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Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Cine Especial: Conhecendo "Escravos do Desejo"

Baseado no clássico literário "Servidão Humana" (1915), de W. Somerset Maugham, o filme apresenta dois personagens extremamente interessantes que sintetizam a discussão proposta pela narrativa. De um lado, temos Philip (Leslie Howard), um estudante de medicina com uma deficiência no pé, que se torna constantemente alvo de preconceito em uma época em que o termo bullying sequer existia. Do outro lado, está Mildred (Bette Davis), uma garçonete ambiciosa e ciente do fascínio que exerce sobre os homens — incluindo Philip —, cujo desdém inicial não passa de uma tentativa de fingir distanciamento.

No início dos anos 1930, Bette Davis era contratada da Warner Bros., mas acabou emprestada para a Radio-Keith-Orpheum (RKO). Foi sob a tutela da RKO, por conta desse filme, que Davis se consagrou como um grande astro. Segundo a própria atriz, aquela personagem havia sido feita sob medida para ela, e ninguém ousou discordar — exceto a Academia, que não a indicou formalmente, deixando-a de fora da lista oficial de nomeadas, que incluía Grace Moore, Norma Shearer e Claudette Colbert. Esta última, inclusive, nem sequer acreditava na própria vitória justamente por conta do enorme impacto e do sucesso estrondoso de Davis naquele ano.

Mildred Rogers parece, de fato, ter sido feita para Bette Davis. Hoje em dia, é até difícil distinguir se a personagem moldou a persona debochada da atriz ou se a atriz é quem esculpiu a personagem — afinal, Rogers e Davis tinham muito em comum. A garçonete olha os outros de cima, com um olhar que esquadrinha o ambiente em busca de oportunidades, sendo cruamente verdadeira em cada palavra. Philip chega a lhe pedir que não repita “eu não me importo” com tanta frequência nem com aquele tom que ele sabe ser genuíno — pois nada é mais autêntico do que a absoluta indiferença de Mildred. Ela precisa de alguém que a sustente e lhe entregue o que deseja. Para Mildred, esse "alguém" poderia ser qualquer um, mas especialmente Philip, um homem que ela sabia que estaria sempre ali para servi-la — eis a servidão humana. Para Bette Davis, esse "alguém" de quem ela necessitava era a mídia, a crítica, o público e o reconhecimento de seu talento natural para o desprezo, algo que a atriz desempenhou com maestria não só neste longa, mas ao longo de toda a sua carreira e de sua vida.

Oficialmente, a primeira lembrança de Bette Davis no Oscar se deu por meio de uma votação write-in, um feito surpreendente. A Academia, temendo a pressão dos atores revoltados com a ausência do nome de Davis entre as finalistas, decidiu flexibilizar o pleito: permitiu-se que qualquer um votasse em quem quisesse, bastando escrever o nome na cédula. Assim, a interpretação avassaladora de Mildred Rogers rendeu à atriz essa menção histórica por write-in, embora a Academia só tenha começado a contabilizar oficialmente suas indicações a partir do ano seguinte, quando ela concorreu — e venceu — por "Perigosa" (1935).

"Escravos do Desejo" é um clássico de tempos mais corajosos do cinema americano onde toca em assuntos espinhosos e que consagraria a talentosa Bette Davis em definitivo. 

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Cine Dica: Sessão dupla no Clube de Cinema: "Três Veteranos" (26/09) + "Roma" (27/09)

 Neste final de semana, teremos sessão dupla no Clube de Cinema de Porto Alegre!

No sábado (26/09), às 10h da manhã, nos reunimos na Cinemateca Capitólio para assistir o filme Três Veteranos, de Oldřich Lipský. Misturando conto de fadas, comédia e aventura, o filme acompanha três ex-soldados que recebem objetos mágicos capazes de realizar desejos e acabam envolvidos em uma série de situações absurdas, enquanto a história conduz os personagens a uma reflexão sobre os conflitos e a guerra. A sessão integra a mostra Literakino: Entre palavras e imagens da Tchecoslováquia, promovida pela Cinemateca Capitólio, que traz ao público uma seleção de filmes tchecoslovacos adaptados a partir da literatura.

