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Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte.Me acompanhem no meu: X: @cinemaanosluzFacebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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terça-feira, 3 de novembro de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'O Bosque Selvagem'

Sinopse: A adolescente Prue McKeel vê seu irmão caçula, Mac, ser raptado por uma revoada de corvos a mando de uma misteriosa feiticeira.

Em tempos atuais dominados pela animação digital e alinhados ao advento da inteligência artificial, o estúdio Laika foge de todas as tendências e faz um verdadeiro cinema de guerrilha. Usando a velha, porém maravilhosa, técnica de animação em stop-motion, o estúdio lançou obras-primas ao longo dos anos, como "Coraline" (2009) e "Kubo e as Cordas Mágicas" (2016). "O Bosque Selvagem" (2026) talvez seja o feito mais ambicioso da casa, no qual uma escala técnica descomunal se alinha a uma bela história para ser apreciada na grande tela.

Dirigido por Travis Knight, do recente "Mestres do Universo" (2026), o filme nos faz acompanhar a saga da jovem Prue McKeel, que precisa recuperar seu irmão mais novo de uma horda de corvos raptores. Mac foi levado para um território desconhecido além dos limites de Portland, um lugar que se imaginava existir apenas nos contos de fadas. Decidida a salvar o irmão, a protagonista se aventura na floresta ao lado de seu amigo nerd, Curtis, revelando um universo muito mais surpreendente do que se podia imaginar.

Com mais de duas horas de projeção, o longa nos fisga de imediato graças ao seu visual deslumbrante, no qual a fotografia se entrelaça com uma direção de arte de encher os olhos. Além disso, é incrível como o figurino se sobressai ao construir um mundo mágico com identidade própria, que se torna ainda mais verossímil à medida que o tempo passa. Mas o que mais espanta é o fato de a obra ter sido realizada quadro a quadro de uma forma jamais vista.

Rodado ao longo de sete anos, o estúdio Laika não poupou esforços na realização do projeto baseado na obra de Colin Meloy. Cada segundo de projeção foi feito de forma perfeccionista, exigindo paciência extrema de seus realizadores, mas, ao mesmo tempo, explicitando a paixão pela arte do cinema. O resultado é um longa de coração puro, no qual o calor humano se faz presente de corpo e alma, tornando-o extremamente rico em termos visuais e narrativos.

O enredo, por sua vez, não traz grandes novidades, apostando na clássica jornada sobre superar temores e enfrentar adversidades mesmo quando a batalha aparenta estar perdida. Prue se apresenta como uma jovem cética em relação ao mundo fantástico — mesmo encarando animais falantes, magia e tudo o que antes considerava impossível. Aos poucos, ela se dá conta de que tem muito mais a ver com aquele universo mágico do que com o mundo real, no qual convivia quase sempre em tom de conformismo.

Curtis é o típico nerd "gente como a gente", que se encanta com aquele cenário que julgava existir apenas nas mesas de RPG, descobrindo que terá muito a aprender e enfrentar se quiser sobreviver. Contudo, a Rainha Viúva Alexandra é a melhor e mais trágica personagem em cena. Suas motivações para trazer o filho de volta à vida fazem com que o espectador se identifique com ela, mesmo quando percebemos que sua lucidez está prestes a se extinguir. A cena de abertura já nos dá a dimensão sombria de sua história — e, para se ter uma ideia, me fez relembrar os melhores trabalhos de Guillermo del Toro.

Falando em lado sombrio, este é, sem sombra de dúvida, o longa mais violento da Laika, a ponto de as mortes de alguns personagens surgirem de forma inesperada, podendo até assustar os mais jovens. Em contrapartida, o ato final nos brinda com um tom épico: o embate entre o bem e o mal em uma impressionante batalha campal que não deve nada à trilogia "O Senhor dos Anéis", impressionando ainda mais pela sua escala grandiosa. É um belo exemplo de épico animado feito com paixão, e não com o mero interesse de arrecadação de bilheteria.

"O Bosque Selvagem" é a mais nova obra-prima do estúdio Laika, provando que as velhas técnicas de animação ainda podem nos brindar com belas histórias para serem apreciadas no cinema.


