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Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Cine Especial: Clube de Cinema - 'The Rocky Horror Picture Show'

 Nota: Filme exibido para os associados no dia 05/09/26.

O recente filme "A Noiva" (2025), de Maggie Gyllenhaal, foi massacrado pela crítica e não convenceu o público a ir ao cinema. Porém, nota-se que é o típico longa que vai conquistando uma fatia de espectadores aos poucos, ganhando status de cult no seu devido tempo. O fato de a obra pegar personagens conhecidos do universo do horror e recolocá-los em uma proposta que vai contra o convencional faz com que prenda a nossa atenção — seja agora ou em uma sessão futura.

Não faltaram, ao longo da história do cinema, experimentos que se tornaram fracassos retumbantes de bilheteria para, posteriormente, serem adorados pelo público. David Lynch, por exemplo, provou o gosto do fracasso comercial com o seu primeiro longa, "Eraserhead" (1977), mas logo alcançou a consagração através das midnight movies — sessões da meia-noite em que produções B, relegatedas a horários marginais, conquistavam um público fiel e duradouro. "The Rocky Horror Picture Show" (1975) é um desses casos: um filme completamente fora dos padrões da época, mas que tirava de trás das cortinas o desejo de uma parcela da sociedade de libertar sua verdadeira faceta.

"Rocky Horror" foi concebido originalmente como um espetáculo teatral musical, surgindo como uma grande homenagem aos filmes de terror e ficção científica das décadas de 1940 a 1970. O sucesso nos palcos foi estrondoso, resultando em adaptações pelo mundo todo — inclusive no Brasil, com Wolf Maya no elenco. Posteriormente, em 1975, ganhou sua versão cinematográfica.

Dirigido por Jim Sharman, o longa acompanha Brad Majors (Barry Bostwick), que decide pedir sua noiva, Janet Weiss (Susan Sarandon), em casamento. Antes da cerimônia, eles partem em uma viagem de carro, mas acabam se perdendo sob uma forte tempestade. Com o veículo quebrado, buscam ajuda em um castelo próximo, onde são recepcionados por Riff Raff (Richard O'Brien), o criado do dr. Frank-N-Furter (Tim Curry), o extravagante dono da propriedade.

Logo na abertura, o filme diz a que veio: a escuridão da tela é invadida por grandes lábios vermelhos que cantam "Science Fiction/Double Feature". A letra faz referência a diversos clássicos do horror e da ficção científica, de Flash Gordon a King Kong, passando por Frankenstein e Drácula. Porém, mesmo com esse início magnético e imprevisível, ninguém imaginava o delírio que estaria por vir.

Basicamente, a obra é um grande musical que pega carona em sucessos como "Cabaret" (1972) e o cultuado "O Fantasma do Paraíso" (1974). Esses dois exemplos sintetizam a sobrevivência de um gênero que parecia em decadência, mas que injetava na tela elementos estéticos que se tornariam populares na era MTV nos anos 1980 — momento em que extravagância e criatividade andavam de mãos dadas. O filme de Sharman, contudo, atinge essa potência em grau máximo.

Podemos simplificá-lo como uma reverência aos clássicos de horror dos anos 1930 e à onda de ficção científica B dos anos 1950 que assolava o cinema norte-americano. Todavia, o longa revela nas entrelinhas que essas obras pregressas operavam sob uma lógica conservadora ao usarem monstros para amedrontar a plateia, enquanto o verdadeiro monstro estava encravado na própria estrutura social. O mundo ainda tinha vergonha de encarar suas próprias barbáries, desde os horrores do Holocausto até a bomba de Hiroshima.

Os anos 1970, por sua vez, revelaram um cinema cada vez mais desafiador após a derrocada do Código Hays, exigindo que o público aceitasse a metamorfose em curso no mundo. Renegada às sombras, a comunidade LGBTQIA+ via-se marginalizada e perseguida; quando "Rocky Horror" chegou às telas, tornou-se um grito de protesto contra o conservadorismo opressor. Mesmo sob o véu do absurdo e do deboche, é impressionante como o longa carrega simbolismos potentes, tornando-se mais atual do que nunca, mesmo passados mais de cinquenta anos.

