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Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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terça-feira, 29 de setembro de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Mirrors No. 3'

Sinopse: A estudante Laura (Paula Beer) sobrevive milagrosamente a um grave acidente de carro no interior que resulta na morte de seu namorado.

Christian Petzold é hoje apontado como um dos principais diretores do cinema alemão contemporâneo, e motivos para isso não faltam. Em "Afire" (2023), por exemplo, o universo da literatura transitava por situações verossímeis que se tornavam tão impressionantes quanto qualquer ficção. Em seu mais recente filme, "Mirrors No. 3" (2025), o cineasta coloca pessoas comuns frente a frente, mas cujas dores acabam fazendo com que elas se atraiam.

Na trama, a jovem Laura (Paula Beer) é uma estudante de piano que se envolve em um estranho acidente de carro no campo. Ela sobrevive, mas fica profundamente abalada, sobretudo após a morte do namorado. Ao testemunhar a situação, Betty (Barbara Auer) resolve acolhê-la em sua casa. Assim, Laura aos poucos passa a integrar a família de Betty, embora haja algo de estranho pairando no ar.

Petzold prefere não nos entregar muitas explicações sobre os reais sentimentos dos protagonistas no primeiro ato; temos dimensão do que enfrentam apenas através de suas ações e reações. Laura, por exemplo, aparenta estar deprimida, o que logo nos faz perceber que seu relacionamento já havia terminado há um bom tempo. Antes do acidente, ela fixa o olhar para Betty na estrada como se ali estivesse um mistério curioso a ser explorado aos poucos.

Por mais mórbido que seja, o acidente se torna uma mera justificativa para que as duas protagonistas comecem a interagir, ainda que tenham se conhecido em uma situação atípica. Petzold constrói uma narrativa aparentemente simples, mas cujas atitudes dos personagens beiram o absurdo — soar de forma profundamente humana justamente pelas falhas expostas em cada expressão. É notável a opção do diretor por deixar que tiremos nossas próprias conclusões, mesmo quando algumas se mostram infundadas.

Uma das minhas passagens preferidas do longa é a apresentação do filho e do marido de Betty, interpretados pelos atores Enno Trebs e Matthias Brandt. É por meio deles que chegamos a suspeitar, num primeiro momento, que Betty possa estar enfrentando problemas mentais — principalmente quando pensam que ela inventou uma personagem imaginária. Logo em seguida, porém, Laura surge em cena diante deles, fazendo com que essa hipótese caia por terra a partir dos olhares espantados de pai e filho.

Não há explicação explícita sobre o porquê de ambos estarem fora da casa de Betty, mas há algo do passado que os assombra, e a figura de Laura surge como uma espécie de ponto de equilíbrio que talvez eles não tivessem há tempos. Ao meu ver, Petzold transmite a ideia de que o vazio pode ser preenchido por um novo recomeço, mesmo quando tudo se inicia de maneira imprevisível. Conforme certas revelações vêm à tona, as mágoas afloram, mas vão sendo amenizadas aos poucos.

Em suma, Christian Petzold demonstra excelente forma ao elaborar tramas complexas a partir de uma premissa simplista, porém extremamente instigante. O longa termina em aberto, fazendo a história permanecer em nossos pensamentos e nos instigando sobre qual será o próximo passo do realizador. "Mirrors No. 3" é o cinema autoral de Petzold em sua forma mais enxuta, mas não menos fantástica.

