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Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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domingo, 11 de outubro de 2026

Cine Dica: Oferendas Narrativas encerra temporada revisitando os caminhos do audiovisual negro brasileiro

 Conduzido por Janaína Oliveira, episódio final retoma questões lançadas na estreia e destaca a contribuição de Zózimo Bulbul para a construção de um cinema pensado a partir das experiências negras.

 Frame Zózimo Bulbul em “Alma no Olho” - (1974). 


O Fórum Itinerante de Cinema Negro (FICINE) encerrou a primeira temporada do podcast Oferendas Narrativas – Polifonias Negras no Cinema. Ao longo de cinco episódios, as pesquisadoras e curadoras Janaína Oliveira, Kênia Freitas, Janaína Damasceno e Tatiana Carvalho Costa percorreram a história dos cinemas negros, o afrofuturismo, a fotografia e as epistemologias negras. Juntas, elas contam histórias que muitos desconhecem e produzem um inestimável referencial de pesquisa para o campo dos estudos de imagens feitas da perspectiva negra.

Conduzido por Janaína Oliveira, que também abriu a série, o episódio final, “Um Black-ground para os cinemas negros no Brasil”, revisita marcos da construção do cinema negro brasileiro. A pesquisadora discute a diferença entre a presença de pessoas negras nos filmes e a criação de obras a partir de suas próprias perspectivas. Nesse percurso, destaca Zózimo Bulbul, o curta Alma no Olho e iniciativas que abriram caminhos para novas gerações. “Hoje proliferam filmes, mostras e estudos, apesar das adversidades políticas e a escassez de financiamentos. Mas a gente sabe que um movimento assim, uma vez em curso, não há retrocesso possível”, afirma a pesquisadora. 

No primeiro episódio, “Caminhos abertos dos cinemas negros”, Janaína parte da pergunta “o que é cinema negro?” para investigar como esse cinema se tornou possível. Ao apresentar os race films, a trajetória de Oscar Micheaux e o trabalho de pesquisa e circulação realizado por Pearl Bowser, ela percorre experiências pioneiras nos Estados Unidos. O episódio final retoma essa investigação, agora voltada à história do cinema negro no Brasil. Entre a abertura e o encerramento, a temporada segue por outros caminhos. No segundo episódio, “O Curto-Circuito Temporal do Afrofuturismo”, Kênia Freitas aproxima passado, presente e futuro ao discutir cinema, ficção especulativa e imaginação radical negra. “Múltiplas dimensões da experiência negra se abrem a partir das possibilidades de ficção especulativa na imaginação das vivências negras”, reflete Kênia.

A fotografia abre o terceiro episódio, “Pelo direito a olhar”. A partir de imagens de Walter Firmo e Gordon Parks, Janaína Damasceno apresenta o conceito de afrovisualidades e discute como artistas negros constroem outras formas de ver e existir. “O que me atrai nesse conceito de afrovisualidades é pensar em como pessoas negras estão construindo mundos, mais do que apenas representando a si próprias”, destaca. Em “Cinemas e Epistemologias Negras Brasileiras”, quarto episódio da temporada, Tatiana Carvalho Costa apresenta conceitos como QuilomboCinema, corpo-ficção e filmes radiais para analisar o cinema negro brasileiro a partir de outros referenciais, entendendo que, os conceitos que a Teoria do Cinema costuma apresentar podem ser insuficientes para ler citicamente obras de

realizadoras/res negras/os. “Essas ferramentas vêm de saberes negros e uma intelectualidade negra na sociologia, história, filosofia e no campo das artes, em especial as artes cênicas”, diz Tatiana.  Do primeiro ao último episódio, Oferendas Narrativas reúne pesquisa, memória e prática curatorial em uma série que convida o público a conhecer a fotografia e o cinema negro a partir das experiências e do pensamento de quem constrói esse campo, reunindo reflexões oriundas da pesquisa, do ensino e da prática curatorial.

Ao colocar essas vozes em diálogo, o podcast transforma o áudio em espaço de partilha de conhecimento e amplia o acesso a debates que também acontecem na pesquisa acadêmica e na curadoria. A primeira temporada se encerra com esse convite à escuta e à continuidade das reflexões sobre as imagens negras. 

Ficha técnica

Oferendas narrativas: polifonias negras no cinema é uma produção original do FICINE –

Fórum Itinerante de Cinema Negro.