O casal central representa a elite puritana norte-americana, incapaz de esconder seus desejos reprimidos à medida que a narrativa avança. Frank-N-Furter surge como uma força da natureza que se recusa a viver nas sombras, seduzindo e libertando todos ao seu redor através de sua extravagância. Tim Curry, que demonstrou imensa versatilidade ao longo da carreira, jamais perdeu a marca dessa interpretação icônica que entrou para a história da sétima arte.

A crítica da época, previsivelmente, detestou a produção, taxando-a de incompreensível e obscena. O grande público também não deu atenção imediata, mas a obra cresceu no boca a boca, tornando-se a rainha das sessões da meia-noite, das cinematecas e das exibições com participação da plateia. Revisto hoje, "The Rocky Horror Picture Show" permanece como um ponto fora da curva: um filme transgressor, genial e à frente de seu tempo, perante o qual até o conservadorismo acabou se rendendo.

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Cine Especial: Clube de Cinema: "A Natureza das Coisas Invisíveis" (12/09) no Cine Bancários

Neste sábado (12/09), às 10h15 da manhã, o Clube de Cinema de Porto Alegre se reúne na sala do Cine Bancários para uma sessão do filme A Natureza das Coisas Invisíveis, primeiro longa de Rafaela Camelo. Selecionado pela Academia Brasileira de Cinema para compor a lista de pré-indicados do Brasil ao Oscar, o filme acompanha duas meninas que se conhecem em um hospital e constroem uma amizade a partir de pequenas descobertas sobre a vida e a morte, acompanhando mudanças na percepção das duas personagens à medida que elas lidam com questões que os adultos nem sempre conseguem explicar.


Confira os detalhes da sessão:


SESSÃO DE SÁBADO NO CLUBE DE CINEMA

📅 Data: Sábado, 12/09, às 10h15 da manhã

📍 Local: Cine Bancários

Rua General Câmara, 424 – Centro Histórico – Porto Alegre

A Natureza das Coisas Invisíveis

Brasil e Chile, 2025, 90min

Direção e roteiro: Rafaela Camelo

Elenco: Laura Brandão, Serena, Larissa Mauro, Camila Márdila, Aline Marta Maia

Sinopse: Durante as férias de verão, Glória, filha de uma enfermeira, e Sofia, que visita a bisavó internada com Alzheimer, se conhecem em um hospital. A amizade entre as duas as leva a compartilhar descobertas e experiências que modificam sua maneira de perceber a vida e a morte.

Sobre o Filme: Quando se é criança a mesma possui uma curiosidade que a faz sempre perguntar diversas coisas para a pessoa adulta próxima. É claro que determinados dilemas, seja com relação sobre a vida e a morte, tornam o assunto algo difícil para ser dialogado para uma criança que recém está conhecendo o mundo. "A Natureza das Coisas Invisíveis" (2025) nos revela um retrato singelo da inocência perante as adversidades da vida que fazem os adultos se sentirem esgotados em alguns momentos  nesta jornada.

Dirigido por Rafaela Camelo, o filme conta a história de duas meninas que se conhecem em um hospital em suas férias e, ao compartilharem o desejo de sair, formam uma amizade entre momentos difíceis. Glória (Laura Brandão), uma menina de dez anos, está com a mãe no hospital onde ela trabalha e acaba conhecendo Sofia (Serena), da mesma idade. Entediadas por estarem perdendo suas férias dentro de um hospital, elas exploram o lugar juntas e vão formando um laço de amizade.

Confira a minha crítica completa já publicada clicando aqui. 

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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Cine Dicas: Estreias do Final de Semana (10/09/26)

 DA MAGIA À SEDUÇÃO: FEITIÇO DE AMOR

Sinopse: O filme retorna a um universo envolto em travessuras à luz da lua e em uma poderosa magia ancestral. As irmãs Owens precisarão enfrentar a sombria maldição que ameaça destruir sua família de uma vez por todas.


A ILHA ESQUECIDA

Sinopse: Jo e Raissa, recém-formadas no ensino médio e melhores amigas desde a infância, estão prestes a seguir caminhos distintos. Enquanto celebram a sua última noite juntas, elas encontram um portal misterioso que as transporta para a fantástica ilha de Nakali.


