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Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Rio de Clarice'

Sinopse: Longa-metragem brasileiro que adapta cinco contos clássicos de Clarice Lispector para o cinema.

A palavra antologia refere-se a uma coleção de textos, músicas ou filmes reunidos em uma única obra. Quando procuro me lembrar do meu primeiro contato com esse tipo de estrutura, vem-me à mente os longas de horror do estúdio inglês Amicus, que, por sua vez, baseavam-se em clássicos literários ou até mesmo em HQs, como "Contos da Cripta". No "caso de Rio de Clarice" (2026), trata-se de um filme que explora o universo literário da escritora Clarice Lispector, tornando-se uma espécie de cartão de visita para aqueles que nunca leram seus contos.

Dirigido por Eunice Gutman, Maria Luiza Aboim, Taciana Oliveira, Barbara Kahane e Nicole Algranti, o filme reúne cinco adaptações dos contos da escritora em episódios comandados por essas cinco diretoras. Inspirando-se nas obras "Feliz Aniversário", "Mal-estar de um Anjo", "A Bela e a Fera", "Amor" e "Preciosidade", o filme explora o lado intimista de Clarice e o universo particular das mulheres.

Sem sombra de dúvida, a adaptação mais famosa da obra de Clarice Lispector para o cinema é "A Hora da Estrela" (1985), de Suzana Amaral, na qual a ingenuidade da protagonista faz com que nos identifiquemos de forma profunda. Uma das últimas adaptações a que eu havia assistido no cinema foi "A Paixão Segundo G.H." (2023), de Luiz Fernando Carvalho, que explorava a solidão e as divisões de classe afetando a protagonista em um verdadeiro jogo psicológico. Esses elementos narrativos são vistos novamente nesta nova adaptação.

Baseado nos contos da autora, as cinco diretoras conseguem retratar com certo êxito os aspectos de tempos mais conservadores, nos quais as mulheres buscam se colocar à frente daquela realidade sufocante. "Feliz Aniversário", por exemplo, é a representação de uma personagem não alinhada à hipocrisia familiar — uma família que se vende como perfeita, mas não consegue esconder seus "esqueletos no armário" ao longo da história. Em todos os episódios, a figura masculina fica em segundo plano, como se a presença dos homens fosse irrelevante ou até alienada perante a complexidade do universo feminino.

Particularmente, gostei muito do segmento "Mal-estar de um Anjo", graças à atuação da atriz Letícia Spiller. Inicialmente, a ex-paquita nunca havia me convencido como atriz, percepção que começou a mudar a partir de sua atuação no curta "O Pulso" (1997), dirigido por José Pedro Goulart. Aqui nesta trama, nota-se como a intérprete consegue nos transmitir toda a dúvida e confusão mental a partir do momento em que conhece outra personagem dentro de um táxi, fazendo disso o ponto de ignição para seus conflitos internos.

Em suma, são histórias sobre o papel das mulheres perante um mundo dominado por homens, onde os abusos moral e físico se fazem presentes, mas sem fazer com que elas sucumbam às sombras. Clarice Lispector talvez tenha visto desde cedo o lado duro desse universo cheio de regras, fazendo com que suas personagens se desprendam de correntes invisíveis impostas pela sociedade. Ao menos até aqui, as adaptações cinematográficas têm feito jus à sua força.

"Rio de Clarice" é um convite instigante para aqueles que nunca adentraram o universo literário de Clarice Lispector, despertando o desejo de procurar seus livros no sebo mais próximo.


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Cine Dica: Newsletter Cinemateca Capitólio - 27 de agosto a 2 de setembro

Mostra Hector Babenco, festival POADOC e últimas exibições de Futuro Futuro e Os Ruminantes na semana da Cinemateca Capitólio

A Cinemateca Capitólio encerra seu mês de agosto em alto estilo, realizando entre os dias 27 e 30 de agosto uma pequena mostra dedicada ao diretor argentino-brasileiro Hector Babenco (1946–2016), que completaria 80 anos em 2026. Autor de uma das mais importantes filmografias do cinema brasileiro, Babenco também teve uma breve passagem pelo cinema americano após o sucesso internacional de O Beijo da Mulher Aranha (1985), assinando duas grandes produções hollywoodianas, Ironweed (1987) e Brincando nos Campos do Senhor (1991). A mostra organizada pela Capitólio em homenagem ao diretor destaca justamente essa fase da carreira de Babenco, exibindo ainda os três títulos que o consagraram no Brasil, O Rei da Noite (1975), Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977) e Pixote, a Lei do Mais Fraco (1980). Todos filmes menos conhecidos das novas gerações de espectadores, há muito tempo não exibidos no cinema, e em versões restauradas, com cópias em DCP.

