Quem sou eu

Minha foto
Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

Pesquisar este blog

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Cine Dica: Streaming — 'Carrie, a Estranha'

Sinopse: Após a morte abrupta e inesperada de seu pai, a jovem tímida e isolada Carrie White (Summer H. Howell) é arremessada no implacável ecossistema de um colégio público.

Mike Flanagan é um nome para prestarmos atenção quando o assunto é cinema de terror. O realizador obteve um grande feito ao dirigir "Ouija: Origem do Mal" (2016) e, posteriormente, ganhou muito prestígio em séries de TV como "A Maldição da Residência Hill" (2018), "A Maldição da Mansão Bly" (2020) e "Missa da Meia-Noite" (2021). Porém, o cineasta pegou gosto mesmo ao visitar o universo literário de Stephen King.

Em "Doutor Sono"(2019), por exemplo, ele teve a proeza de revisitar o cenário imortalizado por Stanley Kubrick no clássico "O Iluminado"(1980) — mesmo dividindo a opinião do público e da crítica. Foi em "A Vida de Chuck" (2024), contudo, que talvez o realizador tenha captado melhor a essência do escritor. Eis que chegamos ao seu trabalho mais ousado: "Carrie, a Estranha" (2026), que revisita o clássico literário adaptado originalmente por Brian De Palma, mas com uma nova vestimenta capaz de agradar às novas plateias.

A minissérie se passa nos dias atuais e explora a vida de Carrie White (Summer H. Howell), uma adolescente criada por uma mãe extremamente religiosa. Após crescer isolada, ela precisa encarar os desafios da vida escolar quando uma tragédia familiar muda completamente sua rotina. Ao chegar ao colégio, encontra um ambiente marcado pelo bullying e começa a descobrir seus próprios poderes telecinéticos.

"Carrie, a Estranha" (1976) foi um dos primeiros grandes sucessos do diretor Brian De Palma e a primeira grande adaptação da obra de Stephen King para o cinema. De lá para cá, surgiram outras reimaginações do conto, mas sem obter o mesmo êxito. Portanto, a ideia de levar essa história novamente à TV parecia um tanto arriscada. Contudo, Mike Flanagan demonstrava ter plena consciência do que estava fazendo.

Ao atualizar o conto para a contemporaneidade, o cineasta acerta em cheio ao tocar em pontos delicados sobre o bullying escolar amplificado pelas redes sociais — dinâmica capaz de desestruturar vidas inteiras. Carrie é o "estranho no ninho" em meio a uma realidade na qual as jovens lutam por status e pelo desejo de ser a rainha do baile. Ao surgir nessa engrenagem aparentemente perfeita, torna-se o principal alvo de gozação, impulsionada principalmente por Chris (Alison Thornton). Esta última é a síntese de uma juventude nutrida pelo desejo de grandeza, que enxerga a protagonista como uma ameaça a ser destruída.

Summer H. Howell teve a missão ingrata de interpretar uma personagem imortalizada por Sissy Spacek nos anos setenta. Aqui, porém, ela constrói a figura à sua maneira: esta Carrie demonstra bem mais iniciativa para conhecer o mundo, enfrentando desde cedo as regras conservadoras de sua mãe. Já Samantha Sloyan se sobressai ao interpretar uma mulher rígida por conta de sua religiosidade, mas que não deixa de ter certa razão ao criticar um mundo cada vez mais desprovido de velhas tradições e preso a um sistema de regras alienantes.

As passagens do conto já tão conhecidas pelo público são entrecortadas por subtramas que se conectam com a história principal — mesmo quando nos passa a sensação de que, sem elas, a obra não perderia tanto. Logicamente, o ápice se concentra na festa do baile, construída através de elementos e personagens cujos caminhos culminam em um evento trágico. Há, porém, certas mudanças estruturais que irão dividir opiniões.

