Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte.
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Sinopse: Com acesso inédito ao Senado, o filme acompanha por dentro a trajetória da CPI da Covid-19 e transforma esse registro em um retrato de um dos períodos mais marcantes e difíceis da nossa história recente.
Há quem diga que o brasileiro possui memória curta e, infelizmente, isso é verdade. Basta olharmos para exemplos recentes de nossa história, em que o país foi assolado pela desinformação disseminada por falsos líderes e profetas, provocando diversas tragédias. Seis anos atrás, o mundo passou pelo seu momento mais crítico de saúde pública devido à pandemia da Covid-19. Muito provavelmente, você deve ter perdido algum parente ou amigo para a doença porque ele acreditou que se tratava de uma "mera gripezinha", persuadido pelo discurso dos poderosos.
O Brasil instaurou uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar a negligência do governo federal. E no que deu essa CPI? Infelizmente, parece que a verdade nunca é o suficiente; basta surgirem certos favores para que determinados atores cubram os fatos em nome de lucros futuros. O documentário "Anatomia do Caos" (2026), que acaba de entrar em cartaz, resgata essa revolta em todos os sentidos.
Dandara Ferreira, que codirigiu a cinebiografia "Meu Nome é Gal" (2023), decidiu usar os recursos que tinha em mãos para registrar os acontecimentos de forma direta. Ela não recorreu a entrevistas atuais e tampouco a uma retrospectiva linear sobre o início e o fim da pandemia. Todo o foco dramático gira em torno da CPI e, a partir dela, expõe os erros, acertos e omissões de políticos, médicos e empresários que se recusavam a ver a engrenagem do sistema parar.
Aqueles que acompanharam as transmissões diárias pela TV Senado na época podem pensar que já viram tudo sobre o assunto. No entanto, basta assistir ao documentário como obra cinematográfica para sentir uma raiva até então adormecida. A meta primordial do projeto de Dandara é preservar os fatos e escancarar como os rumos da nossa história poderiam ter sido diferentes. É uma síntese em potência máxima para que as futuras gerações não esqueçam de que o desgoverno da época permitiu que a morte tomasse conta do país durante a sua maior crise sanitária — uma tragédia que vitimou mais de 700 mil brasileiros, incluindo a minha avó e a minha tia.
Além de resgatar as imagens de arquivo da TV Senado, a diretora infiltrou sua própria câmera nos bastidores das sessões para capturar os melhores ângulos e focar nas patéticas declarações daqueles que defenderam medicamentos ineficazes contra o vírus. Talvez um dos momentos mais emblemáticos seja a sequência em que o senador e médico baiano Otto Alencar desmorona a narrativa da doutora Nise Yamaguchi, que tropeça ao tentar defender cientificamente o uso da cloroquina. Fora isso, há um desfile de figuras que sequer mereceriam ser mencionadas, como os empresários negacionistas Carlos Wizard e Luciano Hang, o ex-ministro da saúde Eduardo Pazuello e o deputado federal Osmar Terra, entre outros que foram depor a contragosto.
Revendo esse passado, a indignação só aumenta. Dandara Ferreira revela em "Anatomia do Caos" um Brasil recente em que as feridas da dor ainda estão abertas, por mais que existam aqueles que desejam, a todo custo, que nós as esqueçamos.
Sinopse: Após a perda do marido, uma mulher enlutada busca consolo com os sogros na isolada casa de campo da família. No entanto, o reencontro logo se transforma em um inferno na Terra quando o Livro dos Mortos liberta forças demoníacas.
Sam Raimi é um daqueles realizadores criativos que, mesmo com pouco dinheiro no bolso, conseguiu dar vida a "A Morte do Demônio" (1981) — ou "Uma Noite Alucinante", como ficou conhecido por aqui. Com o sucesso e mais recursos no bolso, ele realizou "Uma Noite Alucinante 2" (1987), filme que defendo como a sua maior obra-prima. Ali, o cineasta fez tudo o que tinha direito: criou uma câmera frenética, usou e abusou do gore e fortaleceu o que hoje chamamos de "terrir". Embora dividindo a opinião do público e da crítica na época, "Uma Noite Alucinante 3" (1992) encerrou a trilogia com dignidade, consagrando o ator Bruce Campbell como uma das figuras mais pop do gênero de horror.
