Sinopse: Após a perda do marido, uma mulher enlutada busca consolo com os sogros na isolada casa de campo da família. No entanto, o reencontro logo se transforma em um inferno na Terra quando o Livro dos Mortos liberta forças demoníacas.
Sam Raimi é um daqueles realizadores criativos que, mesmo com pouco dinheiro no bolso, conseguiu dar vida a "A Morte do Demônio" (1981) — ou "Uma Noite Alucinante", como ficou conhecido por aqui. Com o sucesso e mais recursos no bolso, ele realizou "Uma Noite Alucinante 2" (1987), filme que defendo como a sua maior obra-prima. Ali, o cineasta fez tudo o que tinha direito: criou uma câmera frenética, usou e abusou do gore e fortaleceu o que hoje chamamos de "terrir". Embora dividindo a opinião do público e da crítica na época, "Uma Noite Alucinante 3" (1992) encerrou a trilogia com dignidade, consagrando o ator Bruce Campbell como uma das figuras mais pop do gênero de horror.
No decorrer dos anos, Raimi invadiu novos territórios ao se aventurar nas adaptações de quadrinhos, comandando a ótima trilogia do "Homem-Aranha" (2002–2007). Porém, o universo de horror que ele havia iniciado sempre ficou à espreita, esperando o momento de retornar. Era questão de tempo para que víssemos o Livro dos Mortos despertar os demônios novamente no mundo dos vivos. Curiosamente, Sam Raimi optou por seguir nesta nova empreitada no papel de produtor, convocando novos talentos para assumir a direção.
O recomeço se iniciou com "A Morte do Demônio" (2013), de Fede Alvarez, que é basicamente uma releitura do clássico, só que bem mais violenta e sem o humor do enredo original. Dez anos se passaram até que veio "A Morte do Demônio: A Ascensão" (2023), de Lee Cronin, que revitalizou a franquia ao mudar completamente o cenário dos acontecimentos e resgatar um pouco do humor ácido dos primeiros longas. E chegamos, enfim, a A Morte do Demônio: Em Chamas (2026), produção que aposta alto na violência física, mas que traz novidades que podem dividir as plateias.
Dirigido pelo francês Sébastien Vaniček (do tenso "Infestação", de 2023), o longa acompanha uma jovem (Souheila Yacoub) que acabou de perder o marido em um misterioso acidente. Logo após a tragédia, ela busca refúgio no lar dos sogros junto de seu cunhado e da namorada dele. Porém, tudo se torna um caos quando descobrem que o falecido avô da família pesquisava sobre o Livro dos Mortos, desencadeando uma nova onda de possessões no local.
Para aqueles que possuem um olhar atento, o filme começa com uma sutil interligação com o longa anterior, mas mantém uma narrativa acessível para que os marinheiros de primeira viagem compreendam a trama. Em poucos minutos, Vaniček já demonstra familiaridade com os diretores que o antecederam no quesito técnico, utilizando uma câmera frenética e uma edição rápida que quase não dão chance para o público respirar. É como se o realizador nos implorasse para não tirar os olhos da tela, provocando uma sensação de vertigem que quase nos faz perder o fôlego já na sequência de abertura.
Ao menos o roteiro dá espaço para a apresentação dos personagens principais. A história não explora somente o horror sobrenatural, mas também o drama de uma família fragmentada e o abuso que o falecido praticava contra a esposa. É uma alfinetada inteligente do roteiro: não é preciso a presença de demônios para que as pessoas demonstrem o seu pior lado. Quando as forças malignas finalmente surgem, fica a impressão de que elas apenas deram um empurrão naquilo que já estava ladeira abaixo.
Em termos técnicos e de atuação, é preciso reconhecer que existem passagens extremamente aflitivas, desde os discursos no funeral — poluídos pelo barulho ensurdecedor do lado de fora — até a tensa cena do jantar, onde os segredos familiares são expostos logo antes de a casa se transformar em um verdadeiro inferno. Embora já tenhamos uma ideia do que vai acontecer, as consequências causam um impacto inegável.
Curiosamente, o filme é bastante violento, mas tem o seu lado gore camuflado por uma fotografia extremamente sombria, o que acaba suavizando o impacto visual de certas cenas. Claro que ainda é preciso ter estômago para os momentos de mutilação e decapitação, que vêm alinhados a pitadas de humor negro capazes de provocar um sorriso nervoso no canto da boca. Não se compara ao nível do que Raimi criou no passado, mas constrói uma atmosfera muito mórbida.
O elenco principal cumpre bem o que o roteiro pede, embora fique a sensação de que os atores poderiam ter ido além se tivessem mais espaço de desenvolvimento. Souheila Yacoub constrói uma protagonista que já havia enfrentado a violência na vida real, desabrochando de vez perante um horror inexplicável e submetendo-se às piores provações imagináveis. Uma pena que a sua jornada e o desfecho de sua personagem soem semelhantes demais ao que vimos no excelente "O Casamento Sangrento" (2019), carecendo um pouco de originalidade nesse aspecto.
Embora o saldo seja satisfatório, o que temo é que esses filmes se transformem em uma engrenagem sem fim, ao ponto de Hollywood inventar um "universo expandido" para a marca. Digo isso porque o longa conta com duas cenas pós-créditos que revelam o destino de alguns personagens, funcionando claramente como um gancho para o futuro. Em tempos atuais, onde a criatividade da indústria parece escassa, nada mais me surpreende.
No fim, "A Morte do Demônio: Em Chamas" prova que a franquia iniciada por Sam Raimi ainda tem muito fôlego a oferecer, mas é exatamente essa insistência comercial que pode gerar um desgaste inevitável a longo prazo.
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