O que talvez me deixe com um pé atrás em relação ao resultado final da série é a alteração no destino de certos personagens, além da inserção de uma figura enigmática inexistente no livro. Tudo soa como uma fórmula para atrair o público que apreciou "Stranger Things" — uma repetição de padrão um tanto pretensiosa por parte dos realizadores —, culminando em um gancho para uma eventual segunda temporada. Resta saber se saberão conduzir uma trama inédita que dê continuidade à obra de Stephen King sem a autoria do próprio escritor.

No fim, a série "Carrie, a Estranha" é uma grata surpresa para os fãs do clássico literário, mesmo quando opta por liberdades poéticas que podem dividir o público.

Onde Assistir: Prime Vídeo.   

  Faça parte:

 


Mais informações através das redes sociais:

Facebook  : www.facebook.com/ccpa1948

Twitter: @ccpa1948  

Cine Dica: Newsletter Cinemateca Capitólio - 22 a 28 de outubro de 2026

 Mel Brooks, cinema dinamarquês e animação brasileira na programação semanal da Cinemateca Capitólio

A programação da Cinemateca Capitólio desta semana, de 22 a 28 de outubro de 2026, reúne a comédia de Mel Brooks, uma sessão do Cineclube Academia das Musas dedicada à cineasta dinamarquesa Annelise Meineche com o quente Nua em Pelo e a estreia da animação brasileira Papaya, de Priscilla Kellen.

Na quinta-feira, 22 de outubro, começa uma pequena mostra intitulada Mel Brooks é 100!, que celebra o centenário do cineasta norte-americano com quatro longas-metragens realizados entre 1970 e 1977. A programação abre às 17h com Alta Ansiedade (1977), paródia dos thrillers hitchcockianos, e reúne ainda Banzé na Rússia (1970), uma comédia de perseguição baseada no romance satírico As Doze Cadeiras, ambientado na União Soviética dos anos 1920; Banzé no Oeste (1974), que subverte convenções do faroeste e aborda o racismo; e O Jovem Frankenstein (1974), homenagem aos clássicos do cinema de terror dos anos 1930. A mostra segue até 28 de outubro, com entrada franca em todas as sessões.

Na sexta-feira, 23 de outubro, às 19h, o Cineclube Academia das Musas apresenta Nua em Pelo (Uden en traevl, 1968), da diretora dinamarquesa Annelise Meineche. O filme acompanha a jovem estudante Lilian que, após relatar ao médico sua dificuldade em atingir o orgasmo, passa a registrar seus encontros sexuais em um diário, envolvendo-se em uma sequência crescente de experiências. Realizada em um período de transformações nos debates sobre sexualidade e liberdade de expressão na Dinamarca, a obra integra a breve trajetória de Meineche, que dirigiu sete longas-metragens em cinco anos. A diretora foi uma das precursoras na realização de comédias eróticas em parceria com a produtora Palladium, seu primeiro trabalho Sytten (1965) abriu caminho para outras produções do gênero devido ao grande sucesso comercial. A sessão gratuita será apresentada por Thainá Maria, integrante do cineclube e historiadora da arte.

Também entra em cartaz Papaya (2025), animação brasileira dirigida por Priscilla Kellen. Com 74 minutos de duração e classificação livre, o filme acompanha uma pequena semente de mamão que sonha em voar e precisa continuar em movimento para não criar raízes. Ao longo de sua jornada, ela descobre a força das conexões que a ligam à vida ao redor e transforma o ambiente de maneira inesperada. Uma opção para o público de todas as idades, o longa tem sessões com ingressos a R$16,00 (inteira) e R$8,00 (meia).

Na quarta-feira (28), a programação conta duas sessões gratuitas em celebração ao Dia Internacional da Animação: às 19h, curtas-metragens nacionais; e às 20h, curtas-metragens internacionais. Mais informações em breve.

Confira a programação completa no site oficial da Cinemateca clicando aqui.

