Sinopse: Alice (Florence Pugh) é uma dona de casa que vive em uma comunidade utópica e aparentemente perfeita nos anos 1950 ao lado de seu marido, Jack (Harry Styles).
Olivia Wilde já pode ser apontada como uma das grandes promessas da direção contemporânea. Começando a carreira como atriz no cinema e na TV, a realizadora surpreendeu na comédia "Fora de Série" (2019), onde estreou no comando de um longa, e mais recentemente com "O Convite" (2026), que aponto facilmente como uma das melhores comédias dos últimos anos. No meio desse percurso, ela lançou o divisivo "Não Se Preocupe, Querida" (2022) — um filme que vem crescendo bastante à medida que o tempo passa.
Na trama, Alice vive com o marido e os colegas de trabalho dele, acompanhados de suas esposas, em um isolado condomínio em pleno anos 1950. As mulheres vivem reclusas no local, onde passam o dia esperando o regresso dos companheiros. No entanto, o tom idílico começa a ruir quando uma das moradoras passa a questionar o objetivo do misterioso Projeto Vitória, mantido em segredo pelos homens. Ao começar a investigar o seu entorno, a vida perfeita do casal se desfaz conforme os segredos da empresa vêm à tona.
Ao pensar sobre o cinema estadunidense convencional dos anos 1950, enxergo uma realidade plástica que pouco condizia com o mundo real daquela época. O próprio governo norte-americano vendia a ideia de uma sociedade perfeita e intocável. Com o passar do tempo, ficou claro que aquele "cartão-postal" não resistiria aos anos 1960, impulsionado por movimentos sociais e feministas que redefiniram a sociedade.
Na sociedade atual, é impensável reduzir a mulher ao papel de mero adorno do lar, ainda que parcelas conservadoras e machistas almejem o retorno desse passado patriarcal. Wilde acerta ao estruturar uma crítica ácida a homens que não aceitam a perda do papel de dominadores e se sentem ameaçados por mulheres independentes. Contudo, a forma como a realizadora constrói essa narrativa para explorar tais temas é o que torna o filme tão especial.
Com uma direção de arte e uma fotografia que resgatam as cores quentes dos "anos dourados", a diretora constrói um cenário impecável — perfeito até demais —, fazendo com que a própria protagonista duvide daquela perfeição. Aliada a uma montagem ágil, cujos jogos de câmera traduzem a mente confusa de Alice, a trama nos conduz por um enigma. Embora a premissa da realidade simulada não seja novidade para fãs de ficção científica (lembrando clássicos como "Matrix" ou a série "Black Mirror"), as raízes e motivações dessa simulação tornam o longa assustadoramente próximo da nossa realidade.
Sendo uma das grandes atrizes de sua geração, Florence Pugh carrega o filme com maestria. Seu olhar contestador é o convite principal para desvendarmos o mistério junto com ela. A própria Olivia Wilde interpreta uma personagem ambígua, que demonstra saber da verdade, mas cujas motivações revelam o quanto foi persuadida por um sonho absurdo. E se por um lado Harry Styles vive um marido fracassado que toma a pior decisão possível, por outro, Chris Pine surpreende com uma atuação intimidadora — com discursos que não soam muito diferentes de certos políticos atuais e falsos profetas.
Em suma, o longa alinha com precisão o suspense de ficção científica a dilemas sociais e ideologias retrógradas que insistem em se perpetuar. O final abrupto é um acerto que faz o filme continuar ecoando na mente, provocando debates e teorias. Um filme provocativo, feito sob medida para desafiar a roda de conversa entre cinéfilos.
"Não Se Preocupe", Querida ganha força com o tempo e se consolida como um testemunho contundente da visão de direção de Olivia Wilde.
Onde Assistir: Netflix.
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