No decorrer dos anos, Raimi invadiu novos territórios ao se aventurar nas adaptações de quadrinhos, comandando a ótima trilogia do "Homem-Aranha" (2002–2007). Porém, o universo de horror que ele havia iniciado sempre ficou à espreita, esperando o momento de retornar. Era questão de tempo para que víssemos o Livro dos Mortos despertar os demônios novamente no mundo dos vivos. Curiosamente, Sam Raimi optou por seguir nesta nova empreitada no papel de produtor, convocando novos talentos para assumir a direção.
O recomeço se iniciou com "A Morte do Demônio" (2013), de Fede Alvarez, que é basicamente uma releitura do clássico, só que bem mais violenta e sem o humor do enredo original. Dez anos se passaram até que veio "A Morte do Demônio: A Ascensão" (2023), de Lee Cronin, que revitalizou a franquia ao mudar completamente o cenário dos acontecimentos e resgatar um pouco do humor ácido dos primeiros longas. E chegamos, enfim, a A Morte do Demônio: Em Chamas (2026), produção que aposta alto na violência física, mas que traz novidades que podem dividir as plateias.
Dirigido pelo francês Sébastien Vaniček (do tenso "Infestação", de 2023), o longa acompanha uma jovem (Souheila Yacoub) que acabou de perder o marido em um misterioso acidente. Logo após a tragédia, ela busca refúgio no lar dos sogros junto de seu cunhado e da namorada dele. Porém, tudo se torna um caos quando descobrem que o falecido avô da família pesquisava sobre o Livro dos Mortos, desencadeando uma nova onda de possessões no local.
Para aqueles que possuem um olhar atento, o filme começa com uma sutil interligação com o longa anterior, mas mantém uma narrativa acessível para que os marinheiros de primeira viagem compreendam a trama. Em poucos minutos, Vaniček já demonstra familiaridade com os diretores que o antecederam no quesito técnico, utilizando uma câmera frenética e uma edição rápida que quase não dão chance para o público respirar. É como se o realizador nos implorasse para não tirar os olhos da tela, provocando uma sensação de vertigem que quase nos faz perder o fôlego já na sequência de abertura.
Ao menos o roteiro dá espaço para a apresentação dos personagens principais. A história não explora somente o horror sobrenatural, mas também o drama de uma família fragmentada e o abuso que o falecido praticava contra a esposa. É uma alfinetada inteligente do roteiro: não é preciso a presença de demônios para que as pessoas demonstrem o seu pior lado. Quando as forças malignas finalmente surgem, fica a impressão de que elas apenas deram um empurrão naquilo que já estava ladeira abaixo.
Em termos técnicos e de atuação, é preciso reconhecer que existem passagens extremamente aflitivas, desde os discursos no funeral — poluídos pelo barulho ensurdecedor do lado de fora — até a tensa cena do jantar, onde os segredos familiares são expostos logo antes de a casa se transformar em um verdadeiro inferno. Embora já tenhamos uma ideia do que vai acontecer, as consequências causam um impacto inegável.
Curiosamente, o filme é bastante violento, mas tem o seu lado gore camuflado por uma fotografia extremamente sombria, o que acaba suavizando o impacto visual de certas cenas. Claro que ainda é preciso ter estômago para os momentos de mutilação e decapitação, que vêm alinhados a pitadas de humor negro capazes de provocar um sorriso nervoso no canto da boca. Não se compara ao nível do que Raimi criou no passado, mas constrói uma atmosfera muito mórbida.
