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Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Cine Dica: Streaming — 'A Voz de Hind Rajab'

 Sinopse: Ambientado em Gaza, o filme acompanha a trágica e real história de Hind Rajab.

Kaouther Ben Hania é uma diretora da Tunísia que tem chamado atenção pela forma de tratar assuntos delicados, como a guerra infinita que perdura no Oriente Médio. Se "O Homem que Vendeu Sua Pele" (2019) é uma ficção que explora o poder exercido sobre o que muitos consideram minorias, por outro lado, "As Quatro Filhas de Olfa" (2023) é um curioso jogo de cena entre ficção e realidade na medida certa. "A Voz de Hind Rajab" (2025) é uma chocante reconstituição sobre as últimas horas de vida de uma menina inocente perante uma guerra insana que só faz vítimas.

O filme retrata a trágica história de Hind Rajab, uma garota de seis anos que morreu ao tentar fugir com sua família dos ataques israelenses. Escondida dentro do carro do próprio tio, ela ficou presa após o veículo ser alvejado. Apesar de ter passado três horas no telefone com os voluntários do Crescente Vermelho, foi encontrada morta, ao lado dos corpos dos paramédicos enviados ao resgate, 12 dias após a ligação desesperadora.

Kaouther Ben Hania faz uma dramatização dos acontecimentos utilizando os áudios originais de Hind pedindo socorro e acompanhando as tentativas da ajuda humanitária de alcançá-la no meio do caos e dos ataques. A reconstituição conta com quatro grandes intérpretes que vivem os voluntários do Crescente Vermelho e nos brindam com atuações intensas, sintetizando muito bem a aflição que suas contrapartes reais enfrentaram ao atender a menina. Tudo se passa em um único cenário, o que torna a experiência ainda mais claustrofóbica.

Mesmo em um ambiente limitado, a realizadora jamais mantém sua câmera parada: ela está sempre em movimento constante, dando foco tanto para quem se encontra em primeiro plano quanto para quem está em segundo plano. Motaz Malhees se sai muito bem ao transmitir, através do olhar de seu personagem (também chamado Motaz), toda a confusão mental e o desejo incondicional de ajudar a jovem, não importando o que aconteça. Já seu colega de trabalho, Mahdi M. Aljamal (interpretado por Amer Hlehel), procura usar a lógica para preservar a vida dos colegas de ambulância que estão no fogo cruzado do lado de fora, ciente de que qualquer passo em falso significa morte certa.

O resultado é um intenso conflito de perspectivas sobre como agir diante de uma guerra sem sentido e sobre o quanto se deve arriscar uma vida para tentar salvar outra. Nesse ínterim, temos Rana Hassan Faqih (interpretada pela atriz Saja Kilani), que, em um primeiro momento, tenta manter o distanciamento profissional, mas logo se entrega à dor ao ouvir os pedidos ininterruptos de socorro da menina. Os momentos mais dramáticos e marcantes do filme são protagonizados por Saja, em uma atuação que merecia até mesmo reconhecimento na temporada de prêmios.

O ato final é, desde já, um dos mais perturbadores do cinema recente. É onde a ficção e a linguagem documental se entrelaçam até se tornarem uma coisa só, culminando nas imagens reais de onde o carro com a menina foi encontrado. A cena é uma representação devastadora sobre o quanto esse conflito é desumano, onde a população civil paga o preço mais alto. "A Voz de Hind Rajab" é um filme extremamente necessário, funcionando como um registro histórico doloroso e urgente sobre as tragédias cotidianas que devastam Gaza.

Trata-se de um verdadeiro soco no estômago, onde o horror quase nunca é mostrado graficamente, mas sentido através do relato de uma voz inocente que sequer entendia a dimensão da violência ao seu redor.


Onde Assistir: Netflix

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Cine Dica: Newsletter Cinemateca Capitólio - 8 a 14 de outubro de 2026

 Da Tchecoslováquia ao cinema brasileiro, Viva Marília e Bressane 80 chegam à programação


A programação desta semana marca uma mudança de eixo na Cinemateca Capitólio. Depois de três semanas dedicadas ao cinema tchecoslovaco, com a mostra Literakino: entre palavras e imagens da Tchecoslováquia, o cinema brasileiro volta ao centro da programação com a estreia de Viva Marília e a abertura de Bressane 80, retrospectiva que celebra os 80 anos de Júlio Bressane.