A MARAVILHOSA ÁRVORE ENCANTADA

Sinopse: Em uma jornada mágica para toda a família, A MARAVILHOSA ÁRVORE ENCANTADA acompanha Tim (Andrew Garfield), Polly (Claire Foy) e seus três filhos, que deixam a cidade grande para recomeçar no interior da Inglaterra. Longe das telas, as crianças descobrem uma árvore mágica que os leva a mundos fantásticos.


CÓDIGO: VINGANÇA

Sinopse: Após testemunhar o assassinato de seu chefe bilionário e ser injustamente incriminado pelo crime, Cole Reed (Jason Statham) embarca em um navio cargueiro em uma cruzada solitária para vingar a morte de seu chefe. 

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Cine Dica: Cinesemana de 10 a 16 de setembro de 2026

Três documentários sobre personalidades da cultura brasileira ganham destaque na programação da cinesemana que vai de 10 a 16 de setembro. GONZAGUINHA, DA MAIOR LIBERDADE, vencedor da categoria no Festival de Gramado, recupera a trajetória do artista reconhecido como um dos principais compositores do cotidiano brasileiro dos anos 1970 e 1980. Outro nome que chega à tela grande é o de Marília Pêra, que tem sua história documentada no filme VIVA MARÍLIA e reúne momentos inesquecíveis dos mais de 50 anos de carreira da artista. O terceiro título é DARCY FAGUNDES - MEU FAMOSO PAI DESCONHECIDO, em que a própria filha segue os passos da carreira do pai e reconta a história de um dos nomes mais importantes do regionalismo gaúcho.

Entre os filmes que seguem em cartaz estão também o documentário NEM TUDO É PAZ E AMOR, que reúne depoimentos de filhos de artistas brasileiros dos anos 1970, além da ficção A QUINTA PORTUGUESA, coprodução entre Espanha e Portugal e com Maria de Medeiros como protagonista. Seguem em cartaz os longas MUITO PRAZER, de Jorge Furtado, sobre três jovens que tentam reabrir um motel decadente e apostam em estratégias pouco convencionais, além de NOSSO SEGREDO, de Grace Passô, filme vencedor do Festival de Cinema de Gramado. Também ganham mais uma semana de exibição os longas franceses O APEGO, que conquistou o prêmio César de melhor filme em 2026, e AS CORES DO TEMPO, dirigido por Cédric Klapisch.

O público ainda tem a oportunidade de conferir dois sucessos da nossa bilheteria: ACAMPAMENTO MIASMA - SEXO, ADOLESCÊNCIA E MORTE, filme de terror slasher dirigido por Jane Schoenbrun; e O CONVITE, da diretora Olivia Wilde, sobre dois casais que discutem as relações.

Confira a programação completa no site oficial da cinemateca clicando aqui. 

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Viva Marília'

Sinopse: O filme retrata o impacto do contexto histórico, político e social do Brasil nas décadas de 1960, 1970 e 1980 na trajetória de Marília Pêra. Ela integrou uma geração de mulheres fortes que transformaram a cultura nacional.

Marília Pêra foi uma das maiores atrizes do nosso país, cujo talento transcendeu as nossas fronteiras. Com reconhecimento internacional, ela se tornou um símbolo de força, arte e perseverança, mesmo diante dos mais diversos obstáculos. "Viva Marília" (2025) é um registro não apenas sobre a pessoa, mas também sobre a construção de sua carreira impecável.

Dirigido por Zelito Viana, o documentário é uma celebração da trajetória da atriz, cantora e bailarina, tendo como pano de fundo as transformações políticas, sociais e culturais do Brasil entre as décadas de 1960 e 1980. Narrado pela própria artista — a partir de um rico acervo de depoimentos e imagens raras de sua vida pessoal —, o filme percorre sua atuação no teatro, na televisão e no cinema, mostrando como as metamorfoses do país atravessaram sua vida e sua obra.

Não é uma tarefa fácil realizar um documentário sobre um talento que nos deixou há algum tempo. Porém, Zelito Viana usou a criatividade a seu favor ao resgatar entrevistas concedidas por Marília ao longo dos anos, entrelaçando-as para construir a linha narrativa. A partir dessa edição, temos uma clara dimensão de suas raízes, de sua infância e do início de sua extraordinária trajetória artística.