Cine Dica: PROGRAMAÇÃO CINEBANCÁRIOS 22 A 28 DE OUTUBRO

 CineBancários tem duas estreias e a continuação de ROSEBUSH PRUNING a partir de 22 de outubro

MESTRE ZU, que celebra a trajetória do grande Zuenir Ventura, estreia junto de OVERMAN, comédia satírica baseada na obra da cartunista Laerte Coutinho

A primeira estreia de 22 de outubro no CineBancários é o documentário MESTRE ZU, que celebra a trajetória pessoal, política e literária de Zuenir Ventura, e entra em cartaz às 19h. Com direção de Zelito Viana e codireção de Luciana Savaget, o documentário “Mestre Zu” revisita a trajetória do jornalista, escritor, professor e membro da Academia Brasileira de Letras, Zuenir Ventura. Um dos pilares do moderno jornalismo brasileiro, ele é apelidado carinhosamente de Mestre Zu pela postura com que sempre tratou tanto os mais jovens quanto os companheiros de sua geração.

Com carisma e senso crítico afiado, Zuenir conduziu as mais importantes redações do país, como Tribuna da Imprensa, Correio da Manhã, Jornal do Brasil e O Globo, além das revistas O Cruzeiro, Veja, Época e IstoÉ. Em mais de 60 anos de carreira, nunca perdeu o seu DNA de excelente repórter. A produção recupera a juventude humilde de Zuenir em Nova Friburgo (RJ), onde trabalhou como pintor de paredes, boy de banco e caixeiro de loja para custear os estudos. A narrativa ressalta o papel determinante de sua mãe, que lavava batinas para garantir a sua bolsa em um colégio salesiano.

Após mudar-se para o Rio de Janeiro para cursar Letras Neolatinas, ingressou no jornalismo e iniciou uma carreira marcada por coberturas decisivas. Entre elas, destacam-se a sua atuação como intérprete de João Goulart em Paris e a sua prisão durante a ditadura militar após o AI-5, quando dividiu cela com Hélio Pellegrino.

O filme reflete a sua capacidade de unir o rigor da apuração com a sensibilidade da literatura em grandes reportagens e livros fundamentais, como “1968 – O Ano Que Não Terminou”, “Chico Mendes”, “Cidade Partida” e “Inveja – Mão Secreta”.

O documentário é construído também por relatos de familiares, amigos e companheiros de redação, entre os quais Ancelmo Gois, Caca Diegues, Fernando Gabeira, Míriam Leitão, Nelson Motta, Paulinho da Viola, Regina Zappa e Silvana Gontijo. Zuenir Ventura faleceu aos 95 anos, em 22 de setembro de 2026.

Já a comédia satírica OVERMAN, que estreia na sessão das 15h, é baseada na obra de Laerte Coutinho. A direção de Tomás Portella coloca em cena o personagem desempregado, endividado e em plena crise existencial. Baseado na obra da cartunista Laerte Coutinho, o filme traz Caco Ciocler na pele do protagonista, um super-herói brasileiro beberrão, dono de uma coleção de boletos atrasados e com hábitos excessivos em jogos e sexo.

O longa subverte o gênero dos super-heróis para acompanhar um homem com poderes extraordinários e uma vida absolutamente ordinária. Na trama, Overman está quebrado, de ressaca, endividado e enfrentando uma crise existencial. A situação começa a mudar quando ele recebe uma proposta irrecusável do Governador (Otavio Muller) para assumir um cargo na Secretaria de Segurança Pública.

Finalmente, uma oportunidade de usar seus superpoderes em benefício da população. Ou, pelo menos, de ter um cartão corporativo para gastar nas suas farras. No novo emprego, ele passa a trabalhar com Pâmela, a Mulher Cachorro (Karina Ramil), uma heroína recém-contratada que rapidamente demonstra ser mais competente, mais preparada e mais admirada do que ele. Uma péssima notícia para alguém tão inseguro quanto nosso herói. Ele então terá que lidar com sua crise de autoestima e com sua masculinidade tóxica ao mesmo tempo em que um antigo arqui-inimigo, que julgava ter derrotado, parece estar de volta.