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Cine Dica: PROGRAMAÇÃO CINEBANCÁRIOS 01 A 07 DE OUTUBRO

 “NAZA”, “Não Haverá Mais História sem Nós” e “Papaya” são as estreias de 1 de outubro no CineBancários

Vencedor do Prêmio Especial do Júri do 83º Festival de Cinema de Veneza, NAZA divide a programação com documentário lusobrasileiro de Priscilla Brasil que denuncia o racismo e o preconceito na construção histórica da imagem da Amazônia e de seus povos; sala de cinema exibe também o infantil Papaya, que aborda afeto, imaginação e cuidado com o meio ambiente

Estreia dia 1º de outubro no CineBancários o vencedor do Prêmio Especial do Júri do 83º Festival de Cinema de Veneza, “Naza”, dirigido pelos cineastas israelenses Rachel Szor e Yuval Abraham. O filme, que recebeu 25 minutos de aplausos de pé após a sessão de estreia, é resultado de uma investigação realizada ao longo de três anos, e denuncia os sistemas utilizados pelas forças israelenses em operações militares em Gaza, reunindo 24 depoimentos anônimos de militares e integrantes da inteligência israelense.

O título do filme refere-se ao eufemismo utilizado pelos serviços de inteligência israelenses para indicar o número de civis que possivelmente morrerão em um bombardeio. A sigla vem de ‘Nezek Agavi”, que significa “dano colateral”. “Não é um acidente, mas o resultado de uma estratégia deliberada. Atos homicidas e políticos baseados na total desumanização dos palestinos. Os oficiais da inteligência israelense com quem conversamos nos explicaram como esse massacre é sistêmico”, disse Abraham, ao receber o prêmio. O diretor também fez questão de prestar uma homenagem aos jornalistas palestinos que tornaram o filme possível: “Essa verdade foi documentada e é conhecida graças a jornalistas palestinos. Mais de duzentos deles foram assassinados por Israel em Gaza. Suas vozes foram silenciadas e negadas. Acreditamos que negar um crime é o que permite que ele persista”, afirmou.


“Um dos filmes mais importantes do nosso tempo.”

(Bilge Ebiri, New York)

“Capaz de abalar você profundamente, não pelos fatos que podem ser revelados (boa parte dessa informação já é conhecida), mas pela forma comovente como vêm à tona.”

(Siddhant Adlakha, Indie Wire)

A outra estreia da semana é o documentário lusobrasileiro “Não Haverá Mais História Sem Nós”, dirigido pela cineasta amazônida Priscilla Brasil e coescrito com o historiador Raphael Uchôa. O filme amplia o debate sobre a forma como a Amazônia e os amazônidas são historicamente representados dentro e fora do país.Mais do que um documentário sobre a floresta, “Não Haverá Mais História Sem Nós” é um manifesto cinematográfico contra o apagamento histórico e a perspectiva colonial que, há séculos, constrói a Amazônia como território vazio, selvagem e disponível à exploração", comenta a diretora.

O filme parte de uma pergunta: quem conta a história da Amazônia? E o que acontece quando os próprios amazônidas reivindicam o direito de narrar sua história?

Entre Alemanha e Brasil, dois cineastas amazônicos mergulham nas entranhas do processo histórico de invenção e exploração da floresta como um suposto Jardim do Éden inesgotável. Em meio ao discurso contemporâneo de preservação ambiental e ao crescente greenwashing, o documentário revela como antigas estruturas de poder continuam presentes na maneira como a Amazônia é imaginada, consumida e representada pelo Brasil e pelo mundo.

A obra confronta a ideia de um “vazio demográfico selvagem”, segundo a qual a floresta seria um território sem história, sem habitantes e sem voz própria. Ao colocar os amazônidas no centro da narrativa, o filme questiona uma visão que transforma pessoas, culturas e territórios em meros elementos de uma paisagem exótica. Dirigido por Priscilla Brasil, cineasta paraense cuja trajetória está profundamente ligada às questões amazônicas, o documentário articula cinema, história e pensamento crítico para propor uma mudança de perspectiva: não é possível contar a história da Amazônia sem ouvir aqueles que sempre estiveram lá.

