Filme exibido para os associados no dia 07/02/26.
Embora eu tenha buscado assistir ao melhor do período Nouvelle Vague, devo reconhecer que nem todos os filmes tive a chance de apreciar e conhecer melhor os seus cineastas. Um desses casos foi o diretor Claude Chabrol, sendo que o mesmo é apontado por muitos como um dos fundadores do movimento francês que mudou a forma de se fazer cinema por lá. Antes tarde do que nunca conhecê-lo a partir de "O Açougueiro" (1970), filme que possui elementos conhecidos do gênero de suspense, mas que se difere se formos comparar ao que foi visto no cinema tradicional norte americano daquela época e até nos dias de hoje.
A trama se passa em uma pacata cidade interiorana francesa, onde surge o nascimento de uma amizade incomum entre o açougueiro da vila e de uma professora da escola local. O cotidiano tranquilo do vilarejo é abalado quando uma série de estranhos e violentos assassinatos começam a ocorrer. Não demora muito para a professora suspeitar que o principal suspeito possa ser o próprio açougueiro.
Inicialmente Claude Chabrol cria uma abertura com um teor mórbido e nos passando a entender que não assistiremos um filme qualquer. Porém, é curioso observar que as pessoas daquele vilarejo se apresentam como cidadãos comuns e que todos convivem em harmonia uns com os outros. Portanto, é importante constatar como fácil é o surgimento da amizade entre os dois protagonistas naquele cenário dos principais acontecimentos, mas porque talvez seja um costume local e cuja a possibilidade de um, assassinato se torna improvável.
Durante todo o tempo surge sempre pistas de que o açougueiro Angelo (Antonio Passalia) possa ser o possível assassino, desde a forma peculiar, porém, bastante cuidadosa ao cortar uma carne, como também quando diz que ficou no exército por 15 anos e tendo conhecido de perto o lado sombrio de um conflito. Ao mesmo tempo, a professora Hélène (Stéphane Audran) demonstra ser uma mulher um tanto à frente do seu tempo, mas ao mesmo tempo demonstrando sinais de ser uma pessoa reservada e que não se envolve facilmente com as pessoas. São dois lados da mesma moeda na trama, dos quais se envolvem pelas suas características distintas, mas que no fundo possuem histórias para serem contadas.
Claude Chabrol capricha nos momentos de suspense, principalmente com a revelação do segundo corpo que se encontra em cima de um morro. A revelação surge de forma gradual, onde os pingos de sangue que caem em uma das alunas durante uma excursão já nos prepara para a grande revelação da cena. Não me surpreenderia se Claude Chabrol tivesse buscado inspiração nas obras de Alfred Hitchcock para a elaboração deste grande momento do longa como um todo.
Falando sobre o mestre do suspense, é curioso observar que longa possui similaridade com o clássico "A Sombra de Uma Dúvida" (1943), já que ambas as tramas retratam o suspeito de forma ambígua, fazendo com que não tenhamos a exata certeza se ele é a pessoa certa. Ao mesmo tempo, o filme explora as raízes do mal, sendo que nem sempre há uma explicação genuína sobre as motivações do assassino e agindo somente pelo impulso do qual o mesmo não tem controle. Qualquer semelhança com o clássico "M, O Vampiro de Dusseldorf" (1931) não é mera coincidência.
Destaco principalmente o seu ato final, onde Claude Chabrol constrói um cenário de suspense sufocante, onde a câmera acompanha a protagonista em suas idas e vindas em seu apartamento e do qual a qualquer momento pode ser invadido. Destaco principalmente os eventos que não são vistos em cena, mas que são construídos através de sons ao fundo e sombras e fazendo dessa sequência uma das melhores do longa. Ao final, não há mocinho e bandido em cena, mas sim pessoas fraturadas pela vida e das quais foram moldadas pelas suas escolhas e fraquezas.
"O Açougueiro" é uma aula de suspense elegante e fugindo do lado previsível e tradicional do gênero como um todo.
Facebook: www.facebook.com/ccpa1948