O roteiro é assinado por Carol Almeida, Janaína Damasceno, Janaína Oliveira, Kênia Freitas e Tatiana Carvalho Costa. As citações presentes nos episódios são interpretadas pelo ator Guilherme Silva. A produção executiva é de Layla Braz. A pós-produção é dos Estúdios Imã, com gerência de João Vitor Rocha e Larissa Vasconcelos. O design de som, a trilha sonora, a edição e a finalização são de Max Teixeira e Marcos Frederico. As referências dos filmes, textos, fotografias e músicas mencionados nos episódios estarão disponíveis no novo site do FICINE, na seção Podcast, e foram organizadas por Vinícius Dórea, assistente de pesquisa.

Serviço:

Podcast: Oferendas Narrativas – Polifonias Negras no Cinema

Realização: Fórum Itinerante de Cinema Negro (FICINE)

Episódios lançados: 5

Onde ouvir: Temporada completa www.ficine.org

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Cine Especial: Clube de Cinema - 'Meu Tio'

 Filme exibido para os associados no dia 03/10/26. 

Poucas obras conseguiram traduzir os contrastes da modernidade de forma tão precisa quanto o cinema do francês Jacques Tati. A sua filmografia é atravessada por reflexões profundas sobre a estrutura social na qual somos inseridos, e "Meu Tio" (1959) figura como um exemplo emblemático desse embate entre o avanço tecnológico e a conduta humana.

Na trama, Tati nos reencontra com a candura e a pureza do Sr. Hulot. O protagonista visita a irmã, Madame Arpel, uma mulher fascinada pelas inovações futuristas que compõem sua residência. A obra se inicia em um canteiro de obras no qual as próprias placas do local apresentam os créditos iniciais — uma metáfora perspicaz para demonstrar uma sociedade que ainda edifica suas estruturas e valores. Ali, operários manuseiam maquinários pesados na erguição de colunas gigantescas que simbolizam os alicerces desse novo estilo de vida. Na sequência, a câmera corta para um grupo de vira-latas perambulando sem rumo por um bairro modesto. Os cães reviram o lixo, saltam poças, atravessam terrenos baldios e finalmente alcançam o setor modernizado da cidade, onde um deles adentra a propriedade automatizada dos Arpel. A cena pode parecer aleatória à primeira vista, contudo ela guarda uma função narrativa crucial para o decorrer do longa.

Após essa abertura rica em simbolismos, acompanhamos o cotidiano do casal Arpel. O conceito de modernidade atravessa cada canto do imóvel, desde o chafariz de estética duvidosa no jardim até a cozinha, cujo visual evoca um laboratório futurista. Cada elemento em cena é desenhado para escancarar a futilidade daquele excesso de aparelhos. A tecnologia, criada em tese para facilitar a rotina doméstica, converte-se em um obstáculo, exigindo um manuseio mais complexo do que o próprio trabalho manual. O comportamento lembra o de alguém que perde vários minutos tentando acionar uma função no celular por comando de voz quando poderia simplesmente digitar o comando em poucos segundos.

A fotografia do filme adota uma paleta acinzentada para a casa dos Arpel, reforçando a frieza do ambiente e enfatizando sua arquitetura impessoal. Em contrapartida, o bairro popular onde Hulot reside é banhado por cores quentes, transmitindo uma sensação de acolhimento ausente no lar de sua irmã. Além da distinção visual, Tati contrapõe o estilo de vida de ambos os cenários. Enquanto Madame Arpel cultiva uma fixação obsessiva pela limpeza, na comunidade de Hulot a higienização é um detalhe irrelevante. Há até um gari local que, a cada tentativa de recolher um monte de sujeira, acaba distraído pelas interações ao redor. Longe de retratar o personagem como desleixado, a direção utiliza esse momento para destacar modos opostos de encarar o cotidiano. Na vila, a vida fluía com simplicidade e convivência real — entre conversas de calçada, desentendimentos espontâneos, festas e laços comunitários. Já na casa dos Arpel, ostenta-se a conectividade entre os eletrodomésticos enquanto os próprios moradores não conseguem dialogar entre si nem com o filho, Gerard.