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Cine Dica: Clube de Cinema - "As Pequenas Margaridas" (05/11, quinta) na Sala Redenção da UFRGS

Nesta quinta-feira (05/11), às 19h, o Clube de Cinema dá continuidade ao ciclo temático "Nouvelle Vague e suas influências", promovido em parceria com a Sala Redenção da UFRGS, com uma sessão especial do filme As Pequenas Margaridas, de Vera Chytilová.

Uma das principais obras da Nova Onda Tchecoslovaca, As Pequenas Margaridas aposta na experimentação formal para construir uma sátira irreverente das convenções sociais e dos papéis atribuídos às mulheres. Suas protagonistas, duas jovens chamadas Marie, desafiam as expectativas de comportamento ao transformar encontros com homens mais velhos em oportunidades para satisfazer seus próprios desejos. Com uma montagem fragmentada, mudanças entre o preto e branco e o colorido e sequências que rompem com a narrativa convencional, Chytilová faz da desordem uma forma de contestação política e estética.

Após a sessão, haverá um bate-papo com Leonardo Bomfim, pesquisador, curador e crítico de cinema. O ciclo "Nouvelle Vague e suas influências" é uma ação de extensão da Sala Redenção (UFRGS) em parceria com o Clube de Cinema de Porto Alegre, oferecendo certificados de participação aos inscritos e possibilitando o aproveitamento de horas complementares aos estudantes. Inscreva-se!


Confira os detalhes da sessão:

SESSÃO DE QUINTA-FEIRA NO CLUBE DE CINEMA

📅 Data: 05/11 (quinta-feira), às 19h

📍 Local: Sala Redenção – UFRGS

R. Eng. Luiz Englert, 333 – Bairro Farroupilha, Porto Alegre

🎤 Sessão comentada com Leonardo Bomfim

🎟️ Entrada franca e aberta à comunidade

As Pequenas Margaridas (Sedmikrásky)

Tchecoslováquia, 1966, 77min


Direção: Vera Chytilová

Roteiro: Chytilová, Ester Krumbachová, Pavel Jurácek

Elenco: Jitka Cerhová, Ivana Karbanová, Jirina Myskova

Sinopse: Duas jovens chamadas Marie decidem que, se o mundo está corrompido, elas também podem agir sem regras. Entre encontros com homens mais velhos, refeições extravagantes e brincadeiras cada vez mais destrutivas, as duas protagonizam uma sucessão de episódios que desafiam as convenções sociais e a própria lógica narrativa.

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segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Cine Especial: Próximo Cine Debate - 'Vidas Secas'

A linguagem cinematográfica e a literária são realidades distintas, e nem sempre o cruzamento entre ambas resulta em algo satisfatório aos nossos olhos. O cinema norte-americano, por exemplo, coleciona adaptações literárias que oscilam perigosamente entre a qualidade e a mediocridade — sendo um claro exemplo disso a dispensável adaptação de O "Código Da Vinci" (2006). Não é exatamente o que acontece em solo brasileiro, onde muitas vezes testemunhamos uma transição harmoniosa entre essas linguagens. Talvez quem melhor tenha se saído bem nessa empreitada tenha sido o cineasta Nelson Pereira dos Santos.

Ao lado de Glauber Rocha, o diretor é apontado como um dos fundadores do Cinema Novo, movimento cinematográfico que não apenas nos brindou com o viés mais autoral do cinema nacional, mas também expôs a verdadeira realidade de um país cujas mudanças pareciam emperradas. Nelson Pereira dos Santos demonstrava desde jovem uma predileção pela literatura, mesmo quando suas primeiras realizações, "Rio, 40 Graus" (1955) e "Rio, Zona Norte" (1957), nasceram de roteiros originais de sua autoria. No entanto, essa faceta literária ganhou contornos definitivos a partir de sua obra-prima, "Vidas Secas" (1963).

Baseado no clássico homônimo de Graciliano Ramos, o filme retrata uma família miserável que tenta escapar da seca no sertão nordestino. Fabiano (Átila Iório), Sinhá Vitória (Maria Ribeiro), os dois filhos e a cachorra Baleia vagam sem rumo e quase sem esperanças pelos confins do interior, sobrevivendo à força bruta da natureza e à crueldade dos homens.