A mostra Hector Babenco 80 Anos é realizada em parceria com a HB Filmes e tem entrada franca, com distribuição de senhas 30 minutos antes das sessões. A mostra dedicada a Hector Babenco divide horários com os longas brasileiros Futuro Futuro e Os Ruminantes, em suas últimas exibições. A partir de terça-feira, a Cinemateca Capitólio recebe a programação do festival de documentários POADOC.

Confira a programação completa no site oficial da cinemateca clicando aqui. 

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Cine Dica: Em Cartaz - 'Muito Prazer'

Sinopse: Um motorista de aplicativo herda um motel em ruínas e se envolve em um esquema inusitado de gravação de clientes para sair das dívidas.

Em "Motel Destino" (2024), um foragido endividado se esconde em um motel e passa a conviver naquele universo proibido. Em "Pagando Bem, Que Mal Tem?" (2008), um grupo de amigos decide filmar filmes eróticos para pagar as contas. Una as duas ideias no mesmo longa e temos "Muito Prazer" (2026), comédia criativa de Jorge Furtado que fala muito sobre os tempos atuais, nos quais estamos cada vez mais sujeitos a ser capturados por câmeras indiscretas.

Na trama, conhecemos Rubem (Daniel de Oliveira), que herda o motel de seu falecido tio. No local ainda vive Grace (Luisa Arraes), ex-funcionária que também se encontra atolada em dívidas. Ao lado da especialista em vídeo Nalva (Samantha Jones), eles decidem usar o estabelecimento para filmar os clientes dentro dos quartos e faturar na internet — sem saber que isso é apenas a ponta do iceberg.

Jorge Furtado é aquele tipo de cineasta que sabe transitar por diversos gêneros, da comédia ao drama, passando pelos documentários. No caso do humor, ele alcança um tom refinado, alinhado a doses de reflexão que conquistam a nossa simpatia de imediato. Foi assim com o genial "O Homem Que Copiava" (2003) e com "Saneamento Básico", O Filme (2007) — este último, uma verdadeira aula sobre como realizar um longa de baixo orçamento com extrema criatividade. Em "Muito Prazer", a premissa não foge a essa regra.

Com pouco dinheiro no bolso, os protagonistas passam a produzir conteúdo adulto de forma indireta, utilizando os clientes do motel em ação e manipulando as imagens para deixar tudo mais interessante. É aí que mora a inteligência do diretor: criar um mosaico sobre até que ponto a imagem pode ser alterada hoje em dia, combinando velhos recursos de vídeo ao avanço da inteligência artificial no nosso cotidiano. O resultado é uma trama que dosa momentos de humor refinado com pitadas calientes, sem nunca soar grosseira ou apelativa.

Destaque para Daniel de Oliveira, um ator versátil que raramente explorou a veia cômica e que aqui surpreende em cena. Sua química com Luisa Arraes é outro ponto alto: a atriz constrói uma personagem inicialmente enigmática e carismática, que aos poucos revela suas reais facetas à medida que baixa a guarda para o protagonista. Embora o espectador preveja o rumo da relação, o casal central conquista do início ao fim.

Em suma, Jorge Furtado constrói uma narrativa repleta de simbolismos familiares a quem acompanha os debates sobre o sexo explícito no ambiente virtual. O mérito do longa é nos lançar nesse universo não pelo choque, mas pela provocação: faz refletir sobre como o tema se tornou banal e corriqueiro, a ponto de nem o conservadorismo atual conseguir silenciá-lo. Ou aceitamos o mundo como ele é, ou continuamos acreditando na cegonha.

