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Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Cine Especial: Próximo Cine Debate - 'Antes de Partir'

Sinopse: Rory MacNeil é um escocês ranzinza que não dá a mínima para a opinião dos outros. Um dia, ele descobre que tem poucos meses de vida, e sua única alternativa de tratamento está em São Francisco.

O cinema é recheado de histórias cujos protagonistas estão à beira da morte, mas nem por isso desistem de desfrutar os dias que lhes restam. No clássico "Viver" (1952), de Akira Kurosawa, por exemplo, o protagonista usa o tempo que lhe resta não apenas para se aproximar de pessoas que antes negligenciava, mas também para realizar algo significativo que não havia feito em vida. "Antes de Partir" (2018) é um filme delicado e leve ao revelar o atrito entre gerações, mostrando como alguém no final da vida ainda tem muito a oferecer.

Dirigido por Oded Binnun e Mihal Brezis, o filme conta a história de Rory MacNeil, um senhor escocês que, mesmo a contragosto, deixa sua ilha nas Hébridas e se muda para São Francisco após descobrir que tem pouco tempo de vida. Enquanto realiza um tratamento médico especializado e passa a morar com o filho distante, a vida de Rory é inesperadamente transformada à medida que ele se reaproxima do filho e desenvolve um vínculo com o neto.

O início do filme já nos apresenta um protagonista pertencente à "velha guarda" escocesa, cujas tradições moldaram o homem daquele lugar e sobre cuja história há muito a descobrir. Porém, uma vez na metrópole norte-americana, ele precisa se acostumar com as luzes e o movimento constante de uma sociedade movida pelo sistema — que já não enxerga as próprias estrelas. É o típico filme sobre o atrito entre gerações distintas, mas em que ambas têm muito a aprender uma com a outra.

Embora previsível em algumas passagens da trama, o longa nos conquista pela relação entre avô e neto, que acaba se tornando muito mais interessante do que a própria reconciliação entre pai e filho. Outro elemento que permanece um pouco na superfície é o casamento desgastado do casal jovem, que tenta se acostumar com a presença do pai na rotina enquanto lida com carreiras que não são exatamente o que desejavam. É algo explorado de forma irregular na narrativa, mas que passa batido perante os dilemas que o protagonista enfrenta.

Grande veterano do teatro e do cinema escocês, além de popularmente conhecido por filmes americanos como "X-Men 2" (2003) e "Tróia" (2004), Brian Cox sempre construiu uma carreira sólida com personagens complexos, mesmo quando o roteiro tangencia o previsível. Aqui, ele consegue criar um protagonista forte perante o inevitável, irredutível quanto à sua cultura, mas sem esconder certos arrependimentos sobre escolhas do passado. Se ele errou na educação do filho, vê no neto a chance de redenção diante do futuro.

Destaco também a presença da veterana Rosanna Arquette — atriz cujo trabalho no passado venho apreciando cada vez mais —, que demonstra uma ótima química com o protagonista. O momento em que se conhecem no museu é marcante: as obras simbolizam um passado que já não existe no presente, mas cujas marcas carregam o peso de uma história que merece ser contada. Da mesma forma, quando o professor convida o protagonista a gravar relatos em seu idioma gaélico nativo, a cena simboliza que as raízes de um passado distante merecem ser ouvidas por uma geração que hoje tem dificuldade de olhar para trás.

No geral, é um filme que combina pitadas de humor refinado com elementos dramáticos inseridos no momento certo, trazendo uma reflexão sobre laços de sangue que ainda funciona muito bem. Não é uma obra que mudará a vida de ninguém, mas serve como um singelo lembrete sobre como as gerações de hoje ainda têm muito a aprender com aqueles que viveram sem os recursos atuais, mas que se tornaram pessoas com sabedoria a transmitir. "Antes de Partir" é sobre o confronto entre o velho e o novo e sobre saber lidar com os percalços do mundo.

