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Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já 98 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento e Cinesofia. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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sexta-feira, 9 de abril de 2021

Cine Especial: Cine Debate: 'O Caso do Homem Errado'

Nota: O texto a seguir eu publiquei em 09 de Agosto de 2018.  

Sinopse: O CASO DO HOMEM ERRADO conta a história do jovem operário negro Júlio César de Melo Pinto, que foi executado pela Brigada Militar, em 1987, em Porto Alegre/RS. O crime ganhou notoriedade após a imprensa divulgar fotos de Júlio sendo colocado com vida na viatura e chegar, 37 minutos depois, morto a tiros no hospital.

Embora alguns ainda neguem os fatos, estamos vivendo em tempos de retrocesso, onde pessoas que praticam um lado mais socialista acabam sendo calados por únicamente abraçar um bem maior em ajudar o próximo. O recente caso do assassinato da vereadora Marielle Franco, não é somente uma situação em que sintetiza o estado de calamidade em que o nosso país se encontra como também ele reflete uma realidade que perdura já em décadas. Por coincidência, chega ao cinema O Caso do Homem Errado, onde explora o lado racista e despreparado de uma polícia  que ainda carrega resquícios dos tempos da ditadura.

Dirigida por Camila Moraes, o documentário investiga passo a passo, através de depoimentos, sobre o caso do jovem operário negro Júlio César que, durante um confronto entre a brigada militar e bandidos no centro de Porto Alegre, acabou sendo levado pelos primeiros sem ao menos saber do por que. Pouco mais de meia hora depois, Júlio César chega morto ao hospital, sendo que ele nem estava armado e dando a entender que a brigada havia lhe executado. Através dos depoimentos, como de um jornalista da época, por exemplo, acabamos então encarando a trágica e real verdade sobre o corrido.

Diferente da maioria dos documentários, a diretora Camila Moraes não moldou a sua obra com imagens da época sobre o acontecido, mas que, através dos depoimentos de pessoas em cena, obtemos então uma construção de imagens surgindo em nossas mentes e se criando certa tensão de acordo com o andamento das entrevistas. O depoimento emocionado do fotógrafo Ronaldo Bernardi, que havia fotografado Júlio César jaz morto na maca do hospital, sintetiza bem esse clima mórbido e do qual não é preciso de uma representação ou de imagens a todo o momento sobre o que havia acontecido. Bastam então as palavras emocionadas para então termos a dimensão da trágica verdade.

O que indigna mais o caso do assassinato de Júlio César é que ele não estava somente no lugar errado ou na hora errada, mas somente pelo fato de ser negro, foi julgado em poucos minutos e sendo sentenciado à morte de uma forma tão sem sentido. O mais chocante, porém, é do fato dele ter caído nesse olho do tornado de uma forma tão estúpida, moldada pelas palavras de pessoas inconsequentes que se encontravam no local e que o julgaram somente pela sua cor de pele. Um acontecimento criado de uma forma errônea e catastrófica.

Embora Camila Moraes não deixe de uma forma mais explícita, ela foi hábil em nos colocar numa situação que ressoe o clima da época de nosso país. Ouvindo os depoimentos nos colocamos então em 1987, época em que a recém o povo havia reconquistado a democracia, tendo o desmonte final da ditadura, mas ao mesmo tempo, havia ainda aqueles resquícios de um tempo em que a brigada militar ainda se sentia com o direito de fazer o que bem entender contra a vida daqueles que eles acreditavam serem minorias. Rapidamente me veio então na mente o clássico curta metragem O Dia em que Dorival Encarou a Guarda, de Jorge Furtado, obra que havia sido lançada um ano antes da morte de Júlio César e que sintetizava a imagem falida de uma brigada militar dependente de métodos errôneos e tão pouco humanos.

