Sinopse: A trama acompanha Meursault, um francês apático e indiferente que vive na Argélia dos anos 1930. Sua completa falta de emoção após a morte da mãe e o envolvimento em um crime trágico o levam a um julgamento implacável.
François Ozon é, atualmente, um dos diretores franceses mais curiosos de se analisar de perto, justamente por sua versatilidade. Ele transita com facilidade por boas comédias, como "O Crime é Meu" (2023), e por dramas densos cujos temas soam polêmicos, como no caso de "Está Tudo Bem" (2021). "Em O Estrangeiro" (2025), o realizador prova novamente que alguns clássicos literários ainda podem — e devem — ser reaproveitados nos dias de hoje, entregando uma adaptação que é uma prova mais do que genuína desse potencial.
Adaptação da obra-prima literária do franco-argelino Albert Camus, o filme conta a história de Meursault, um homem indiferente que vive na Argélia ocupada dos anos 1930 e demonstra uma completa apatia perante a vida. Quando sua mãe morre, nenhuma emoção parece comovê-lo. Já no dia seguinte ao funeral, ele começa a se relacionar com sua colega de trabalho, Marie. No entanto, a rotina monótona de Meursault é interrompida por um vizinho que o arrasta para uma série de negociações obscuras até que, num dia quente de verão, uma tragédia ocorre na praia.
Alguns críticos literários pregam que certos livros são praticamente impossíveis de serem adaptados, ou que pertencem somente à sua época de lançamento. Não é o que acontece aqui. Se a clássica versão de 1967, estrelada por Marcello Mastroianni, já havia sido bem-sucedida, esta nova leitura de François Ozon se mostra mais atual do que nunca. Ela sintetiza o vazio do ser humano perante os posicionamentos, por vezes, conservadores e atrasados do próximo. Qualquer semelhança com os dilemas que atravessamos no decorrer deste século XXI não é mera coincidência.
Meursault é um personagem enigmático diante de um mundo ao qual não sente que pertence, mas no qual busca viver mesmo assim. Ele não se esforça para demonstrar sentimentos, mesmo em uma situação delicada como a perda da mãe — quase como se a apatia fosse uma forma de se proteger dos olhares julgadores de uma sociedade moldada por convenções e crendices. O jovem intérprete Benjamin Voisin consegue construir um personagem que aparenta carregar um constante conflito interno, mas que procura jamais externá-lo para aqueles que buscam compreendê-lo.
Ozon constrói uma atmosfera que transita entre elementos dramáticos e passagens de suspense que prendem a atenção na medida certa. A cena da praia onde acontece o crime, por exemplo, é um verdadeiro jogo de montagem alinhado a uma fotografia fantástica, com atuações que diferenciam a obra dos outros longas do cineasta. Transitando entre o passado e o presente, somos apresentados a um personagem misterioso com o qual, lá no fundo, conseguimos até nos identificar.
Curiosamente, o filme traz à mente o clássico "A Paixão de Joana d’Arc" (1928), do dinamarquês Carl Theodor Dreyer. Em ambos os casos, os protagonistas são julgados por ações que poderiam ser analisadas de forma imparcial, mas acabam condenados por uma justiça conservadora que existe apenas para servir a objetivos ambiciosos — sejam eles religiosos ou políticos. É por isso que esta adaptação funciona tão bem nos dias de hoje: tornou-se cada vez mais comum o olhar tribunalesco da sociedade se tornar implacável, condenando sem ao menos analisar a complexidade do assunto.
Ao final, vemos pela primeira vez um Meursault desabafando diante da possibilidade de salvação, mas negando-a por achá-la hipócrita, assim como as demais situações que testemunhou em sua Via Crucis pessoal. É um momento digno de nota, onde finalmente enxergamos o protagonista mais humano, digno de assumir suas próprias falhas, mas indisposto a aceitar a absolvição daqueles que o julgam superficialmente. Um filme que se casa com perfeição com os dilemas morais de um mundo atual em declínio.
"O Estrangeiro" é uma nova leitura cinematográfica brilhante, que prova que os dilemas existenciais de ontem não são muito diferentes dos que enfrentamos hoje.
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