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Cine Dica: O Cineclube Estação apresenta programação de outubro

Sempre às terças-feira, às 19h30, no Estação Claro Gávea

O Cineclube Estação apresenta sua nova programação a partir de 13 de outubro, com sessões todas as terças-feiras, às 19h30, no Estação Claro Gávea. Um espaço para quem é apaixonado por cinema, gosta de explorar a vastidão da cinematografia mundial, aprecia mergulhar em debates e deseja fugir da rotina descobrindo outras pérolas do universo cinematográfico. O Cineclube Estação surge como uma luz na formação de uma nova cinefilia. A programação reúne obras de diferentes épocas, países, gêneros e estilos, sempre pensando em como cada filme pode dialogar com o público de hoje.


Em outubro, na programação:

A Mulher Que Inventou o Amor (Jean Garret, 1980) - 13/10

Café Lumière - 20/10 

La Libertad (Lisandro Alonso, 2001) - 27/10


COMO PARTICIPAR

Para participar do Cineclube, é necessário preencher o formulário de inscrição disponível na bio do perfil do Cineclube no Instagram e realizar o pagamento da contribuição mensal no caixa do Estação Claro Gávea. A contribuição sugerida é de R$ 30 por mês e pode ser paga com cartão de crédito ou débito, exclusivamente no caixa do cinema. As sessões são semanais, mas o pagamento é feito uma única vez por mês. A contribuição mensal dá direito a assistir a todas as sessões do Cineclube daquele mês.

Após a contribuição, o participante recebe uma carteirinha do Cineclube, que também garante benefícios exclusivos: 50% de desconto na inteira dos ingressos do Estação Claro Gávea; 10% de desconto na bomboniere do Estação Claro Gávea; acesso a brindes e outras ações exclusivas do Cineclube. 


Para se inscrever acessar

 Formulário de inscrição 


CICLO 1 — O QUE É MISE-EN-SCÈNE?

Como panorama introdutório, o primeiro ciclo do Cineclube propõe investigar um dos conceitos mais importantes da história do cinema: a mise-en-scène.

Ao longo da programação, filmes de diferentes épocas e contextos ajudam a compreender como elementos como enquadramento, cenografia, figurino, iluminação, atuação e movimento dos corpos no espaço constroem a imagem cinematográfica.


CICLO 2 — E ENTÃO, O BARROCO?

Partindo das noções de maneirismo e barroco, o segundo ciclo busca pensar filmes que, conscientes da tradição que os precede, fazem da própria artificialidade uma força estética.

São obras que parecem incapazes de olhar para a imagem sem reconhecer tudo aquilo que já foi feito antes delas e que, justamente por isso, respondem à história do cinema por meio da estilização, do exagero, da deformação e do artifício.


CICLO 3 — ENTRE FICÇÃO E DOCUMENTÁRIO?

A partir das análises de filmes contemporâneos e das recentes tendências que começaram a emergir no cenário mundial, este ciclo propõe explorar obras em que as categorias básicas de significação documental e ficcional, há muito difundidas e enraizadas no cinema, são postas em crise em filmes específicos.


Para se inscrever

Formulário de inscrição: disponível na bio do Instagram do Cineclube Estação.

Contribuição mensal: valor sugerido de R$ 30

Pagamento: cartão de crédito ou débito, exclusivamente no caixa do Estação Claro Gávea.

Sessões: todas as terças-feiras, às 19h30.


Instagram cineclubedoestacao

Assessoria de imprensa

Sandra Villela sandra.villela@grupoestacao.com.br

Cine Dica: Sala Redenção exibe dramas e comédias japonesas

Entre os dias 5 e 16 de outubro, a Sala Redenção participa da 3ª Semana do Japão em Porto Alegre com a mostra “Crônicas e imaginações do Japão”. A programação reúne oito filmes contemporâneos com histórias que atravessam relações familiares, encontros inesperados e elementos da cultura nipônica. As sessões são gratuitas e abertas à comunidade em geral. 

Entre os títulos selecionados está “After the Sunset” (2019), drama dirigido por Michio Koshikawa que apresenta Towa, uma criança adotada cuja vida familiar muda quando detalhes de seu passado são revelados. Outro destaque é “O trem Hankyu: um milagre de 15 minutos” (2011), baseado no livro homônimo de Hiroshi Arikawa, que retrata os encontros e transformações de diferentes personagens durante uma breve viagem de trem entre duas cidades japonesas.

