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Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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quarta-feira, 22 de julho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'A Divina Sarah Bernhardt'

Sinopse: O longa foca na sua vida íntima e extravagante, destacando seu espírito transgressor, relacionamentos abertos e a luta contra desafios pessoais, como uma grave amputação de perna.

As cinebiografias tendem a seguir a fórmula de sempre ao revelar a consagração, o declínio e a redenção do artista. Se por um lado há títulos convencionais, por outro existem aqueles que fogem do previsível e se encaminham para algo além do comum, como foi o caso do maravilhoso "Piaf – Um Hino ao Amor" (2007). "A Divina Sarah Bernhardt" pode não possuir o mesmo quilate, mas surpreende com seu requinte visual e uma atuação feminina digna de nota.

Dirigido por Guillaume Nicloux, a trama se situa entre o final do século XIX e os primeiros anos do novo século. Exatamente nessa época, Sarah Bernhardt (Sandrine Kiberlain) brilhava como uma grande atriz, rosto do movimento Art Nouveau e uma das pioneiras do cinema. Ela é considerada por muitos a primeira estrela mundial da história. O filme mergulha na vida da artista e nos apresenta um novo lado de uma das precursoras do teatro mundial.

Guillaume Nicloux cria uma abertura que faz uma bela homenagem à maneira como os primeiros filmes do cinema mudo eram apresentados ao grande público, representando tempos mais dourados nos quais a arte, como um todo, era o que dava vida às pessoas. Mas do auge surge a decadência: a primeira aparição da protagonista, já no fim de sua vida, representa o encerramento de uma era, atiçando a curiosidade do público sobre o que aconteceu antes. É então que o cineasta vai e volta no tempo, apresentando um mosaico de informações sobre a atriz.

Tendo atuado em diversas peças — inclusive no Brasil —, Sarah Bernhardt foi alguém à frente do seu tempo; uma espécie de Madonna cuja essência primordial era forte demais para um único corpo, fazendo com que ele não suportasse tanta intensidade por muito tempo. Entre o sucesso, bebidas, sexo e festas, vem a decadência gradual — sem jamais perder a força de suas palavras, principalmente perante aqueles que não souberam compreendê-la. Sandrine Kiberlain nos brinda com uma atuação soberba ao se entregar de corpo e alma a uma personagem histórica que fez toda a diferença no universo da atuação.

O filme não explora apenas a sua forte personalidade, mas também o desejo incontrolável de manter seus amantes por perto para não se sentir sozinha. Dentre eles, sua principal paixão foi Lucien Guitry (Laurent Lafitte), cujas idas e vindas ao decorrer dos anos desencadeiam situações irreversíveis. Ao mesmo tempo, a narrativa sobre essa paixão proibida, desabafada pela própria protagonista, esclarece nuances de sua história e torna o desfecho mais dramático — para não dizer trágico.

Com um figurino deslumbrante alinhado a uma belíssima direção de arte, o filme é uma declaração de amor aos tempos em que a França respirava cultura, mas enfrenava os olhares conservadores da sociedade. Sarah Bernhardt enfrentou tudo isso se entregando a performances teatrais que lhe cobraram um alto preço. Ao final, ela sai de cena, mas seu legado permanece intacto — e as cenas finais simbolizam isso com maestria.

"A Divina Sarah Bernhardt" não é somente a cinebiografia de uma artista, mas também uma ode a uma época dourada para os amantes do teatro, na qual atuar tinha um significado muito mais profundo.

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Cine Dica: Newsletter Cinemateca Capitólio - Semana 23 a 29 de Julho de 2026

 Cinemateca Capitólio estreia Futuro Futuro, de Davi Pretto, e segue exibindo filmes indicados ao Prêmio Grande Otelo 2026

A Cinemateca Capitólio continua exibindo entre os dias 23 e 29 de julho a mostra que reúne os 16 longas indicados ao Prêmio Grande Otelo 2026, premiação anual da Academia Brasileira de Cinema que reconhece as produções nacionais de destaque entre os lançamentos da última temporada. A programação divide horários com a estreia do longa gaúcho Futuro Futuro, de Davi Pretto, vencedor do Festival de Brasília no ano passado.


