Sinopse: Frank Castle está pronto para desistir de tudo, mas o seu passado o encontra primeiro.
O Justiceiro não foi um personagem que surgiu por acaso nas HQs; ele está mais para causa e efeito. Nos anos setenta, a criminalidade nos EUA explodiu, e Nova York se tornou mundialmente conhecida como a cidade do crime. Por conta disso, o cinema não deixou barato. Filmes como "Desejo de Matar" (1974) deram o pontapé inicial para o cinema de ação em que o protagonista atira primeiro e pergunta depois, tudo movido pelo desejo de vingança. Entram, então, os anos oitenta, nos quais anti-heróis como "Stallone Cobra" (1986) simbolizavam uma parcela de uma sociedade que pregava que "bandido bom é bandido morto".
Com o passar do tempo, essa ideia acabou ficando um tanto desgastada, ao ponto de as adaptações do personagem para o cinema chegarem atrasadas. Quando "O Justiceiro" (1989), estrelado por Dolph Lundgren, chegou aos cinemas, havia tantos personagens desse tipo que o longa acabou se perdendo em meio ao tiroteio. E quando "O Justiceiro" (2004) e "O Justiceiro: Em Zona de Guerra" (2008) chegaram às telas, o gênero de ação estava moribundo, de modo que um protagonista se tornando um exército de um homem só — e carrasco — já não era novidade havia bastante tempo.
Quando penso no personagem, sempre o enxerguei como um bom coadjuvante que rouba a cena devido à sua carga dramática. Nas HQs, por exemplo, ele se destacava sempre que surgia nas histórias do Demolidor, principalmente naquelas escritas pelo gênio Frank Miller. Portanto, quando o personagem foi novamente adaptado, desta vez para a segunda temporada de Demolidor nos tempos da Netflix, foi ali que ele finalmente obteve o seu estrelato. Suas motivações foram bem trabalhadas, e ele foi brilhantemente interpretado pelo ator Jon Bernthal, que vinha de sucessos como The Walking Dead (2011). Devido ao sucesso, o personagem ganhou protagonismo em sua própria série, que infelizmente ficou aquém do esperado.
Então, por que insistir em um personagem que quase nunca dá certo?
No meu entendimento, não há personagens ruins, mas sim realizadores que não sabem ao certo como conduzir determinado protagonista — principalmente aqueles que podem gerar problemas futuramente. É fácil rotular Frank Castle como uma figura problemática, sendo ele uma referência para um público que é a favor da violência contra a criminalidade e que deseja que a sentença seja imposta com uma bala na testa. Esse público está equivocado, pois a maioria dele não perdeu um ente querido ou algo do gênero; está apenas interessada em ver o cenário pegar fogo. Frank Castle é o que é pela dor da perda, moldado por um país que o fez como uma arma implacável para depois descartá-lo.
Portanto, o média-metragem "O Justiceiro: Uma Última Morte" (2026) acerta em cheio ao revelar o personagem em sua essência. Vemos um Frank querendo desistir de tudo, pois não vê mais sentido em continuar existindo. A produção orquestrada por Reinaldo Marcus Green retrata um bairro de Nova York em frangalhos, onde a criminalidade se tornou a rotina do cenário, enquanto o protagonista caminha pelas ruas como se fosse um mero fantasma em busca de uma luz nunca alcançada. Somente quando o passado vem ao seu encalço é que ele novamente obtém um propósito.
Em menos de uma hora, vemos um protagonista quebrado e trágico, sendo arrastado pela própria violência que tentou extinguir. A partir do momento em que se encontra em um beco sem saída, sua verdadeira essência aflora ao se tornar uma máquina de matar em cenas cruas, simples, diretas e quase gore. Não é um personagem a serviço do extremismo, mas que faz o que faz porque acredita ser esse o único meio de amenizar seus próprios demônios interiores.
Ainda é um personagem complexo, difícil de ser adaptado em tempos nos quais o uso ou não da violência é discutido de forma acalorada e cuja solução talvez nunca seja alcançada. Até lá, figuras como Frank Castle continuarão existindo, mas não necessariamente como um mau exemplo, e sim como a representação de alguém partido ao meio, para quem o sistema falhou. "O Justiceiro: Uma Última Morte" acerta no alvo ao revelar o personagem em sua real essência, mesmo em poucos minutos de tela.
Onde Assistir: Disney+
Faça parte:
Facebook: www.facebook.co m/ccpa1948



.jpg)




