonista diante do próprio futuro: vemos Kafka observar pessoas do século XXI contemplando seu legado em um museu. Em minha leitura, Holland cria um paralelo com a forma como o escritor enxergava o mundo — através de seus textos, é possível vislumbrar suas expectativas em relação ao futuro, quase nenhuma delas agradável. Embora obstinado em seguir seu destino, é inegável que ele não via com bons olhos o amanhã que se avizinhava, especialmente com a ascensão nazista a partir de 1933.

Curiosamente, os personagens próximos a Franz quebram a quarta parede para relatar, sob suas próprias perspectivas, as ações do escritor e seus passos seguintes, à medida que ele frustrava as expectativas de todos. Embora seja um recurso bastante explorado no cinema recente, aqui ele cumpre a função de dar ritmo à narrativa, ainda que pontualmente passe a sensação de que algumas passagens poderiam ser dispensadas. Nesse apuro técnico guiado pela direção, Idan Weiss busca construir um Kafka próprio, alinhado à proposta autoral da cineasta.

Talvez o filme desaponte apenas os leitores mais fervorosos do autor, já que seus livros não ganham um aprofundamento direto, ficando em segundo plano ao longo do longa. Há de se notar, contudo, que boa parte de suas criações se deu em um momento no qual a humanidade se desgastava com os impactos da Primeira Guerra e já se desenhava para um segundo conflito ainda mais devastador. Mesmo partindo antes dessa tragédia, Kafka parecia antever o que viria pela frente, inserindo em suas páginas não apenas fragmentos de si mesmo, mas também a trilha fraturada de toda uma geração — que as seguintes tentariam compreender por meio de seus livros e em museus de história.

"Franz" é poderoso em sua proposta, ainda que corra o risco de ser visto como aquém do esperado por quem busca uma transposição direta de seu grandioso legado literário.

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Cine Dica: “Olhares alemães” apresenta novos e consagrados diretores do cinema de língua alemã

Entre os dias 31 de agosto e 10 de setembro, a Sala Redenção, em parceria com o Goethe-Institut Porto Alegre, apresenta a mostra “Olhares alemães”. Com entrada franca e aberta à comunidade em geral, a programação reúne sete longas-metragens recentes de diretores consagrados e de nomes em ascensão no mundo cinematográfico.

A programação tem início no dia 31, segunda-feira, às 16h, com “Sissi e eu” (2023), segundo filme de Frauke Finsterwalder. A produção atualiza a história da rainha Sissi da Áustria por meio de uma narrativa de amor sáfico. Às 19h do mesmo dia, é a vez de “Undine” (2020), de Christian Petzold, um dos expoentes do movimento cinematográfico contemporâneo conhecido como Escola de Berlim. Na trama – que rendeu o Urso de Prata de Melhor Atriz para Paula Beer –, uma guia do Museu de Berlim e um mergulhador criam um vínculo intenso ao passo que ela enfrenta um antigo romance difícil de superar.

Outro destaque da mostra é “Paris calligrammes” (2020), da diretora Ulrike Ottinger – uma das principais vozes da vanguarda e do Novo Cinema Alemão dos anos 1970. O documentário é um poema audiovisual que tem Paris como protagonista. Em pouco mais de duas horas, a cineasta rememora a época em que morou na cidade, na década de 1960.

Em homenagem a Alexander Kluge, conceituado diretor, crítico social e escritor que faleceu em março deste ano, aos 94 anos, a Sala Redenção apresenta “Happy Lamento” (2018) em sessão única no dia 3, quinta-feira, às 16h. O documentário musical, concebido por Alexander junto ao filipino Khavn de la Cruz, é uma miscelânea inusitada de elementos aparentemente distantes: elefantes elétricos, artistas circenses, Elvis Presley, King Kong e luas azuis.

A Sala Redenção está localizada no Campus Centro da UFRGS, com acesso mais próximo pela Rua Eng. Luiz Englert, 333. A mostra “Olhares alemães” tem apoio do Goethe-Institut Porto Alegre.