Criado pela quadrinista Laerte Coutinho em 1998, Overman ficou popularmente conhecido pelas tirinhas publicadas no jornal Folha de São Paulo. A artista paulistana considera que Overman não conhece os próprios limites, por isso ele é “over”. Satirizando o universo dos super-heróis, Laerte constrói comicamente um personagem egocêntrico e vaidoso, que se esconde por trás de uma fantasia e uma máscara, itens que ele nunca tira.


HORÁRIOS DE 22 A 28 DE OUTUBRO (não há sessões nas segundas):

15h: OVERMAN

17h: ROSEBUSH PRUNING

19h: MESTRE ZU


PROGRAMAÇÃO CINEBANCÁRIOS DE 22 A 28 DE OUTUBRO


ESTREIAS:


MESTRE ZU

Brasil/Documentário/2026/105 min/12 anos

Direção:

Sinopse: O filme revisita a trajetória do jornalista, escritor, professor e membro da Academia Brasileira de Letras, Zuenir Ventura. Zuenir é um dos pilares do moderno jornalismo brasileiro, apelidado carinhosamente de Mestre Zu, em função da postura com que sempre tratou tanto os mais jovens quanto os companheiros de sua geração. Com carisma e senso crítico afiado, o jornalista conduziu as mais importantes redações do país, como Tribuna da Imprensa, Correio da Manhã, Jornal do Brasil, O Globo; e as revistas O Cruzeiro, Veja, Época e Isto É. Em mais de 60 anos, Zuenir nunca perdeu o seu DNA de excelente repórter.


Entrevistado Principal: Zuenir Ventura

Outros Entrevistados: Alfredo Ribeiro, Ana Maria Machado, Ancelmo Gois, Andrea Pachá, Armando Strozemberg, Arthur Dapieve, Arthur Xexéo, Antônio Ventura, Caca Diegues, Caio Fabio, Cid Moreira, Chico Mendes, Cleonice Bernardinelli, DJ Marlboro, Elisa Ventura, Felipe Quintino, Fernando Gabeira, Flavio Pinheiro, Genésio Ferreira da Silva, Gerson Camarotti, Guguta Brandão, Heloisa Teixeira, Janete de Melo Gois, Joaquim Ferreira dos Santos, Jô Soares, Luís Fernando Veríssimo, Lula Vieira, Mauro Ventura, Mere Ventura, Míriam Leitão, Nelson Motta, Paulinho da Viola, Pedro Bial, Regina Zappa, Rubem Cesar Fernandes, Sergio Chapelin, Silvana Gontijo, Tina Correia, Walter Carvalho, Vera Vidal, William Bonner, Zelito Viana.

OVERMAN

Direção: Tomás Portella

Brasil/Comédia/2026/82 min/16 anos

Sinopse: Overman, personagem criado pela cartunista Laerte Coutinho, é um super-herói brasileiro enfrentando problemas mais brasileiros ainda: desempregado, endividado, vive escondido em uma pensão de terceira categoria, afundado em excessos e em uma enorme crise existencial. Quando o Governador lhe oferece um emprego na Secretaria de Segurança Pública, Overman enxerga a oportunidade de recuperar o prestígio perdido, encontrar algum propósito na vida e voltar a ser reconhecido como herói. Ao lado de sua nova parceira, Pâmela, a mulher-cachorro, ele volta à ativa e precisa enfrentar antigos inimigos para impedir que a cidade mergulhe no caos. Mas, à medida que a ameaça cresce, Overman descobre que seu verdadeiro inimigo está muito mais perto do que imaginava e que, antes de salvar a cidade, talvez precise descobrir que tipo de herói está disposto a ser.

Elenco: Caco Ciocler (Overman) Otavio Muller (Governador) Karina Ramil (Pâmela, a Mulher Cachorro)

EM CARTAZ:


ROSEBUSH PRUNING

Direção: Karim Aïnouz

Drama/97 min/16 anos

Sinopse: Sob o sol da Catalunha, uma rica família branca norte-americana vive em um isolamento hedonista, buscando amor e validação uns nos outros, em suas roupas de grife e na música pop. Quando Jack, o irmão mais velho, apresenta sua noiva Martha para a família, tensões há muito tempo reprimidas vêm à tona e os laços de sangue da matilha começam a se romper.