Mais informações em www.capitolio.org.br/programacao

terça-feira, 21 de julho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'O Convite'

Sinopse: Joe e Angela decidem quebrar a rotina do casamento convidando os vizinhos Hawk e Pina para jantar.

Não é de hoje que o cinema se casa com perfeição com a arte do teatro, existindo diversos longas cujas tramas se passam em um único cenário. Se por um lado temos clássicos de tribunal como "12 Homens e uma Sentença" (1957), do outro, temos comédias refinadas como "Deus da Carnificina" (2011) e "Qual o Nome do Bebê?" (2011). "O Convite" (2026) se alinha aos dois últimos citados, tornando-se uma das melhores surpresas do ano.

Dirigido por Olivia Wilde (de "Fora de Série", 2019), na trama conhecemos Joe (Seth Rogen) e Angela (Olivia Wilde), um casal que se vê preso no marasmo da relação. Para sair da rotina, eles decidem convidar os seus vizinhos Hawk (Edward Norton) e Piña (Penélope Cruz) para jantar. No entanto, o que era para ser uma noite tranquila com coquetel se transforma em um evento repleto de reviravoltas inesperadas, onde segredos picantes começam a vir à tona.

Dividindo a carreira entre o cinema e séries de TV, Olivia Wilde surpreendeu nos últimos anos como diretora, e aqui ela obtém o equilíbrio perfeito. Nota-se, por exemplo, que logo na abertura temos a noção de que tudo se passará naquele apartamento, mas a realizadora opta por fazer um verdadeiro jogo de cenas: o uso dos espelhos nos dá a dimensão precisa da ação e reação do casal central e de como eles interagem no primeiro ato. Percebe-se o cuidado no domínio da cena não apenas pela forma de filmar, mas também pelo fato de a própria diretora estar à frente da câmera atuando com maestria.

Bebendo da fonte de realizadores autorais da comédia como Woody Allen, a diretora constrói personagens que transitam da lucidez à beira de um ataque de nervos na tentativa de sair da rotina e se sentirem mais vivos. A personagem de Olivia, por exemplo, sintetiza uma pessoa em busca de uma razão para continuar nesse casamento, nem que para isso precise se submeter a situações hilárias, para dizer o mínimo. A química entre ela e Seth Rogen é impecável ao representarem um casal em crise, mas que busca alguma fórmula para prosseguir junto.

Uma vez que o outro casal entra em cena, o filme nos brinda com um dos diálogos mais afiados do ano, no qual facilmente caímos na risada através de piadas criativas e ousadas, mas nunca apelativas. O que temos aqui é uma comédia adulta, feita para divertir, mas que ao mesmo tempo provoca reflexões sobre as complexidades dos relacionamentos contemporâneos. Nada melhor do que rir de uma desgraça com a qual nos identificamos facilmente.

E como é bom rever Edward Norton em cena — uma das grandes promessas do final do século passado que provou, e continua provando, o quanto tem a oferecer à sétima arte. Porém, é Penélope Cruz quem coloca o filme no bolso ao interpretar uma mulher que sabe exatamente o que quer em relação a relacionamento e sexo, colocando esses assuntos na mesa com total naturalidade e deixando o casal central de queixo caído. Não me surpreenderia se, no ano que vem, ela fosse novamente indicada ao Oscar, mesmo que sua personagem guarde semelhanças com o papel que lhe garantiu a estatueta em "Vicky Cristina Barcelona" (2008).