O elenco principal cumpre bem o que o roteiro pede, embora fique a sensação de que os atores poderiam ter ido além se tivessem mais espaço de desenvolvimento. Souheila Yacoub constrói uma protagonista que já havia enfrentado a violência na vida real, desabrochando de vez perante um horror inexplicável e submetendo-se às piores provações imagináveis. Uma pena que a sua jornada e o desfecho de sua personagem soem semelhantes demais ao que vimos no excelente "O Casamento Sangrento" (2019), carecendo um pouco de originalidade nesse aspecto.
Embora o saldo seja satisfatório, o que temo é que esses filmes se transformem em uma engrenagem sem fim, ao ponto de Hollywood inventar um "universo expandido" para a marca. Digo isso porque o longa conta com duas cenas pós-créditos que revelam o destino de alguns personagens, funcionando claramente como um gancho para o futuro. Em tempos atuais, onde a criatividade da indústria parece escassa, nada mais me surpreende.
No fim, "A Morte do Demônio: Em Chamas" prova que a franquia iniciada por Sam Raimi ainda tem muito fôlego a oferecer, mas é exatamente essa insistência comercial que pode gerar um desgaste inevitável a longo prazo.
“Pantufa e cobertor” é a nova mostra da Sala Redenção, o cinema da UFRGS. A programação reúne filmes de diversas décadas e gêneros cinematográficos que, em comum, evocam conforto e aconchego a quem assiste. As exibições acontecem entre os dias 13 e 24 de julho, com entrada franca e aberta à comunidade em geral. Durante este período, a Sala Redenção recebe doações de agasalhos para posterior distribuição a entidades assistenciais.
A mostra estreia no dia 13, às 16h, com uma sessão especial em celebração ao Dia do Rock. Em seguida, às 19h, é exibido “Charada” (1963) de Stanley Donen, longa-metragem estrelado por Audrey Hepburn e Cary Grant. O filme, vencedor do BAFTA Film Awards e indicado ao Oscar e ao Globo de Ouro, acompanha Regina, uma viúva perseguida por criminosos que querem roubar a fortuna de seu falecido marido.
Outros destaques da programação são “Homem do futuro” (2011), de Cláudio Torres, comédia de estética hollywoodiana estrelada por Wagner Moura; “Playlist” (2021), de Nine Antico, homenagem à Nouvelle Vague Francesa; e “Meu bolo favorito” (2024), do casal iraniano Maryam Moqadam e Behtash Sanaeeha, premiado no Festival Internacional de Cinema de Berlim, em 2024.
A mostra também conta com uma sessão-surpresa em homenagem a Yasujirô Ozu, no dia 17 de julho, às 19h. A obra do diretor e roteirista japonês retrata temas como casamento, relações familiares e transformações da sociedade japonesa. O uso da câmera próxima ao chão, na altura do olhar de alguém sentado em um tatame, marcou o estilo do cineasta, ganhando o nome de “tatami shot”.
A Sala Redenção está localizada no Campus Centro da UFRGS, com acesso mais próximo pela Rua Eng. Luiz Englert, 333. A mostra “Pantufa e cobertor” tem apoio de À La Carte, Agência Nacional do Cinema (Ancine), Instituto Cervantes, Aliança Francesa Porto Alegre, IFCinéma, Sesc e Vitrine Filmes.
Confira a programação completa no site oficial da sala clicandoaqui.
Nos primórdios de sua carreira, Pedro Almodóvar talvez tivesse o desejo de extravasar, através de sua arte, algo que não podia ser colocado em prática nos tempos do Franquismo (1939 - 1975). Se isso já era notado em "Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão"(1980), logo foi escancarado em "Maus Hábitos" (1983), obra que fez vários setores ainda defensores dos tempos ditatoriais irem à loucura. "Que Fiz Eu Para Merecer Isto?"(1984) é a desconstrução da família politicamente correta — aquela que sempre esteve lá, porém de forma censurada.