"Muito Prazer" é um belo exemplo de como o humor pode ser inteligente sem descambar para o apelo fácil — mesmo quando decide espiar o que acontece entre quatro paredes.

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Cine Dica: PROGRAMAÇÃO CINEBANCÁRIOS 27 DE AGOSTO A 02 DE SETEMBRO

"Muito Prazer", novo filme de Jorge Furtado, e "Nosso Segredo", de Grace Passô, estreiam no CineBancários dia 27 de agosto crédito_Fabio Rebelo_Muito Prazer_Daniel de Oliveira, Luisa Arraes e Samantha Jones.

“Muito Prazer”, nova comédia de Jorge Furtado estrelada por Luisa Arraes, Daniel de Oliveira e Samantha Jones, estreia dia 27 de agosto às 19h no CineBancários. O longa, que acompanha a história de três amigos que se envolvem em um esquema inusitado para escapar das dívidas, divide a programação com “Nosso Segredo”, de Grace Passô, que estreia na sessão das 17h. 

Estrelado por Luisa Arraes (“Grande Sertão”), Daniel de Oliveira (“Cazuza”) e Samantha Jones (“Renascer”), “Muito Prazer” acompanha um trio que tenta salvar um motel decadente em plena era digital e acaba diante de uma pergunta tão inusitada quanto contemporânea: "como fazer um motel sobreviver em um mundo onde os algoritmos parecem entregar todas as fantasias sem que ninguém precise sair de casa?”

Rubem (Daniel de Oliveira) herda um antigo motel do seu tio, uma propriedade que ele acredita estar abandonada. Ao chegar no local, ele encontra Grace (Luisa Arraes), ex-funcionária do estabelecimento, que vive no imóvel fechado. Para quitar as dívidas de ambos, eles decidem reativar o “Motel Pérola”, e, com a ajuda de Nalva (Samantha Jones), desenvolvem um plano inesperado para salvar o estabelecimento.

“O cinema brasileiro tem uma longa tradição de comédias, sempre foram os filmes de maior público e de maior bilheteria, desde o tempo das chanchadas da Atlântida até hoje. Entre os 50 filmes brasileiros de maior bilheteria do século XXI, 33 são comédias,” lembra Jorge Furtado sobre um histórico do cinema brasileiro, que revela o potencial do gênero. E continua: “Eu gosto muito de comédias, e espero que esse filme, 'Muito Prazer', seja muito bem recebido pelo público”. Uma produção da Casa de Cinema de Porto Alegre em coprodução com a Globo Filmes, o longa traz ainda em seu elenco Drica Moraes (“Pérola”) e Felipe Velozo (“Mar do Sertão”). A distribuição é da Elo Studios.

Após estreia no Festival de Cinema de Gramado, "Nosso Segredo", primeiro longa dirigido por Grace Passô, chega ao CineBancários.

Depois de uma trajetória de destaque em importantes festivais internacionais, o primeiro longa-metragem dirigido por Grace Passô chega ao cinema da Casa dos Bancários. Filmado em Belo Horizonte, "Nosso Segredo" acompanha uma família que tenta reconstruir sua rotina após uma perda recente. Enquanto cada integrante enfrenta o luto à sua maneira, o filho caçula guarda um segredo capaz de transformar a forma como todos atravessam esse processo. 

O elenco reúne Robert Frank, Ju Colombo, Efraim Santos, Jéssica Gaspar, Flip, Marisa Revert e Juan Queiroz, além das participações especiais de Mateus Aleluia, referência histórica da música brasileira como integrante dos Tincoãs, e da cantora e compositora Tássia Reis, grande nome da música contemporânea brasileira, ambos estreiam como atores pela primeira vez no cinema. Selecionado para a mostra Perspectives, dedicada a cineastas em seu primeiro longa-metragem no Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale), 

"Nosso Segredo" reafirma Grace Passô como uma das vozes mais potentes da criação artística brasileira contemporânea, agora também na direção de cinema. Após a estreia mundial na Alemanha, o filme passou por importantes festivais na França, Uruguai, Argentina e Jordânia, consolidando sua trajetória internacional antes de chegar ao público brasileiro.