No domingo (27/09), nosso encontro é às 10h15 na sala Eduardo Hirtz da Cinemateca Paulo Amorim, onde nos reunimos para uma sessão do clássico Roma, de Federico Fellini. O filme apresenta uma visão fragmentada e pessoal da cidade, reunindo lembranças da juventude do diretor, cenas de caráter documental e situações encenadas. Sem um protagonista único, Fellini transforma Roma no centro da narrativa e percorre seus diferentes espaços, personagens e rituais, entre a vida cotidiana, a memória e a imaginação.


Confira os detalhes da programação:


SÁBADO (26/09, 10h)

Três Veteranos (Tři veteráni)

Tchecoslováquia, 1983, 93min

Direção: Oldřich Lipský

Roteiro: Zdeněk Svěrák

Elenco: Rudolf Hrušínsky, Petr Čepek, Josef Somr, Zdeněk Svěrák

Sinopse: Depois de deixarem o exército, os veteranos Pankrác, Bimbác e Servác recebem de três duendes objetos mágicos com diferentes poderes. Ao viajar por países vizinhos e terem seus presentes roubados, os três acabam envolvidos em uma série de aventuras que mistura fantasia, humor e sátira.

📍 Local: Cinemateca Capitólio – Rua Demétrio Ribeiro, 1085 – Centro Histórico, Porto Alegre



DOMINGO (27/09, 10h15)

Roma

Itália e França, 1972, 128min

Direção: Federico Fellini

Roteiro: Federico Fellini, Bernardino Zapponi

Elenco: Peter Gonzales Falcon, Fiona Florence, Britta Barnes, Pia De Doses, Marne Maitland, Renato Giovannoli, Elisa Mainardi, Stefano Mayore, Galliano Sbarra, Anna Magnani, Ginette Marcelle Bron, Gore Vidal

Sinopse: A partir de lembranças de sua juventude e de cenas ambientadas na Roma contemporânea, Federico Fellini constrói um retrato fragmentado da cidade onde viveu desde os 17 anos. Entre ruas, bairros, festas, manifestações, igrejas e outros espaços da cidade, personagens de diferentes origens compõem um mosaico da vida romana.

📍 Local: Cinemateca Paulo Amorim, Sala Eduardo Hirtz – Casa de Cultura Mário Quintana – Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico, Porto Alegre.


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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Cine Dicas: Estreias do Final de Semana (24/09/26)

 CORAÇÃO SELVAGEM

Sinopse: Um ex-soldado ferido e seu cão de guerra aposentado lutam para sobreviver na região do Alasca e encontrar o caminho de volta para casa após um acidente.


PRECISAMOS FALAR

Sinopse: Após um ataque brutal cometido por seus filhos adolescentes contra uma mulher em situação de rua, dois casais veem suas vidas desmoronarem.


MARIDO DE ALUGUEL

Sinopse: Alice (Mariana Xavier) está falida, endividada e sem condições de manter a casa em pé. Sem grana e sem sossego, ela já tinha perdido as esperanças, até que Vadeco (Maurício Manfrini) aparece: um marido de aluguel de boa lábia, jeito excêntrico e solução pra (quase) tudo, por um preço camarada.


APAYA

Sinopse: Apaixonada pela ideia de voar, uma pequena semente de mamão precisa continuar se movendo para evitar enraizar-se. Perseverante, ela descobre o poder de suas raízes, que conectam a vida por caminhos profundos e misteriosos, e desencadeia uma grande revolução, transformando seu ambiente e realizando seu sonho da forma mais inusitada.