Literakino: terceira semana

Até domingo, 11 de outubro, em sessões gratuitas, a Cinemateca Capitólio apresenta a terceira e última semana da mostra Literakino: entre palavras e imagens da Tchecoslováquia. Desde 22 de setembro, a mostra vem reunindo um amplo panorama da produção tchecoslovaca a partir das relações entre literatura e cinema, com um recorte que percorre produções realizadas entre as décadas de 1930 e 1980. A seleção reúne adaptações de autores como Božena Němcová, Karel Čapek, Jaroslav Hašek, Vítězslav Nezval, Milan Kundera e Bohumil Hrabal, além de obras criadas por escritores e filmes inspirados em diferentes universos literários. A curadoria é de Leonardo Bomfim, Věra Matysíková e Rastislav Steranka.

Na sexta-feira, 9 de outubro, às 19h30, a sessão Jakubisko na FAMU apresenta dois filmes realizados por Juraj Jakubisko durante seus estudos em Praga, na lendária FAMU – Escola de Cinema e Televisão da Academia de Artes Cênicas de Praga. Principal nome da cena eslovaca da Nova Onda dos anos 1960, Jakubisko realizou, nesse período, Chuva, inspirado na poeta Vladimíra Čerepková, figura marcante da cena contracultural dos anos 1960, e Esperando Godot, curta influenciado pela obra do dramaturgo irlandês Samuel Beckett. A sessão terá apresentação em vídeo da pesquisadora Klára Trsková.

No domingo, 11 de outubro, às 19h, a mostra se encerra com A Carroça (1966), de Karel Kachyňa. Ambientado no final da Segunda Guerra Mundial, o filme acompanha Krista, uma jovem viúva de uma aldeia tcheca que é obrigada por dois soldados austríacos a conduzi-los em sua carroça em direção à fronteira. Uma das obras de destaque do cinema tchecoslovaco dos anos 1960, o filme é uma adaptação do romance homônimo de Jan Procházka (1929–1971), um dos principais autores ligados à efervescência cultural e cinematográfica da década. A sessão será apresentada por Matouš Hartman, professor de língua tcheca nas comunidades tchecas do Rio Grande do Sul e do Mato Grosso do Sul desde 2022, licenciado pela Universidade Carolina, em Praga, e enviado ao Brasil pelo Estado Tcheco.

Depois de três semanas em que Porto Alegre virou, como muitos espectadores brincaram, a capital da Tchecoslováquia, a programação se volta novamente para o cinema brasileiro, em um percurso marcado por idas e vindas entre os anos 1960 e o presente.


Viva Marília

A partir desta quinta-feira, 8 de outubro, entra em cartaz Viva Marília (2024), de Zelito Viana. O documentário revisita o contexto histórico, político e social do Brasil das décadas de 1960, 1970 e 1980 a partir da trajetória de Marília Pêra, uma das grandes atrizes brasileiras. Ao longo de sua carreira, Marília participou de 49 peças, 29 novelas, 12 séries e 24 filmes, conquistando mais de 80 prêmios nacionais e internacionais. Conduzido pela presença e pelas memórias da própria atriz, Viva Marília reúne um valioso acervo de imagens e depoimentos para acompanhar uma artista que transitou pelo drama, pela comédia, pelo canto e pela dança, além de recuperar a presença de uma geração de mulheres que marcou a cultura brasileira.

A trajetória de Zelito Viana também está profundamente ligada ao período retratado pelo filme. Em 1965, o cineasta e produtor fundou, ao lado de Glauber Rocha, a Mapa Filmes, responsável pela produção de obras como Terra em transe (1966), O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1968) e Cabeças cortadas (1970). Como diretor, realizou filmes como Os condenados (1973), Morte e vida severina (1976), Terra dos índios (1978) e Avaeté, semente de vingança (1985), vencedor da medalha de prata no Festival de Cinema de Moscou.

O ingresso para Viva Marília custa R$ 16,00 (inteira) e R$8,00 (meia). Aceitamos somente pagamento em dinheiro.