Para compreender a dinâmica do jovem Gerard, vale retomar a cena inicial dos cães. O trecho culmina com o animal retornando à casa dos Arpel, onde a dona do imóvel o repreende por uma suposta sujeira nas patas. Fica nítido que o cão está limpo; o incômodo da personagem reflete, na verdade, sua neurose pela preservação do espaço. Essa mesma postura rígida afeta a criação do filho, que vive uma rotina engessada e privada do livre brincar. É justamente a figura do tio, o Sr. Hulot, que surge como a válvula de escape para o garoto. Ao lado de Hulot, Gerard recupera a ludicidade e a espontaneidade da infância, despertando o ciúme do pai.

A presença de Hulot vai além do papel de libertador do sobrinho: ele se torna um elemento desestabilizador para o Sr. Arpel, que o enxerga como uma ameaça ao modo de vida moderno da família. Para aquele núcleo, existe um valor ainda mais relevante do que o uso dos aparelhos eletrônicos: a exibição pública de seu patrimônio. Tati expõe como a vacuidade daquela rotina se traduz na necessidade constante de impressionar as visitas. O chafariz em forma de peixe ilustra perfeitamente essa dinâmica. A engrenagem é acionada sempre que a campainha toca para borrifar água aos visitantes; contudo, ao perceberem que se trata apenas de Hulot, o dispositivo é desligado imediatamente. Afinal, Hulot já demonstrou total indiferença perante tais artifícios, enxergando neles apenas objetos bizarros e desprovidos de utilidade.

A direção de arte de Meu Tio cumpre um papel fundamental ao expor o vazio dessas inovações. Embora planejado sob os padrões urbanísticos mais avançados da época, o novo bairro aparenta ser estéril e desprovido de alma. As fachadas de lojas, indústrias e colégios repetem uma estética cinzenta e uniforme que elimina qualquer vestígio de calor humano. É nesse ponto que reside a crítica central do cineasta: o impasse não é o avanço tecnológico em si, mas a forma como a arquitetura e a modernidade podem privar a cidade de sua humanidade, reduzindo espaços urbanos a blocos frios onde não há lugar para brincadeiras, conversas espontâneas ou para os animais correrem soltos. Trata-se de um design concebido para ostentar progresso, mas que acaba isolando as pessoas e enfraquecendo as relações interpessoais.

Alheio a esse deslumbre fútil, o Sr. Hulot permanece como o último reduto de humanidade em meio a uma engrenagem social automatizada e fria. Em "Meu Tio", Jacques Tati não condena a inovação em si, mas sim a nossa submissão a ela. Por mais sofisticados que sejam os recursos tecnológicos, eles jamais substituirão o valor das conexões genuínas e da convivência humana.

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Cine Dica: Curso INGMAR BERGMAN: DIÁLOGOS COM A MORTE


de Lucas Vidal

* Datas: 10 e 11 / Outubro (sábado e domingo)

* Local: Cinemateca Capitólio (Rua Demétrio Ribeiro, 1085 - Centro - Porto Alegre - RS)

* Horário: 14h30 às 17h30


O Cinema de Ingmar Bergman é, mais do que qualquer outro cineasta, atemporal, pois dialoga com a alma humana de forma muito profunda e trata de temas que nunca deixarão de ser relevantes, como fé, religião, problemas psicológicos em geral, angústias, medos, conflitos existenciais, vida e morte. Morte, aliás, que atinge seu ápice na obra de Bergman em O Sétimo Selo, filme que traz um personagem ameaçador com esse nome, perseguindo pessoas e se disfarçando para pegá-las de surpresa.

Em obras como a famosa Trilogia do Silêncio (1961/62/63) e o espetacular A Hora do Lobo (1968), Bergman filma o terror de uma forma muito peculiar, focando totalmente no aspecto psicológico das pessoas, não no objeto que causa o medo. Isso ocorre também com outros temas, como a guerra, em Vergonha (1968), e o reconhecimento profissional, em Morangos Silvestres (1957). No seu trabalho, ao longo de décadas, todos os caminhos levam à investigação minuciosa dos problemas que atingem a todos nós, em toda a vida.

Objetivos

O curso INGMAR BERGMAN: DIÁLOGOS COM A MORTE, de Lucas Vidal, vai trazer uma filmografia selecionada do sueco, com uma curadoria cuidadosa, para que seja possível observar todas as principais características de sua obra. O objetivo é analisar como cada um desses aspectos, como medo, raiva e questionamentos sobre Deus, são trazidos e aprofundados por Bergman, principalmente através de questões técnicas como os closes e a fotografia. O curso busca também entender os filmes por meio das diferenças entre as funções do roteiro e da direção cinematográfica e como esses elementos contribuem para as sensações provocadas.