Ingressos

Os ingressos podem ser adquiridos a R$ 14 na bilheteria do CineBancários. Idosos (as), estudantes, bancários (as), jornalistas sindicalizados (as), portadores de ID Jovem e pessoas com deficiência pagam R$ 7. São aceitos cartões nas bandeiras Banricompras, Visa, MasterCard e Elo. Nas quintas-feiras, a meia-entrada (R$ 7) é para todos e todas.


CineBancários

Rua General Câmara, 424 – Centro – Porto Alegre

Mais informações pelo telefone (51) 3030.9405 ou pelo e-mail cinebancarios@sindbancarios.org.br


C i n e B a n c á r i o s 

Rua General Câmara, 424, Centro 

Porto Alegre - RS - CEP 90010-230 

Fone: 51- 30309405

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Rosebush Pruning'

Sinopse: A trama acompanha os Taylor, uma rica, excêntrica e privilegiada família norte-americana que vive isolada em uma mansão hedonista sob o sol da Catalunha, na Espanha.

Karim Aïnouz é um cineasta que consegue realizar um belo casamento entre o conteúdo visual e as interpretações do elenco em cena. Além disso, é curioso observar como ele constrói obras nas quais nunca se sabe onde começa o real e onde termina a ficção — a exemplo do maravilhoso "Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo" (2009). Em seu segundo longa em língua estrangeira, "Rosebush Pruning" (2026), temos um retrato tragicômico da burguesia contemporânea, na qual uma engole a outra.

Na trama, acompanhamos essa família americana abastada, cuja dinâmica é marcada por segredos hediondos. Enquanto os irmãos Jack, Ed, Anna e Robert vivem à custa da fortuna familiar, o patriarca se aproveita dos herdeiros, cada vez mais enredados nesse sistema fragmentado. Apesar de o quinteto buscar amor e acolhimento nas relações fraternais, a convivência fica prestes a ruir quando Jack, o irmão mais velho, decide abandonar a todos para morar com a namorada, Martha.

Aïnouz demonstra uma visão autoral consolidada na realização de seus filmes, mas é interessante notar como ele busca interlocução com outros realizadores. Embora esteja distante das amarras formais do Dogma 95, a abertura do filme remete imediatamente aos melhores títulos daquele movimento — principalmente a "Festa em Família" (1998), de Thomas Vinterberg. É uma sequência de abertura que sintetiza com precisão o conteúdo grotesco que testemunhamos a seguir.

A família central se reduz a desejos reprimidos, extravasados esporadicamente apenas para que sintam que estão vivos em uma realidade, por vezes, vazia — para dizer o mínimo. Vale destacar a figura da mãe, dada como morta, cujo local do suposto falecimento é dominado por lobos famintos. A alcateia torna-se uma metáfora da própria família: faminta para devorar a si mesma.

Karim Aïnouz não nos poupa de situações incestuosas, pulsões reprimidas e da busca incessante por um lugar ao sol fora desse cenário esquizofrênico. Jack (Jamie Bell) talvez seja o único em busca de redenção, mesmo quando sua relação com Martha (Elle Fanning) nos coloca em dúvida quanto às reais intenções de ambas as partes. Além disso, é Jack quem esconde o fato de que a mãe está viva, introduzindo-nos a outros desdobramentos grotescos da história.

Por incrível que pareça, Pamela Anderson nos brinda com uma das melhores atuações de sua carreira. No papel da mãe que finge a própria morte, a atriz aproveita para expor seus demônios. Em sua composição, ela explicita o sarcasmo diante do sistema de aparências do mundo — um mundo que, por trás das cortinas, revela-se fraturado e sem remédio. O tempo fez bem à atriz, que finalmente deixa para trás um passado moldado por polêmicas e se entrega a papéis que traduzem melhor sua maturidade dramática.