A sensação que passa é que, entre o final dos anos 80, até os dias de hoje, tivemos um grande avanço, mas sendo então freado e nos colocando então na estaca zero. É como se os recursos dos dias de hoje como, por exemplo, as redes sociais da internet, cujo recurso poderia nos dar mais benefício, se tornam então um palco para o nascimento de depoimentos preconceituosos e de até mesmo de alguns manifestando o desejo pelo retorno dos tempos de chumbo. Em um país pós-golpe, onde há um desejo cada vez maior pelo controle do capitalismo, os direitos humanos acabam, infelizmente, se tornando algo secundário pelo olhar dos que se dizem poderosos.

O documentário O Caso do Homem Errado, felizmente, veio para nos dizer que as vozes de Júlio César, assim como a de Marielle Franco e de muitos inocentes jamais se calarão, mas sim soarão fortes e muito além da eternidade.


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quinta-feira, 8 de abril de 2021

Cine Dica: Streaming: ‘Fé Corrompida’

 Sinopse: O ex-capelão militar Toller sofre pela perda do filho que ele encorajou a se alistar nas forças armadas. Um outro desafio começa quando faz amizade com a jovem paroquiana Mary e o marido dela, que é um ambientalista radical. Toller logo descobre segredos nebulosos de sua igreja com relação a empresas inescrupulosas.

Paul Schrader foi um de muitos nomes que se consagraram nos tempos da “Nova Hollywood” (1967 – 1980), não exatamente sentado na cadeira de direção e sim como roteirista de filmes que entraram para a história da sétima arte. Tanto “Taxi Drive” (1976), como “Touro Indomável” (1980), ambos de Martin Scorsese, foram filmes em que o roteirista fazia com que os seus protagonistas colocassem os seus demônios para fora e enfrentasse um mundo distorcido que eles enxergavam com os seus próprios olhos. Na cadeira de diretor, Paul Schrader coloca os ingredientes que sempre usou em seus roteiros. criou em “Fé Corrompida” uma trama sobre o homem vs capitalismo desenfreado, que pode leva-lo à sua própria destruição.

O filme conta a história de um ex-militar, e agora padre, Toller (Ethan Hawke), que sofre pela perda do filho que apoiou ao se alistar nas forças armadas. Um outro desafio começa quando ele faz amizade com a jovem paroquiana Mary (Amanda Seyfried) e seu marido, um ambientalista. Toller logo descobre segredos escondidos de sua igreja com relação às empresas poluidoras e começa a questionar o seu próprio papel.

Paul Schrader tinha uma visão muito clara com relação aos anos 70, por conta disso, criava personagens que tinham gosto de ir contra o sistema daquele período. Em “Fé Corrompida” não é muito diferente, vemos personagens atormentados diante de situações que, gradualmente, vão corroendo a realidade em que eles vivem. O padre Toller, aos poucos, percebe que é colocado em teste, uma vez que testemunha situações que os demais ignoram, mas que lhe corroem por dentro.

Embora alguns críticos tenham questionado as suas atuações ao longo do tempo, Ethan Hawke nos brinda aqui com o melhor desempenho de sua carreira. Na medida em que o seu personagem começa a questionar os males vindo de sua própria realidade, Ethan Hawke consegue a façanha de transmitir, em todas as suas expressões, um ser atormentado por dentro e que não consegue mais se manter preso à regras vindas, inclusive, da própria igreja. Ignorado no último Oscar, Ethan Hawke merecia um reconhecimento melhor, mas o tempo há de reconhece-lo.

Curiosamente, “Fé Corrompida” possui uma rara história com relação a fé e a natureza, que são temas que se encontram distantes no cinema, mas que aqui caminham de mãos dadas e em harmonia. Claro que há sempre liberdades poéticas com relação ao tema que, aqui, soa um tanto forçadas. Porém, tudo é compensado, tanto devido atuação de Hawke, como também dos demais atores, em especial atriz Amanda Seyfried, que desde “Os Miseráveis” (2012) não atuava em filme digno de nota.