Informações / Inscrições

https://cinemacineum.blogspot.com/2026/09/ingmar-bergman.html

Cine Dicas: Estreias do Final de Semana (09/10/26)

OUTRA MAMÃE

Sinopse: Bela, que estabelece uma relação com uma entidade sinistra de sua casa, cuja aparência é assustadoramente semelhante à da própria mãe dela.


HOPE - O PRIMEIRO IMPACTO

Sinopse: A polícia investiga a presença de uma criatura misteriosa que vem causando tumulto na remota vila de Hope Harbor. Ao seguir os rastros do animal, um grupo de caçadores acaba se tornando sua presa involuntária, dando início a um conflito que se transforma em uma tragédia de proporções cósmicas.


SE EU FOSSE VOCÊ 3

Sinopse: Duas décadas depois da última troca de corpos, Cláudio e Helena vivem uma nova fase da vida ao lado da filha Bia, agora adulta e casada. Tudo parece em equilíbrio até que uma situação inesperada abala a dinâmica da família e coloca as relações à prova.


UM TIO QUASE PERFEITO 3

Sinopse: Tio Tony está se sentindo cada vez mais abandonado pelos sobrinhos, que cresceram e estão independentes. Até que um dia uma surpresa vira sua vida de cabeça para baixo: um bebê é deixado na porta de sua casa. Sem saber o que fazer, ele aciona os sobrinhos e, juntos, eles criam planos mirabolantes para encontrar os pais da criança. 

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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Cine Dica: Clube de Cinema: "James Dean: O Mito Sobrevive" (10/10) na Cinemateca Capitólio

Neste sábado (10/10), às 10h15 da manhã, o Clube de Cinema de Porto Alegre se reúne na Cinemateca Capitólio para uma sessão do filme James Dean: O Mito Sobrevive, produção de 1982 dirigida por Robert Altman.

Adaptado de uma peça teatral de Ed Graczyk, o filme acompanha o reencontro de um grupo de mulheres que, vinte anos após a morte de James Dean, revisitam suas histórias, frustrações e expectativas. Altman utiliza o espaço único da trama e um engenhoso jogo de espelhos para aproximar passado e presente, enquanto a figura de Dean aparece menos como personagem do que como símbolo dos sonhos e possibilidades que as protagonistas projetaram para suas próprias vidas.


Confira os detalhes da sessão:


SESSÃO DE SÁBADO NO CLUBE DE CINEMA

📅 Data: Sábado, 10/10, às 10h15 da manhã

📍 Local: Cinemateca Capitólio

Rua Demétrio Ribeiro, 1085 – Centro Histórico, Porto Alegre

James Dean: O Mito Sobrevive (Come Back to the 5 & Dime Jimmy Dean, Jimmy Dean)

EUA, 1982, 109min

Direção: Robert Altman

Roteiro: Ed Graczyk

Elenco: Sandy Dennis, Cher, Karen Black, Sudie Bond, Mark Patton, Kathy Bates

Sinopse: Vinte anos após a morte de James Dean, um grupo de mulheres que fazia parte de seu fã-clube se reencontra em uma pequena loja no Texas. Entre lembranças do passado e acontecimentos do presente, o encontro traz à tona antigas relações, segredos e frustrações que haviam permanecido ocultos por duas décadas.

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Cine Dica: Cinesemana de 8 a 14 de outubro de 2026


A cinesemana entre 8 e 14 de outubro tem como destaque a estreia de FURNAS FUNDAS: UMA FÁBULA GÓTICA BRASILEIRA, de Beto Marquez. A trama, baseada em uma história do escritor Reinaldo Moraes, mistura comédia, terror e crítica social.

A programação segue com NAZA, documentário de Rachel Szor e Yuval Abraham, que traz relatos importantes sobre as vítimas das operações militares de Israel em Gaza. Outro destaque é RAN, de Akira Kurosawa, que volta aos cinemas em cópia restaurada; e dois documentários sobre músicos brasileiros: AS DORES DO MUNDO - HYLDON, de Emílio Domingos e Felipe David Rodrigues; e GONZAGUINHA, DA MAIOR LIBERDADE, dirigido por Susanna Lira e vencedor do Festival de Gramado.

