Sinopse: Após a morte do pai distante, Theo herda uma bela propriedade com um restaurante na Itália.
Pode-se dizer que a gastronomia ganhou um subgênero próprio dentro da história do cinema. Se no clássico "Tomates Verdes Fritos" (1991) um café se torna o epicentro de encontros e transformações, o brasileiro "Estômago" (2007) revela como o talento culinário pode levar alguém a caminhos imprevisíveis. Chegamos, assim, a "Toscana" (2022), no qual o universo da alta gastronomia serve como pano de fundo para uma história sobre redenção e reconciliação.
Dirigido por Mehdi Avaz, o longa acompanha um chef dinamarquês que viaja à Itália com o objetivo inicial de vender o negócio deixado por seu pai. Lá, o convívio com uma mulher local o inspira a repensar suas prioridades quanto à vida e ao amor, forçando-o a encarar as sombras do passado para abraçar um novo futuro.
Apostando em uma mistura entre drama e humor que transita com fluidez, o diretor constrói uma trama simples, porém eficiente em cativar quem aprecia a boa culinária. Logo na abertura, vemos o protagonista liderar sua equipe com um perfeccionismo inflexível, onde qualquer deslize soa como ruína iminente. Essa sequência funciona muito graças ao empenho do ator Anders Matthesen, que imprime no personagem uma obsessão rígida pelo trabalho sem esconder as feridas abertas de um passado mal resolvido. Ao se ver como herdeiro da propriedade de um pai com quem quase não mantinha contato, os sentimentos conflituosos do protagonista vêm à tona de forma bastante expressiva. O filme demonstra, assim, que a gastronomia não é apenas uma profissão, mas um dom capaz de atravessar gerações — mesmo quando os laços afetivos se romperam pelo caminho.
Por outro lado, a narrativa perde um pouco de ritmo ao focar no reencontro do chef com sua paixão de infância, interpretada por Cristiana Dell'Anna. Embora a atriz tenha entregue um trabalho marcante em "Cabrini" (2024), seu desempenho aqui acaba limitado por um dilema pessoal pouco convincente e por um envolvimento amoroso previsível. Ainda assim, a dinâmica entre a dupla consegue reforçar a ligação emocional com o cenário local, sintetizada simbolicamente por uma curiosa fotografia do passado.
Conduzido por uma lição de moral já conhecida em produções do gênero, "Toscana" compensa a previsibilidade ao entregar uma atmosfera charmosa, cenários deslumbrantes e um carinho genuíno pela arte de cozinhar. Pode não ser o expoente máximo desse subgênero, mas certamente desperta a vontade de apreciar um bom vinho. Trata-se de uma obra sobre atritos familiares e sobre a importância de saber a hora de deixar velhos dilemas para trás.
Onde Assistir: Netflix
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