Na medida que o filme avança, o cineasta cria situações que nos faz crer que tudo se encaminhará para uma situação irreversível. Porém, os minutos finais farão muitos questionar as soluções que o cineasta e roteirista decidiu criar para que, talvez, pudesse agradar diversos públicos, seja ele conservador, ou aqueles que optam por um lado mais libertador. Um final que renderá uma roda de debates e que essa, talvez, tenha sido a intenção de Paul Schrader.

“Fé Corrompida” é uma pequena obra sobre fé e que coloca em teste a própria sanidade do homem contemporâneo diante de situações que ele próprio não consegue controlar.

Onde Assistir: Netflix e Looke.

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quarta-feira, 7 de abril de 2021

Cine Dica: Streaming: 'Obsessão'

Sinopse: Frances é uma jovem cuja mãe acabou de falecer. Ela se muda para Manhattan e, cheia de problemas com o pai, faz uma amizade improvável com Greta, viúva e bem mais velha que ela. As duas se tornam melhores amigas, mas as atenções de Greta se mostram muito mais sinistras do que Frances imaginava.

O cineasta Neil Jordan possui uma predileção por personagens que não se encaixam na realidade e que, por vezes, possuem o desejo obsessivo pela “não solidão”. Em “Entrevista Com Um Vampiro” (1994), por exemplo, vemos seres imortais poderosos, mas cuja a ideia de ficarem sozinhos se torna um terrível pesadelo. Em “Obsessão” esse pensamento vai aos limites, em um suspense que explora personagens solitárias no mundo, mas cada uma tendo uma forma diferente de lidar com isso.

O filme conta a história de Frances (Chloë Grace Moretz) de “A Invenção de Hugo Cabret” (2011), que acabou de perder a sua mãe e vive os seus dias de luto ao lado da melhor amiga de faculdade chamada Erica (Maika Monroe) do filme “Corrente do Mal” (2014). Certo dia ela acha no vagão do trem uma bolsa perdida e decide devolver para Greta (Isabelle Huppert) de “Elle” (2016), uma viúva solitária e que deseja manter uma amizade com Frances. Porém, não demora para Frances notar que Greta começa a ficar obsessiva por ela, nascendo então um verdadeiro jogo de perseguição e com desdobramentos imprevisíveis.

Com uma fotografia mórbida, Neil Jordan faz questão de retratar aquele universo particular das personagens principais de uma forma que não se torne nenhum pouco acolhedor e fazendo com que Frances, por exemplo, se torne uma presa fácil. Porém, uma vez que ela descobre mais sobre Greta, é então, o início dos desdobramentos começando no primeiro ato da trama. Curiosamente, há um ritmo acelerado na medida que Frances tenta fugir de Greta o que faz com que a tensão aumenta na medida em que a trama avança.

Temos aqui, ao menos, uma trindade formada por personagens que lidam com atos e consequências de uma forma distinta. Se por um lado temos Frances que não soube desvencilhar da dor devido a solidão, do outro, temos a sua amiga Erica que, embora aparente ter um desejo em manter a sua melhor amiga sempre ao seu lado, não esconde também uma segurança de estar bem consigo mesma. Já Greta nada mais é do que uma pessoa fria e calculista, cuja a ideia de ficar sozinha a faz provocar situações que a levam por um caminho sem volta.

Se Isabelle Huppert já causa arrepios em outros papéis, cujo os filmes, às vezes, nem sequer são do gênero suspense, aqui ela está mais do que a vontade em colocar todos os seus demônios para fora fazendo da sua personagem uma entidade do caos, sempre em movimento constante. E se por um lado temos uma atuação econômica de Chloë Grace Moretz, do outro, Maika Monroe surpreende em todas as cenas, ao criar uma personagem lúcida e que sabe jogar diante das adversidades de uma cidade grande e opressora. 