A trilha sonora original é assinada por Amaro Freitas, um dos pianistas brasileiros de maior reconhecimento internacional na atualidade. Vencedor do Prêmio Paul Acket, concedido pelo tradicional North Sea Jazz Festival, além do Prêmio APCA e do Prêmio Multishow, o músico também foi indicado ao Grammy Latino e é presença constante nos principais festivais de jazz do mundo. Reconhecido por unir o jazz contemporâneo às tradições musicais afro-brasileiras, Amaro imprime ao filme uma atmosfera sensível e profunda, ampliando a força emocional da narrativa.


PROGRAMAÇÃO CINEBANCÁRIOS DE  27  DE AGOSTO A 02 DE SETEMBRO

ESTREIAS:

MUITO PRAZER

Brasil/ Comédia/2026/ 98min.

Direção:Jorge Furtado

Sinopse: Rubem, um motorista de aplicativo sem perspectivas, recebe uma herança inesperada: o Motel Pérola, que logo descobre ser um prédio em ruínas. Lá ele conhece Grace, ex-funcionária que ficou morando numa das suítes quando o motel fechou. Sem conseguir vender o imóvel e atolados em dívidas, Grace e Rubem unem-se para reativar o motel. Quase de brincadeira, com a ajuda de Nalva, que sabe tudo de internet, eles começam a gravar seus clientes e, para fazer algum dinheiro extra, a vender os vídeos, com identidades protegidas, para sites eróticos. O esquema se torna rapidamente lucrativo e, como era de se esperar, perigoso. 

Elenco: Luisa Arraes, Daniel de Oliveira, Samantha Jones, Felipe Velozo.


NOSSO SEGREDO

Brasil/ Drama/2025/109 min.

Direção: Grace Passô

Sinopse: Nosso Segredo conta a história de uma família negra que tenta reconstruir sua rotina após uma perda recente. Enquanto cada um foge do luto à sua maneira, o filho caçula guarda um segredo capaz de encarar as raízes de suas dores e, juntos, descobrirem um novo caminho 

Elenco: Ju Colombo, Robert Frank, Marisa Revert, Jessica Gaspar, Efraim Santos.


EM CARTAZ:

ANISTIA 79

Brasil/Documentário/105min.

Direção: Anita Leandro

Sinopse: Roma, junho de 1979. Exilados brasileiros filmam a Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, o maior encontro da esquerda brasileira fora do país. Quase meio século depois, essas imagens reacendem o debate sobre a manutenção do aparato repressivo da ditadura e a impunidade dos torturadores. 



HORÁRIOS DE 27 DE AGOSTO A 02 DE SETEMBRO

(não há sessões nas segundas)


15h: ANISTIA 79

17h: NOSSO SEGREDO

19h: MUITO PRAZER


Ingressos

Os ingressos podem ser adquiridos a R$ 14 na bilheteria do CineBancários. Idosos (as), estudantes, bancários (as), jornalistas sindicalizados (as), portadores de ID Jovem e pessoas com deficiência pagam R$ 7. São aceitos cartões nas bandeiras Banricompras, Visa, MasterCard e Elo. Nas quintas-feiras, a meia-entrada (R$ 7) é para todos e todas.


CineBancários

Rua General Câmara, 424 – Centro – Porto Alegre

Mais informações pelo telefone (51) 3030.9405 ou pelo e-mail cinebancarios@sindbancarios.org.br


Amanda Zulke 

CineBancários | SindBancários 

(51) 3030-9400 | (51) 99920-6484


C i n e B a n c á r i o s 

Rua General Câmara, 424, Centro 

Porto Alegre - RS - CEP 90010-230 

Fone: 51- 30309405

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Cine Dica: Em Cartaz — ‘Nosso Segredo’

Sinopse: Uma família negra tenta reconstruir sua rotina após uma perda recente. Enquanto cada um foge do luto à sua maneira, o filho caçula guarda um segredo capaz de encarar as raízes de suas dores e, juntos, descobrirem um novo caminho.