Uma produção entre Brasil e Portugal

Não Haverá Mais História Sem Nós é uma coprodução entre a produtora paraense Companhia Amazônica de Filmes e a portuguesa Clandestina Filmes, com apoio do projeto ECOAmazônia, financiado pelo Conselho Europeu de Investigação e desenvolvido pela Universidade de Coimbra. O filme teve sua estreia mundial no Bali International Film Festival (Balinale) e sua primeira exibição brasileira no Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA), em Goiás, em junho de 2024.

Não Haverá Mais História Sem Nós propõe uma pergunta urgente: quando finalmente permitimos que os amazônidas contem a própria história?


PAPAYA

Primeiro longa dirigido pela cineasta Priscilla Kellen, Papaya é uma animação brasileira autoral para toda a família, que combina uma história sensível e divertida com uma identidade visual marcante. Com uma temática cada vez mais necessária, o filme aborda natureza, afeto, imaginação e cuidado com o meio ambiente.


Destaque internacional:

Primeiro longa-metragem de animação brasileiro selecionado para a mostra Generation KPlus do Festival de Berlim, Papaya também passou pelo New York International Children’s Film Festival, BAFICI, Anima, Festival Internacional de Cinema de Animação de Bruxelas e, mais recentemente, pela Mostra de Cinema Brasileiro no Festival Internacional de Cinema de Xangai, dentro da programação do Ano Cultural Brasil-China 2026.

Produção:

Realizado ao longo de sete anos, o filme reúne nomes importantes da animação brasileira, com coprodução da Boulevard Filmes, Birdo Studio, Priscilla Kellen e Alê Abreu, de O Menino e o Mundo e Perlimps. A trilha sonora original é assinada por Talita Del Collado e o elenco de vozes conta com Tulipa Ruiz.


PROGRAMAÇÃO CINEBANCÁRIOS DE 1º a 7 DE OUTUBRO


ESTREIAS:

NAZA

Reino Unido/Documentário/2026/80min

Direção: Yuval Abraham e Rachel Szor

Sinopse: Filmado à noite nos telhados de Tel Aviv, o documentário de Yuval Abraham e Rachel Szor reconstrói os mecanismos por trás das operações militares de Israel na Faixa de Gaza.


PAPAYA

Brasil/Animação/ 2025/75 min.

Direção: Priscilla Kellen

Sinopse: Apaixonada pela ideia de voar, uma pequena semente de mamão precisa continuar se movendo para evitar enraizar-se. Perseverante, ela descobre o poder de suas raízes, que conectam a vida por caminhos profundos e misteriosos, e desencadeia uma grande revolução, transformando seu ambiente e realizando seu sonho da forma mais inusitada.


NÃO HAVERÁ MAIS HISTÓRIA SEM NÓS

Brasil/Documentário/2024/ 76min

Direção: Priscilla Brasil

Sinopse: Submersos no mar de greenwashing que os afoga diariamente, dois pesquisadores amazônicos resolvem denunciar as entranhas do histórico processo de invenção e exploração da floresta como um jardim do éden inesgotável. Entre Munique e Belém, eles revelam como o racismo e o preconceito, do Brasil e do mundo, até hoje se organizam na ideia do vazio demográfico, selvagem e incapaz de falar por si. rasil e do mundo, até hoje se organizam na ideia do “vazio demográfico”, selvagem e incapaz de falar por si.


EM CARTAZ:


VIRTUOSAS

Brasil/ Drama/2025 /92min

Direção: Cíntia Domit Bittar

Sinopse: Um retiro VIP promete aperfeiçoar mulheres em busca de sua melhor versão, sob as regras de uma fé que não admite falhas. Mas essa jornada virtuosa acaba se revelando absurda e perigosa.

Elenco: Bruna Linzmeyer ,Maria Galant, Juliana Lourenção, Sarah Motta e Brisa Marques.