Na trama, Gloria (Carmen Maura) é uma dona de casa infeliz, casada com Antônio (Ángel de Andrés López), um motorista de táxi grosseiro e infiel. Gloria é obrigada a trabalhar incessantemente para sustentar a família, que ainda é composta por um filho traficante, uma sogra excêntrica e outro adolescente, que ela decide "vender" ao seu dentista. Para completar, Gloria, viciada em anfetaminas e remédios, entra em uma fase de abstinência e passa a perder o controle.
Embora a produção tenha sido feita após a extinção da ditadura franquista, no meu entendimento, o filme pode ser interpretado como um simbolismo ou uma representação dos primeiros anos da vida do cineasta como um todo. Os dois irmãos vistos na tela, por exemplo, parecem alter egos de sua pessoa quando jovem — muito embora essa talvez não tenha sido a intenção consciente do realizador, permitindo que o espectador tire suas próprias conclusões. Em contrapartida, as mulheres da história funcionam como a manifestação dos diversos tipos de personalidades femininas que rodeavam o diretor em tempos hoje longínquos.
Se levarmos em conta essa representação de sua juventude, a ideia se solidifica ao notarmos que a fotografia do lado de fora daqueles apartamentos é um tanto acinzentada, como se não houvesse muita expectativa positiva. Em contraposição, o apartamento, mesmo sendo um cenário minúsculo, é repleto de cores quentes e fotografias de artistas, escondendo alguns prazeres que aquela família oculta dos olhares externos. Se em "Maus Hábitos" as personagens buscavam refúgio no convento para suprir suas necessidades, aqui a família tradicional não esconde, do lado de dentro do lar, que está mais fragmentada do que nunca.
Carmen Maura brilha ao interpretar uma mulher à beira de um ataque de nervos, que busca satisfação fora do casamento, mas não tem essa necessidade correspondida. Além disso, seu lado frio se torna tão acentuado que ela não hesita em entregar um dos filhos a um dentista possivelmente pedófilo, culminando em momentos desconcertantes, para dizer o mínimo. Porém, tudo é tratado com a maior naturalidade, pois os absurdos cotidianos daquela família fazem com que essa situação se torne um mero detalhe.
O filme aborda a questão da impotência, porém não somente a sexual, mas também a incapacidade daquelas pessoas em contornar os problemas que surgem. Dessa impotência nasce a frieza, fazendo com que alguns personagens tratem de certos assuntos com total banalidade, sem se importar com as consequências. Porém, uma vez que o inevitável acontece, os personagens que surgem na tela — dentro ou fora do apartamento — já estão completamente sugados por seus próprios devaneios.
Ao final, o filme nos revela o destino daquela família: cada um segue o seu devido caminho, enquanto a mãe se vê sozinha, da maneira que finalmente queria. Porém, quando um dos filhos retorna para casa, revela-se um elemento simbólico: se anteriormente todos queriam se livrar uns dos outros naquele cenário, no fim, viram-se impotentes perante a solidão. No meu entendimento, Almodóvar nos diz que se tornou o que é hoje graças ao papel primordial das mulheres em sua realidade, quase nunca se sentindo impotente perante tempos em que ainda não se tinha uma noção clara sobre o próprio futuro.
"Que Fiz Eu Para Merecer Isto?" é uma das obras fundamentais do início da carreira de Pedro Almodóvar e revela as raízes primordiais que moldaram a sua identidade artística.
"O que fiz para merecer isto?", clássico de Pedro Almodóvar, na sessão de segunda-feira dia 13, às 20h, no Cineclube Torres.
No sábado, dia 11, o Cineclube Torres estará também presente na III Mostra de Artes na Galeria Ten Caten, com uma seleção de cartazes desenhados pelo Tommaso Mottironi. Na próxima segunda, no âmbito do ciclo de filmes de julho, com protagonistas femininas ligadas a trabalhos domésticos, tem a oportunidade de (re)ver uma comédia dramatica do renomado Pedro Almodóvar. Em "O que fiz para merecer isto?" Gloria (Carmen Maura) trabalha dobrado para sustentar o marido infiel e uma sogra exploradora. Mas a dupla jornada, o vício em remédios controlados e o bairro problemático levam a uma espiral de acidentes e confusões.