Confira a programação completa no site oficial da sala clicando aqui. 

domingo, 30 de agosto de 2026

Cine Especial: Próximo Cine Debate – 'Viver'

Sinopse: Um funcionário público de Londres tem dificuldade para manter a ordem sob montanhas de trabalho burocrático. Sobrecarregado e solitário em casa, sua vida se torna um drama quando um diagnóstico médico indica que ele tem pouco tempo de vida.  

Akira Kurosawa foi um dos maiores gênios do cinema japonês, mas construiu sua carreira dialogando não apenas com a cultura de seu país. O clássico "Viver" (1952), por exemplo, é inspirado na novela russa "A Morte de Ivan Ilitch", escrita por Liev Tolstói em 1886. O que Kurosawa fez foi transpor a trama para o Japão do pós-guerra, que ainda buscava recuperar sua autoestima.

Mas, se Kurosawa buscava inspiração em outras culturas, seus próprios longas-metragens serviram de modelo para o Ocidente. Se "A Fortaleza Escondida" (1958) inspirou o nascimento de dois personagens clássicos da franquia "Star Wars" (iniciada em 1977), por outro lado, "Os Sete Samurais" (1954) ganhou sua refilmagem norte-americana no faroeste "Sete Homens e Um Destino" (1960). "Viver" (2022) é uma adaptação britânica do clássico japonês que, ao beber muito de sua fonte original, permite ao público atual conhecer essa história tocante.

Dirigido por Oliver Hermanus, o filme acompanha Williams (Bill Nighy), um funcionário público veterano de uma repartição burocrática encarregada da reconstrução da Grã-Bretanha após a Segunda Guerra Mundial. Williams empurra papelada em um escritório do governo até o dia em que é diagnosticado com uma doença fatal. Viúvo, ele esconde a condição de seu filho adulto, passa uma noite de devassidão na companhia de um escritor boêmio e passa a evitar o trabalho. Porém, uma ex-colega de trabalho animada, Margaret, o inspira a encontrar significado em seus dias restantes.

Assim como o clássico de Kurosawa, o filme retoma o conto russo transposto para uma Londres do pós-guerra. A escolha funciona muito bem, já que a trama retrata não apenas um protagonista em crise, mas uma sociedade londrina ainda em recuperação de um conflito mundial devastador. Além disso, Oliver Hermanus acerta ao não atualizar a história para os dias atuais, preservando uma premissa que perderia força em tempos de tecnologia desenfreada.

Por conta disso, o longa possui um visual que remete à era de ouro do cinema: a proporção de tela em 1,33:1 (formato mais quadrado) evoca a linguagem cinematográfica anterior à popularização do Widescreen, consolidado a partir do clássico "O Manto Sagrado" (1953). A fotografia, com cores quentes, busca inspiração na estética clássica do Technicolor — recurso marcante de produções como "O Mágico de Oz" (1939). Ou seja, é um filme que reúne elementos tanto para os interessados pela literatura russa quanto pelos admiradores do cinema de Kurosawa e da era clássica da sétima arte.

A premissa em si é uma velha conhecida dos cinéfilos, mas ganha novo frescor com a atuação impecável de Bill Nighy. Versátil, Nighy é figura conhecida pelos fãs de grandes franquias como "Piratas do Caribe" (2003–2017), mas também brilha em produções mais intimistas, como "Enquanto Houver Amor" (2019). Aqui, sua atuação se distancia da interpretação marcante de Takashi Shimura no clássico de 1952, ganhando luz própria sob a direção precisa de Oliver Hermanus.

Acima de tudo, é um filme que nos ensina a saborear a vida, mesmo quando estamos na reta final. Até lá, cabe a cada um colocar em prática suas virtudes ocultas, revelando uma faceta até então inédita para os outros. Ao final, o gesto do protagonista pode parecer simples, mas carrega um significado profundo para que outras pessoas possam desfrutar de momentos mais felizes.

Com um desfecho tão tocante quanto o do clássico de Kurosawa, "Viver" é um belo exemplo de obra que sabe se repaginar para conquistar uma nova geração de espectadores.