HORÁRIOS DE 01 A 04 DE OUTUBRO

(não há sessões nas segundas):

15h: VIRTUOSAS

17h: NAZA

19h: NÃO HAVERÁ MAIS HISTÓRIA SEM NÓS


HORÁRIOS DIAS 06 E 07 DE OUTUBRO

(sábado e domingo):

15h: PAPAYA

17h: VIRTUOSAS

19h: NÃO HAVERÁ MAIS HISTÓRIA SEM NÓS


Ingressos

Os ingressos podem ser adquiridos a R$ 14 na bilheteria do CineBancários. Idosos (as), estudantes, bancários (as), jornalistas sindicalizados (as), portadores de ID Jovem e pessoas com deficiência pagam R$ 7. São aceitos cartões nas bandeiras Banricompras, Visa, MasterCard e Elo. Nas quintas-feiras, a meia-entrada (R$ 7) é para todos e todas.


CineBancários

Rua General Câmara, 424 – Centro – Porto Alegre

Mais informações pelo telefone (51) 3030.9405 ou pelo e-mail cinebancarios@sindbancarios.org.br


Amanda Zulke 

CineBancários | SindBancários 

(51) 3030-9400 | (51) 99920-6484

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Cine Dica: Clube de Cinema homenageia Wong Kar-Wai com sessão surpresa na Sala Redenção

 Exibição gratuita acontece em 1º de outubro e integra o ciclo “Nouvelle Vague e suas influências”, comentada por Giordano Gio

Sempre é bom revisitar Wong Kar-Wai. Melhor ainda é poder ver seus filmes na tela grande. No dia 1º de outubro, o Clube de Cinema de Porto Alegre homenageia o cineasta chinês com uma sessão surpresa na Sala Redenção. O título do filme será revelado apenas no momento da exibição.

Um dos realizadores mais inventivos de sua geração, Wong Kar-Wai fez da passagem do tempo, dos encontros e dos amores interrompidos temas centrais de sua obra. Em filmes como Amores Expressos, Anjos Caídos e Felizes Juntos, música, cor e montagem dão ritmo a histórias que acompanham personagens em busca de conexão nas grandes cidades. Sua linguagem marcou o cinema contemporâneo e segue influenciando realizadores ao redor do mundo.

O filme escolhido para a homenagem traz uma história sobre a proximidade entre duas pessoas e os sentimentos que permanecem por dizer. Após a exibição, o cineasta, roteirista e crítico da ACCIRS Giordano Gio conversa com o público sobre a obra e a trajetória do diretor.

O ciclo Nouvelle Vague e suas influências é uma ação de extensão da Sala Redenção (UFRGS) em parceria com o Clube de Cinema de Porto Alegre. Entre fevereiro e dezembro, o projeto reúne clássicos da Nouvelle Vague e filmes de diferentes nacionalidades que dialogam com seu legado, sempre acompanhados de apresentações e debates gratuitos, promovendo a formação de público e a reflexão sobre a história e a linguagem do cinema.

Serviço

O quê: Homenagem a Wong Kar-Wai com sessão surpresa e conversa com Giordano Gio  

Quando: 1º de outubro  

Onde: Sala Redenção/UFRGS - R. Eng. Luiz Englert, 333, Bairro Farroupilha

Entrada: Gratuita


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Cine Especial: Próximo Cine Debate – 'O Leitor'

 Sobre o Filme: 

Stephen Daldry tem predileção por tramas nas quais os personagens se veem envolvidos com o universo da literatura. Em "As Horas" (2002), por exemplo, os livros de Virginia Woolf conduzem personagens femininas a enfrentar certos dilemas e desejos reprimidos pela sociedade como um todo. Em "O Leitor" (2008), a literatura se torna peça primordial para conhecermos o lado mais obscuro do ser humano — e o modo como ele chega a esse ponto sem saber ao certo como lá aportou.