Tecnicamente quase impecável, Aïnouz constrói uma edição dinâmica, por vezes dialogando com a estética do videoclipe, enquanto a narração em off nos guia pela lógica das cenas. Curiosamente, certas situações se repetem ao longo do longa, como se nos dissessem que determinados traumas retornam ciclicamente para que possamos refletir sobre eles. A figura dos lobos, por exemplo, não sintetiza apenas a podridão daquela família, mas simboliza o próprio colapso dos ditos "bons costumes".

O desfecho do filme me fez recordar a emblemática frase do Coringa em "O Cavaleiro das Trevas" (2008): "Essas pessoas civilizadas vão comer umas às outras". Em tempos de profunda alienação e busca desmedida pelo poder, em que o lado civilizado é jogado para escanteio, o cinema de Karim Aïnouz revela que tudo tem um preço quando a civilidade deixa de ser escolha e passa a ser mera maquiagem para o olhar externo. Ao final da sessão, fica a nítida sensação de que é bem mais seguro se misturar a uma alcateia na floresta.

"Rosebush Pruning" é uma comédia ácida e sombria que desmascara a hipocrisia de uma elite na qual os laços de sangue não impedem que tudo se transforme em uma grande piada à beira do abismo.


  Faça parte:

 


Mais informações através das redes sociais:

Facebook  : www.facebook.com/ccpa1948

Twitter: @ccpa1948  

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Street Fighter'

Sinopse: Ambientada em 1993, a história acompanha os icônicos lutadores Ryu (Andrew Koji) e Ken Masters (Noah Centineo), que estão afastados dos combates. Eles são recrutados pela misteriosa Chun-Li (Callina Liang) para participar do Torneio do Guerreiro Global.

Foi precisamente no início dos anos 1990 que Hollywood decidiu investir pesado em adaptações de videogames para o cinema. O grande problema dessas produções era não saber transitar entre a linguagem cinematográfica e o universo dos jogos, rendendo pérolas duvidosas como "Super Mario Bros". (1993) e "Street Fighter: A Última Batalha" (1994). Com o sucesso recente do gênero, como visto no recente "Resident Evil" (2026), chega agora a mais nova versão de "Street Fighter" (2026) — um filme que até pode agradar aos fãs do jogo, mas deixa a nítida sensação de que algo importante ficou pelo caminho.

Dirigida por Kitao Sakurai, a trama se passa no ano de 1993 e reencontra Ryu (Andrew Koji) e Ken Masters (Noah Centineo) reunidos após anos de afastamento. Recrutados pela misteriosa Chun-Li (Callina Liang), os dois se preparam para o circuito Street Fighter. No entanto, o que não esperavam é que por trás do campeonato se esconde uma conspiração mortal orquestrada pelo vilão Bison (David Dastmalchian).

Para quem vive movido pela nostalgia, o longa tenta fisgar o espectador logo na abertura, feita em estilo anime japonês — uma clara referência ao clássico animado "Street Fighter II: O Filme" (1994), que permanece até hoje como a melhor adaptação da franquia. Curiosamente, diversos flashbacks surgem ao longo da narrativa nesse mesmo formato animado, tornando-se, disparado, os melhores momentos da produção. Quando nos damos conta disso, percebemos a gravidade dos problemas da versão em live-action.

Em termos de ritmo, o filme não perde tempo e se comporta como um verdadeiro produto à la videoclipe, repleto de elementos que nos remetem aos bons tempos da MTV. Não faltam sequer faixas lendárias da época, como "What's Up?", que serve como o elo emocional entre Ryu e Ken, além de outros ritmos que certamente farão muitos amantes de música pesquisarem a trilha sonora após a sessão.

Infelizmente, o longa falha no quesito mais primordial quando o assunto é Street Fighter: as lutas. Logicamente, as sequências são superiores às do filme protagonizado por Jean-Claude Van Damme, mas continuam breves demais. Os cortes rápidos mais atrapalham do que ajudam, perdendo de lavada na comparação com os combates dos animes mostrados nos flashbacks. O que dizer, por exemplo, da luta entre Guile e Vega? Ela acontece, mas só testemunhamos suas consequências, dando a entender que o embate em si ficou esquecido no chão da sala de edição.