Publicado originalmente entre 1937 e 1938, o romance de Graciliano sintetizava um Nordeste desassistido, castigado pela estiagem e abandonado pelo poder público. O que vigorava era o jugo de proprietários de terras e coronéis que mandavam e desmandavam em um cenário onde a única alternativa para os oprimidos era o trabalho braçal exaustivo ou a marcha por caminhos infindáveis em busca de subsistência. É nesse contexto inóspito que acompanhamos a família central da trama, que, em sua cruzada pelo deserto, encontra uma casa abandonada e o vislumbre frágil de um futuro melhor.

Nota-se a permanência da atmosfera literária no decorrer do filme, sobretudo em passagens em que os personagens articulam reflexões e frases que parecem transcender a miséria imediata de sua realidade, emprestando um olhar filosófico sobre um mundo que parece esquecido por Deus. Já nos minutos iniciais, por exemplo, Nelson Pereira dos Santos introduz uma trilha sonora marcada por um rangido metálico incômodo — o som da porteira —, preparando o espectador para a aspereza do que virá. Vemos, portanto, figuras humanas destituídas de quase tudo, onde a esperança permanece como o único refúgio perante aquele inferno na terra.

Átila Iório e Maria Ribeiro brilham intensamente ao dar vida ao casal central, transitando com precisão entre a falsa esperança e os dilemas cotidianos da sobrevivência. O Fabiano de Átila busca manter a dignidade e a firmeza pela família, mesmo cedendo à tentação dos jogos de azar, enquanto Maria constrói uma Sinhá Vitória de força inabalável diante da opressão. São atuações de um naturalismo impressionante, que nos dão a genuína impressão de não estarmos diante de atores, mas de pessoas reais corporificando aquele calvário.

As duas crianças, por sua vez, encarnam a inocência acuada por uma realidade hostil, buscando consolo nas raras brincadeiras ao lado da cachorra Baleia. Esta, aliás, assume uma presença magnética em cena: seu olhar atento e observador transmite uma consciência impressionante daquela tragédia social nos momentos em que contracena com os demais. Consequentemente, sua sequência final se torna não apenas dolorosamente chocante, mas a síntese definitiva do fim da inocência para aqueles meninos, forçados a amadurecer diante de um amedrontador desconhecido.

Embora tenha estréia comercial ampla em agosto de 1964, o filme foi exibido antecipadamente em São Paulo nas duas primeiras semanas de março do mesmo ano — justamente no período do golpe civil-militar que viria a estrangular os rumos do Cinema Novo. Exibido no Festival de Cannes, o longa foi laureado com o prêmio da OCIC e o prêmio dos cinemas de arte, alcançando sólida repercussão internacional. É célebre a anedota de que os realizadores fizeram questão de levar a cadela que interpretou Baleia à França, sabendo que o público europeu certamente questionaria se o animal havia sido ou não abatido de verdade em cena.

Aclamada unanimemente pela crítica desde o lançamento, a obra foi alçada ao patamar de patrimônio cinematográfico. Em novembro de 2015, figurou na 3ª posição da lista dos 100 Melhores Filmes Brasileiros de Todos os Tempos, organizada pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), posição reiterada na atualização da mesma lista em maio de 2026.

Revisto hoje, percebe-se o quanto o Nordeste evoluiu em termos de políticas culturais, emprego e infraestrutura ao longo das décadas. Contudo, a seca persiste, assim como a fratura social e a desigualdade de classes, alimentadas por aqueles que insistem em fazer valer a lei do mais forte em detrimento dos vulneráveis. É por essa razão incômoda que a obra-prima de Nelson Pereira dos Santos permanece tão atual: porque o deserto escaldante, em múltiplos sentidos, infelizmente ainda não terminou para muitas famílias.

"Vidas Secas" permanece como um dos pilares sagrados do Cinema Novo, um dos maiores filmes brasileiros de todos os tempos e o testemunho definitivo de como transpor a literatura para a tela grande com genialidade e vigor inabaláveis.