A mostra inclui ainda duas comédias. Em “We make antiques!” (2018), de Masaharu Take, um negociante de antiguidades e um ceramista têm as vidas transformadas após um mestre de chá do século XVII surgir inesperadamente diante deles. Já “Mondays: see you ‘this’ week!” (2022), de Ryo Takebayashi, acompanha a saga de um grupo de funcionários que descobrem estar presos em um looping temporal e precisam trabalhar juntos para escapar da monotonia das segundas-feiras.

A mostra “Crônicas e imaginações do Japão” é realizada pela Sala Redenção, Fundação Japão São Paulo e Escritório Consular do Japão em Porto Alegre. A Sala Redenção está localizada no Campus Centro da UFRGS, com acesso mais próximo pela Rua Eng. Luiz Englert, 333. 

Confira a programação completa no site oficial da sala clicando aqui. 

domingo, 11 de outubro de 2026

Cine Dica: Cine Dica: Próximo Cineclube Torres - "Geronimo"

 No feriado dia 12 de outubro vai ter a habitual sessão do Cineclube Torres, com o filme "Geronimo" de Tony Gatliff, às 20h, na Sala Audiovisual Gilda e Leonardo.

Após ritmos musicais africanos, é a vez de danças e melodias ciganas, mestiçadas com beat contemporâneo, em mais um filme sobre as matizes multiculturais na França. Geronimo (Céline Salette) é uma professora de origem cigana que procura mediar a crescente rivalidade entre turcos e ciganos na região onde mora. Mas quando uma jovem turca recusa o casamento arranjado pelos pais para fugir com o namorado cigano, a situação esquenta ainda mais.

Nas palavras do diretor Tony Gatliff, um cigano nascido na Algéria, do qual o cineclube já exibiu "Gadjo Dilo - O Estrangeiro Louco" e que infelizmente faleceu há pouco mais de um mês: “Não é um filme com heróis e vilões. Estaria traindo minhas crenças, se o fizesse de forma maniqueísta. Ao mesmo tempo, interessa-me explorar as diferenças culturais. Boa parte do colorido do filme vem daí.”

A sessão é realizada na Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, na rua Pedro Cincinato Borges 420, em parceria com a Up Idiomas Torres e com entrada franca até a lotação do espaço. O Cineclube Torres é uma associação sem fins lucrativos, em atividade desde agosto 2011; Ponto de Cultura certificado pela Lei Cultura Viva federal e estadual; Ponto de Memória pelo IBRAM; Biblioteca Comunitária no Mapa da Cultura, Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística certificada pelo Ministério do Turismo (Cadastur); Selo Destaque no Turismo da Georrota Cânions do Sul. 

Serviço:

O que: Exibição do filme "Geronimo" (2014) de Tony Gatliff (França) 

Onde: Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, junto à escola Up Idiomas, Rua Cincinato Borges 420, Torres

Quando: Segunda-feira, 12/10, às 20h

Ingressos: Entrada Franca, até lotação do local (aprox. 22 pessoas).


Cineclube Torres

Associação sem fins lucrativos

Ponto de Cultura – Lei Federal e Estadual Cultura Viva

Ponto de Memória – Instituto Brasileiro de Museus

Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística - Cadastur


CNPJ 15.324.175/0001-21

Registro ANCINE n. 33764

Produtor Cultural Estadual n. 4917

Cine Dica: Oferendas Narrativas encerra temporada revisitando os caminhos do audiovisual negro brasileiro

 Conduzido por Janaína Oliveira, episódio final retoma questões lançadas na estreia e destaca a contribuição de Zózimo Bulbul para a construção de um cinema pensado a partir das experiências negras.

 Frame Zózimo Bulbul em “Alma no Olho” - (1974). 


O Fórum Itinerante de Cinema Negro (FICINE) encerrou a primeira temporada do podcast Oferendas Narrativas – Polifonias Negras no Cinema. Ao longo de cinco episódios, as pesquisadoras e curadoras Janaína Oliveira, Kênia Freitas, Janaína Damasceno e Tatiana Carvalho Costa percorreram a história dos cinemas negros, o afrofuturismo, a fotografia e as epistemologias negras. Juntas, elas contam histórias que muitos desconhecem e produzem um inestimável referencial de pesquisa para o campo dos estudos de imagens feitas da perspectiva negra.