Bressane 80

Na terça-feira, 13 de outubro, a Cinemateca Capitólio abre Bressane 80, mostra dedicada aos 80 anos de Júlio Bressane, completados em fevereiro deste ano. A seleção reúne 12 obras realizadas entre 1969 e 2026 e percorre diferentes momentos de uma trajetória que atravessa o Cinema Marginal e chega à produção contemporânea.

Cineasta e escritor, Bressane desenvolveu uma obra marcada pela experimentação formal e pela liberdade na construção de suas narrativas, explorando diferentes relações entre imagem, palavra, literatura e música. Um dos nomes centrais do chamado Cinema Marginal, iniciou sua carreira como assistente de direção de Walter Lima Jr. e estreou na direção com os curtas documentais Lima Barreto – Trajetória (1965) e Bethânia Bem de Perto (1966), dirigindo o seu primeiro longa-metragem no ano seguinte, Cara a Cara (1967). Em 1969, realiza O Anjo Nasceu e Matou a Família e Foi ao Cinema, filmes considerados marcos do Cinema Marginal brasileiro.

Em 1970, fundou ao lado da atriz Helena Ignez e do cineasta Rogério Sganzerla a Belair Filmes, coletivo de produção que realizou seis filmes de longa-metragem em pouco mais de 5 meses: Barão Olavo, o Horrível, Cuidado, Madame e A Família do Barulho, dirigidos por Bressane, e Copacabana, Mon Amour, Sem Essa, Aranha e Carnaval na Lama, dirigidos por Sganzerla. A experiência, interrompida pelas medidas de repressão da ditatura militar, ainda hoje possui uma forte influência estética e política no cinema brasileiro contemporâneo.

O filme de abertura da mostra é Matou a Família e Foi ao Cinema (1969) ao lado de O Fantasma da Ópera (2026), curta-metragem mais recente de Bressane, codirigido com Rodrigo Lima. Os dois filmes serão exibidos na terça-feira, 13 de outubro, às 19h. Na quarta-feira, 14 de outubro, a mostra segue com A Erva do Rato (2008), às 17h, e O Mandarim (1995), às 19h.

Também fazem parte da seleção Memórias de um Estrangulador de Loiras (1971), A Agonia (1976), Tabu (1982), Educação Sentimental (2013), Garoto (2015), Beduíno (2016), Relâmpagos de Críticas Murmúrios de Metafísicas (2024) e Barão Olavo, o Horrível (1970). Este último terá sessão única na sexta-feira, 16 de outubro, às 19h30, seguida de debate com a atriz e diretora Helena Ignez.

A curadoria da mostra Bressane 80 é de Daniela Strack, cineasta, professora e pesquisadora. Todas as sessões de Bressane 80 têm entrada franca.

Confira a programação completa da cinemateca clicando aqui. 

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Cine Dica: Em Cartaz — 'Verity'

 Sinopse: Lowen Ashleigh (Dakota Johnson), uma escritora em dificuldades financeiras, aceita o trabalho de sua vida: tornar-se ghostwriter da famosa autora Verity Crawford (Anne Hathaway).

Quando escrevi sobre o filme "A Criada" (2026), destaquei o fato de que o longa seria um passo à frente para os leitores que começaram a pegar o gosto pela leitura a partir de obras como "Cinquenta Tons de Cinza", mesmo com algumas de suas irregularidades latentes. Porém, sempre há espaço para retroceder uma ideia, pois certos fetiches são difíceis de ser jogados de lado — sobretudo quando, no fundo, são encarados como politicamente incorretos. "Verity"(2026) parece procurar exatamente esse público moldado pela obra de E. L. James, o que não significa necessariamente que seja uma boa ideia.

Dirigido por Michael Showalter e baseado no livro de Colleen Hoover, o filme acompanha Lowen Ashleigh (Dakota Johnson), uma escritora falida que recebe uma chance de se reestruturar ao ser contratada como ghostwriter de Verity Crawford (Anne Hathaway). Verity, uma autora de estrondoso sucesso, sofreu um grave e misterioso acidente de carro que a deixou paralisada e impossibilitada de continuar sua franquia literária. A convite do marido de Verity, Jeremy Crawford (Josh Hartnett), Lowen muda-se temporariamente para a casa do casal a fim de estudar as anotações e mergulhar na mente da autora.