Seguem em cartaz os longas europeus TRÊS VEZES ADEUS, da diretora espanhola Isabel Coixet; e MIRRORS NO. 3, do alemão Christian Petzold. O público ainda tem chance de assistir à comédia MUITO PRAZER, de Jorge Furtado, sobre três jovens que tentam reabrir um motel decadente.

A cinesemana terá sessões especiais e comentadas, incluindo uma exibição única de MINHA TERRA ESTRANGEIRA, do coletivo Lakapoy, Louise Botkay e João Moreira Salles. Também estão confirmadas exibições com bate-papo de FURNAS FUNDAS e NAZA, com equipes e convidados. 

Confira a programação completa da Cinemateca clicando aqui.   

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Cine Dica: Streaming — 'A Voz de Hind Rajab'

 Sinopse: Ambientado em Gaza, o filme acompanha a trágica e real história de Hind Rajab.

Kaouther Ben Hania é uma diretora da Tunísia que tem chamado atenção pela forma de tratar assuntos delicados, como a guerra infinita que perdura no Oriente Médio. Se "O Homem que Vendeu Sua Pele" (2019) é uma ficção que explora o poder exercido sobre o que muitos consideram minorias, por outro lado, "As Quatro Filhas de Olfa" (2023) é um curioso jogo de cena entre ficção e realidade na medida certa. "A Voz de Hind Rajab" (2025) é uma chocante reconstituição sobre as últimas horas de vida de uma menina inocente perante uma guerra insana que só faz vítimas.

O filme retrata a trágica história de Hind Rajab, uma garota de seis anos que morreu ao tentar fugir com sua família dos ataques israelenses. Escondida dentro do carro do próprio tio, ela ficou presa após o veículo ser alvejado. Apesar de ter passado três horas no telefone com os voluntários do Crescente Vermelho, foi encontrada morta, ao lado dos corpos dos paramédicos enviados ao resgate, 12 dias após a ligação desesperadora.

Kaouther Ben Hania faz uma dramatização dos acontecimentos utilizando os áudios originais de Hind pedindo socorro e acompanhando as tentativas da ajuda humanitária de alcançá-la no meio do caos e dos ataques. A reconstituição conta com quatro grandes intérpretes que vivem os voluntários do Crescente Vermelho e nos brindam com atuações intensas, sintetizando muito bem a aflição que suas contrapartes reais enfrentaram ao atender a menina. Tudo se passa em um único cenário, o que torna a experiência ainda mais claustrofóbica.

Mesmo em um ambiente limitado, a realizadora jamais mantém sua câmera parada: ela está sempre em movimento constante, dando foco tanto para quem se encontra em primeiro plano quanto para quem está em segundo plano. Motaz Malhees se sai muito bem ao transmitir, através do olhar de seu personagem (também chamado Motaz), toda a confusão mental e o desejo incondicional de ajudar a jovem, não importando o que aconteça. Já seu colega de trabalho, Mahdi M. Aljamal (interpretado por Amer Hlehel), procura usar a lógica para preservar a vida dos colegas de ambulância que estão no fogo cruzado do lado de fora, ciente de que qualquer passo em falso significa morte certa.

O resultado é um intenso conflito de perspectivas sobre como agir diante de uma guerra sem sentido e sobre o quanto se deve arriscar uma vida para tentar salvar outra. Nesse ínterim, temos Rana Hassan Faqih (interpretada pela atriz Saja Kilani), que, em um primeiro momento, tenta manter o distanciamento profissional, mas logo se entrega à dor ao ouvir os pedidos ininterruptos de socorro da menina. Os momentos mais dramáticos e marcantes do filme são protagonizados por Saja, em uma atuação que merecia até mesmo reconhecimento na temporada de prêmios.

O ato final é, desde já, um dos mais perturbadores do cinema recente. É onde a ficção e a linguagem documental se entrelaçam até se tornarem uma coisa só, culminando nas imagens reais de onde o carro com a menina foi encontrado. A cena é uma representação devastadora sobre o quanto esse conflito é desumano, onde a população civil paga o preço mais alto. "A Voz de Hind Rajab" é um filme extremamente necessário, funcionando como um registro histórico doloroso e urgente sobre as tragédias cotidianas que devastam Gaza.

Trata-se de um verdadeiro soco no estômago, onde o horror quase nunca é mostrado graficamente, mas sentido através do relato de uma voz inocente que sequer entendia a dimensão da violência ao seu redor.


Onde Assistir: Netflix

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