Nas mãos de outros realizadores, “Obsessão” terminaria como um suspense raso, já que a história em si não traz muito frescor de originalidade dentro do gênero. Porém, é graças a direção segura e perfeccionista de Neil Jordan, que faz toda a diferença, ao criar situações que testam as nossas próprias expectativas. O ato final, aliás, é digno de nota, ao criar uma tensão sem limites sem devendo nada para os melhores filmes de suspense de antigamente.

“Obsessão” é um filme de suspense elegante, que surpreende pelo seu ritmo e que não cai na vala comum do esquecimento cinematográfico.

Onde Assistir: Amazon Prime.

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terça-feira, 6 de abril de 2021

Cine Dica: Streaming: 'Fuja'

Sinopse: Uma adolescente educada em casa começa a suspeitar que sua mãe esconde segredos sombrios.

Aneesh Chaganty chamou atenção da crítica e do público através do filme "Buscando" (2018), sendo que era um filme de suspense todo construido através do que os protagonistas viam na tela do computador. Portanto, era uma questão de tempo para saber qual seria a mirabolante nova trama que ele poderia, novamente, nos surpreender. Eis que chega "Fuja" (2021), filme de suspense que usa das mesmas fórmulas de sucesso de outros clássicos, mas conseguindo manter a nossa atenção até o seu final.

O filme conta a história de Chloe (Kiera Allen), uma adolescente que está confinada a uma cadeira de rodas e é educada em casa por sua mãe, Diane (Sarah Paulson). No entanto, o comportamento estranho apresentado pela matriarca começa a deixar a jovem desconfiada. Quando ela vasculha alguns medicamentos um tanto que suspeitos que ela dá para ela. A partir disso,  a jovem começa a desconfiar de tudo o que Diane faz, suspeitando que algo muito mais sinistro está por trás de tudo.

Bebendo da fonte de clássicos como "O Que Terá Acontecido a Baby Jane?" (1962) e "Louca Obsessão" (1990), o filme é um suspense psicológico, do qual explora os laços familiares ao extremo, ao ponto que coloca para fora o pior do ser humano. É bem da verdade que o filme é um pequeno estudo sobre a dependência doentia paternal perante ao fato da possibilidade dos  filhos saírem de casa para seguir com as suas próprias vidas. É um assunto que, por vezes, a maioria não gosta de tocar no assunto, mas que é preciso ser tratado antes que tudo se eleve para algo mais obsessivo.

Para um olhar mais antenado de um cinéfilo, o filme quase não possui nenhuma novidade dentro do gênero, mas tendo sido bem conduzido obteve grande êxito.  Aneesh Chaganty está longe de ser um mestre como Alfred Hitchcock, mas é preciso reconhecer que ele possui certo talento com o movimento de sua câmera, onde ela se torna uma representação do nosso olhar perante certas situações que a personagem Chloe não presencia. Reparem, por exemplo, a cena em que ela está pesquisando na internet, para logo em seguida a câmera focar algo que está no fundo e fazermos estar há um passo a frente da personagem.

Além de uma ótima trilha sonora que aumenta o clima de tensão, o filme possui também uma fotografia fria, da qual sintetiza o clima mórbido na medida que em que a trama avança. Porém, o filme jamais funcionaria se a sua dupla principal não funcionasse em cena. Se por um lado Sarah Paulson cumpre novamente com louvor ao interpretar uma complexa personagem em cena, do outro, a estreante Kiera Allen surpreende na medida em que a sua personagem vai descobrindo aos poucos a verdade sobre toda a sua vida e mudando drasticamente as suas atitudes para poder escapar com vida.

É claro que o cinéfilo veterano sempre irá desvendar determinadas cenas antes delas  acontecerem. Porém, confesso que certas  revelações da história me surpreenderam muito, mas isso graças a edição de cenas criada pelo cineasta, da qual  alinhada com determinadas peças secretas desse tabuleiro faz com que a revelação se torne uma verdadeira jogada de gênio e criando um xeque-mate. Nada mal para um segundo longa metragem na carreira.