'"Que Fiz Eu Para Merecer Isto? se destaca entre os filmes menos estilizados de Almodóvar, mas talvez seja um dos mais importantes no retrato e problematização dos dilemas urbanos e domésticos da classe trabalhadora de Madri (e de grande parte do mundo ocidental). Densa população, moradias quase inabitáveis, analfabetismo, delinquência juvenil, abuso de drogas e desemprego em índices altíssimos – ainda maiores para as mulheres. Tudo devidamente retratado e criticado, ainda que com gargalhadas garantidas e a assinatura singular de Pedro Almodóvar.' (Conrado Heoli)
As sessões serão realizadas às segundas-feiras às 20h na Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, na rua Pedro Cincinato Borges 420, em parceria com a Up Idiomas Torres e com entrada franca até a lotação do espaço.No sábado, às 16 na Galeria Ten Caren (R. Júlio de Castilhos, 477) o vernissage da III Mostra de Artes, com 6 artistas convidados, incluindo o designer dos mais de 100 cartazes do Cineclube Torres. (Ver matéria anexa)
O Cineclube Torres é uma associação sem fins lucrativos, em atividade desde 2011; Ponto de Cultura certificado pela Lei Cultura Viva federal e estadual; Ponto de Memória pelo IBRAM; Biblioteca Comunitária no Mapa da Cultura, Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística certificada pelo Ministério do Turismo (Cadastur); Selo Destaque no Turismo da Georrota Cânions do Sul.
Serviço:
O que: Exibição do filme "O que fiz para merecer isto?" (1984) de Pedro Almodóvar
Onde: Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, junto à escola Up Idiomas, Rua Cincinato Borges 420, Torres
Quando: Segunda-feira, 13/7, às 20h
Ingressos: Entrada Franca, até lotação do local (aprox. 22 pessoas).
Cineclube Torres
Associação sem fins lucrativos
Ponto de Cultura – Lei Federal e Estadual Cultura Viva
Ponto de Memória – Instituto Brasileiro de Museus
Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística - Cadastur
Nota: Filme Exibido para os associados no dia 02/07/26.
Sinopse: Depois de 12 anos, François (Jean-Claude Brialy) retorna à sua vila, na França, onde passou toda a infância. Ele percebe que a localidade não sofreu grandes mudanças, ao contrário das pessoas, que nem mais reconhece. François dedica especial atenção ao seu problemático amigo Serge (Gérard Blain), que passa o dia inteiro às voltas com a bebida, sem dar qualquer atenção à esposa grávida.
A partir de meados da década de 1950, Chabrol e os seus colegas críticos - Eric Rohmer, François Truffaut, Jean-Luc Godard e Jacques Rivette - foram veementes na condenação do cinema francês contemporâneo, expressando a insatisfação com a tradição, enquanto que foram simultaneamente chamados para uma revisão radical da forma em que os filmes eram feitos e o que seria mais relevantes para um público moderno. Na década que se seguiu, todos estes cinco cinéfilos tiveram a sua oportunidade de pegar numa câmera e mostrar a sua própria visão do cinema. Claude Chabrol foi o primeiro a fazê-lo, mas, ironicamente, seria o último a encontrar o sucesso neste novo trabalho.
Os primeiros filmes de Chabrol são muito diferentes dos filmes com os quais ele é mais conhecido hoje, dramas psicológicos com um toque hitchcockiano, sombrios e um pouco bem-humorados. Estes filmes parecem ser obra de um realizador completamente diferente - mais experimental, mais ousado, mais disposto a chocar o público. "Nas Garras do Vício" (1958) não é o mais ilustre dos trabalhos iniciais de Chabrol, mas é um dos seus filmes mais interessantes, em que já podemos ver os temas que predominam nos últimos anos, nomeadamente um desgosto para a moralidade burguesa falhada. Estilisticamente, o filme parece ter sido influenciado por obras italianas neo-realistas da década anterior. Chabrol rodou o filme inteiro em exteriores, empregando atores não profissionais para todos os papéis secundários e autores bastante inexperientes para os papéis principais. O local é sombrio, fotografia de baixo contraste a preto e branco com ausência de iluminação artificial dão ao filme um sentido austero da realidade que não poderia ser mais diferente da elegância polida de filmes posteriores de Chabrol.
