Sinopse: "A Odisseia" acompanha Odisseu (Matt Damon) em sua jornada de 20 anos para retornar à ilha de Ítaca após a Guerra de Troia.
A primeira vez que ouvi a palavra verossimilhança foi na edição especial do DVD do clássico "Superman" (1978), de Richard Donner. Verossimilhança é a característica daquilo que parece verdadeiro, que é crível ou semelhante à realidade. Donner usou essa palavra como guia durante as filmagens para nos fazer crer que um homem poderia voar — mesmo em uma época na qual as técnicas de efeitos visuais tinham limitações severas.
Talvez essa palavra seja também a que melhor define o talento de Christopher Nolan ao abraçar projetos em que realidade e ficção estão separadas por uma linha tênue. Na trilogia "O Cavaleiro das Trevas" (2005–2012), ele reconstruiu do zero a imagem de um ícone da cultura pop e nos fez acreditar que um homem poderia, sim, vestir-se de morcego para combater o crime em uma cidade em decadência. Em "A Origem" (2010), a viagem pelos sonhos parecia crível; o mesmo aconteceu com a exploração espacial em busca da salvação da humanidade em "Interstellar" (2014).
"Oppenheimer" (2023) foi a prova definitiva de que o realizador sabia como ninguém atrair multidões: afinal, quem imaginaria que um drama de três horas sobre o pai da bomba atômica arrebataria até os mais céticos? Parecia que Nolan havia atingido o teto, provocando o questionamento se seria capaz de superar a si mesmo. A resposta vem com força avassaladora em "A Odisseia" (2026), espetáculo baseado em um dos maiores clássicos da literatura ocidental e que certamente será lembrado por muito tempo.
Inspirado no poema épico atribuído a Homero, o filme narra as provações do herói grego Odisseu (Matt Damon) para retornar ao lar após a queda de Troia, onde sua esposa Penélope (Anne Hathaway) o aguarda. Em seu percurso, o rei de Ítaca enfrenta deuses e criaturas míticas, cruzando o caminho do Ciclope Polifemo, das Sereias e da feiticeira Circe.
Quem acompanha a filmografia de Nolan sabe que o diretor evita ao máximo o uso de efeitos digitais, priorizando os efeitos práticos do cinema tradicional. Imaginar um épico mitológico sem o uso massivo de CGI parecia impensável — mas não para um cineasta cujo perfeccionismo faz o impossível ganhar sentido. Visualmente, o filme é um espetáculo em que o fantástico adquire contornos tão realistas que nos faz crer que gigantes realmente pisaram na Terra.
Se resta alguma dúvida, basta aguardar a sequência em que Odisseu e seus soldados adentram a caverna do Ciclope Polifemo — criação que se posiciona desde já entre os maiores feitos técnicos da carreira do diretor. É um ponto de encontro perfeito entre ação e horror, no qual a figura monstruosa emerge das sombras e nos faz perguntar como Nolan alcançou tal nível de realismo. Aqui, a verossimilhança não é apenas um conceito, mas o motor de toda a narrativa.
Além da passagem marcante pela ilha do Ciclope, Nolan surpreende na sequência em que os soldados caem nas garras da feiticeira Circe. A atmosfera se torna angustiante pelo uso exemplar de maquiagem tradicional e efeitos práticos. Vale destacar a atuação de Samantha Morton, que entrega um show em tela mesmo com pouco tempo de cena, provando que um grande talento aliado a uma direção precisa faz toda a diferença.
Aliás, cabe ressaltar a força do elenco estrelado. Nomes como Tom Holland, Anne Hathaway, Robert Pattinson, Lupita Nyong'o, Zendaya, Charlize Theron, Jon Bernthal e Elliot Page interpretam figuras cruciais para a jornada de Odisseu. Mesmo nas participações mais breves, a presença em cena é marcante. O grande destaque, contudo, vai para Matt Damon. Sem se intimidar com o peso do personagem já adaptado inúmeras vezes, ele entrega um Odisseu visceral, humano e profundamente falho.
Ao reconhecer seu papel central na destruição de Troia, o protagonista passa a carregar um fardo sufocante. Sua caminhada parece menos uma luta pelo regresso e mais a busca por um castigo autopromovido — interpretação que ganha força na hipnotizante cena do canto das Sereias. Esse sentimento de culpa também torna enigmática a figura de Atena (Zendaya). Nolan constrói os deuses de forma ambígua, aproximando-se do tom adotado por Wolfgang Petersen em "Troia" (2004): fica a dúvida se são os deuses que guiam o destino do herói ou se são as próprias ações de Odisseu que moldam sua punição.
Desde "Amnésia" (2000), nota-se a predileção do cineasta por personagens atormentados pelo passado, cuja busca por redenção raramente atinge um desfecho pleno. Odisseu guarda conexões diretas com "Oppenheimer": o Cavalo de Troia trouxe morte e devastação, tornando-se o fantasma que o assombra. Nolan sugere, assim, que os perigos da jornada não são meros acasos do destino, mas provações arquitetadas pelo próprio íntimo do herói para que ele se torne merecedor do retorno ao lar.
Esse tom psicológico é elevado pela trilha sonora de Ludwig Göransson, que constrói a tensão de forma progressiva. A música nos guia pela aflição do protagonista; metade da grandeza de sequências como o ataque a Troia deve-se ao casamento perfeito entre a composição épica e a precisão técnica da direção.
A invasão de Troia também serve como ponto de ancoragem para a estrutura não linear do filme. Nolan vai e volta no tempo, montando um quebra-cabeça entre o passado e o presente do rei de Ítaca. Embora a montagem possa soar um pouco confusa em um primeiro momento, tudo se encaixa com precisão à medida que a jornada se aproxima do clímax.
No fim das contas, parece que Christopher Nolan aborda cada projeto como se fosse o seu último, ao mesmo tempo em que o utiliza como laboratório para o passo seguinte. "Dunkirk" (2017) pavimentou o caminho para "Tenet" (2020), que por sua vez abriu portas para "Oppenheimer" (2023) — culminando agora no que talvez seja o ápice de sua carreira em termos de escala, realismo e rigor estético.
Apoiado por uma direção de arte impecável, figurinos precisos e uma fotografia deslumbrante, "A Odisseia" é um triunfo cinematográfico. Um encontro raro entre a fantasia mitológica e o rigor da verossimilhança que apenas um cineasta no topo de seu domínio criativo poderia entregar.
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