Sinopse: A vida complexa do Rei do Pop, Michael Jackson, desde a infância no Jackson 5 até sua ascensão solo e genialidade artística.
Quando assisti a "Bohemian Rhapsody" (2018), na época, eu ainda não tinha uma dimensão sobre a vida pessoal da banda Queen, tampouco sobre Freddie Mercury. Quando era criança, nos anos oitenta, eu simplesmente ouvia as suas músicas e curtia cada uma delas como se não houvesse amanhã. Portanto, assistir à cinebiografia foi uma grande experiência, mesmo sabendo, através de outros, que muito daquilo visto na tela não aconteceu exatamente daquela forma na história real.
Devido a esse grande sucesso, começaram a surgir algumas cinebiografias de quilate, como "Rocketman" (2019), e algumas duvidosas, como "Back to Black" (2024). O problema é que fica sempre aquele dilema entre entregar uma adaptação nua e crua sobre a pessoa por trás do artista ou simplesmente levar a figura impecável que os fãs sempre endeusavam. "Michael" (2026) é uma adaptação somente parcial sobre a vida de um dos maiores cantores da música pop, mas que irá agradar aos fãs que cresceram ouvindo as suas obras que entraram para a história.
Dirigido por Antoine Fuqua, o longa retrata a vida e o legado do cantor (Jaafar Jackson), desde a descoberta de seu espetacular talento como líder do Jackson 5 até o impacto cultural de sua visão artística ímpar. Para além da música, este drama biográfico traça as ambições criativas de um homem que buscou ativamente se tornar um dos maiores artistas do mundo, destacando os passos dados por Jackson fora dos palcos. Performances icônicas de sua carreira solo compõem esse retrato íntimo e inédito do artista.
Para o fã de carteirinha, o filme não decepciona, principalmente ao revelar, no primeiro ato, os primeiros passos dos Jackson 5, moldados por um pai e empresário severo, Joe Jackson, interpretado por Colman Domingo. Vale destacar que o intérprete nos brinda com uma das grandes atuações do longa; seu Joe possui uma paixão quase doentia em levar os filhos ao topo do estrelato, não escondendo a ambição em seus olhos. Ao mesmo tempo, ele enxerga no pequeno Michael a sua verdadeira pepita de ouro, não medindo esforços para que a criança seja um superastro.
É neste cenário de sonhos e pesadelos que os produtores não se intimidaram em revelar as raízes do lado problemático da infância do astro, que cresceu diferente das outras crianças, isolando-se em um mundo de fantasias vindo de contos como o de Peter Pan. A partir do momento em que ele cresce e começa a não esconder as suas excentricidades — como adotar um macaco de estimação —, concluímos que o astro nunca teve a infância que realmente queria, e, neste retrato, o filme acerta em cheio.
Mas, sem sombra de dúvida, a grande surpresa fica por conta da atuação de Jaafar Jackson. Sendo sobrinho de Michael no mundo real, Jaafar tinha a missão ingrata de dar vida, cara e voz ao seu falecido tio, mas, felizmente, não decepciona. É como se estivéssemos vendo o Rei do Pop de volta à vida, em tempos mais coloridos, mesmo com todo o lado problemático de sua vida pessoal. Por mais que soe estranho em alguns momentos ele cantando, não há como negar que o intérprete chega perto do que Jackson foi em vida, além de surpreender nos passos de dança, o que nos desperta uma imensa nostalgia.
Aliás, a palavra nostalgia é a força motriz do filme, já que as passagens da história são moldadas por boa parte dos seus grandes sucessos e representam muito bem períodos específicos. É delicioso ver os motivos do astro para realizar a canção Beat It, ou então o maior feito de sua carreira, Thriller, cuja reconstituição das filmagens do clássico clipe está entre os melhores momentos do filme. Mas, por mais perfeitas que sejam essas passagens, é preciso reconhecer que tudo se torna quase um "clipão", em que a trama fica em segundo plano, fazendo com que apenas nos deleitemos com as músicas que ouvíamos quando garotos.
Nesse ponto, o filme talvez falhe ao se preocupar mais em agradar aos fãs do que em mostrar um Michael Jackson mais humano e falho em suas ações. Em alguns momentos, por exemplo, parece que os realizadores buscavam uma espécie de "predestinação" para algo maior, o que acaba soando pretensioso, para dizer o mínimo. O lado mais humano surge em cena apenas nos momentos em que ele busca um ombro amigo, seja através do seu motorista ou do seu empresário John Branca, interpretado de forma inesperada pelo ator Miles Teller.
Inevitavelmente, todos ficam curiosos sobre como o astro lidava com o vitiligo, mas o tema fica apenas na superfície, dando maior destaque à cirurgia que ele fez no nariz por sofrer preconceito vindo do próprio pai. Em contrapartida, o acidente durante as filmagens do comercial da Pepsi se torna o momento mais tenso da obra, ao ponto de ficarmos imaginando como seria se o filme fosse mais a fundo em outros fatores de sua saúde.
Naturalmente, muitos críticos se incomodarão pelo fato de o longa não abordar as acusações de abuso de menores. O filme não chega a esse ponto, principalmente porque nem adentra o ápice e o início do seu declínio durante a década de noventa. Ao meu ver, os realizadores estavam mais interessados em retratar a fase de ouro do cantor, sem esconder o lado problemático de sua fase inicial.
O filme pode ser interpretado como o primeiro grande ato sobre a vida do astro levado às telas. Obviamente, fará um grande sucesso, fazendo com que suas músicas voltem às paradas. Resta saber se os fãs irão ignorar a maioria da crítica especializada e ir em massa aos cinemas para desfrutar das mais de duas horas de pura nostalgia. "Michael" é um longa que irá dividir opiniões, mas acerta em cheio no coração dos fãs do eterno Rei do Pop.
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