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Cine Dica: Cinesemana de 24 a 30 de setembro de 2026

Entre cinema polonês e filmes brasileiros, a cinesemana de 24 a 30 de setembro de 2026 traz duas estreias, uma mostra e várias exibições especiais. Um dos destaques é a MOSTRA ANDRZEJ WAJDA: O ROMÂNTICO DO CINEMA POLONÊS, com seis longas do diretor produzidos nas décadas de 1960 e 1970. Também temos a estreia de dois filmes brasileiros: NEM TODA HISTÓRIA DE AMOR ACABA EM MORTE, de Bruno Costa, protagonizado por uma atriz surda; e VIRTUOSAS, de Cíntia Domit Bittar, que fez parte da seleção do Fantaspoa.

Entre as sessões especiais, haverá a exibição de YONLU!, de Hique Montanari, dentro da programação do Setembro Amarelo, e mais uma exibição do ciclo PRESERVAÇÃO E HISTÓRIA DO CINEMA GAÚCHO, que trata dos cinejornais da D.G. Filmes (anos 60). A semana também é de Sessão Nostalgia, que traz o clássico EDWARD MÃOS DE TESOURA, do diretor Tim Burton.

Seguem em cartaz os longas europeus OS TRAPACEIROS DE GARIBALDI, de Roberto Andò; TRÊS VEZES ADEUS, de Isabel Coixet; e MIRRORS NO. 3, de Christian Petzold. O público ainda tem chance de assistir à comédia MUITO PRAZER, de Jorge Furtado, sobre três jovens que tentam reabrir um motel decadente, e o campeão de bilheteria ACAMPAMENTO MIASMA, um terror slasher assinado por Jane Schoenbrun.

Esta é a última semana de exibições dos documentários GONZAGUINHA, DA MAIOR LIBERDADE, dirigido por Susanna Lira e vencedor do Festival de Gramado; e SANTIAGO, de Henrique de Freitas Lima, sobre a trajetória do cartunista gaúcho, além dos longas A QUINTA PORTUGUESA, de Avelina Prat; e AS CORES DO TEMPO, de Cédric Klapisch.

Confira a programação completa da cinemateca Paulo Amorim clicando aqui. 

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Cine Dica: Em Cartaz - 'Virtuosas'

Sinopse: Acompanha um retiro VIP para mulheres cristãs em busca da "melhor versão" de sua feminilidade. Liderado pela coach Virgínia (Bruna Linzmeyer), o grupo mergulha em um cenário de controle e isolamento, onde a busca pela perfeição se torna uma perigosa descida à loucura.

Em tempos atuais, nos quais os assuntos sobre política e religião estão cada vez mais acalorados em território brasileiro, é sempre interessante ver o cinema nacional explorar esses temas. Ao mesmo tempo, assim como ocorre em outros países, o nosso cinema tem explorado cada vez mais o horror psicológico em detrimento do tradicional, pois o mundo real parece estar se tornando mais assustador do que qualquer ficção. "Virtuosas" (2025) é aquele caso de filme pequeno em escopo, porém grande em impacto, que retrata uma história situada em um único cenário, mas que sintetiza o que o país está vivendo.

Dirigido por Cíntia Domit Bittar, a trama acompanha um grupo de mulheres cristãs selecionadas por sorteio para participarem de uma imersão exclusiva com o objetivo de "aumentar a feminilidade", explorando a ótica das coaches de comportamento. O que algumas não sabem é que esse isolamento se transformará em um verdadeiro inferno.

Nesta era em que a Geração Z cria influenciadores virtuais a todo momento, é curioso notar como isso se tornou banal; há um surgimento constante desse tipo de celebridade, embora muitas sejam esquecidas rapidamente. Ao fazer um retrato dessa mania atual, Cíntia Domit Bittar nos revela o lado falso e hipócrita desse universo, principalmente vindo daqueles que pregam "bons costumes" através de passagens bíblicas usadas como mera cortina de fumaça. Qualquer semelhança com a nossa realidade pré-eleições não é mera coincidência.