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Cine Dica: Próximo Cineclube Torres - "Nosso Segredo"

 No feriado de dia 2 de novembro, segunda às 20h, vai ter sessão normal no Cineclube Torres, com exibição especial do filme "Nosso Segredo" de Grace Passô.

O filme, ganhador do Festival de Gramado deste ano, vai inaugurar o ciclo Novembro Negro, e oferecer, exatamente no dia de finados, uma visão peculiar sobre o luto. "Nosso Segredo" é mais que um filme, é uma experiência audiovisual que desperta no espectador emoções e reflexões profundas sobre a morte. É a história de uma família negra que tenta reconstruir sua rotina após uma perda recente. Enquanto cada um foge do luto e o silêncio se instala na casa, o filho caçula, Tutu, guarda um segredo misterioso e inquietante.

Carregado de simbologias e de mistério, o filme foi o grande vencedor do 54º Festival de Cinema de Gramado em agosto, onde conquistou os Kikitos de Melhor Longa-Metragem Brasileiro, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte. A sessão conta com a parceria especial com a Vitrine Filmes e a Sessão Vitrine Petrobrás e ocorre na Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, com entrada franca até lotação do espaço. A sessão integra o projeto do Cineclube Torres denominado "Torres na Rede Cultural", uma realização pela PNAB do ministério da cultura do governo federal através do sistema Procultura da Secretaria da Cultura do Governo do Rio Grande do Sul.

O Cineclube Torres é um espaço democrático que se fundamenta no respeito e valorização dos direitos humanos, em atividade desde agosto 2011 e constituída como associação sem fins lucrativos; Ponto de Cultura certificado pela Lei Cultura Viva federal e estadual; Ponto de Memória pelo IBRAM; Biblioteca Comunitária no Mapa da Cultura, Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística certificada pelo Ministério do Turismo (Cadastur); Selo Destaque no Turismo da Georrota Cânions do Sul.

Serviço:

O que: Exibição do filme "Nosso Segredo" (2026) de Grace Passô (Brasil) 

Onde: Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, junto à escola Up Idiomas, Rua Cincinato Borges 420, Torres 

Quando: Segunda 2/11, às 20h

Ingressos: Entrada Franca, até lotação do local (aprox. 22 pessoas).

Cineclube Torres

Associação sem fins lucrativos

Ponto de Cultura – Lei Federal e Estadual Cultura Viva

Ponto de Memória – Instituto Brasileiro de Museus

Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística - Cadastur


CNPJ 15.324.175/0001-21

Registro ANCINE n. 33764

Produtor Cultural Estadual n. 4917

Cine Dica: Mostra celebra a multiplicidade do cinema negro na Sala Redenção

Entre os dias 3 e 17 de novembro, em alusão ao Dia Nacional da Consciência Negra, a Sala Redenção apresenta a mostra gratuita “A harmonia cósmica do sim”, que celebra a potência estética, crítica e política do cinema negro. O nome resgata a formulação de Frantz Fanon, um dos mais importantes nomes do pós-colonialismo, de que o ser humano é, fundamentalmente, “um sim vibrando com as harmonias cósmicas”.

Um dos destaques da mostra é a homenagem à cineasta e roteirista Sara Gómez, que, por meio de seu “cine imperfecto”, representou a comunidade afro-cubana e feminista e retratou as marcas do colonialismo em seu território. Da cineasta, são exibidos “De certa maneira” (1977), primeiro longa-metragem de ficção dirigido por uma mulher cubana; e o documentário “Uma ilha para Miguel” (1968), sobre o período posterior à revolução que derrubou a ditadura de Fulgêncio Batista.

A programação ainda contempla, entre outros títulos, os longas-metragens “Ventos de agosto” (2014), de Gabriel Mascaro, que acompanha as mudanças no cotidiano de uma vila costeira a partir da chegada de um pesquisador; e “Kasa Branca” (2024), de Luciano Vidigal, em que um grupo de amigos responde ao avanço do Alzheimer em uma matriarca com um pacto de afeto e celebração pelos dias que lhe restam.

A Sala Redenção está localizada no Campus Centro da UFRGS, com acesso mais próximo pela Eng. Luiz Englert, 333. A mostra “A harmonia cósmica do sim” tem apoio de Vitrine Filmes, Sesc e Filmes de Plástico.