Além de acompanharmos os depoimentos da atriz em diferentes épocas, suas memórias ganham vida por meio de registros caseiros com a família. É emocionante testemunhar os primeiros passos da pequena Marília no teatro, já dando sinais do alcance que ela atingiria no futuro. Nota-se que o acervo foi escolhido a dedo, sintetizando períodos de ouro da cultura brasileira no palco, na TV e no rádio.

O documentário consegue, com grande êxito, revelar a essência de uma artista que respirou cultura do início ao fim da vida e que nunca se intimidou diante de desafios grandiosos. Só ela para encarnar Carmen Miranda nos palcos com tal vigor, provando que sua força vocal a faria brilhar intensamente também no universo da música. De sua longa lista de interpretações memoráveis, destaca-se ainda o fato de ter dado vida a ícones como Gal Costa, Dolores Duran e Aracy de Almeida.

Como todo grande nome da época, Marília sofreu com a repressão da ditadura militar, um período em que o pensamento crítico e a liberdade nos palcos eram alvos de severa censura e retaliação do regime. Na televisão, por sua vez, a atriz transitou entre os primeiros anos da Rede Globo e a pioneira TV Tupi, tornando-se uma figura profundamente querida pelo público. Particularmente, lembro-me de que a primeira vez que a vi na TV foi na marcante novela "Brega & Chique" (1987).

Para mim, como crítico de cinema, quando penso em Marília Pêra, vêm imediatamente à mente suas interpretações magistrais na tela grande. O documentário fortalece essa dimensão ao destacar cenas do clássico "Pixote: A Lei do Mais Fraco" (1980), no qual sua atuação visceral como uma prostituta que acolhe meninos de rua lhe rendeu prestígio internacional e diversos prêmios. Também não podemos deixar de mencionar sua divertida e marcante participação no clássico "Central do Brasil" (1998) — contracenando com Fernanda Montenegro —, cujo brilho em cena nos faz desejar que sua personagem tivesse tido ainda mais tempo na tela do longa de Walter Salles.

Em suma, o documentário é um convite imperdível tanto para quem deseja descobrir esse grande talento quanto para quem busca compreender melhor o papel de uma atriz diante dos altos e baixos de uma carreira desafiadora em um Brasil em constante transformação. Marília nos deixou em 2015, mas a sua arte permanece intacta e imortalizada na história da nossa cultura."Viva Marília" é uma verdadeira declaração de amor ao teatro e ao cinema nacionais — um filme que encantará qualquer amante da arte.


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Cine Dica: Newsletter Cinemateca Capitólio - 10 a 16 de setembro de 2026

 Cinema ucraniano e premiado lançamento brasileiro em cartaz na Cinemateca Capitólio, que também recebe várias sessões especiais


A semana da Cinemateca Capitólio entre 10 e 16 de setembro segue exibindo a mostra Dias de Cinema Ucraniano, iniciada em 6 de setembro último, que divide horários como o longa brasileiro Aquele que Viu o Abismo, de Gregorio Gananian e Negro Leo. Entre as atrações especiais da semana, na quinta-feira, dia 10, às 19h30, a Cinemateca Capitólio exibe dois curtas documentais do diretor gaúcho Cássio Tolpolar, O Clube de Cultura e Imigrante/Habitante.Na sexta-feira, 11 de setembro, às 19h15, o cineclube Academia das Musas promove a exibição de A Mulher de Ninguém (1937), clássico melodrama mexicano dirigido pela pioneira Adela Sequeyro.

No sábado, dia 12, às 18h, a atração é a exibição do longa Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes, de Cacá Nazario e Bruno Polidoro. A sessão é uma homenagem ao escritor gaúcho Caio Fernando Abreu, que completaria 78 anos neste dia 12 de setembro, e é o 5º encontro da Jornada Caio Quintessencial. A sessão é acompanhada de uma palestra com Fabiano de Souza, cineasta, doutor em Comunicação Social e autor do livro Caio Fernando Abreu e o Cinema, e traz como convidado Cacá Nazario, cineasta e um dos diretores do documentário, com mediação de Amanda Costa, doutora em Literatura e amiga pessoal de Caio. Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes é um roadmovie poético construído através da vida e obra do escritor Caio Fernando Abreu. Santiago, Amsterdã, Berlim, Colônia, Paris, Londres, Porto Alegre, São Paulo. As cidades que testemunharam a vida breve do poeta, dramaturgo e escritor Caio Fernando Abreu (1948-1996) são revisitadas e recobertas agora de fragmentos de suas obras e lembranças de seus amigos, como Maria Adelaide Amaral, Grace Gianoukas e Adriana Calcanhoto.