Conduzido por Janaína Oliveira, que também abriu a série, o episódio final, “Um Black-ground para os cinemas negros no Brasil”, revisita marcos da construção do cinema negro brasileiro. A pesquisadora discute a diferença entre a presença de pessoas negras nos filmes e a criação de obras a partir de suas próprias perspectivas. Nesse percurso, destaca Zózimo Bulbul, o curta Alma no Olho e iniciativas que abriram caminhos para novas gerações. “Hoje proliferam filmes, mostras e estudos, apesar das adversidades políticas e a escassez de financiamentos. Mas a gente sabe que um movimento assim, uma vez em curso, não há retrocesso possível”, afirma a pesquisadora. 

No primeiro episódio, “Caminhos abertos dos cinemas negros”, Janaína parte da pergunta “o que é cinema negro?” para investigar como esse cinema se tornou possível. Ao apresentar os race films, a trajetória de Oscar Micheaux e o trabalho de pesquisa e circulação realizado por Pearl Bowser, ela percorre experiências pioneiras nos Estados Unidos. O episódio final retoma essa investigação, agora voltada à história do cinema negro no Brasil. Entre a abertura e o encerramento, a temporada segue por outros caminhos. No segundo episódio, “O Curto-Circuito Temporal do Afrofuturismo”, Kênia Freitas aproxima passado, presente e futuro ao discutir cinema, ficção especulativa e imaginação radical negra. “Múltiplas dimensões da experiência negra se abrem a partir das possibilidades de ficção especulativa na imaginação das vivências negras”, reflete Kênia.

A fotografia abre o terceiro episódio, “Pelo direito a olhar”. A partir de imagens de Walter Firmo e Gordon Parks, Janaína Damasceno apresenta o conceito de afrovisualidades e discute como artistas negros constroem outras formas de ver e existir. “O que me atrai nesse conceito de afrovisualidades é pensar em como pessoas negras estão construindo mundos, mais do que apenas representando a si próprias”, destaca. Em “Cinemas e Epistemologias Negras Brasileiras”, quarto episódio da temporada, Tatiana Carvalho Costa apresenta conceitos como QuilomboCinema, corpo-ficção e filmes radiais para analisar o cinema negro brasileiro a partir de outros referenciais, entendendo que, os conceitos que a Teoria do Cinema costuma apresentar podem ser insuficientes para ler citicamente obras de

realizadoras/res negras/os. “Essas ferramentas vêm de saberes negros e uma intelectualidade negra na sociologia, história, filosofia e no campo das artes, em especial as artes cênicas”, diz Tatiana.  Do primeiro ao último episódio, Oferendas Narrativas reúne pesquisa, memória e prática curatorial em uma série que convida o público a conhecer a fotografia e o cinema negro a partir das experiências e do pensamento de quem constrói esse campo, reunindo reflexões oriundas da pesquisa, do ensino e da prática curatorial.

Ao colocar essas vozes em diálogo, o podcast transforma o áudio em espaço de partilha de conhecimento e amplia o acesso a debates que também acontecem na pesquisa acadêmica e na curadoria. A primeira temporada se encerra com esse convite à escuta e à continuidade das reflexões sobre as imagens negras. 

Ficha técnica

Oferendas narrativas: polifonias negras no cinema é uma produção original do FICINE –

Fórum Itinerante de Cinema Negro.

O roteiro é assinado por Carol Almeida, Janaína Damasceno, Janaína Oliveira, Kênia Freitas e Tatiana Carvalho Costa. As citações presentes nos episódios são interpretadas pelo ator Guilherme Silva. A produção executiva é de Layla Braz. A pós-produção é dos Estúdios Imã, com gerência de João Vitor Rocha e Larissa Vasconcelos. O design de som, a trilha sonora, a edição e a finalização são de Max Teixeira e Marcos Frederico. As referências dos filmes, textos, fotografias e músicas mencionados nos episódios estarão disponíveis no novo site do FICINE, na seção Podcast, e foram organizadas por Vinícius Dórea, assistente de pesquisa.

