Lynne Ramsay é aquele tipo de talento na direção que não é muito lembrada por uma filmografia vasta, mas cujo alguns títulos fazem uma grande diferença. "Precisamos Falar Sobre Kevin" (2012), por exemplo, talvez seja a sua obra mais lembrada pelo público, principalmente ao explorar uma questão delicada, mas que todos fogem para não ser discutida. Em "Morra, Amor" (2025) a realizadora novamente retorna em um cenário familiar, perturbador e extremamente real.
Baseado no livro da escritora argentina Ariana Harwicz, o filme conta a história de uma dona de casa de uma área rural que luta com a sua sanidade enquanto lida com a maternidade e uma possível perda da sanidade. Ela vive em uma casa isolada em uma cidade rural no interior dos Estados Unidos. Além de não saber se adaptar ao papel de mãe, a mesma começa ter problemas de relacionamento com o seu marido.
Pelo fato do filme ser baseado em um livro em que se explora o lado psicológico dos personagens sempre haverá a possibilidade de determinadas passagens da obra funcionarem muito melhor em suas páginas do que em sua adaptação em si para o cinema. Porém, ao meu ver, a diretora Lynne Ramsay apostou todas as suas fichas na atuação poderosa de Jennifer Lawrence, que aqui ela interpreta uma personagem complexa, imprevisível e da qual tememos sobre qual será a sua ação seguinte em cena. Ao meu ver, a atriz não somente entrega uma ótima atuação, como também coloca para fora todos os demônios que estava guardando nos últimos anos, já que a artista havia se afastado dos holofotes após ser muito criticada por determinadas condutas em público.
Por conta disso, há aqui um casamento perfeito entre personagem e atriz, onde não sabemos ao certo onde uma começa e onde a outra termina, mas tudo moldado para que os melhores momentos do filme sejam protagonizados por ela e fazendo com que ela leve o filme nas costas. Porém, Robert Pattinson não fica muito atrás, ao construir um personagem que se perde perante as ações de sua esposa, mas que também não sabe como saber se expressar e procurar um meio para se ajudarem. Curiosamente, os seus pais, interpretados pelos veteranos Nick Nolte e Sissy Spacek são também um casal que enfrenta certos pesadelos pessoais, dos quais ficam em segundo plano, mas que despertam a nossa curiosidade como um todo.
Com cenas fragmentadas, onde o presente e o passado vem e volta sem nenhum aviso, constatamos que a personagem sempre foi como ela é ao não saber controlar os seus próprios impulsos, mas que talvez o problema esteja mais embaixo do que nós imaginamos. A edição do filme, por sua vez, transita tanto com relação ao passado e o presente, como também à possibilidade de que nem tudo o que a gente assiste em cena pode ser real ou delírio da própria protagonista. Para os que não estão acostumados com esse tipo de transição no enredo isso pode acabar incomodando um pouco, principalmente para aqueles que desejam uma resposta mais coerente e que faça pensar menos.
Como eu disse acima, nem sempre a linguagem literária funciona na tela do cinema, principalmente quando é levada de forma fiel por demais e esquecendo da linguagem cinematográfica. Porém, não é exatamente o que acontece aqui, já que a cineasta procura ao máximo colocar em prática uso de sua câmera e extraindo de forma verossímil as atuações dos principais astros em cena. O final em aberto pode frustrar alguns, mas isso não tira o mérito do filme de conseguir fazer a gente pensar e desejar uma segunda revisão em uma eventual nova sessão.
"Morra, Amor" é um filme inquietante que explora a insatisfação do ser humano perante ao fato de não saber se encaixar em um comodismo que os demais aceitam de bom grado.
Onde Assistir: Mubi.
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