Grace Passô é um daqueles grandes talentos brasileiros que chamam atenção aos poucos e logo conquistam o público e a crítica. Foi a partir de atuações marcantes em "Temporada" (2018) e, principalmente, "Praça Paris" (2017) que ela me chamou atenção, já revelando potencial para atuar em outros setores da indústria. Essa expectativa se confirma em "Nosso Segredo" (2026), longa em que ela assume a direção com maestria, explorando o lado psicológico dos personagens e transformando a própria casa em uma peça fundamental da narrativa.

Na trama, acompanhamos o cotidiano dessa família no momento em que o silêncio e a dificuldade de expressar a dor acabam ampliando as distâncias entre seus membros. No centro da história está o filho caçula, detentor de um segredo capaz de transformar a forma como todos enxergam a ausência que os marcou.

Ao assistir ao filme, é inevitável recordar o clássico literário "A Queda da Casa de Usher" (1839), de Edgar Allan Poe — adaptado para o cinema em 1960 por Roger Corman. Em ambas as obras, o cenário principal é uma estrutura que dá sinais de deterioração e colapso iminente, enquanto os personagens agem como se estivessem doentes ou amaldiçoados, sugerindo que as manifestações do espaço físico espelham a condição mental e física de seus moradores. Grace Passô estabelece uma dinâmica semelhante com rara sensibilidade.

Gradualmente, conhecemos cada integrante da família: desde o irmão mais velho, que trabalha como motorista de aplicativo, até o caçula que, mesmo pequeno, demonstra astúcia suficiente para notar que há algo estranho naquela casa. A residência ganha o status de personagem primordial já na sequência em que o irmão mais velho entra no imóvel e a diretora mostra a que veio. Nota-se a mão firme nos planos-sequência: mesmo em um espaço reduzido, a câmera nos dá a exata dimensão do cenário e da posição que cada um ocupa naquele núcleo.

As reações diante do luto são distintas e multifacetadas. O irmão do meio não sabe ao certo como se inserir no mundo; a irmã não enxerga em seu relacionamento afetivo algo sólido para o futuro; já o mais velho transita entre a lucidez do presente e as memórias de um passado dourado ao lado do pai — memórias que, contudo, não escondem a sombra da perda. É por meio desses devaneios que compreendemos melhor a origem do caçula e a real dimensão da figura paterna.

Passô constrói uma parábola sobre os tempos de medo: aquela família opta pelo isolamento como forma de se proteger de uma realidade ainda profundamente preconceituosa, mas esse mesmo isolamento faz com que o medo se fortaleça e se manifeste na própria casa. Nesse contexto, a interpretação sobre o "coração" daquele cenário surge de forma inesperada e instigante, momento em que o elenco brilha intensamente — com destaque para Robert Frank, o jovem Efraim Santos e a veterana Ju Colombo.

Curiosamente, a diretora não apenas traça uma síntese do medo no presente, como expressa certo temor quanto ao nosso futuro. Se em A Frente Fria Que a Chuva Traz (2016), de Neville d'Almeida, já se liam nas entrelinhas mensagens proféticas sobre o destino do país, o cinema de Grace Passô não fica atrás. Resta-nos torcer para que não sejamos varridos pela intolerância daqueles que se julgam poderosos.

Vencedor do Kikito de Ouro de Melhor Filme no último Festival de Gramado, "Nosso Segredo" é uma obra poderosa em sua mensagem, mostrando que o medo pode se manifestar não apenas dentro de nós, mas também no espaço e na realidade em que vivemos.

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Cine Dica: Do Cáucaso à Sibéria, Sala Redenção promove mostra dedicada às paisagens russas

De 24 a 28 de agosto, a mostra gratuita “Paragens do cinema russo: sessões Mosfilm” da Sala Redenção apresenta um panorama de paisagens russas no cinema, percorrendo regiões que vão do Cáucaso à Sibéria. Os filmes foram produzidos entre as décadas de 1960 e 1980 pelo Mosfilm, estúdio russo centenário e um dos maiores do mundo.

A programação inicia no dia 24, segunda-feira, com “Asas” (1966), de Larisa Shepitko. O drama apresenta a história de Nadezhda Petrukhina, uma ex-pilota de caça da Segunda Grande Guerra que enfrenta dificuldades para se adaptar à nova vida como diretora escolar em uma província russa. A sessão é seguida de conversa com Daniela Rosso, bacharel em Letras pela UFRGS.

