Nota: Filme exibido para os associados no dia 31/10/26
Sinopse: Em janeiro de 1793, durante a violenta invasão da Polônia pelo exército prussiano, o jovem nobre Jakub é preso sob a acusação de tentar assassinar o rei. Ele é inesperadamente libertado de sua cela por um estranho misterioso.
Quando digo que o cinema é um leque de informações escondidas, não estou brincando: sempre se abre uma janela para conhecer novos filmes e cineastas autorais a serem observados de perto. Quando "A Primeira Profecia" (2024) foi lançado, a crítica especializada imediatamente comparou a atuação de Nell Tiger Free com a de Isabelle Adjani em "Possessão" (1981), do diretor Andrzej Żuławski. Não precisa ser um gênio para deduzir que fiquei curioso em relação a esse cineasta polonês após assistir a esse horror fantástico, o que me levou a conferir "O Diabo" (1972).
A trama se passa em janeiro de 1793, quando tropas do exército prussiano invadem a Polônia e espalham terror e morte pelo país. Com o auxílio de um homem misterioso, o nobre Jakub consegue escapar do cárcere. Seguindo os passos do estranho pelo território polonês, Jakub presencia a destruição e a decomposição de sua terra natal, cujo cenário se tornou um verdadeiro apocalipse.
O cinema de Andrzej Żuławski não é fácil de ser digerido — seja por quem assiste, seja pelos intérpretes que embarcam em seus projetos. Pode-se dizer que talvez nenhum ator em cena estivesse totalmente informado sobre até onde o realizador exigiria uma atuação extrema, na qual a palavra cede espaço a corpos que se tornam parte elemental da narrativa. Nesse caso, o cineasta não poupa nossos olhos.
Já na abertura, por exemplo, ele usa e abusa de um plano-sequência frenético, atulhado de informações sobre o que está acontecendo. Não temos tempo para assimilar o que ocorre em cena, mas sim para testemunhar com horror a devastação causada pela guerra e como ela afeta a mente humana. Curiosamente, essa visão é apresentada em duas frentes.
De um lado temos o protagonista, interpretado por Leszek Teleszyński, que surge desnorteado ao testemunhar sua realidade em frangalhos enquanto a câmera registra tudo. Em determinado momento, nota-se que essa câmera se torna a representação do nosso próprio olhar sobre o caos, para logo dar espaço à perspectiva do protagonista, através de cuja expressão vemos um cenário que mais parece o inferno na Terra. Um belo casamento entre o perfeccionismo de um cineasta rigoroso e uma atuação visceral.
Falando nisso, ninguém em cena dá trégua: cada intérprete possui uma energia que se equipara à proposta radical da obra. É como se o elenco estivesse dando o sangue em cena, com destaque especial para as atuações femininas, que nos assombram pela força que transmitem. O filme funciona quase como um laboratório de ensaio para o que seria visto posteriormente em Possessão — muito embora eu possa estar me precipitando, já que ainda não assisti a toda a filmografia do realizador.
Destaco também a atuação de Wojciech Pszoniak que aqui, ao que tudo indica, encarna o Diabo na Terra, influenciando o protagonista a cometer atrocidades ao longo de sua jornada. Sua interpretação transita entre o humor ácido e tons profundamente sombrios, o que me fez recordar a atuação de Emil Jannings no clássico expressionista alemão "Fausto" (1926), de F. W. Murnau. Há também uma pitada de "O Sétimo Selo" (1957), já que em ambos os filmes os protagonistas cruzam terras devastadas e lutam contra forças que transcendem suas capacidades físicas e mentais.
Não é um filme para os fracos: a movimentação de câmera é constante, a violência é gritante e o pessimismo se faz inteiramente presente. É como se a atmosfera do fim dos tempos vista em "Nosferatu" (1979), de Werner Herzog, fosse expandida em um longa de duas horas, despertando uma sensação mórbida e reflexiva sobre o lado bestial do homem em tempos desconcertantes. No geral, um filme que nos incomoda por dentro — e é exatamente isso que o torna precioso e imperdível.
"O Diabo" é uma sinfonia visual de horror psicológico que nos deixa em estado de choque ao nos colocar diante do despertar da bestialidade humana.
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