Com um orçamento enxuto, a diretora usa a criatividade para transmitir uma sensação claustrofóbica através do cenário principal, que aos poucos se revela um ambiente estranho. Com a câmera sempre em movimento, vemos quase sempre algo acontecendo em primeiro plano, enquanto detalhes ao fundo nos deixam apreensivos — algo semelhante ao que foi visto no já clássico "Hereditário"(2018), guardadas as devidas proporções.

Verdade seja dita, a câmera torna-se uma extensão do nosso olhar, adentrando aquele ambiente e fazendo-nos sentir impotentes perante os eventos orquestrados pela personagem Virgínia. Ela usa seu talento de persuasão para manipular o grupo de acordo com seus desejos. Bruna Linzmeyer nos brinda com uma atuação assombrosa; seu olhar de controle e fúria contida sintetiza um ser ambicioso que instrumentaliza a religião em benefício próprio.

Transitando entre crendices e lógica, o filme é um retrato de uma parcela de um Brasil "zumbificado", seja pela palavra de falsos profetas, de líderes políticos ou de influenciadores que se dizem detentores da verdade. Por conta disso, o longa termina de forma abrupta, deixando-nos a refletir sobre as consequências do descontrole no ato final. Ao meu ver, o final em aberto nada mais é do que o reflexo de um Brasil cujo futuro se encontra indefinido neste momento.

"Virtuosas" é um horror psicológico fictício, mas não muito distante do cenário atual brasileiro.

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Cine Dica: Newsletter Cinemateca Capitólio - 24 a 30 de setembro de 2026

 Da literatura tchecoslovaca ao cinema chinês: encontros e paisagens distantes em uma semana de programação gratuita na Cinemateca Capitólio

Entre 24 e 30 de setembro, a Cinemateca Capitólio dá continuidade à programação da quinta edição da mostra tchecoslovaca, intitulada Literakino: entre palavras e imagens da Tchecoslováquia, que neste ano investiga as relações entre literatura e cinema com produções realizadas entre 1930 e 1980. A semana também reúne uma sessão especial de Travellings: curtas-metragens da Sinosfera, duas exibições de documentários chineses e a continuidade da mostra As Mulheres de Altman.


Toda a programação tem entrada franca.

Literakino em sessão especial com o Clube de Cinema e debate de Trens Estreitamente Vigiados. Até 11 de outubro, a Cinemateca Capitólio apresenta a mostra tchecoslovaca que, neste ano, dedica o foco em produções fílmicas que dialogam com obras literárias.

Com um recorte histórico que percorre produções realizadas entre as décadas de 1930 e 1980, a programação reúne adaptações de obras de autores como Božena Němcová, Karel Čapek, Jaroslav Hašek, Vítězslav Nezval, Milan Kundera e Bohumil Hrabal, além de filmes criados a partir de diferentes universos literários.

No sábado, 26 de setembro, às 10h, a Cinemateca recebe uma sessão em parceria com o Clube de Cinema de Porto Alegre, cineclube mais antigo em atividade no Brasil. O filme escolhido é Três Veteranos (1983), de Oldřich Lipský, adaptação livre do conto homônimo de Jan Werich, importante ator, dramaturgo e escritor tcheco que integrou o grupo vanguardista Devětsil, ativo nas décadas de 1920 e 1930. Na história, três soldados dispensados com honras precisam reaprender a apreciar os dons mágicos da vida. O filme parte de um conto publicado por Werich no livro Fimfárum, de 1960, e transforma a narrativa em uma fábula cinematográfica marcada pelo humor e pela fantasia.