Com desdobramentos surpreendentes, a narrativa nos conduz por momentos em que cada protagonista revela sua verdadeira faceta, fazendo com que nos conectemos com eles à medida que a trama avança. O ato final é um belo exemplo de como o humor pode transitar por elementos dramáticos sem jamais soar piegas, mostrando-se extremamente humano. O final aberto quanto ao destino dos dois casais é mais do que proposital: como nossos próprios relacionamentos do lado de cá da tela guardam incertezas parecidas, compreendemos perfeitamente a situação deles.

"O Convite" é, desde já, uma das melhores comédias do ano. Nele, Olivia Wilde prova que o gênero continua pulsando forte — bastam um roteiro criativo e a sensibilidade necessária para arrancar do público um grande sorriso.

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Cine Dica: PROGRAMAÇÃO CINEBANCÁRIOS 23 A 29 DE JULHO

 Vencedor de Melhor Filme no Festival do Rio, “Pequenas Criaturas” estreia no CineBancários junto de “Mil Luas”, longa que se debruça sobre a velhice

Dia 22 de julho estreiam, no CineBancários, dois filmes nacionais: “Pequenas Criaturas”, estrelado por Carolina Dieckman e vencedor do prêmio de Melhor Filme no Festival do Rio, e “Mil Luas”, dirigido pela brasiliense Carina Bini.

“Pequenas Criaturas”, segundo longa-metragem da diretora e roteirista Anne Pinheiro Guimarães, foi um dos grandes destaques do Festival do Rio 2025. Estrelado por Carolina Dieckmmann, que também assina como produtora associada, Caco Ciocler e grande elenco, o filme venceu o Troféu Redentor de Melhor Longa-metragem de Ficção na mostra Première Brasil e também recebeu o prêmio de Direção de Arte, concedido a Claudia Andrade.

O longa, inteiramente rodado em Brasília e ambientado no ano de 1986, acompanha Helena (Carolina Dieckmmann), uma mulher que acaba de se mudar para a capital federal com o marido e os dois filhos. Em um momento de transformações pessoais e familiares, ela precisa se adaptar a uma nova cidade enquanto lida com as frequentes ausências do marido, que passa longos períodos viajando a trabalho.

Ao mesmo tempo em que enfrenta os desafios dessa nova rotina, Helena acompanha as mudanças vividas pelos filhos. André (Théo Medon), o mais velho, atravessa as descobertas da adolescência e do primeiro amor. Dudu (Lorenzo Mello), o caçula, encontra novas amizades e explora o mundo a partir do olhar próprio da infância. Cada integrante da família vive, à sua maneira, o processo de adaptação a um ambiente desconhecido.

O filme aborda temas como maternidade, pertencimento, relações familiares e os desafios de recomeçar em diferentes fases da vida. A trajetória da personagem principal reflete questões que permanecem presentes na realidade de muitas mulheres, especialmente aquelas que conciliam o cuidado com os filhos, a gestão da vida doméstica e a busca por espaço para suas próprias escolhas e desejos.

“Pequenas Criaturas” também propõe um olhar sobre as transformações que marcam a passagem da infância para a adolescência e os impactos que mudanças familiares e geográficas exercem sobre cada geração. Ao acompanhar uma família em processo de adaptação, o filme explora vínculos afetivos, construção de identidade e a formação de novas redes de apoio.


“Mil Luas” reflete sobre envelhecimento e liberdade


“Mil Luas” é um filme sobre a coragem humana de conquistar a liberdade e a autonomia a qualquer tempo. Protagonizado por Thaia Perez, acompanha a imigrante italiana Chiara, uma mulher de 80 anos, mãe solo e independente, que vê seu mundo ruir com a venda do restaurante La Bambina - que construiu ao seguir o sonho de uma vida melhor para si e sua filha Angelina (Beta Rangel). Entre memórias e perdas, ela embarca numa jornada  sobre o tempo, o afeto e a liberdade, redescobrindo sua força, autonomia e a coragem de recomeçar. Uma história sobre envelhecer com dignidade na certeza de que nunca é tarde para escolher a si mesma. “Mil Luas” é uma fábula sobre a envelhecência. 