O filme resgata a linguagem típica do suspense erótico noventista, mas sem esconder as caraterísticas habituais de uma adaptação de bestseller. Nota-se, por exemplo, que diversos desdobramentos soam inverossímeis em cena — engrenagens que funcionam melhor nas páginas de um livro, mesmo quando os realizadores tentam fazer os devidos ajustes para que o produto lembre mais o cinema. A adaptação de "O Código Da Vinci" (2006) serve até hoje como um manual do que não fazer em uma transposição literária, mas, pelo visto, muitos cineastas ainda não assimilaram a lição.

No geral, é uma obra que busca seduzir o público interessado no glamour, no homem bonito e bem-sucedido cercado por uma aura de mistério. Se a fórmula continua rendendo bilheterias, é porque ainda há apelo no tema, mesmo quando a execução cinematográfica soa ligeiramente artificial. No caso de "Verity", o filme acaba se sustentando graças ao empenho de parte do elenco.

Dakota Johnson retorna a um território familiar ao de "Cinquenta Tons de Cinza", mas aqui sua submissão transita entre o desejo por Jeremy e a obsessão voyeurística em adentrar a psique de Verity. E se, por um lado, Josh Hartnett figura entre os papéis mais engessados do cinema norte-americano recente, Anne Hathaway cumpre seu papel com louvor ao dar vida a uma personagem complexa e cheia de camadas.

O longa ganha seu melhor formato nas cenas em flashback, nas quais a mente enigmática de Verity é revelada por meio de seus manuscritos, mantendo o espectador sem saber exatamente onde termina a realidade e onde começa a ficção. O problema é que o filme falha na manutenção do mistério central e no clima de clausura dentro da casa: quando as grandes revelações vêm à tona, percebemos que o público já havia matado a charada muito tempo antes. Restam algumas sequências de suspense tecnicamente bem construídas, mas que se esvaziam pelo desgaste da previsibilidade.

Trata-se de uma narrativa que funciona incomparavelmente melhor na literatura. Hollywood demonstra, mais uma vez, sua dificuldade em criar um casamento harmonioso entre a fonte original e a linguagem propriamente cinematográfica, resultando em uma obra sem alma e incapaz de resistir ao teste do tempo. O filme indubitavelmente fará sucesso com os leitores fervorosos do romance, mas dificilmente será lembrado como um marco de adaptação.

"Verity" é o típico caso de transposição literária que fica aquém do esperado por se agarrar excessivamente ao livro e esquecer a autonomia do cinema.


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Cine Dica: PROGRAMAÇÃO CINEBANCÁRIOS 08 A 14 DE OUTUBRO

 “Amelia Toledo – Lembrar de Não Esquecer”, “BIA” e “Cordélicos” estreiam dia 8 de outubro no CineBancários

Documentário de Helio Goldsztejn que resgata legado de pintora e escultura paulista pouco conhecida do grande público divide a programação com “Bia”, que investiga os limites entre pertencimento, desejo e liberdade, e animação infantil de Ale McHaddo sobre aventuras de um grupo de cangaceiros pelo sertão nordestino; sala de cinema exibe ainda "NAZA", prestigiado documentário sobre as operações militares de Israel na Faixa de Gaza

A cinema semana de 8 de outubro no CineBancários tem a estreia do documentário "Amélia Toledo - Lembrar de Não Esquecer", que revela a trajetória de uma das artistas mais inquietas e inovadoras da arte brasileira, de "BIA", obra que acompanha uma doutoranda em busca de um rumo na vida, e de "Cordélicos", animação infantil que acompanha um grupo de cangaceiros que se perde entre passado e futuro. O documentário "NAZA", vencedor do Prêmio Especial do Júri do 83º Festival de Cinema de Veneza, ganha as últimas sessões nos dias 10 e 11, na sessão das 15h. 

A vida e a obra de Amelia Toledo (1926-2017), uma das artistas mais inquietas e inovadoras da arte brasileira, ganham um novo olhar no documentário "Amelia Toledo – Lembrar de Não Esquecer", que estreia dia 8 de outubro no CineBancários. Dirigido por Helio Goldsztejn ("Aqueles Dias"), o filme revela a trajetória de uma criadora que transformava a própria casa em ateliê, indo do desenho de joias à escultura e experimentando com materiais tão diversos quanto acrílico, chapas de metal, pedras e conchas.