Ainda no sábado, às 19h, é a vez de Trens Estreitamente Vigiados (1966), de Jiří Menzel, um dos filmes mais conhecidos do cinema tchecoslovaco dos anos 1960 e vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1968. Adaptado da novela homônima de Bohumil Hrabal, o filme acompanha Miloš Hrma, um jovem aprendiz de despachante que trabalha em uma pequena estação ferroviária na Boêmia durante a ocupação nazista. Entre a rotina da estação, a presença da guerra e suas próprias descobertas, Miloš atravessa um processo de amadurecimento e inicia sua passagem para a vida adulta. Após a sessão, o filme será debatido por Danilo Hora, editor de livros e um dos curadores da Coleção Leste da Editora 34, e pelos curadores e produtores da mostra Leonardo Bomfim e Věra Matysíková.

Confira a programação completa no site oficial da cinemateca clicando aqui.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'GONZAGUINHA DA MAIOR LIBERDADE'

Sinopse: "Gonzaguinha, Da Maior Liberdade" é um filme que busca resgatar em letras, imagens e sons a fúria e a poesia de um dos artistas mais importantes para a construção e a discussão popular de nossa história democrática: Luiz Gonzaga Jr.

Ao crescer durante a década de oitenta, tive a chance de ouvir diversas músicas de Gonzaguinha. Porém, por ser muito jovem, nunca tive a dimensão de quanto ele esteve no centro das transformações pelas quais o país passava na época. "Gonzaguinha da Maior Liberdade" (2026) resgata essa figura fascinante e mostra como ele foi fundamental para a nossa música.

Dirigido por Susanna Lira — do premiado documentário "Torre das Donzelas" (2018) —, o filme revisita a trajetória de Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, o Gonzaguinha, um dos nomes mais expressivos da Música Popular Brasileira e da construção da memória democrática do país. Por meio de imagens de arquivo, canções e registros históricos, a produção resgata uma obra marcada pela poesia, pela indignação e pelo desejo visceral de liberdade.

Diferente do que se poderia imaginar, o documentário não recorre a entrevistas com parentes ou conhecidos próximos do cantor, mas sim a uma rica seleção de cenas de arquivo em que o próprio Gonzaguinha solta a voz. Ao mesmo tempo, a linguagem documental dialoga com a ficção por meio de cenas de reconstituição, nas quais o artista — interpretado por André Dale — aparece sendo entrevistado por dois repórteres. Trata-se da recriação de uma das inúmeras sabatinas reais concedidas pelo músico, recurso que ajuda a revelar a sua personalidade por inteiro.

Na contramão de seu pai, Gonzaguinha optou por construir uma carreira cujas canções sintetizavam um Brasil em metamorfose, em meio à transição gradual da ditadura para a redemocratização. Ao mesmo tempo em que criava pérolas do repertório nacional, sofria as represálias da censura, o que o tornava ainda mais altivo e rebelde diante da tirania. Músicas como "Comportamento Geral" fizeram com que o cantor ficasse sob a mira do regime, arriscando-se a ser preso ou deportado.

Para traduzir esse espírito, Susanna Lira aposta em uma montagem ágil e enérgica, sobrepondo as canções do artista a imagens de protestos populares contra o regime militar — eventos dos quais o próprio cantor participou ativamente. Talvez o ápice dessa construção esteja no resgate dos acontecimentos em torno do atentado do Riocentro, a frustrada tentativa dos setores duros da ditadura de frear a abertura política. Assim, a obra não serve apenas para nos reaproximar do artista, mas também como uma janela necessária para a nossa própria história.

O documentário reserva espaço, ainda, para a emocionante reconciliação entre Gonzaguinha e seu pai. Duas figuras gigantescas da nossa música, trilhando caminhos estéticos e políticos distintos, mas unidos pela mesma paixão pela arte. Ironicamente, pai e filho partiram com um intervalo de menos de dois anos, deixando uma lacuna imensa, mas também um legado que continua sendo redescoberto por novas gerações. Gonzaguinha deixou seu recado gravado em canções que se fixaram de forma definitiva no imaginário popular brasileiro.

"Gonzaguinha da Maior Liberdade" é o retrato vigoroso de um grande artista cujo ápice criativo e poético coincidiu com um Brasil em profunda transformação.

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