Sinopse: Bryan (Austin Abrams) é um entregador de medicamentos e órgãos que precisa fazer uma entrega noturna no Hospital Geral de Raccoon City. Mal ele sabe que adentrará uma noite repleta de horror.
A franquia "Resident Evil" no cinema sofreu por anos com o ego inflado do diretor Paul W. S. Anderson ao colocar sua esposa, Milla Jovovich, como a grande protagonista, tornando sua personagem o centro de todo aquele universo apocalíptico. Para os fãs dos jogos, cada nova produção se mostrava decepcionante, fazendo com que muitos jogassem a toalha quanto à possibilidade de um filme decente. Eis que a resposta vem com "Resident Evil" (2026), que não é somente um reboot, mas também um recomeço mais do que necessário.
Dirigido por Zach Cregger — do genial "A Hora do Mal" (2025) —, acompanhamos Bryan (Austin Abrams), um entregador que está a caminho do Hospital Geral de Raccoon City para deixar uma encomenda. No entanto, o que deveria ser apenas mais uma entrega em uma noite de neve se transforma em uma corrida desesperada pela sobrevivência quando criaturas grotescas surgem na cidade.
Zach Cregger já pode ser apontado como um dos novos nomes do horror autoral capaz de conquistar tanto o público quanto a crítica especializada. Talvez nem ele mesmo imaginasse que "A Hora do Mal" iria tão longe, abrindo portas em grandes estúdios. "Resident Evil" não é apenas uma tentativa de reiniciar a franquia, mas um belo exemplo de como o cinema autoral de gênero pode nos entreter e surpreender na medida certa.
O realizador decidiu fugir de comparações diretas com a narrativa dos jogos clássicos, criando uma história nova, mas com forte vínculo com esse universo tão popular. O resultado traz elementos que se conectam diretamente ao material de origem, desde os mortos-vivos tradicionais até infectados que sofrem metamorfoses grotescas e impressionantes. Os fãs não têm do que reclamar: a essência está toda lá.
Vale destacar que Cregger busca ao máximo imergir o espectador na trama. A câmera frequentemente acompanha o protagonista em planos fechados e utiliza recursos visuais que remetem aos jogos de tiro em primeira pessoa. Essa escolha intensifica a sensação claustrofóbica, fazendo parecer que o perigo iminente está a poucos metros e que a única saída é disparar contra o que vem pela frente. Tudo isso aliado ao uso ostensivo de efeitos práticos, garantindo peso físico às cenas e resgatando o modo de se fazer cinema de horror como antigamente.
Nesse sentido, saltam aos olhos as referências ao estilo visceral e gore de John Carpenter — o clássico "O Enigma de Outro Mundo" (1982) veio à minha mente em diversos momentos. Curiosamente, o filme também remete a "Depois de Horas" (1985), de Martin Scorsese, já que em ambas as obras acompanhamos um protagonista comum tentando desesperadamente voltar para casa após ser tragado por uma sequência de eventos surrealistas e fora de seu controle.
Austin Abrams se consolida como uma das grandes promessas de sua geração ao carregar o filme nas costas com enorme carisma. O grande diferencial de seu personagem é que Bryan não é um herói treinado, mas um indivíduo comum arremessado em situações absurdas que transitam entre o suspense tenso e tiradas de um humor ácido surpreendente. Você se assusta e ri quase ao mesmo tempo, um equilíbrio tom-atmosfera raríssimo.
Se há uma falha no longa, ela se encontra justamente no ato final. Ao preparar o terreno para uma inevitável continuação, o filme perde parte de seu impacto. Os realizadores pesaram a mão na reta final ao recorrer a um CGI visivelmente apressado, abandonando a textura dos efeitos práticos que vinha funcionando tão bem. Fica a sensação de um desfecho um pouco genérico, embora isso não tire o brilho do excelente percurso construído até ali.
"Resident Evil" é a prova de que ainda existe inteligência em Hollywood quando se decide revitalizar uma franquia desgastada nas mãos de um cineasta que realmente domina a linguagem da tensão.
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