Pintora, desenhista, escultora e educadora, Amelia Amorim Toledo nasceu na cidade de São Paulo. Ela construiu uma carreira marcada pela ousadia e pela abertura ao diálogo entre a arte e a vida. Como professora, deixou sua marca em instituições como o Mackenzie e a FAAP, além de ter integrado a equipe da recém-criada Universidade de Brasília, sob a reitoria de Darcy Ribeiro. O golpe militar de 1964 interrompeu sua trajetória no Brasil, levando-a a Portugal com a família, por um breve período.

"A partir do convite de Moacir Toledo, filho de Amelia e também artista plástico, decidi realizar um documentário sobre essa artista de primeira grandeza - e ainda pouco conhecida do grande público", explica Helio Goldsztejn. "Muito antes de o termo 'sustentabilidade' existir, Amelia já era precursora dessa prática em sua arte, utilizando materiais reaproveitados e experimentando novas linguagens", complementa o cineasta.

Apresentadas hoje em mostras que atraem multidões, as obras de Amelia convidam não apenas à contemplação, mas também ao tato e à interação, explorando múltiplos ângulos de visão e até as sombras projetadas no espaço. Amelia tem uma trajetória singular. Foi aluna de Anita Malfatti, conviveu com intelectuais e artistas como Hélio Oiticica e Lygia Pape e Waldemar da Costa, além de ter trabalhado com o arquiteto Vilanova Artigas.

Aos 83 anos, Amelia participou como convidada na 20a Bienal Internacional de São Paulo (2010). O doc sobre a artista percorre suas múltiplas dimensões através de depoimentos de amigos, artistas e familiares, revelando como ela atravessou tempos, linguagens e fronteiras sem nunca perder a capacidade de se reinventar. O longa é, acima de tudo, um convite para revisitar a força criadora de uma artista que sempre fez da arte um território de liberdade e descoberta. Helio conheceu o trabalho de Amelia enquanto trabalhava na direção no programa Metrópolis da TV Cultura, que diariamente cobria artes plásticas. "Nesse contexto, descobri sua obra, que chegou a integrar o cenário do programa e hoje faz parte do acervo da emissora", relembra o diretor. "O documentário é posterior à morte de Amélia, mas meu contato com ela ocorreu anteriormente, em entrevistas realizadas para a televisão", finaliza.


PROGRAMAÇÃO CINEBANCÁRIOS DE 08 A 14 DE OUTUBRO


ESTREIAS:


CORDÉLICOS – A ORIGEM DO CABRA DA PESTE

Brasil/Animação/2025/ 72min

Direção: Ale McHaddo

Sinopse: Um grupo de aventureiros do sertão brasileiro foge do temido Cabra da Peste ao conseguir roubar os planos de uma máquina do tempo, mas a perseguição acaba os separando entre passado e futuro. Uma aventura repleta de ação, humor e brasilidade em meio a reviravoltas, perseguições e planos ousados.

BIA

Brasil/Drama/2025/71min.

Direção: Taciano Valério

Sinopse: Ao se aproximar do universo de mulheres camponesas, Bia, uma doutoranda, vê seu modo de habitar o mundo entrar em transformação. Entre ficção e realidade, o filme investiga os limites entre pertencimento, desejo e liberdade.

Elenco: Verônica Cavalcanti, Zezita Matos, Fernando Teixeira, Beto Aragão, Jean Claude Bernardet, Bruno Goya, Rosberg Adonay



AMÉLIA TOLEDO – LEMBRAR DE NÃO ESQUECER

Brasil/Documentário/2026/82min

Direção: Hélio Goldsztejn

Sinopse: O documentário lança um novo olhar sobre a vida e a obra de Amelia Toledo, uma das artistas mais inquietas e inovadoras da arte brasileira, ao revelar a trajetória de uma criadora que transformava a própria casa em ateliê, indo do desenho de joias à escultura e experimentando com materiais tão diversos quanto acrílico, chapas de metal, pedras e conchas. Amelia construiu uma carreira marcada pela ousadia e pela abertura ao diálogo entre a arte e a vida. Como professora, deixou sua marca em instituições como o Mackenzie e a FAAP, além de ter integrado a equipe da recém-criada Universidade de Brasília, sob a reitoria de Darcy Ribeiro. O golpe militar de 1964 interrompeu sua trajetória no Brasil, levando-a a Portugal com a família, por um breve período. O documentário retoma essas múltiplas dimensões por meio de depoimentos de amigos, artistas e familiares, revelando como a artista atravessou tempos, linguagens e fronteiras sem nunca perder a capacidade de reinventar-se.


