Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte.
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Tim Burton é um cineasta autoral que, não mede esforços para injetar a sua visão pessoal, com relação ao mundo em que vive na criação dos seus filmes. Infelizmente ele trabalha numa indústria, em que as engrenagens são movidas pelo dinheiro e, portanto nem sempre ele possui total liberdade criativa. Alternando em produções milionárias onde não consegue fazer o filme que gostaria (Alice no País das Maravilhas) e filmes menores onde mostra toda a sua genialidade (Ed Wood), Burton talvez seja um dos poucos cineastas autorais americanos que sabe na pele como deve agradar um pouco de cada lado para assim então conseguir carta branca para fazer o filme que quiser.
Essa briga pelo direito de manter intacta a sua identidade própria no mundo em que vive é vista muito bem nesse pequeno, mas tocante filme intitulado Grandes Olhos. Estamos na virada dos anos 50 para os 60, onde o homem ainda se mantém como o ser dominante de uma sociedade hipócrita e escondida num quadro azul e cor de rosa. As mulheres em si possuem o seu talento escondido, mas pela falta de coragem de saírem do armário, acabam se se tornando submissas pelo lado mesquinho do sexo masculino.
Margaret Keane (Amy Adams) tem talento vindo de sua mente e que desce para os dedos, no momento que começa a pintar belas imagens de crianças com grandes olhos que, nada mais são, do que uma representação da sua forma como enxerga o mundo. Uma mulher a frente do seu tempo, mas que infelizmente ainda acredita que necessita de um homem e com isso, cai nas garras do salafrário Walter (Christoph Waltz) e se casando com ele. Se dizendo um artista, não demora muito para Walter se dizer o verdadeiro autor das obras de Margaret que, por sua vez, não desmenti e acaba se tornando então um mero fantoche.
Confira a minha crítica já publicada clicandoaqui e participe do próximo Cine Debate.
Segue a programação de março do Cineclube dedicado às mulheres, abordando nesse filme a violência de gênero na sociedade brasileira.
Chega à tela do Cineclube Torres mais um filme da Ana Muylaert, de quem já foram exibidos "Durval Discos", "É proibido fumar", "Mãe só há uma" e o celebre "A que horas ela volta".
Sempre atenta à realidade social, a diretora foca numa figura feminina forte, negra e periférica, a Gal (Shirley Cruz) que, para escapar de um relacionamento abusivo, coloca seus dois filhos pequenos no carrinho de reciclagem que usa para coletar lixo nas ruas da cidade e foge. Sozinha e enfrentando os perigos da falta de moradia, ela os convence de que estão em uma aventura."É curioso como ainda carregamos a ideia de que um super-herói deve ser um homem jovem, musculoso — quase sempre branco. Se esse símbolo refletisse com mais fidelidade a realidade, ele se pareceria com figuras muito menos óbvias, como a de uma mãe." (Humberto Maruchel, em Bravo)
A sessão será realizada na Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, na rua Pedro Cincinato Borges 420, contando para isso com a parceria e o patrocínio da Up Idiomas Torres. A entrada franca até a lotação do espaço.
O Cineclube Torres é uma associação sem fins lucrativos, em atividade desde 2011; Ponto de Cultura certificado pela Lei Cultura Viva federal e estadual; Ponto de Memória pelo IBRAM; Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística certificada pelo Ministério do Turismo (Cadastur); Selo Destaque no Turismo da Georrota Cânions do Sul.
Serviço:
O que: Exibição do filme "A Melhor Mãe do Mundo" (2025) de Ana Muylaert
Onde: Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, junto à escola Up Idiomas, Rua Cincinato Borges 420, Torres
Quando: Segunda-feira, 9/3, às 20h
Ingressos: Entrada Franca, até lotação do local (aprox. 22 pessoas).
Cineclube Torres
Associação sem fins lucrativos
Ponto de Cultura – Lei Federal e Estadual Cultura Viva
Ponto de Memória – Instituto Brasileiro de Museus
Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística - Cadastur
Nota: Filme exibido para os associados no dia 31/01/26
Adaptação do romance "O Falcão Maltês", de Dashiell Hammett, traz Sam Spade (Humphrey Borgart) como um detetive solitário, implacável, preconceituoso e, no geral, vitorioso a cada novo combate. Não se trata de um corrupto. Ele tem seu próprio código de honra. Quanto aos criminosos, a violência e a ganância são tão exageradas que despertam comicidade. Assim, mesmo brutos e ambiciosos, não chegam a ser opor a Spade.
O público é levado a escolhê-lo como mocinho por razões mais sutis que por uma conduta exemplar, complexidade que fortalece o filme. O detetive tem sua manias, é homofóbico declarado e vivendo batendo sem motivos razoáveis no impostor Joel Cairo (Peter Lorre). Spade é frio.