Com um final que é uma verdadeira virada de mesa, "Fuja" é um verdadeiro prato cheio para aqueles que procuram altas doses de suspense, mas alinhado com muita criatividade. 

Onde Assistir: Netflix

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segunda-feira, 5 de abril de 2021

Cine Dica: Streaming: 'O Último Turno'

Sinopse: Stanley é um funcionário do mundo do fast food que se prepara para seu último turno após 38 anos sem descanso. Quando lhe pedem para treinar a pessoa que vai substituí-lo, porém, a vida de Stanley dá uma guinada inesperada. 

Os EUA é um dos países mais capitalistas do mundo e do qual se sustenta pelo trabalho árduo de pessoas que acabam, na maioria dos casos, presos no mesmo emprego durante anos. Fora isso, mesmo se dizendo o país mais democrático do mundo, convenhamos, a terra do tio Sam não perde o rótulo de ser ainda um dos países mais conservadores e racistas do planeta. "O Último Turno" (2020) transita nas questões sobre quem realmente mexe nas engrenagens do universo do trabalho e sobre as diferenças que acabam emperrando o bom convívio entre o próximo.

Dirigido por Andrew Cohn, o filme conta a história de Stanley, interpretado pelo ator Richard Jenkins do filme "A Forma da Água" (2017), que durante quase quarenta anos trabalhou em uma lanchonete e está prestes a se aposentar. Antes disso, porém, ele decide treinar o novo empregado chamado Jevon, interpretado pelo ator Shane Paul McGhie. Desse treinamento surge uma pequena amizade, mas as diferenças e opiniões distintas podem fazer com que eles se afastem.

Transitando entre a comédia e o drama, o filme é uma simpática obra sobre as diferenças e opiniões de duas pessoas de vidas distintas, mas que vivem em uma mesma realidade mesmo quando os mesmos não se dão conta. Stanley ama o que faz, mas se encontra desgastado após vários anos de serviços prestados e o que faz Jevon questioná-lo. Esse, por sua vez, possui um talento com a escrita, mas não obtendo a oportunidade de seguir mais adiante com a sua meta. Portanto, ambos têm mais em comum do que se imagina, mas as diferenças e precipitações os levam a estradas opostas.

Como não poderia deixar de ser, o filme aborda com certa delicadeza a questão do racismo que, querendo ou não, ainda persiste em pleno século 21. Stanley não é uma pessoa má, mas conviveu com uma realidade norte americana conservadora e da qual ditava as regras. Ao não testemunhar contra um ato de racismo que ele presenciou no passado, percebesse que o medo de se envolver por uma causa o impediu de obter uma outra perspectiva com relação a realidade em sua volta. Jevon, por sua vez, convive com uma realidade dura, cheia de preconceito, mas sabendo como dar as cartas.

Curiosamente, o ato final é recheado de desentendimentos e atos falhos vindos principalmente de Stanley. Contudo, a descida para o fundo do poço faz com que ambos subam para um novo recomeço, mesmo que isso não apague os erros do passado. Em uma selva de pedra onde se é preciso ser forte para sobreviver no dia a dia, os protagonistas, ao menos, possuem o bom senso de não desistirem dos seus propósitos.

"O Último Turno" é leve, porém, reflexivo e que fala sobre pessoas que não são muito diferentes das quais nós cruzamos em nosso dia a dia.   

Onde Assistir: Compre e assista no Youtube.

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quinta-feira, 1 de abril de 2021

Cine Especial: 'Nikita' - Sobrevivendo ao Juiz do Tempo

Sinopse: Nikita é condenada por matar um policial, mas recebe uma segunda chance. 

O tempo é o melhor juiz com relação ao cinema, pois ele determina quando um filme será lembrado ou esquecido. É curioso, por exemplo, como muitos filmes dos anos setenta envelheceram bem ao longo do tempo, porém, o tempo não foi generoso com muitos filmes dos anos oitenta e noventa, ao ponto dos filmes de ação dessas duas épocas estejam cada vez mais datados a cada nova revisada. Os filmes de ação em que o homem forte representava um exército está desgastado e sendo lembrado somente com alguns títulos que ainda merecem ser lembrados e contados a dedo.