EM CARTAZ:


NAZA

Reino Unido/Documentário/2026/80min

Direção: Yuval Abraham e Rachel Szor

Sinopse: Filmado à noite nos telhados de Tel Aviv, o documentário de Yuval Abraham e Rachel Szor reconstrói os mecanismos por trás das operações militares de Israel na Faixa de Gaza.



HORÁRIOS DIAS 08, 09, 13 E 14 DE OUTUBRO

(não há sessões nas segundas)

15h: CORDÉLICOS (infantil)

17h: BIA

19h: AMÉLIA TOLEDO – LEMBRAR PARA NÃO ESQUECER


HORÁRIOS DIAS 10 E 11 DE OUTUBRO

(sábado e domingo)

15h: NAZA

17h: BIA

19h: AMÉLIA TOLEDO – LEMBRAR DE NÃO ESQUECER


Ingressos

Os ingressos podem ser adquiridos a R$ 14 na bilheteria do CineBancários. Idosos (as), estudantes, bancários (as), jornalistas sindicalizados (as), portadores de ID Jovem e pessoas com deficiência pagam R$ 7. São aceitos cartões nas bandeiras Banricompras, Visa, MasterCard e Elo. Nas quintas-feiras, a meia-entrada (R$ 7) é para todos e todas.


CineBancários

Rua General Câmara, 424 – Centro – Porto Alegre

Mais informações pelo telefone (51) 3030.9405 ou pelo e-mail cinebancarios@sindbancarios.org.br

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'DIGGER'

Sinopse: O protagonista embarca em uma corrida contra o tempo para enfrentar as consequências de seus atos e provar que é o salvador da humanidade, antes que o desastre que desencadeou destrua o planeta.

Alejandro González Iñárritu gosta de colocar o dedo na ferida e fazer com que suas obras se tornem pontos fora da curva no cinema norte-americano. Se "O Regresso" (2015) era uma síntese sobre o sangue derramado para a construção de um novo mundo, e "Birdman" (2014), uma crítica ácida da própria Hollywood sucumbida às franquias, "Digger" (2026) talvez seja reavaliado no decorrer do tempo — pois é um filme que dá um tapa na cara não somente dos donos do poder, mas da própria sociedade.

Na trama, acompanhamos o homem mais poderoso do mundo que, após provocar um desastre ambiental de proporções globais, inicia uma missão intensa para reparar os danos que ele mesmo causou e provar ser o salvador da humanidade. Em uma corrida contra o tempo, precisa enfrentar as consequências de suas decisões antes que a crise saia completamente do controle e ameace o futuro do planeta. Nessa trajetória, o bilionário cruza o caminho de algumas das figuras mais influentes do mundo, incluindo o presidente dos Estados Unidos.

Desde o início de sua carreira, Tom Cruise já havia provado ser um ótimo ator — basta resgatarmos "Nascido em 4 de Julho" (1989) para termos essa dimensão. Porém, como todo astro norte-americano de grande porte, Cruise acabou se rendendo ao sistema que move as engrenagens da indústria: tornar-se o pilar de uma franquia duradoura, no seu caso, Missão: Impossível. Trabalhando anos a fio nesse tipo de produção, ficamos desacostumados a vê-lo em papéis que se distanciem desse molde (sendo sua hilária participação em "Trovão Tropical", de 2008, um espanto à parte).

Aqui, porém, Cruise se desfaz de qualquer vaidade ao se entregar a um personagem que se revela uma representação da mentalidade governamental atual. Seu Digger é uma caricatura dos poderosos — principalmente daqueles que tratam os EUA como um grande rancho cujo gado precisa ser alimentado a todo custo. Neste caso, o "alimento" é a profusão de petróleo explorada à exaustão ao longo dos séculos, culminando em um inevitável acidente ecológico.