Ao sentir que está perdendo seu legado, Chiara mergulha em um processo doloroso de enfrentamento da finitude. Mas o encantamento da pequena Ana Beatriz (Luara Tiera), o encontro inesperado com o jovem místico Francisco (Victor Abrão) e as amizades de Marco (Nuno Leal Maia) e Raimunda (Paula Passos) mostram que a vida pode surpreender. Ao fazer as pazes com o presente, Chiara decide que nunca é tarde para seguir seus sonhos, ressignificando a própria velhice.

O longa ressoa com os dados mais recentes do Censo 2022, que mostram o acelerado envelhecimento da população brasileira e o crescimento expressivo da presença digital de pessoas com mais de 65 anos. “Mil Luas” coloca em foco uma personagem idosa que desafia estigmas e se reconecta com a vida por meio da arte, da espiritualidade e dos afetos, um retrato contemporâneo e necessário da velhice no Brasil.


PROGRAMAÇÃO CINEBANCÁRIOS DE 23 A 29 DE JULHO


ESTREIAS:


PEQUENAS CRIATURAS

Brasil/Drama/ 2025/ 106min.

Direção: Anne Pinheiro Guimarães

Sinopse: Helena e a família se mudam para a futurista Brasília de 1986, mas ela é deixada para trás pelo marido em uma viagem de negócios. Frustrada, Helena lida com a adaptação à cidade desconhecida e as crises do filho adolescente e do caçula, de sete anos.

Elenco:  Carolina Dieckmann, Letícia Sabatella, Caco Ciocler

MIL LUAS

Brasil/Drama/2025/ 75min.

Direção: Carina Bini

Sinopse: Chiara, uma imigrante italiana de 80 anos, precisa lidar com a dor da perda ao ver seu restaurante ser vendido. Ela, então, começa uma jornada para descobrir mais sobre si mesma por meio de encontros com novas pessoas.

Elenco: Thaia Perez, Nuno Leal Maia, Beta Rangel



EM CARTAZ:


A NOITE DE ALAÍDE

Brasil/ Documentário/2025/100min

Direção: Liliane Mutti

Sinopse: Um retrato sensível e contemporâneo da artista Alaíde Costa, combinando muita música, arquivos inéditos, atores e uma abordagem poética da memória. Revela a força estética e emocional de Alaíde, que atravessou diferentes períodos da cultura brasileira sem fazer concessões.



HORÁRIOS DE 23 A 29 DE JULHO

(não há sessões nas segundas)

15h: A NOITE DE ALAÍDE

17h: MIL LUAS

19h: PEQUENAS CRIATURAS


Ingressos

Os ingressos podem ser adquiridos a R$ 14 na bilheteria do CineBancários. Idosos (as), estudantes, bancários (as), jornalistas sindicalizados (as), portadores de ID Jovem e pessoas com deficiência pagam R$ 7. São aceitos cartões nas bandeiras Banricompras, Visa, MasterCard e Elo. Nas quintas-feiras, a meia-entrada (R$ 7) é para todos e todas.


CineBancários

Rua General Câmara, 424 – Centro – Porto Alegre

Mais informações pelo telefone (51) 3030.9405 ou pelo e-mail cinebancarios@sindbancarios.org.br


Amanda Zulke 

CineBancários | SindBancários 

(51) 3030-9400 | (51) 99920-6484

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'A Odisseia'

Sinopse: "A Odisseia" acompanha Odisseu (Matt Damon) em sua jornada de 20 anos para retornar à ilha de Ítaca após a Guerra de Troia.

A primeira vez que ouvi a palavra verossimilhança foi na edição especial do DVD do clássico "Superman" (1978), de Richard Donner. Verossimilhança é a característica daquilo que parece verdadeiro, que é crível ou semelhante à realidade. Donner usou essa palavra como guia durante as filmagens para nos fazer crer que um homem poderia voar — mesmo em uma época na qual as técnicas de efeitos visuais tinham limitações severas.