Aliás, o filme ostenta com facilidade uma das piores edições do ano. A montagem frenética falha em esconder furos de roteiro bastante evidentes. A sensação é de ter perdido trechos cruciais no percurso, como se o apelo visual servisse de mera distração para que não notássemos os buracos da narrativa. Além disso, como os trailers já antecipavam, o CGI tropeça em momentos decisivos: Blanka (Jason Momoa) surge como um grande boneco digital sem peso ou presença física em cena.

Nem vale a pena se estender sobre os vilões, adaptados de forma caricata e incapazes de causar qualquer tensão. Bison, que assombrou toda uma geração que acompanhava a animação clássica exibida pelo SBT, é reduzido aqui ao clichê do vilão megalomaníaco que quer apenas sugar o poder de lutadores fortes. David Dastmalchian é um ótimo ator, mas acaba pagando aqui um dos maiores micos do ano.

Ao menos a amizade entre Ryu e Ken, somada ao desejo de vingança de Chun-Li, traz elementos familiares para quem conhece a mitologia do jogo e de suas várias adaptações para a TV e o cinema. No fim das contas, faltou um cuidado maior — ou até mesmo paixão — com o material de origem. O projeto acabou tratado como mero entretenimento descartável para atrair uma massa de fãs adormecida. Resta saber se haverá espaço para uma nova aventura dessa turma ou se a franquia nos cinemas já levou um definitivo Game Over.

"Street Fighter" serve mais para despertar a nossa nostalgia dos tempos de fliperama do que para nos apresentar uma adaptação digna de nota.

  Faça parte:

 


Mais informações através das redes sociais:

Facebook  : www.facebook.com/ccpa1948

Twitter: @ccpa1948  

Cine Dica: Sala Redenção destaca cinema contemporâneo gaúcho

A fim de contribuir na difusão da produção cinematográfica regional, a Sala Redenção apresenta, de 21 a 23 de outubro, o Panorama Estadual da 9ª Mostra Sesc de Cinema. São 14 obras gaúchas contemporâneas, entre longas e curtas-metragens, distribuídas em seis sessões, todas com entrada gratuita e aberta à comunidade.

A mostra reúne filmes de variados gêneros e formatos, produzidos em diferentes municípios do estado, como Porto Alegre, Santa Maria, Rio Grande, Uruguaiana e Soledade. As produções foram selecionadas a partir de seus aspectos técnicos e narrativos e consideram a diversidade de gênero, raça e território das equipes realizadoras.

Alguns destaques da mostra são o documentário “Quando a gente menina cresce” (2025), de Neli Mombelli, que acompanha um grupo de meninas que vive a transição da infância para adolescência na periferia de Santa Maria; o curta-metragem ficcional “Zila” (2025), de Kaya Rodrigues, que retrata memória e esquecimento a partir de uma relação entre avó e neta; e “Manoel e Betinha” (2025), de Marta Haas, que conta a história do casal Manoel e Elizabeth Soares, perseguidos durante a ditadura civil-militar. O assassinato de Manoel, conhecido como o “Caso das mãos amarradas”, completou 60 anos em 2026.

A Sala Redenção está localizada no Campus Centro da UFRGS, com acesso mais próximo pela Eng. Luiz Englert, 333. Confira a programação completa no site oficial dala clicando aqui. 

domingo, 18 de outubro de 2026

Cine Especial: 'Mortal Kombat'

É preciso reconhecer que, no ano de 1995, Paul W.S. Anderson tirou leite de pedra ao adaptar "Mortal Kombat" para o cinema. Em uma década em que Hollywood tentou investir em adaptações de videogames gerando somente longas descartáveis, a produção estrelada por Christopher Lambert conquistou o seu devido respeito através do tempo. Infelizmente, o filme gerou continuações uma pior do que a outra, além de desenhos animados que ninguém lembra.