Digger, contudo, não é um farsante que esconde sua essência; ele aponta o dedo contra a própria humanidade, que implorou por combustível ao longo das décadas enquanto ele apenas correspondia ao consumismo desenfreado. A cena em que o protagonista discursa perante uma população à beira do apocalipse é, desde já, uma das melhores do ano. Digger encarna tudo o que mais tememos na atualidade, mas que nós mesmos criamos para satisfazer necessidades em constante definhamento. São momentos como esse que geram espanto e fazem brotar um sorriso amarelo no canto da boca, revelando que o futuro nebuloso se torna quase hilário: tínhamos tudo para evitá-lo, mas optamos pela energia e pelo conforto a qualquer preço.

Tudo isso surge orquestrado por Iñárritu, que consegue realizar uma curiosa transição entre a linguagem cinematográfica e a teatral. Essa fórmula, por sua vez, vinha sendo testada por Wes Anderson desde A "Crônica Francesa" (2021), pois acredito que ambos os realizadores perceberam que a Sétima Arte chegou a um ponto em que talvez seja preciso olhar para o passado e resgatar velhas formas de narrativa, ainda que soar estranho para as novas plateias em um primeiro momento. Essa construção aliada a uma produção de grande escala também me fez recordar o maravilhoso "Sinédoque, Nova York" (2008), obra que merece ser permanentemente redescoberta.

Vale salientar que Iñárritu é ainda mais corajoso ao retratar a grande potência americana sucumbindo perante o poderio chinês, em uma decadência comandada por Donald Trump. Se Digger é a engrenagem desse poder moribundo, a figura do presidente do país, brilhantemente interpretado por John Goodman, torna-se tragicômica — momentos que remetem às melhores situações de Doutor Fantástico (1964), clássico de Stanley Kubrick. Pelo visto, a humanidade continua sem aprender com os erros do passado.

Ao final, fica a constatação de que o filme de Iñárritu corre o risco de ser menosprezado no presente para só ser reavaliado com o tempo. Afinal, não é sempre que encaramos de frente nossos próprios temores em uma obra que escancara o quanto nos encaminhamos para um declínio civilizatório sem conserto. A cena final é impactante não apenas para quem viveu os tempos de pandemia, mas como um alerta sobre o que teremos de enfrentar logo adiante.

"Digger" será ignorado por parcela do grande público porque este já não aceita ouvir a verdade — e é justamente isso que faz do longa um dos mais corajosos do ano.

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domingo, 4 de outubro de 2026

Cine Dica: Próximo Cineclube Torres - "Châteu-Paris"

Em outubro, as caraterísticas multiculturais da França vão ocupar a tela do Cineclube Torres, com 4 longas-metragens explicitando potencialidades e desafios da sociedade atual na integração e valorização de minorias. Na programação escolhida, o ambiente multicultural de uma periferia parisiense ("Château-Paris", de Mody Barry e Cédric Ido, já na próxima segunda dia 5), tensões entre minorias turcas e ciganas ("Geronimo" do saudoso Tony Gatliff), o inevitável conflito intergeracional em famílias de origem magrebina ("Fátima" de Philippe Faucon) e a luta histórica para a segurança e a dignidade dos migrantes na sociedade francesa ("A Marcha" de Nadir Ben Yadir).

As sessões ocorrem ao longo do mês, sempre nas segundas-feiras às 20h e com entrada franca, na Sala Audiovisual Gilda e Leonardo do Cineclube Torres, contando com o apoio da UP Idiomas Torres. No dia 28, uma quarta-feira, o Cineclube Torres vai participar novamente do Dia Internacional da Animação, com uma sessão especial apresentando uma seleção de curta-metragens de animação nacionais e internacionais.

O Cineclube Torres é uma associação sem fins lucrativos, em atividade desde 2011; Ponto de Cultura certificado pela Lei Cultura Viva federal e estadual; Ponto de Memória pelo IBRAM; Biblioteca Comunitária no Mapa da Cultura, Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística certificada pelo Ministério do Turismo (Cadastur); Selo Destaque no Turismo da Georrota Cânions do Sul. 



Serviço:

O que: Exibição do filme "Châteu-Paris" (2016) de Mody Barry e Cédric Ido (França) 

Onde: Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, junto à escola Up Idiomas, Rua Cincinato Borges 420, Torres

Quando: Segunda-feira, 5/10, às 20h

Ingressos: Entrada Franca, até lotação do local (aprox. 22 pessoas).