No domingo, dia 13 de setembro, a Cinemateca Capitólio abre espaço para o show/performance Agnès Varda por Juçara Marçal, programação paralela à exposição da fotógrafa e cineasta francesa que acontece na Fundação Iberê Camargo. Serão duas apresentações, às 17h e às 20h, ambas com ingressos já esgotados.

Confira a programação completa no site oficial da Cinemateca clicando aqui. 

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Cine Especial: Clube de Cinema - 'Nacionalidade do Imigrante'

 Nota: Filme exibido para os associados no dia 03/09/26.

Sinopse: Sidi, um trabalhador mauritano empregado na França, enfrenta, como tantos outros imigrantes, condições precárias de trabalho e exploração por parte dos patrões. Diante do racismo e da exploração econômica, ele e outros trabalhadores começam a se organizar para combater essas condições.

O filme se alinha ao campo da docuficção, em que a linguagem documental transita por elementos que soam fictícios, mas mantêm uma pegada extremamente realista. O clássico iraniano "Close-Up" (1990), do mestre Abbas Kiarostami, recria os passos de um homem em julgamento ao mesmo tempo em que documenta os fatos que o levaram àquela situação. "Nacionalidade do Imigrante" (1975/1976) segue uma premissa similar, mas dialoga com os fragmentos e técnicas deixados pelo movimento da Nouvelle Vague, o que torna o projeto ainda mais instigante de se acompanhar de perto.

Dirigido e roteirizado por Sidney Sokhona, o trabalho foca no protagonista Sidi, um trabalhador mauritano que enfrenta a precariedade e a exploração em solo francês. Diante do racismo e da marginalização econômica, ele e seus companheiros passam a se organizar coletivamente.

A França sempre foi vista historicamente como um destino para diversos fluxos migratórios, rotulada por muitos como uma espécie de "terra das oportunidades". No entanto, se os EUA se consolidaram no imaginário por seu histórico racista e xenofóbico, a realidade francesa não se mostra muito diferente: abre as portas para a mão de obra imigrante, mas nega as condições dignas para quem busca recomeçar do zero. O próprio Sidi procura por muito tempo uma oportunidade para se sustentar, mas encontra no "não" a resposta padrão — da mesma forma que vê seus irmãos de trajetória sendo sistematicamente ignorados.

Feito com recursos modestos, o filme revela uma Paris distante dos cartões-postais. Se num primeiro momento os recém-chegados se deslumbram com os monumentos da cidade, a narrativa se torna crua ao expor a realidade dos alojamentos precários, onde os trabalhadores são praticamente empilhados em quartos sem o menor conforto, testando diariamente sua resistência. É particularmente instigante observar a reação dos parisienses em cena: muitos surgem desconcertados diante das câmeras, transparecendo receio diante da postura e dos protestos dos imigrantes que ocupam o espaço público para reivindicar direitos.

A meu ver, o filme também funciona como uma síntese da ressaca do pós-Maio de 68. Se nos momentos de efervescência estudantil e operária havia a promessa de profundas transformações, o olhar de Sidney Sokhona escancara como essa energia revolucionária foi gradualmente absorvida e sucateada, restando uma militância que por vezes parecia uma imagem pálida de algo que um dia foi maior. Em tempos atuais, marcados por novas crises migratórias e conflitos globais, o filme demonstra não ter envelhecido um único milímetro — o que torna a sua experiência de visão ainda mais impactante e assombrosa.

"Nacionalidade do Imigrante" é um registro histórico urgente de uma Paris crua e realista. Um filme que expõe as dores da experiência imigrante por meio de questões que, infelizmente, permanecem inteiramente atuais.


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