Confira a programação completa no site oficial da sala clicando aqui. 

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Cine Especial: Revisitando 'Willow - Na Terra da Magia'

Eu conheci o clássico de fantasia e aventura "Willow - Na Terra da Magia" (1988) de uma forma muito inusitada. No final dos anos oitenta, eu ainda era uma criança e não podia ir sozinho ao cinema. Conhecer o longa não foi através de trailers ou até mesmo quando o filme foi exibido pela primeira vez na TV, mas sim bebendo Toddy.

A coleção promocional do Toddy inspirada no filme consistia em miniaturas de plástico dos personagens. Logicamente era uma forma de a empresa vender bastante as suas garrafas, já que cada uma vinha com um personagem diferente. Não é preciso ser gênio para saber que o bonequinho do "Willow" foi algo difícil de achar na época, depois de diversas compras.

Anos mais tarde, fui conhecer o longa em uma determinada noite na sessão da Tela Quente, da Globo, no início dos anos 90. Para uma criança como eu, foi uma alegria conhecer finalmente do que se tratava a história, já que eu somente tinha uma noção através de um resumo que vinha atrás da embalagem do Toddy. Mas vamos à história.

Dirigido por Ron Howard, na época conhecido pela direção de "Cocoon" (1985), e produzido por George Lucas, a trama se situa em um mundo mágico, onde conhecemos Willow Ufgood (Warwick Davis), um fazendeiro e aprendiz de mago, e Madmartigan (Val Kilmer), um grande esgrimista, que saem juntos em uma jornada numa terra devastada pela magia e monstros para salvar a vida de uma pequena princesa. De acordo com a profecia, essa bebê pode dar fim ao reinado da Rainha Má que atormenta a região.

Nascido de uma ideia vinda de George Lucas, o filme surgiu em um momento em que o gênero de fantasia e aventura não estava fazendo o mesmo sucesso de antigamente, mesmo quando alguns títulos obtiveram o seu status de cult, como foi o caso do ótimo "Krull" (1983). Porém, Lucas via no projeto uma forma de não somente criar uma boa aventura à moda antiga, como também testar alguns efeitos visuais novos que estavam sendo desenvolvidos na época. O resultado, revisto hoje, nos faz perceber como o longa se tornou pioneiro com relação a alguns efeitos técnicos que hoje se tornaram rotineiros no mercado.

Com recursos do estúdio Industrial Light & Magic, o filme foi um dos primeiros a usar o recurso de morphing digital, que permitia transições fluidas, contínuas e realistas entre duas imagens diferentes em live-action, sem a necessidade de cortes de câmera ou técnicas tradicionais de sobreposição. Esse recurso foi usado na marcante cena em que a feiticeira Fin Raziel (Patricia Hayes) é transformada consecutivamente em vários animais (uma cabra, uma avestruz, um pavão, um tigre) até finalmente retornar à sua forma humana. Logicamente, o recurso foi aprimorado em filmes revolucionários como "O Exterminador do Futuro 2" (1991) e, posteriormente, "Jurassic Park" (1993).

Mesmo com esses recursos de ponta, o filme possui diversos elementos técnicos tradicionais daquela época e que, revistos hoje, ganham maior peso em cena. O imenso dragão de duas cabeças que surge no decorrer da trama foi criado através do velho e bom stop motion, mas aprimorado através de computadores, sendo rebatizado na época de go-motion. Já no departamento de maquiagem, ninguém esquece da assustadora cena em que praticamente todos os protagonistas são sucumbidos aos poderes da feiticeira malvada, transformando-se em porcos em uma clara alusão ao clássico "A Odisseia", de Homero.

Visualmente, nota-se que George Lucas criou aquele universo bebendo muito da fonte da obra de J. R. R. Tolkien, ou seja, "O Senhor dos Anéis". Quando testemunhamos pela primeira vez a vila onde Willow mora, imediatamente nos vem à mente a passagem do "Condado" e dos carismáticos hobbits. Vale destacar que a produção foi pioneira ao contratar mais de duzentas pessoas com nanismo para interpretar os moradores daquele local, tornando esse momento ainda mais mágico e verossímil.