Serviço:

Podcast: Oferendas Narrativas – Polifonias Negras no Cinema

Realização: Fórum Itinerante de Cinema Negro (FICINE)

Episódios lançados: 5

Onde ouvir: Temporada completa www.ficine.org

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Cine Especial: Clube de Cinema - 'Meu Tio'

 Filme exibido para os associados no dia 03/10/26. 

Poucas obras conseguiram traduzir os contrastes da modernidade de forma tão precisa quanto o cinema do francês Jacques Tati. A sua filmografia é atravessada por reflexões profundas sobre a estrutura social na qual somos inseridos, e "Meu Tio" (1959) figura como um exemplo emblemático desse embate entre o avanço tecnológico e a conduta humana.

Na trama, Tati nos reencontra com a candura e a pureza do Sr. Hulot. O protagonista visita a irmã, Madame Arpel, uma mulher fascinada pelas inovações futuristas que compõem sua residência. A obra se inicia em um canteiro de obras no qual as próprias placas do local apresentam os créditos iniciais — uma metáfora perspicaz para demonstrar uma sociedade que ainda edifica suas estruturas e valores. Ali, operários manuseiam maquinários pesados na erguição de colunas gigantescas que simbolizam os alicerces desse novo estilo de vida. Na sequência, a câmera corta para um grupo de vira-latas perambulando sem rumo por um bairro modesto. Os cães reviram o lixo, saltam poças, atravessam terrenos baldios e finalmente alcançam o setor modernizado da cidade, onde um deles adentra a propriedade automatizada dos Arpel. A cena pode parecer aleatória à primeira vista, contudo ela guarda uma função narrativa crucial para o decorrer do longa.

Após essa abertura rica em simbolismos, acompanhamos o cotidiano do casal Arpel. O conceito de modernidade atravessa cada canto do imóvel, desde o chafariz de estética duvidosa no jardim até a cozinha, cujo visual evoca um laboratório futurista. Cada elemento em cena é desenhado para escancarar a futilidade daquele excesso de aparelhos. A tecnologia, criada em tese para facilitar a rotina doméstica, converte-se em um obstáculo, exigindo um manuseio mais complexo do que o próprio trabalho manual. O comportamento lembra o de alguém que perde vários minutos tentando acionar uma função no celular por comando de voz quando poderia simplesmente digitar o comando em poucos segundos.

A fotografia do filme adota uma paleta acinzentada para a casa dos Arpel, reforçando a frieza do ambiente e enfatizando sua arquitetura impessoal. Em contrapartida, o bairro popular onde Hulot reside é banhado por cores quentes, transmitindo uma sensação de acolhimento ausente no lar de sua irmã. Além da distinção visual, Tati contrapõe o estilo de vida de ambos os cenários. Enquanto Madame Arpel cultiva uma fixação obsessiva pela limpeza, na comunidade de Hulot a higienização é um detalhe irrelevante. Há até um gari local que, a cada tentativa de recolher um monte de sujeira, acaba distraído pelas interações ao redor. Longe de retratar o personagem como desleixado, a direção utiliza esse momento para destacar modos opostos de encarar o cotidiano. Na vila, a vida fluía com simplicidade e convivência real — entre conversas de calçada, desentendimentos espontâneos, festas e laços comunitários. Já na casa dos Arpel, ostenta-se a conectividade entre os eletrodomésticos enquanto os próprios moradores não conseguem dialogar entre si nem com o filho, Gerard.

Para compreender a dinâmica do jovem Gerard, vale retomar a cena inicial dos cães. O trecho culmina com o animal retornando à casa dos Arpel, onde a dona do imóvel o repreende por uma suposta sujeira nas patas. Fica nítido que o cão está limpo; o incômodo da personagem reflete, na verdade, sua neurose pela preservação do espaço. Essa mesma postura rígida afeta a criação do filho, que vive uma rotina engessada e privada do livre brincar. É justamente a figura do tio, o Sr. Hulot, que surge como a válvula de escape para o garoto. Ao lado de Hulot, Gerard recupera a ludicidade e a espontaneidade da infância, despertando o ciúme do pai.