Cineclube Torres

Associação sem fins lucrativos

Ponto de Cultura – Lei Federal e Estadual Cultura Viva

Ponto de Memória – Instituto Brasileiro de Museus

Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística - Cadastur


CNPJ 15.324.175/0001-21

Registro ANCINE n. 33764

Produtor Cultural Estadual n. 4917

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Cine Especial: Clube de Cinema – 'Roma de Fellini'

 Nota: Filme assistido pelos associados no último dia 27/09/26

Federico Fellini foi um realizador que começou sua carreira no cinema quando o neorrealismo italiano já dava os seus últimos sinais, o que permitiu ao cineasta colocar em prática sua visão particular. Todavia, é notório quanto desse movimento ele trouxe para a sua filmografia, entrelaçando-o ao seu lado criativo no desenvolvimento de histórias marcantes. "Roma de Fellini" (1972) pode ser visto tanto como uma autobiografia do realizador quanto como uma análise de Roma — em suas entranhas e em sua superfície — ao longo da história.

No longa, vemos a capital da Itália — a Cidade Eterna para os íntimos, por sua trajetória milenar — como um ponto de encontro de diversas narrativas que sintetizam o próprio papel da humanidade na Terra. Fellini vivenciou o cotidiano da cidade em diferentes etapas de sua trajetória: desde a chegada ainda criança (Stefano Mayore), passando pela fase jovem (Peter Gonzales), até os tempos contemporâneos.

Transitando entre a reconstituição de época da juventude do realizador e os tempos calorosos do início dos anos setenta, Fellini constrói uma visão sobre a cidade que tanto ama. Trata-se de uma Roma que passou por maus bocados durante a Segunda Guerra Mundial e cuja reconstrução serviu de molde para o movimento neorrealista. Não estamos diante de um filme convencional — o próprio diretor deixa isso escancarado já na abertura —, e tudo o que podemos fazer é desfrutar de suas imagens inventivas. Não há exatamente um protagonismo em cena, a não ser a própria Roma.

Curiosamente, "Amarcord" (1973) costuma ser apontado como a grande reconstituição da juventude do cineasta. Aqui, porém, sua própria figura fica em segundo plano, enquanto ele decide caminhar pelas ruas da cidade com a câmera, observando pessoas comuns em seu dia a dia e sintetizando os elementos de um momento em que a capital sofria profundas transformações com a passagem do tempo. Há, por exemplo, um atrito evidente entre a velha guarda italiana e a nova geração que surgia naquele período — em que sexo, amor e drogas ditavam o ritmo, fazendo a geração passada temer pelo futuro do país.

Há, contudo, uma hipocrisia latente em relação a isso, venha ela do lado conservador ou da própria Igreja tradicional, que não esconde o submundo do prazer: desde as mulheres livres pelas ruas até a cultura do teatro e da música, revelando uma faceta à italiana com a qual o espectador logo se identifica. Nesse cenário, vemos figuras que se entregam à comida, à bebida e a uma malandragem que corre solta em cenas deveras hilárias.

Porém, o ápice do longa se encontra quando Fellini se entrega por completo ao registro documental, especialmente na rodovia onde filma de tudo um pouco: discussões no trânsito, acidentes e protestos a todo momento. A câmera é trêmula, por vezes em plano-sequência, fazendo da viagem uma experiência quase sensorial. Arrisco dizer que é um dos melhores momentos da carreira do realizador, pois a verossimilhança e o imaginário do cineasta se casam de uma forma raras vezes vista.

Há espaço até mesmo para adentrarmos o subsolo de Roma, que mais parece uma cidade subterrânea abandonada cuja história começa a se deteriorar diante dos nossos olhos — uma forma de nos dizer que o tempo tudo destrói e que cabe a nós, meros mortais, mantermos a memória viva para termos noções do que fomos um dia. Ao final, vemos motociclistas correndo sem rumo, mal sabendo o que reserva o futuro misterioso em que hoje vivemos.

"Roma de Fellini" é uma declaração de amor do diretor à sua cidade e uma síntese de sua genialidade em narrar histórias sobre o próprio berço da civilização ocidental.

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