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Cine Dica: Próximo Cineclube Torres - "Kasa Branca"

 Sessão Vitrine Filmes Petrobras no Cineclube Torres, segunda-feira, dia 31 às 20h, com o filme brasileiro "Kasa Branca" (2024) de Luciano Vidigal.

Segue a comemoração dos 15 anos do cineclube com um dos filmes independentes brasileiros mais premiados dos últimos tempos.  Dé é um adolescente negro da periferia do Rio de Janeiro. Ao descobrir que sua avó está na fase terminal da doença de Alzheimer, procura seu melhores amigos para enfrentar o problema e proporcionar dignidade e alegria à avó nos seus últimos dias. No papel da avó, a extraordinária bailarina e atriz Teca Pereira, ganhadora este ano em Gramado do Kikito de melhor atriz protagonista.

No Festival do Rio, Kasa Branca foi agraciado com quatro prêmios, entre os quais o de Melhor Direção para Luciano Vidigal, que se tornou-se o primeiro diretor negro a vencer na categoria."Kasa Branca é um marco no cinema brasileiro contemporâneo, tanto pela sensibilidade com que aborda temas complexos quanto pela excelência técnica e artística em sua realização" (Rodrigo França, Metropolis).

O projeto nacional Sessão Vitrine Petrobras permite a distribuição de produções audiovisuais brasileiras independentes estimulando a formação de público e a democratização do cinema brasileiro, de forma descentralizada. O Cineclube Torres é uma associação sem fins lucrativos, em atividade desde 2011; Ponto de Cultura certificado pela Lei Cultura Viva federal e estadual; Ponto de Memória pelo IBRAM; Biblioteca Comunitária no Mapa da Cultura, Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística certificada pelo Ministério do Turismo (Cadastur); Selo Destaque no Turismo da Georrota Cânions do Sul.

Sobre o Filme: Em um determinado momento de "O Vento Frio que a Chuva Traz" (2015), há uma mensagem subliminar com relação ao futuro do Brasil em tempos que antecederam o advento da extrema direita no país. Passado estes tempos temos então uma sensação sobre qual o próximo passo, independente de qual classe a pessoa pertence. "Kasa Branca" (2025)  é sobre uma geração perdida entre os altos e baixos no coração do RJ.

Dirigido por Luciano Vidigal, o filme conta a história de Dé (Big Jaum), Adrianim (Diego Francisco) e Martins (Ramon Francisco), três adolescentes negros que vivem na periferia da Chatuba, em Mesquista, no Rio de Janeiro. O filme inspirado em histórias reais apresenta a relação de cuidado e amor entre Dé e sua avó Dona Almerinda. Sem nenhuma estrutura familiar, o rapaz é o único encarregado de cuidar da idosa, que vive com Alzheimer, e da subsistência dos dois.

Confira a minha crítica completa já publicada clicando aqui. 

Serviço:

O que: Exibição do filme "Kasa Branca" (2024) de Luciano Vidigal (Brasil)

Onde: Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, junto à escola Up Idiomas, Rua Cincinato Borges 420, Torres

Quando: Segunda-feira, 31/8, às 20h

Ingressos: Entrada Franca, até lotação do local (aprox. 22 pessoas).


Cineclube Torres

Associação sem fins lucrativos

Ponto de Cultura – Lei Federal e Estadual Cultura Viva

Ponto de Memória – Instituto Brasileiro de Museus

Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística - Cadastur


CNPJ 15.324.175/0001-21

Registro ANCINE n. 33764

Produtor Cultural Estadual n. 4917

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Cine Especial: Clube de Cinema - 'Sangue Ruim'

Nota: Filme exibido para os associados no dia 22/08/26

Se há uma palavra que melhor define Leos Carax, essa palavra seria peculiaridade — algo que senti claramente ao assistir a "Holy Motors" (2012) e compreender a dimensão de sua visão autoral como um todo. Em seus filmes não há nada convencional, mas sim uma espécie de experimento constante usado como pretexto para explorar os melhores recursos cinematográficos disponíveis. Talvez, essa sua forma de fazer cinema não pretenda meramente contar uma história, mas sim fazer com que o público sinta a própria linguagem cinematográfica.

