Sinopse: Ambientado em Gaza, o filme acompanha a trágica e real história de Hind Rajab.
Kaouther Ben Hania é uma diretora da Tunísia que tem chamado atenção pela forma de tratar assuntos delicados, como a guerra infinita que perdura no Oriente Médio. Se "O Homem que Vendeu Sua Pele" (2019) é uma ficção que explora o poder exercido sobre o que muitos consideram minorias, por outro lado, "As Quatro Filhas de Olfa" (2023) é um curioso jogo de cena entre ficção e realidade na medida certa. "A Voz de Hind Rajab" (2025) é uma chocante reconstituição sobre as últimas horas de vida de uma menina inocente perante uma guerra insana que só faz vítimas.
O filme retrata a trágica história de Hind Rajab, uma garota de seis anos que morreu ao tentar fugir com sua família dos ataques israelenses. Escondida dentro do carro do próprio tio, ela ficou presa após o veículo ser alvejado. Apesar de ter passado três horas no telefone com os voluntários do Crescente Vermelho, foi encontrada morta, ao lado dos corpos dos paramédicos enviados ao resgate, 12 dias após a ligação desesperadora.
Kaouther Ben Hania faz uma dramatização dos acontecimentos utilizando os áudios originais de Hind pedindo socorro e acompanhando as tentativas da ajuda humanitária de alcançá-la no meio do caos e dos ataques. A reconstituição conta com quatro grandes intérpretes que vivem os voluntários do Crescente Vermelho e nos brindam com atuações intensas, sintetizando muito bem a aflição que suas contrapartes reais enfrentaram ao atender a menina. Tudo se passa em um único cenário, o que torna a experiência ainda mais claustrofóbica.
Mesmo em um ambiente limitado, a realizadora jamais mantém sua câmera parada: ela está sempre em movimento constante, dando foco tanto para quem se encontra em primeiro plano quanto para quem está em segundo plano. Motaz Malhees se sai muito bem ao transmitir, através do olhar de seu personagem (também chamado Motaz), toda a confusão mental e o desejo incondicional de ajudar a jovem, não importando o que aconteça. Já seu colega de trabalho, Mahdi M. Aljamal (interpretado por Amer Hlehel), procura usar a lógica para preservar a vida dos colegas de ambulância que estão no fogo cruzado do lado de fora, ciente de que qualquer passo em falso significa morte certa.
O resultado é um intenso conflito de perspectivas sobre como agir diante de uma guerra sem sentido e sobre o quanto se deve arriscar uma vida para tentar salvar outra. Nesse ínterim, temos Rana Hassan Faqih (interpretada pela atriz Saja Kilani), que, em um primeiro momento, tenta manter o distanciamento profissional, mas logo se entrega à dor ao ouvir os pedidos ininterruptos de socorro da menina. Os momentos mais dramáticos e marcantes do filme são protagonizados por Saja, em uma atuação que merecia até mesmo reconhecimento na temporada de prêmios.
O ato final é, desde já, um dos mais perturbadores do cinema recente. É onde a ficção e a linguagem documental se entrelaçam até se tornarem uma coisa só, culminando nas imagens reais de onde o carro com a menina foi encontrado. A cena é uma representação devastadora sobre o quanto esse conflito é desumano, onde a população civil paga o preço mais alto. "A Voz de Hind Rajab" é um filme extremamente necessário, funcionando como um registro histórico doloroso e urgente sobre as tragédias cotidianas que devastam Gaza.
Trata-se de um verdadeiro soco no estômago, onde o horror quase nunca é mostrado graficamente, mas sentido através do relato de uma voz inocente que sequer entendia a dimensão da violência ao seu redor.
Onde Assistir: Netflix
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