Talvez essa palavra seja também a que melhor define o talento de Christopher Nolan ao abraçar projetos em que realidade e ficção estão separadas por uma linha tênue. Na trilogia "O Cavaleiro das Trevas" (2005–2012), ele reconstruiu do zero a imagem de um ícone da cultura pop e nos fez acreditar que um homem poderia, sim, vestir-se de morcego para combater o crime em uma cidade em decadência. Em "A Origem" (2010), a viagem pelos sonhos parecia crível; o mesmo aconteceu com a exploração espacial em busca da salvação da humanidade em "Interstellar" (2014).

"Oppenheimer" (2023) foi a prova definitiva de que o realizador sabia como ninguém atrair multidões: afinal, quem imaginaria que um drama de três horas sobre o pai da bomba atômica arrebataria até os mais céticos? Parecia que Nolan havia atingido o teto, provocando o questionamento se seria capaz de superar a si mesmo. A resposta vem com força avassaladora em "A Odisseia" (2026), espetáculo baseado em um dos maiores clássicos da literatura ocidental e que certamente será lembrado por muito tempo.

Inspirado no poema épico atribuído a Homero, o filme narra as provações do herói grego Odisseu (Matt Damon) para retornar ao lar após a queda de Troia, onde sua esposa Penélope (Anne Hathaway) o aguarda. Em seu percurso, o rei de Ítaca enfrenta deuses e criaturas míticas, cruzando o caminho do Ciclope Polifemo, das Sereias e da feiticeira Circe.

Quem acompanha a filmografia de Nolan sabe que o diretor evita ao máximo o uso de efeitos digitais, priorizando os efeitos práticos do cinema tradicional. Imaginar um épico mitológico sem o uso massivo de CGI parecia impensável — mas não para um cineasta cujo perfeccionismo faz o impossível ganhar sentido. Visualmente, o filme é um espetáculo em que o fantástico adquire contornos tão realistas que nos faz crer que gigantes realmente pisaram na Terra.

Se resta alguma dúvida, basta aguardar a sequência em que Odisseu e seus soldados adentram a caverna do Ciclope Polifemo — criação que se posiciona desde já entre os maiores feitos técnicos da carreira do diretor. É um ponto de encontro perfeito entre ação e horror, no qual a figura monstruosa emerge das sombras e nos faz perguntar como Nolan alcançou tal nível de realismo. Aqui, a verossimilhança não é apenas um conceito, mas o motor de toda a narrativa.

Além da passagem marcante pela ilha do Ciclope, Nolan surpreende na sequência em que os soldados caem nas garras da feiticeira Circe. A atmosfera se torna angustiante pelo uso exemplar de maquiagem tradicional e efeitos práticos. Vale destacar a atuação de Samantha Morton, que entrega um show em tela mesmo com pouco tempo de cena, provando que um grande talento aliado a uma direção precisa faz toda a diferença.

Aliás, cabe ressaltar a força do elenco estrelado. Nomes como Tom Holland, Anne Hathaway, Robert Pattinson, Lupita Nyong'o, Zendaya, Charlize Theron, Jon Bernthal e Elliot Page interpretam figuras cruciais para a jornada de Odisseu. Mesmo nas participações mais breves, a presença em cena é marcante. O grande destaque, contudo, vai para Matt Damon. Sem se intimidar com o peso do personagem já adaptado inúmeras vezes, ele entrega um Odisseu visceral, humano e profundamente falho.

Ao reconhecer seu papel central na destruição de Troia, o protagonista passa a carregar um fardo sufocante. Sua caminhada parece menos uma luta pelo regresso e mais a busca por um castigo autopromovido — interpretação que ganha força na hipnotizante cena do canto das Sereias. Esse sentimento de culpa também torna enigmática a figura de Atena (Zendaya). Nolan constrói os deuses de forma ambígua, aproximando-se do tom adotado por Wolfgang Petersen em "Troia" (2004): fica a dúvida se são os deuses que guiam o destino do herói ou se são as próprias ações de Odisseu que moldam sua punição.