Em seu clássico "Sangue Ruim" (1986), adentramos a história de Alex (Denis Lavant) e Anna (Juliette Binoche), que se conhecem no coração de uma Paris desprovida de amor, cujas cores quentes dos anos oitenta surgem sufocadas por um constante temor. Tudo se passa em um futuro distópico ameaçado pelo vírus STBO, que mata casais que se relacionam sem sentimento. Qualquer semelhança com o pavor da AIDS naquela época não é mera coincidência.

Contudo, não é apenas de forma metafórica que o realizador constrói sua narrativa: ele convida o público a imergir em uma trama onde os recursos visuais se tornam parte integrante — e de forma alguma gratuita — do enredo. O protagonista Alex sente-se isolado em uma realidade mórbida, na qual qualquer passo em falso afeta quem está ao seu redor. Mesmo recém-saído de uma prisão onde esteve por quinze meses, a liberdade não se traduz em libertação, mas em um novo patamar de sua própria solidão.

Curiosamente, Alex possui o talento da ventriloquia e usa esse dom para se comunicar quando seu lado exausto já se encontra saturado do mundo que o cerca. Diante de um futuro incerto, ele retoma o contato com velhos conhecidos de seu falecido pai, cuja morte deixou uma dívida com uma mulher estrangeira que agora o assombra. Sua missão passa a ser roubar de uma clínica a cura para o vírus, para que os parceiros de seu pai a vendam e quitem o débito o quanto antes.

Nessa missão quase suicida, Alex conhece Anna, namorada de um dos parceiros do seu pai. Ela desperta nele um sentimento incomum de carinho que contagia também quem assiste. No entanto, ele ainda nutre sentimentos por sua namorada (interpretada por Julie Delpy) e anseia por fugir, viajando sem rumo até que os pneus gastem. Mas a fuga de Alex não é apenas do mundo real; há nele um desejo de escapar para dentro da própria mente em momentos em que o diretor tem muito a dizer, cabendo a cada espectador compreender a sua maneira.

Naquela que é uma das melhores sequências do filme, o protagonista corre em um ritmo frenético ao som de Modern Love, de David Bowie — cena histórica que serviria de inspiração, anos mais tarde, para um momento marcante no genial "Frances Ha" (2012). O diretor, por sua vez, faz questão de focar a câmera na plenitude dos rostos de Juliette e Julie, cujos olhares dizem muito mais do que meras palavras. Vale salientar que este foi um dos primeiros grandes papéis de Juliette Binoche no cinema; sua delicadeza em cena já deixava transparecer a complexidade de atuações marcantes que viria a construir ao longo de sua exemplar carreira.

O lado transparente de sua personagem revela tanto uma pessoa gentil quanto inocente perante uma realidade por vezes opressora. Uma de suas primeiras cenas que chama a atenção é quando ela surge caindo de paraquedas desacordada, como se o protagonista se visse na obrigação de salvá-la, vislumbrando ali a chance de um recomeço. É fascinante notar como eles formam um raro exemplo de casal cinematográfico que não se consolida fisicamente em cena, o que torna a conexão entre eles ainda mais preciosa.

Ao final, o protagonista encontra um destino cruel, mas não sem antes deixar uma marca de seu sangue no rosto de Anna. O sangue não a contamina; pelo contrário, funciona como um impulso que a faz libertar-se e correr sem rumo. Ambientada em uma pista de pouso, a cena final de Juliette torna-se antológica, pois Leos Carax nos passa a nítida impressão de que ela está abrindo as asas e voando.

Leos Carax cria, portanto, um longa-metragem à frente do seu tempo, no qual a paixão não reside apenas no amor carnal, mas em sentimentos que lutam para não serem doutrinados por uma realidade cheia de regras. O espectador pode até esperar por uma consumação romântica tradicional, mas recebe a entrega de uma paixão lírica e profundamente humana, embalada por toda a genialidade e peculiaridade que o diretor emana.

"Sangue Ruim" é o amor sob o olhar único de Leos Carax — uma obra cuja linguagem nada convencional a torna verdadeiramente inesquecível.

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