"Nas Garras do Vício"reúne três dos atores que viriam a ser estreitamente associados à Nouvelle Vague francesa: Jean-Claude Brialy, Gérard Blain e Bernadette Lafont. Muitos especialistas consideram este, verdadeiramente, o primeiro filme da Nouvelle Vague.
No sábado (11/07), nos reunimos no Instituto Goethe às 10h15 da manhã para assistir Os Peixes Dourados, de Alireza Golafshan. Partindo de uma premissa inusitada, a comédia utiliza elementos do gênero road movie para desmontar estereótipos sobre deficiência e expor, com ironia, os preconceitos e constrangimentos presentes nas relações cotidianas.
Já no domingo (12/07), às 10h da manhã, exibiremos o clássico Uma Mulher Sob Influência, de John Cassavetes, na Sala Eduardo Hirtz da Cinemateca Paulo Amorim. Um dos grandes marcos do cinema independente norte-americano, o filme acompanha a crise de uma família para investigar os limites entre afeto, sofrimento psíquico e as pressões sociais que moldam as relações humanas, sustentado pelas interpretações memoráveis de Gena Rowlands e Peter Falk.
Confira os detalhes da programação:
SÁBADO (11/07, 10h15)
Os Peixes Dourados (Goldfische)
Alemanha, 2019, 112min
Direção e roteiro: Alireza Golafshan
Elenco: Tom Schilling, Jella Haase, Birgit Minichmayr, Axel Stein, Luisa Wöllisch
Sinopse: Após ficar paraplégico em um acidente, um ambicioso gestor financeiro organiza uma viagem à Suíça ao lado dos moradores de uma residência para pessoas com deficiência, usando a excursão como pretexto para recuperar dinheiro escondido. A inesperada convivência transforma a jornada em uma divertida aventura que confronta preconceitos e redefine o significado de normalidade.
📍 Local: Instituto Goethe Rua – 24 de Outubro, 112 – Moinhos de Vento, Porto Alegre
🎟️ Entrada franca e aberta à comunidade
DOMINGO (12/07, 10h)
Uma Mulher Sob Influência (A Woman Under the Influence)
Estados Unidos, 1974, 146min
Direção e roteiro: John Cassavetes
Elenco: Peter Falk, Gena Rowlands, Fred Draper, Lady Rowlands
Sinopse: Mabel e Nick tentam preservar o equilíbrio de sua vida familiar enquanto enfrentam o desgaste da rotina, dificuldades de comunicação e o crescente sofrimento emocional da protagonista, retratando a fragilidade dos vínculos afetivos e as pressões exercidas pelas expectativas sociais sobre a vida doméstica.
📍 Local: Sala Eduardo Hirtz da Cinemateca Paulo Amorim – Casa de Cultura Mário Quintana – Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico, Porto Alegre
Sinopse: Após a perda do marido, uma mulher enlutada busca consolo com seus sogros na isolada casa de campo da família. No entanto, o reencontro logo se transforma em um inferno na Terra quando o Livro dos Mortos liberta forças demoníacas que os transformam em Deadites um por um.
Moana
Sinopse: Moana acompanha Moana Waialiki, uma jovem corajosa que vive em uma ilha e sonha em explorar o oceano além das margens que cercam seu lar.
Primavera
Sinopse: Cecilia, uma violinista talentosa confinada em um orfanato, conhece Vivaldi, que se torna seu professor. Sob a mentoria dele e por meio de sua música, ela ganha coragem para se libertar do destino que lhe foi imposto e seguir sua verdadeira paixão.