A trama se passa na Alemanha pós-Segunda Guerra Mundial, onde conhecemos o adolescente Michael Berg (David Kross), que se envolve, meio por acaso, com Hanna Schmitz (Kate Winslet), uma mulher mais velha do que ele. Os dois engatam um tórrido caso de amor, entrelaçado por sexo e leituras de diversos clássicos e contos que o jovem declama para ela. Repentinamente, Hanna desaparece, e Berg só volta a reencontrá-la anos mais tarde, quando ela é julgada por crimes cometidos a serviço do nazismo.

Stephen Daldry prefere não dar muitas explicações de imediato sobre as motivações dos protagonistas. O Michael Berg mais velho (Ralph Fiennes) revela, através de suas expressões, que carrega um peso enorme vindo do passado — algo que só compreendemos gradualmente através das lembranças projetadas na tela. Ao focar em um primeiro ato cuja dinâmica se passa majoritariamente em um apartamento, o filme me ressoou "Último Tango em Paris" (1972), de Bernardo Bertolucci, no qual dois desconhecidos se relacionam para preencher suas vidas vazias. No caso de "O Leitor", no entanto, não se trata apenas de preenchimento, mas também da tentativa de um dos personagens de não se esquecer de quem realmente é perante um passado que o assombra.

Dona de uma carreira exemplar desde "Almas Gêmeas" (1994), Kate Winslet se entrega a um dos papéis mais complexos de sua filmografia — performance que, curiosamente, possui um peso equivalente ao de "Foi Apenas um Sonho", lançado no mesmo ano. Sua personagem carrega uma raiva contida, voltada não exatamente para as pessoas ao seu redor, mas para si mesma, diante dos atos e das consequências de um passado sombrio pelo qual o mundo a julgará sem piedade. Se no primeiro ato não há pistas sobre quem ela é, o segundo escancara a trágica verdade.

Embora o filme tenha sido lançado em um período em que o Holocausto já havia sido abordado exaustivamente no cinema, é interessante notar como o tema ainda atrai o público, sobretudo quando envolve o campo de Auschwitz. Ainda que a história não seja baseada em fatos reais, mas sim na adaptação do romance de Bernhard Schlink, o peso do campo de concentração ressoa forte durante o julgamento de Hanna — que não se ilude com a possibilidade de ser absolvida. Pelo contrário: ela confessa seus crimes contra a humanidade, mesmo diante de uma redenção distante.

O papel da literatura se torna central no momento em que une os protagonistas através das páginas, despertando em ambos o que há de melhor no ser humano, mesmo quando corrompido por sombras profundas. O filme talvez não seja sobre a busca por redenção, mas sobre sintetizar o fato de que todos carregamos dois lados de uma mesma moeda, restando-nos compreender como não sucumbir ao vale das sombras. Ao final, a arte da leitura atribui algum significado a esses personagens perdidos, mesmo quando eles desejam, no fundo, que certos erros jamais tivessem sido cometidos.

"O Leitor" é um filme que merece ser redescoberto pelas novas plateias, no qual o papel da literatura dentro da narrativa se mostra cada vez mais envolvente à medida que o tempo passa.

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domingo, 27 de setembro de 2026

Cine Dica: Streaming – 'Batman: A Queda do Morcego – Parte 1'

Sinopse: O misterioso e poderoso vilão Bane liberta todos os criminosos do Asilo Arkham após destruí-lo. Com Gotham City tomada por bandidos, Batman corre contra o tempo para capturar seus inimigos.

Quando o assunto é animação, a Warner sempre nos brindou com incríveis longas e séries animadas — sendo a série do Batman do início dos anos 1990 apontada por muitos como a melhor adaptação do personagem fora das HQs. Porém, nos últimos dez anos, o estúdio falhou miseravelmente ao adaptar arcos clássicos sem alma alguma, como no caso do desastroso "Batman: A Piada Mortal" (2016). "Batman: A Queda do Morcego – Parte 1" (2026) surge como um sinal de esperança para quem aguarda adaptações com qualidade e respeito à essência primordial da obra.