A presença de Hulot vai além do papel de libertador do sobrinho: ele se torna um elemento desestabilizador para o Sr. Arpel, que o enxerga como uma ameaça ao modo de vida moderno da família. Para aquele núcleo, existe um valor ainda mais relevante do que o uso dos aparelhos eletrônicos: a exibição pública de seu patrimônio. Tati expõe como a vacuidade daquela rotina se traduz na necessidade constante de impressionar as visitas. O chafariz em forma de peixe ilustra perfeitamente essa dinâmica. A engrenagem é acionada sempre que a campainha toca para borrifar água aos visitantes; contudo, ao perceberem que se trata apenas de Hulot, o dispositivo é desligado imediatamente. Afinal, Hulot já demonstrou total indiferença perante tais artifícios, enxergando neles apenas objetos bizarros e desprovidos de utilidade.

A direção de arte de Meu Tio cumpre um papel fundamental ao expor o vazio dessas inovações. Embora planejado sob os padrões urbanísticos mais avançados da época, o novo bairro aparenta ser estéril e desprovido de alma. As fachadas de lojas, indústrias e colégios repetem uma estética cinzenta e uniforme que elimina qualquer vestígio de calor humano. É nesse ponto que reside a crítica central do cineasta: o impasse não é o avanço tecnológico em si, mas a forma como a arquitetura e a modernidade podem privar a cidade de sua humanidade, reduzindo espaços urbanos a blocos frios onde não há lugar para brincadeiras, conversas espontâneas ou para os animais correrem soltos. Trata-se de um design concebido para ostentar progresso, mas que acaba isolando as pessoas e enfraquecendo as relações interpessoais.

Alheio a esse deslumbre fútil, o Sr. Hulot permanece como o último reduto de humanidade em meio a uma engrenagem social automatizada e fria. Em "Meu Tio", Jacques Tati não condena a inovação em si, mas sim a nossa submissão a ela. Por mais sofisticados que sejam os recursos tecnológicos, eles jamais substituirão o valor das conexões genuínas e da convivência humana.

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Cine Dica: Curso INGMAR BERGMAN: DIÁLOGOS COM A MORTE


de Lucas Vidal

* Datas: 10 e 11 / Outubro (sábado e domingo)

* Local: Cinemateca Capitólio (Rua Demétrio Ribeiro, 1085 - Centro - Porto Alegre - RS)

* Horário: 14h30 às 17h30


O Cinema de Ingmar Bergman é, mais do que qualquer outro cineasta, atemporal, pois dialoga com a alma humana de forma muito profunda e trata de temas que nunca deixarão de ser relevantes, como fé, religião, problemas psicológicos em geral, angústias, medos, conflitos existenciais, vida e morte. Morte, aliás, que atinge seu ápice na obra de Bergman em O Sétimo Selo, filme que traz um personagem ameaçador com esse nome, perseguindo pessoas e se disfarçando para pegá-las de surpresa.

Em obras como a famosa Trilogia do Silêncio (1961/62/63) e o espetacular A Hora do Lobo (1968), Bergman filma o terror de uma forma muito peculiar, focando totalmente no aspecto psicológico das pessoas, não no objeto que causa o medo. Isso ocorre também com outros temas, como a guerra, em Vergonha (1968), e o reconhecimento profissional, em Morangos Silvestres (1957). No seu trabalho, ao longo de décadas, todos os caminhos levam à investigação minuciosa dos problemas que atingem a todos nós, em toda a vida.

Objetivos

O curso INGMAR BERGMAN: DIÁLOGOS COM A MORTE, de Lucas Vidal, vai trazer uma filmografia selecionada do sueco, com uma curadoria cuidadosa, para que seja possível observar todas as principais características de sua obra. O objetivo é analisar como cada um desses aspectos, como medo, raiva e questionamentos sobre Deus, são trazidos e aprofundados por Bergman, principalmente através de questões técnicas como os closes e a fotografia. O curso busca também entender os filmes por meio das diferenças entre as funções do roteiro e da direção cinematográfica e como esses elementos contribuem para as sensações provocadas.


Informações / Inscrições

https://cinemacineum.blogspot.com/2026/09/ingmar-bergman.html