Quando violento, cumpre sua missão rapidamente. O sócio é assassinado e ele não se abala. Respeita as formalidades, mantém as aparências e beija a viúva em segredo. O herói assim construído levou Bogart e Huston a carreiras de sucesso em Hollywood. Pode-se argumentar que a personalidade do detetive já estava construída no romance de Hammett. A história, no entanto, já tinha sido filmada duas vezes com personagens mais amenos e final feliz. A manutenção dos aspectos mais sórdidos do romance foi mérito de Huston e Bogart.
Quanto ao estilo, Huston também foi cuidadoso. Montou um storyboard detalhado para planejar as cenas e tomadas. Uma das mais marcantes é a sequência de sete minutos (ensaiada por dois dias) em que Spade e Kasper Gutman (Sydney Greenstreet) entram e saem de diversas salas. "O falcão Maltês" é considerado como o longa que inaugura o gênero noir americano. Durante os anos de 1940, o noir se constituiu como estilo dominante nos filmes policiais e de mistério.
Entre as suas características, estão as ruas escuras, perigosas e seus habitantes, homicidas em potencial, mulheres fortes cujo apelo sexual é utilizado para desviar os homens de sua conduta moral e enfraquecê-los. No centro, o herói Spade luta em duas frentes. Contra bandidos e contra sua agressividade latente. "O Falcão Maltês" é adaptação de romance policial que inaugura o gênero noir e concede a Bogart o status de ícone.
Neste sábado, dia 7 de março, às 10h15 da manhã, nos reunimos na Cinemateca Capitólio para a exibição de O Detetive e a Morte, obra do cineasta espanhol Gonzalo Suárez.
Livremente inspirado em um conto de Hans Christian Andersen, o filme combina fábula moral, cinema noir e distopia futurista para construir uma narrativa ao mesmo tempo alegórica e inquietante. Em uma cidade europeia marcada por tensões raciais e por um poder econômico que parece absoluto, um detetive atravessa um universo artificial e hostil enquanto investiga um caso que o conduz a figuras arquetípicas: a mãe em luto, o magnata que acredita poder tudo controlar e a própria morte — a única instância que não se deixa corromper.
Confira os detalhes da sessão:
SESSÃO DE SÁBADO NO CLUBE DE CINEMA
📅 Data: Sábado, 07/03, às 10h15 da manhã
📍 Local: Cinemateca Capitólio
Rua Demétrio Ribeiro, 1085 – Centro Histórico – Porto Alegre
O Detetive e a Morte (El detective y la muerte)
Espanha, 1994, 108 min
Direção e roteiro: Gonzalo Suárez
Elenco: Javier Bardem, María de Medeiros, Carmelo Gómez
Sinopse: Em uma cidade europeia agitada por tensões raciais, um poderoso magnata precisa enfrentar a única coisa que não pode enganar nem corromper: a morte. Enquanto isso, um detetive tenta encontrar a mulher que ama e uma jovem mãe o segue na esperança insana de trazer de volta à vida o filho morto.
Sinopse: KILL BILL – THE WHOLE BLOODY AFFAIR, a versão completa, inédita e mais sangrenta da icônica saga de vingança - reunindo Kill Bill Vol. 1 e Kill Bill Vol. 2 em uma única e poderosa experiência cinematográfica.
A NOIVA!
Sinopse: Na Chicago dos anos 30, Frankenstein pede ajuda ao Dr. Euphronius para criar uma companheira. Eles dão vida a uma mulher assassinada como a Noiva, provocando um romance, o interesse da polícia e uma mudança social radical.
CARA DE UM, FOCINHO DE OUTRO
Sinopse: Hoppers, nova animação da Pixar dirigida e escrita por Daniel Chong, vai abordar a trama de uma amante dos animais que usa uma tecnologia própria. Essa nova invenção consiste em colocar a sua consciência em um castor robótico, com a intenção de descobrir os mistérios do mundo animal, além de sua imaginação e seus sentimentos.
PUSH – NO LIMITE DO MEDO
Sinopse: Natalie Flores, uma corretora de imóveis grávida, está se preparando para um open house em uma propriedade com um passado sombrio. Quando um espírito maligno disfarçado de possível cliente aparece, ela entra em trabalho de parto prematuro e precisa encontrar uma maneira de escapar antes de dar à luz.
A cinesemana de 5 a 11 de março traz quatro estreias na nossa programação, incluindo o longa japonês KOKUHO, que mostra a evolução do teatro kabuki no país e representou o Japão na corrida pelo Oscar Internacional. Outra novidade é o filme francês ME AME COM TERNURA, uma reflexão sobre a condição feminina a partir da história de uma mulher que é separada do próprio filho depois que assume o romance com uma pessoa do mesmo sexo. Também da França vem a animação MAYA, ME DÊ UM TÍULO, inspirada na relação do cineasta Michel Gondry com sua filha caçula. A lista de estreias se completa com o longa italiano HEY JOE, sobre um reencontro entre pai e filho depois de duas décadas.