Contudo, os anos oitenta trouxeram alguma ousadia ao quebrar certos paradigmas, principalmente ao colocar mulheres a frente do elenco. Em "Aliens - O Resgate" (1986) Sigourney Weaver interpreta o que talvez seja a primeira grande mulher forte do cinema ao enfrentar alienígenas assassinos em que os homens não foram capazes de derrotá-los. O cenário, portanto, estava pronto para a entrada de "Nikita - Criada Para Matar" (1990) e dando um passo à frente do que seria uma heroína protagonista no futuro no futuro próximo.

Dirigido por Luc Besson, que posteriormente viria dirigir o ótimo "O Profissional" (1994), o filme conta a história de uma jovem viciada (Anne Parillaud) que durante um assalto mal sucedido acaba matando um policial. Condenada à morte, ela tem a sua vida poupada secretamente, pois uma organização secreta do governo acredita que sua tendência suicida possa ser utilizada em missões de grande risco. Assim, o potencial de uma marginal utilizado para missões especiais do Serviço de Inteligência.

O ano é 1990, a porta de entrada para uma nova de década, mas ainda carregando o peso da rebeldia de uma geração que esperava pela chegada de uma era mais colorida, mas que ficou só na promessa. Nikita pertence a essa geração perdida, sombria e cujo o único prazer é vindo da auto destruição até que alguém possa lhe ajuda-la. No momento em que ganha um novo começo nas mãos do agente Bob (Tchéky Karyo) se tem uma desconstrução da personagem.

O grande charme de "Nikita" está no fato do roteiro se encarregar de dar mais profundidade a personagem ao invés de se entregar somente em uma ação constante. Ação está lá, mas sempre em segundo plano, pois a protagonista já é uma peça em movimento constante e do qual desejamos prestar mais atenção nela do que uma mera explosão que possa surgir na tela.  Anne Parillaud entrega no que talvez seja o melhor papel de sua carreira e cuja sua personagem serviu de modelo a quase todas heroínas de filmes de ação que viriam a surgir nos anos seguintes.

Sucesso de público e de crítica, o filme foi rapidamente refilmado para uma versão norte americana e estrelada pela atriz Bridget Fonda, além de gerar mais duas séries televisivas. Porém, nenhuma dessas versões obteve o mesmo êxito e não sobrevivendo ao teste do tempo. Se o filme de Luc Besson sobreviveu até aqui se deve graças a sua visão perfeccionista de uma personagem cheia de camadas complexas e da qual nem a própria pode contê-la.

Em termos técnicos, tanto a fotografia como a edição de arte sintetizam a transição de uma geração delinquente a ter que passar por uma reeducação para os novos anos que viriam, mas que nem o próprio governo seria capaz de conte-los por muito tempo. Olhando para trás se percebe que o sistema controlador até dava um pingo de esperança para um novo começo, mas tendo que digerir o fato de que o indivíduo jamais deixará de ser controlado. O final vemos a protagonista sumir do mapa, deixando as possibilidades em aberto e talvez nos dizendo em ter que escolher em ser aceito por um sistema em que nos controla, ou ser livre e seguir uma vida fora do radar do grande irmão que nos observa no dia a dia.

Com participação mais do que especial do ator Jean Reno, "Nikita" é um filme sobrevivente perante o tempo implacável e sabendo dialogar muito bem com o nosso período.  

Onde Assistir: A venda em DVD pela distribuidora Classicline  

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quarta-feira, 31 de março de 2021

Cine Dica: Streaming: 'A Arte de Ser Adulto'

Sinopse: Scott tem sido um caso de desenvolvimento aprisionado desde que seu pai bombeiro morreu quando tinha sete anos. Conforme sua irmã mais nova vai para a faculdade, Scott, agora com seus vinte e poucos anos, passa os dias fumando maconha, passeando com seus amigos e ficando com sua melhor amiga.  