Com direção de Jeff Wamester, o longa adapta o primeiro arco da grande saga A Queda do Morcego, trama que abalou as estruturas do Homem-Morcego em uma época na qual ele já se encontrava exausto após anos de combate ao crime. A situação piora quando um misterioso vilão chamado Bane surge das sombras e liberta diversos assassinos do Asilo Arkham, tudo para deixar o herói esgotado e transformar o Batman em uma presa fácil.

Embora muitos se lembrem dessa saga pelo fato de o herói ter sido praticamente quebrado ao meio, a HQ original sofria pelos excessos típicos dos anos 1990. Felizmente, os realizadores do longa animado adaptaram apenas o essencial, excluindo personagens e subtramas desnecessárias. Como acompanhei a saga do começo ao fim na época, devo reconhecer que essa "enxugada" melhorou bastante a narrativa, tornando-a convidativa para marinheiros de primeira viagem.

Logicamente, Bane se torna a peça primordial de toda a trama. Com uma origem fiel aos quadrinhos, o personagem passa por uma leve remodelagem: seu porte físico, alterado pelo veneno, o transforma quase em um monstro muscular em cena, convencendo o espectador de que o herói não terá a mínima chance. Além dele, outros personagens ganham espaço e recebem um merecido destaque.

Para muitos, Tim Drake é o melhor Robin de toda a história, e aqui ele finalmente ganha uma adaptação decente e digna de nota. Para minha surpresa, também adaptaram com eficiência a origem de Azrael — que, nas HQs, foi um dos muitos personagens exagerados criados nos anos 1990, mas que virou peça fundamental da saga. Na animação, deram uma simplificada em sua complexa origem, algo que certamente será mais explorado no próximo filme.

E sim, o filme termina de forma trágica. Para quem leu a HQ na época, posso dizer que a sensação de impotência é a mesma ao assistir a esta obra. No saldo geral, o longa é violento, sangrento e puramente gótico. Gotham City, por exemplo, nunca esteve tão ameaçadora, tornando-se um verdadeiro inferno na Terra a partir do momento em que o herói sofre sua terrível queda.

"Batman: A Queda do Morcego – Parte 1" é uma grata surpresa vinda da Warner após anos de animações irregulares, deixando a gente na torcida para que esse nível de qualidade se repita na sequência.


Onde Assistir: Prime Vídeo 

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Cine Dica: Próximo Cineclube Torres - "Tre Piani"

"Tre Piani" (2021) de Nanni Moretti vai ser exibido pelo Cineclube Torres na próxima segunda dia 28/9, às 20h, com entrada franca.

A sessão encerra a programação de setembro centrada na recente produção cinematográfica italiana na Sala Audiovisual Gilda e Leonardo. Três famílias, três andares. Em Roma, uma série de acontecimentos vai mudar radicalmente a vida dos moradores do prédio, revelando suas dificuldades em ser pais, irmãos ou vizinhos, em um mundo onde a convivência parece ser pautada pelo medo e pelo ressentimento.

"Nos três andares de Tre Piani, podemos encontrar todo um universo de relações sociais e afetivas." (Paulo Camargo, Escotilha). "Nanni Moretti declarou recentemente que, diante do cinema atual, sentia-se um velho. Bendita velhice, quando acompanhada assim de sabedoria e sensibilidade." (José Geraldo Couto, Blog do Cinema). A sessão é realizada na Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, na rua Pedro Cincinato Borges 420, em parceria com a Up Idiomas Torres e com entrada franca até a lotação do espaço.

O Cineclube Torres é uma associação sem fins lucrativos, em atividade desde agosto 2011; Ponto de Cultura certificado pela Lei Cultura Viva federal e estadual; Ponto de Memória pelo IBRAM; Biblioteca Comunitária no Mapa da Cultura, Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística certificada pelo Ministério do Turismo (Cadastur); Selo Destaque no Turismo da Georrota Cânions do Sul.