Conhecido na época por ter dado vida ao pequeno guerreiro Wicket em "Star Wars: O Retorno de Jedi" (1983), Warwick Davis obtém aqui o grande papel de sua carreira ao interpretar um jovem aprendiz de feitiços que carrega a insegurança sobre prosseguir ou não com o seu sonho. Tudo muda quando ele se torna uma espécie de herói predestinado a proteger a pequena princesa e levá-la em segurança para se tornar uma futura rainha. Qualquer semelhança com "A Jornada do Herói" de Joseph Campbell não é mera coincidência, já que essa estrutura ainda hoje serve de base para conquistar novas plateias.

Vale destacar que este foi um dos primeiros sucessos de Val Kilmer, na época colhendo os louros após ter sido coadjuvante em "Top Gun - Ases Indomáveis" (1986). O seu Madmartigan nada mais é do que um esgrimista desgarrado que não tem o menor interesse em se envolver em grandes missões, mas que, com o tempo, não tem outra escolha a não ser demonstrar o que sabe fazer de melhor com uma espada. Merece destaque também o seu par romântico, Sorsha, interpretada pela atriz Joanne Whalley, com quem viria a se casar após as filmagens.

Com personagens carismáticos, muita magia, ação e aventura, o filme acabou ganhando status de cult no decorrer dos anos, mesmo tendo tido apenas um relativo sucesso nas bilheterias na época do lançamento. Ao meu ver, as crianças sempre se identificaram com Willow: um protagonista pequeno, mas com uma força de vontade gigantesca para fazer o bem e proteger a pequena princesa frente às forças do mal. Para mim, foi uma grande aventura que começou a partir do momento em que passei a colecionar bonequinhos de plástico que vinham na garrafa de Toddy, fazendo-me embarcar em uma jornada inesquecível que marcou a minha infância como um todo.

Lançado recentemente em uma edição especial em DVD pelo selo "Obras Primas do Cinema", "Willow - Na Terra da Magia" é um grandioso clássico de aventura à moda antiga que continua conquistando o coração de várias gerações ao longo das décadas.

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Cine Dica: Clube de Cinema: "O Diabo" (31/10) na Cinemateca Paulo Amorim

Neste sábado (31/10), às 10h15 da manhã, nos reunimos na sala Eduardo Hirtz da Cinemateca Paulo Amorim para uma sessão do filme O Diabo, de Andrzej Zulawski, diretor do clássico cult Possessão.

Ambientado na Polônia do século XVIII, o segundo longa-metragem de Zulawski transforma um drama histórico em uma narrativa fragmentada, marcada pela violência, pelo delírio e pela presença constante do sobrenatural. A trajetória do protagonista serve de ponto de partida para uma alegoria sobre a ruína de uma sociedade e o poder político, realizada por meio de uma estética de pesadelo que subverte convenções religiosas e morais. Censurado pelas autoridades polonesas, o filme antecipa o estilo excessivo e provocador que marcaria a obra do cineasta.


SESSÃO DE SÁBADO NO CLUBE DE CINEMA


📅 Data: Sábado, 31/10, às 10h15

📍 Local: Sala Eduardo Hirtz – Cinemateca Paulo Amorim

Casa de Cultura Mário Quintana – Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico, Porto Alegre


O Diabo (Diabel)

Polônia, 1972, 119min

Direção e roteiro: Andrzej Zulawski

Elenco: Wojciech Pszoniak, Leszek Teleszyński, Małgorzata Braunek, Iga Mayr, Wiktor Sadecki, Michal Grudziński, Maciej Englert, Monika Niemczyk

Sinopse: Na Polônia do século XVIII, Jakub, um jovem preso por conspirar contra o rei, é libertado por um misterioso homem conhecido como o Diabo. Ao retornar à vida que deixou para trás, encontra a família e os antigos vínculos profundamente alterados. Acompanhado por uma freira que encontra durante a fuga, percorre um país em crise, enquanto o caos ao seu redor põe em dúvida a fronteira entre realidade, loucura e influência sobrenatural.

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