O filme "Anos 90" (2018) retratava o dia a dia de um pré-adolescente, do qual sintetizava uma geração perdida e da qual a mesma não sabia o caminho para qual trilhar na vida. Não é de hoje que o cinema retrata protagonistas jovens perdidos na vida, mas que basta um empurrão para descobrir algo muito além de sua bolha. "A Arte de Ser Adulto" (2020) transita entre humor e drama para retratar um jovem sem perspectiva com relação a realidade de sua volta.

Dirigido por Judd Apatow, do filme "O Virgem de 40 Anos" (2005), o filme conta a história de Scott, interpretado pelo ator Pete Davidson do filme "Descompensada" (2015), que tem sido um caso de desenvolvimento aprisionado desde que seu pai bombeiro morreu quando tinha sete anos. Conforme sua irmã mais nova vai para a faculdade, Scott, agora com seus vinte e poucos anos, passa os dias fumando maconha, passeando com seus amigos e ficando com sua melhor amiga. Mas quando sua mãe, interpretada pela atriz Marisa Tomei, começa a namorar um outro bombeiro sem papas na língua, uma série de eventos se desencadeia, obrigando Scott a lidar com o luto e tentar seguir em frente com a vida.

Desde "Ligeiramente Grávidos" (2005) o cineasta Judd Apatow tem apresentado protagonistas adultos por fora, mas que persistem em continuar com a vida adolescente e desregrada. Curiosamente, são filmes com altas pitadas de humor pastelão, quase escatológico, mas com altas doses de lição de moral para todos os gostos. Aqui, ele dá uma freada no humor, ao colocar em pauta sobre a jornada de um jovem sem nenhum plano para o futuro, mas dosado com um humor crítico e que fala um pouco dessa geração atual moldada por um sistema capitalista cada vez mais saindo dos trilhos e deixando os mesmos perdidos.

Ao não ter um pai presente desde novo, Scott se entrega a uma vida cheia de drogas e bebidas, mas tentando manter um lado desperto com relação a realidade em sua volta. Por conta disso, ele luta em querer não se entregar as responsabilidades que o façam se tornar um adulto, mas não escondendo em seu olhar a curiosidade sobre essa nova etapa da qual ele vive evitando. Pete Davidson dá um verdadeiro show de interpretação, onde ele cria para si um personagem complexo, mas do qual nos identificamos facilmente, pois ele não está muito distante da realidade de muitos jovens que nós conhecemos.

Porém, o filme também ganha força maior com os seus respectivos coadjuvantes e que chegam até mesmo roubar a cena quando surgem na tela. Marisa Tomei, por exemplo, nos brinda com uma mãe transitando entre a sanidade e a loucura provocada pelo seu filho, mas se mantendo firme para não cair em seu próprio abismo. E se por um lado Bill Burr, da série "Breaking Bad", está ótimo ao interpretar o futuro padrasto do protagonista, do outro, o veterano Steve Buscemi surpreende em suas poucas cenas e sendo até mesmo um dos poucos ao enxergar um futuro melhor para o protagonista por motivos pessoais, porém, que irão ajudar o mesmo em buscar um caminho para trilhar.

Acima de tudo, é um filme que fala sobre pessoas comuns com grandes talentos, mas perdidas após terem tido problemas pessoais e que não tiveram força de se levantar. Porém, é através da simplicidade do dia a dia que os mesmos conseguem obter uma nova chance nesta complexa cruzada da vida.  "A Arte de Ser Adulto" é sobre a geração atual perdida em um sistema cheio de regras, mas que basta furar a bolha para conseguir obter uma nova perspectiva com relação a realidade em sua volta. 

Onde Assistir: Compre ou algue pelo Youtube. 

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