Às vésperas da festa do Oscar, seguimos em cartaz com os cinco títulos que disputam a estatueta na categoria longa internacional: o espanhol SIRÂT, o brasileiro O AGENTE SECRETO, o norueguês VALOR SENTIMENTAL, o iraniano FOI APENAS UM ACIDENTE e o tunisiano A VOZ DE HIND RAJAB. Também da lista do Oscar o público pode conferir a animação ARCO, que compete pelo prêmio da categoria com uma história futurista.
Muito elogiado por público e crítica, segue em cartaz SÃO PAULO S/A, clássico brasileiro que estreou há 60 anos sob a direção de Luiz Sergio Person e relançado agora nos cinemas em versão 4K. Atendendo a pedidos, ganham mais uma semana de exibição os longas A ÚNICA SAÍDA, do diretor Park Chan-wook (de Oldboy), e ORWEL: 2+2=5, do diretor Raoul Peck.
Confira a programação completa no site oficial da cinemateca clicandoaqui.
Sinopse: Fala sobre temas paralelos à educação básica no Brasil e que refletem a realidade de adolescentes de 14 a 19 anos que estudam em quatro colégios espalhados por diferentes bairros e comunidades do Rio de Janeiro.
O tipo de documentários que mais me chama atenção são aqueles que não há uma intervenção do realizador, mas sim permitindo que as pessoas filmadas agem de acordo com a sua própria natureza. O documentário "A Vizinhança do Tigre" (2014), por exemplo, não tinha uma interação entre diretor e protagonista, mas sim somente a câmera captando a real ação e reação dos personagens em cena. "Hora do Recreio" (2026) caminha por um caminho parecido, mas transitando com a interação com os realizadores e dando espaço para outros elementos que moldam uma história como um todo.
Dirigido por Lucia Murat, o documentário discute a educação brasileira a partir do ponto de vista dos próprios estudantes. O longa-metragem mistura documentário e encenação ficcional para falar sobre temas paralelos à educação básica no Brasil e que refletem a realidade de adolescentes de 14 a 19 anos que estudam em quatro colégios espalhados por diferentes bairros e comunidades do Rio de Janeiro. O longa une debates com os alunos em sala de aula sobre os temas evasão escolar, racismo, tráfico de drogas, bala perdida, feminicídio e gravidez na adolescência.
No primeiro ato do longa nós vemos uma professora falando com os seus alunos sobre a violência contra a mulher. Imediatamente a câmera foca os alunos em que cada um conta a sua história com relação a violência que já sofreram no passado, seja dentro da realidade familiar, ou com relação ao preconceito. Logo em seguida o quadro se abre e constatamos que os alunos foram chamados para serem eles mesmos em uma filmagem de Lúcia Murat.
Há, portanto, uma mistura curiosa entre a realidade e a ficção, já que as histórias contadas pelos alunos são verdadeiras, mas sendo também ensaiadas para que fossem melhor apresentadas para o público que for assistir. O documentário ganha pontos ao fazer com que os alunos captados pela câmera sejam eles mesmos, mas também não escondendo os seus contornos romantizados a partir da direção da cineasta e fazendo com que em alguns momentos a gente se pergunte onde começa a ficção e onde começa a realidade. Porém, as cenas de tiroteio nos morros captadas pela câmera são uma fórmula criativa para constatarmos que nem tudo estava no roteiro e fazendo com que o imprevisto se torne também um elemento dramático.
Diante disso, o documentário se envereda também para o universo do teatro, onde os jovens das comunidades extravasam as suas dores através da atuação e construindo uma representação sobre o preconceito e diferença de classes que perdura até nos dias de hoje. Lúcia Murat, portanto, escancara o fato que basta uma pessoa ser negra, para que ela seja perseguida ou excluída de uma elite que se acha dominante, quando na verdade somente escancara o lado atrasado da sociedade. Além disso, não faltam depoimentos de jovens que sofrem preconceito ao ficarem gravidas precocemente, ou pelo fato que o estado não está nem aí para ajuda-las e não deixando um espaço para que questão sobre o aborto serem debatidas.
O documentário, portanto, entra em um vespeiro que vai desde ao preconceito, separação de classes, o poder patriarcado escondido em um país que se diz democrático e a falta de recursos para a cultura. Essa última, por sua vez, é o único elemento com que faz a futura geração não cair em certas armadilhas da vida, pois através do estudo, escrita e conhecimento são os únicos pilares que constroem uma sociedade em equilíbrio. Infelizmente não serão todos que ouviram essa ideia que sempre deveria ser colocada em prática.
"Hora do Recreio" é um mosaico de informações sobre a geração atual brasileira que luta contra o preconceito, violência e a busca pelo equilíbrio e manter a sua própria cultura intacta.