Serviço:

O que: Exibição do filme "Tre Piani" (2022) de Nanni Moretti (Itália) 

Onde: Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, junto à escola Up Idiomas, Rua Cincinato Borges 420, Torres

Quando: Segunda-feira, 28/9, às 20h

Ingressos: Entrada Franca, até lotação do local (aprox. 22 pessoas).


Cineclube Torres

Associação sem fins lucrativos

Ponto de Cultura – Lei Federal e Estadual Cultura Viva

Ponto de Memória – Instituto Brasileiro de Museus

Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística - Cadastur


CNPJ 15.324.175/0001-21

Registro ANCINE n. 33764

Produtor Cultural Estadual n. 4917

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Cine Especial: Conhecendo "Escravos do Desejo"

Baseado no clássico literário "Servidão Humana" (1915), de W. Somerset Maugham, o filme apresenta dois personagens extremamente interessantes que sintetizam a discussão proposta pela narrativa. De um lado, temos Philip (Leslie Howard), um estudante de medicina com uma deficiência no pé, que se torna constantemente alvo de preconceito em uma época em que o termo bullying sequer existia. Do outro lado, está Mildred (Bette Davis), uma garçonete ambiciosa e ciente do fascínio que exerce sobre os homens — incluindo Philip —, cujo desdém inicial não passa de uma tentativa de fingir distanciamento.

No início dos anos 1930, Bette Davis era contratada da Warner Bros., mas acabou emprestada para a Radio-Keith-Orpheum (RKO). Foi sob a tutela da RKO, por conta desse filme, que Davis se consagrou como um grande astro. Segundo a própria atriz, aquela personagem havia sido feita sob medida para ela, e ninguém ousou discordar — exceto a Academia, que não a indicou formalmente, deixando-a de fora da lista oficial de nomeadas, que incluía Grace Moore, Norma Shearer e Claudette Colbert. Esta última, inclusive, nem sequer acreditava na própria vitória justamente por conta do enorme impacto e do sucesso estrondoso de Davis naquele ano.

Mildred Rogers parece, de fato, ter sido feita para Bette Davis. Hoje em dia, é até difícil distinguir se a personagem moldou a persona debochada da atriz ou se a atriz é quem esculpiu a personagem — afinal, Rogers e Davis tinham muito em comum. A garçonete olha os outros de cima, com um olhar que esquadrinha o ambiente em busca de oportunidades, sendo cruamente verdadeira em cada palavra. Philip chega a lhe pedir que não repita “eu não me importo” com tanta frequência nem com aquele tom que ele sabe ser genuíno — pois nada é mais autêntico do que a absoluta indiferença de Mildred. Ela precisa de alguém que a sustente e lhe entregue o que deseja. Para Mildred, esse "alguém" poderia ser qualquer um, mas especialmente Philip, um homem que ela sabia que estaria sempre ali para servi-la — eis a servidão humana. Para Bette Davis, esse "alguém" de quem ela necessitava era a mídia, a crítica, o público e o reconhecimento de seu talento natural para o desprezo, algo que a atriz desempenhou com maestria não só neste longa, mas ao longo de toda a sua carreira e de sua vida.

Oficialmente, a primeira lembrança de Bette Davis no Oscar se deu por meio de uma votação write-in, um feito surpreendente. A Academia, temendo a pressão dos atores revoltados com a ausência do nome de Davis entre as finalistas, decidiu flexibilizar o pleito: permitiu-se que qualquer um votasse em quem quisesse, bastando escrever o nome na cédula. Assim, a interpretação avassaladora de Mildred Rogers rendeu à atriz essa menção histórica por write-in, embora a Academia só tenha começado a contabilizar oficialmente suas indicações a partir do ano seguinte, quando ela concorreu — e venceu — por "Perigosa" (1935).

"Escravos do Desejo" é um clássico de tempos mais corajosos do cinema americano onde toca em assuntos espinhosos e que consagraria a talentosa Bette Davis em definitivo. 

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