Sinopse: A adolescente Prue McKeel vê seu irmão caçula, Mac, ser raptado por uma revoada de corvos a mando de uma misteriosa feiticeira.
Em tempos atuais dominados pela animação digital e alinhados ao advento da inteligência artificial, o estúdio Laika foge de todas as tendências e faz um verdadeiro cinema de guerrilha. Usando a velha, porém maravilhosa, técnica de animação em stop-motion, o estúdio lançou obras-primas ao longo dos anos, como "Coraline" (2009) e "Kubo e as Cordas Mágicas" (2016). "O Bosque Selvagem" (2026) talvez seja o feito mais ambicioso da casa, no qual uma escala técnica descomunal se alinha a uma bela história para ser apreciada na grande tela.
Dirigido por Travis Knight, do recente "Mestres do Universo" (2026), o filme nos faz acompanhar a saga da jovem Prue McKeel, que precisa recuperar seu irmão mais novo de uma horda de corvos raptores. Mac foi levado para um território desconhecido além dos limites de Portland, um lugar que se imaginava existir apenas nos contos de fadas. Decidida a salvar o irmão, a protagonista se aventura na floresta ao lado de seu amigo nerd, Curtis, revelando um universo muito mais surpreendente do que se podia imaginar.
Com mais de duas horas de projeção, o longa nos fisga de imediato graças ao seu visual deslumbrante, no qual a fotografia se entrelaça com uma direção de arte de encher os olhos. Além disso, é incrível como o figurino se sobressai ao construir um mundo mágico com identidade própria, que se torna ainda mais verossímil à medida que o tempo passa. Mas o que mais espanta é o fato de a obra ter sido realizada quadro a quadro de uma forma jamais vista.
Rodado ao longo de sete anos, o estúdio Laika não poupou esforços na realização do projeto baseado na obra de Colin Meloy. Cada segundo de projeção foi feito de forma perfeccionista, exigindo paciência extrema de seus realizadores, mas, ao mesmo tempo, explicitando a paixão pela arte do cinema. O resultado é um longa de coração puro, no qual o calor humano se faz presente de corpo e alma, tornando-o extremamente rico em termos visuais e narrativos.
O enredo, por sua vez, não traz grandes novidades, apostando na clássica jornada sobre superar temores e enfrentar adversidades mesmo quando a batalha aparenta estar perdida. Prue se apresenta como uma jovem cética em relação ao mundo fantástico — mesmo encarando animais falantes, magia e tudo o que antes considerava impossível. Aos poucos, ela se dá conta de que tem muito mais a ver com aquele universo mágico do que com o mundo real, no qual convivia quase sempre em tom de conformismo.
Curtis é o típico nerd "gente como a gente", que se encanta com aquele cenário que julgava existir apenas nas mesas de RPG, descobrindo que terá muito a aprender e enfrentar se quiser sobreviver. Contudo, a Rainha Viúva Alexandra é a melhor e mais trágica personagem em cena. Suas motivações para trazer o filho de volta à vida fazem com que o espectador se identifique com ela, mesmo quando percebemos que sua lucidez está prestes a se extinguir. A cena de abertura já nos dá a dimensão sombria de sua história — e, para se ter uma ideia, me fez relembrar os melhores trabalhos de Guillermo del Toro.
Falando em lado sombrio, este é, sem sombra de dúvida, o longa mais violento da Laika, a ponto de as mortes de alguns personagens surgirem de forma inesperada, podendo até assustar os mais jovens. Em contrapartida, o ato final nos brinda com um tom épico: o embate entre o bem e o mal em uma impressionante batalha campal que não deve nada à trilogia "O Senhor dos Anéis", impressionando ainda mais pela sua escala grandiosa. É um belo exemplo de épico animado feito com paixão, e não com o mero interesse de arrecadação de bilheteria.
"O Bosque Selvagem" é a mais nova obra-prima do estúdio Laika, provando que as velhas técnicas de animação ainda podem nos brindar com belas histórias para serem apreciadas no cinema.
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