Vencedor da categoria “Melhor filme internacional” do Oscar de 1976, “Dersu Uzala” (1975), de Akira Kurosawa, tem exibição no dia 26, quarta-feira. O filme soviético-japonês, adaptação do livro de Vladimir Arsenyev, retrata a amizade de um explorador e cartógrafo com um caçador nas montanhas da Sibéria. A sessão é seguida de conversa com Denise Regina Sales, professora de Língua e Literatura Russas do Instituto de Letras.

“Noites brancas” (1959), de Ivan Pyriev, encerra a programação no dia 28, sexta-feira. O romance, adaptação da obra homônima de Fiódor Dostoiévski, se passa em cinco noites de verão, nas quais o Sonhador se apaixona pela jovem Nastenka enquanto compartilham suas dores e desejos pelas ruas de São Petersburgo. Após a exibição, Daniela Mountian, docente do Setor de Russo do Instituto de Letras da UFRGS, conversa com o público sobre o filme.

A Sala Redenção está localizada no Campus Centro da UFRGS, com acesso mais próximo pela Rua Eng. Luiz Englert, 333. A mostra tem apoio de Mosfilm, CPC-UMES Filmes e Setor de Russo do Departamento de Línguas Modernas da UFRGS.

Confira a programação completa no site oficial da sala clicando aqui. 

domingo, 23 de agosto de 2026

Cine Dica: Streaming – 'X-Men '97: 2ª Temporada'

Sinopse: Após salvarem o mundo, os membros restantes dos X-Men estão espalhados pelo tempo e tentam desesperadamente se reunir no presente.

Beau DeMayo é o verdadeiro responsável por revitalizar a clássica animação dos anos 1990. Criando uma narrativa ambientada um ano após o encerramento da série original, o showrunner deu um salto à frente dentro do gênero ao conceber episódios marcantes como "Lembre-se Disso", conquistando público e crítica. Infelizmente, nem tudo foram flores.

Beau DeMayo acabou sendo demitido pela Disney após denúncias de conduta inadequada dentro e fora do estúdio. Revisitando a excelente primeira temporada, fica a sensação de perda criativa: sem a visão do realizador, o futuro do segundo ano tornou-se incerto. A nova temporada até tenta manter as principais ideias do criador, mas nota-se no decorrer dos capítulos que o ritmo mudou.

A trama acompanha a equipe dividida por diferentes épocas após os eventos catastróficos do ano anterior. Enquanto tentam retornar para casa, o vilão Apocalipse e a ameaça temporal de Rama-Tut/Kang emergem no Egito Antigo, ao passo que a década de 1990 lida com o vazio político e novas formas de intolerância extrema.

Nos episódios em que os mutantes estão perdidos no tempo, a qualidade do roteiro se mantém, trazendo uma carga dramática caprichada que honra o peso das vitórias e perdas anteriores. Porém, em outros momentos, surge a impressão de tramas "enxertadas" — como a solução apressada para o adamantium de Wolverine ou o capítulo em que a Sala de Perigo perde o controle. São arcos que, se fossem cortados, não fariam a menor falta.

Por outro lado, Apocalipse ganha aqui uma construção narrativa infinitamente superior à vista nos cinemas em "X-Men: Apocalipse" (2016). É um personagem trágico e imponente, cujas ações afetaram a linha temporal de todos os mutantes. O embate entre ele e Magneto se destaca não apenas como um dos pontos altos da série, mas como um exemplo de coragem criativa sem medo da reação dos fãs.

Infelizmente, a solução encontrada para o retorno de Gambit não convence, chegando a esvaziar o peso do sacrifício visto na temporada passada. Tudo é muito apressado: há muita ação, mas que por vezes perde o impacto por falta de emoção nas entrelinhas. Ao menos os minutos finais garantem o gancho necessário para nos deixar ansiosos por novos capítulos.

"X-Men '97: 2ª Temporada" perde o fôlego em comparação ao ano de estreia, mas ainda preserva o interesse e prende a nossa atenção.

Onde Assistir: Disney+

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