Por muito tempo, a ideia de levar de volta esse universo de lutas e magia ficou na geladeira. Porém, devido ao sucesso de outras adaptações, como "Sonic: O Filme" (2020), a New Line Cinema decidiu investir novamente nesta empreitada. O resultado foram "Mortal Kombat"(2021) e "Mortal Kombat 2" (2026), dois longas que são apontados como fiéis à sua fonte original. Mas ambos conseguiram o equilíbrio da adaptação?

Dirigido por Simon McQuoid, a trama tem início quando Shang Tsung, imperador da Exoterra, envia seu melhor guerreiro, Sub-Zero, para assassinar o jovem Cole Young. Temendo pela segurança da família, Cole vai em busca de Sonya Blade seguindo a indicação de Jax, um major das Forças Especiais que tem a mesma estranha marca de dragão com a qual Cole nasceu. Logo, ele se vê no templo do Lorde Raiden, um Deus Ancião e guardião do Plano Terreno que abriga todos os que possuem a marca. No templo, ele treina com os experientes guerreiros Liu Kang, Kung Lao e Kano enquanto se prepara para lutar contra os inimigos da Exoterra em uma batalha pelo universo. Será que Cole irá longe o suficiente para desbloquear sua arcana — o seu imenso poder?

Para começo de conversa, ambos os longas acertam em trazer finalmente a rivalidade entre Sub-Zero e Scorpion, inimigos mortais durante séculos, algo que a abertura do primeiro filme sintetiza muito bem. Por outro lado, os realizadores foram infelizes ao introduzir o personagem Cole Young, descendente de Scorpion que não acrescenta em nada à trama e sem o qual a história poderia facilmente prosseguir. Interpretado de forma canastrona pelo ator Lewis Tan, o personagem acabou sendo descartado em uma morte que com certeza os fãs raiz do jogo simplesmente adoraram.

O grande ponto de ambos os filmes não é exagerar na adaptação, mas sim simplificá-la no que é a essência primordial do jogo: as lutas de corpo a corpo com seus poderes surpreendentes. O resultado é o uso de um CGI ora perfeito, ora ridículo, mas cumprindo o seu dever com certo êxito. Se no filme de 1995 faltava orçamento em relação aos fantásticos golpes, aqui os fãs não têm do que reclamar.E se alguns reclamaram da falta de personagens essenciais no primeiro filme, eis que surgem no segundo Kitana e Johnny Cage.

A primeira, por sua vez, é a real protagonista deste segundo longa, em que se une ao seu pior inimigo unicamente para enfrentá-lo em um duelo digno de nota no final do longa. Porém, o grande trunfo dessa segunda aventura acaba sendo Johnny Cage.Não é preciso ser gênio para adivinhar que os criadores do jogo elaboraram o personagem inspirado em Jean-Claude Van Damme, sendo que o seu maior clássico, "O Grande Dragão Branco" (1988), serviu também de inspiração para o jogo lançado em 1992.

Johnny Cage é o típico ator de filmes de ação dos anos noventa que possui talento nas artes marciais, mas nos transmite uma atuação canastrona do início ao fim.Se consagrando em filmes e séries de TV como The Boys, Karl Urban entrou fácil na brincadeira ao construir um personagem que ninguém leva a sério em relação às suas frases de efeito, mas provando o seu valor mesmo em situações que o deixam em maus lençóis. Se o primeiro filme já era divertido com algumas piadas, aqui o humor é aumentado em doses cavalares graças a esse personagem.Com dois filmes lançados, resta saber até onde a franquia manterá o seu fôlego. Elaborada com orçamentos modestos, a New Line Cinema só precisa manter a premissa essencial, sem inventar muito e, logicamente, sem criar outro Cole Young no decorrer do percurso. É errando que se aprende, e o estúdio, por enquanto, tem acertado de forma eficaz, diga-se de passagem.

"Mortal Kombat" e "Mortal Kombat 2" são dois filmes dignos de sua fonte e que agradarão até o fã mais exigente.


  Faça parte:

 


Mais informações através das redes sociais:

Facebook  : www.facebook.com/ccpa1948

Twitter: @ccpa1948