Desde "Amnésia" (2000), nota-se a predileção do cineasta por personagens atormentados pelo passado, cuja busca por redenção raramente atinge um desfecho pleno. Odisseu guarda conexões diretas com "Oppenheimer": o Cavalo de Troia trouxe morte e devastação, tornando-se o fantasma que o assombra. Nolan sugere, assim, que os perigos da jornada não são meros acasos do destino, mas provações arquitetadas pelo próprio íntimo do herói para que ele se torne merecedor do retorno ao lar.

Esse tom psicológico é elevado pela trilha sonora de Ludwig Göransson, que constrói a tensão de forma progressiva. A música nos guia pela aflição do protagonista; metade da grandeza de sequências como o ataque a Troia deve-se ao casamento perfeito entre a composição épica e a precisão técnica da direção.

A invasão de Troia também serve como ponto de ancoragem para a estrutura não linear do filme. Nolan vai e volta no tempo, montando um quebra-cabeça entre o passado e o presente do rei de Ítaca. Embora a montagem possa soar um pouco confusa em um primeiro momento, tudo se encaixa com precisão à medida que a jornada se aproxima do clímax.

No fim das contas, parece que Christopher Nolan aborda cada projeto como se fosse o seu último, ao mesmo tempo em que o utiliza como laboratório para o passo seguinte. "Dunkirk" (2017) pavimentou o caminho para "Tenet" (2020), que por sua vez abriu portas para "Oppenheimer" (2023) — culminando agora no que talvez seja o ápice de sua carreira em termos de escala, realismo e rigor estético.

Apoiado por uma direção de arte impecável, figurinos precisos e uma fotografia deslumbrante, "A Odisseia" é um triunfo cinematográfico. Um encontro raro entre a fantasia mitológica e o rigor da verossimilhança que apenas um cineasta no topo de seu domínio criativo poderia entregar.

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Cine Dica: Fronteiras do Documentário

 INSCRIÇÕES ABERTAS

Curso

FRONTEIRAS DO DOCUMENTÁRIO:

SEXO, IMAGEM E VERDADE

de Luciana Tubello


* Datas: 15 e 16 / Agosto (sábado e domingo)

* Local: Cinemateca Capitólio (Rua Demétrio Ribeiro, 1085 - Centro - Porto Alegre - RS)

* Horário: 14h30 às 17h30


Apresentação

Na contemporaneidade, as redes sociais, as práticas audiovisuais experimentais e as produções documentais tornaram-se palcos centrais para a expressão da identidade. Multiplicam-se, hoje, os gestos de exposição de si que atravessam diretamente o corpo e o desejo. Investigar o cinema documentário contemporâneo sob essa ótica exige compreendê-lo não apenas como um registro passivo da realidade, mas como uma prática poderosa de produção de subjetividade.


Objetivos

O curso Fronteiras do Documentário: Sexo, Imagem e Verdade, ministrado por Luciana Tubello, propõe abordar o documentário contemporâneo a partir das relações entre sexo, imagem e regimes de verdade no audiovisual, tensionando as concepções tradicionais do gênero como mera representação do real.


Ministrante: Luciana Tubello

Mestra em Educação pela UFRGS com nas áreas de cinema, educação e formação de públicos. Assistente de produção executiva do projeto RodaCine, voltado à difusão do audiovisual, e responsável pela curadoria e produção da Sessão Quintaninha, dedicada ao público escolar e integrada à programação da Cinemateca Paulo Amorim. Desenvolveu projetos de formação e produção audiovisual com financiamento do Pró-Cultura RS FAC. Atualmente, pesquisa as relações entre sexo, imagem e constituição do sujeito no documentário contemporâneo.


Informações / Inscrições

https://cinemacineum.blogspot.com/2026/07/fronteiras-do-documentario.html

domingo, 19 de julho de 2026

Cine Dica: Próximo Cine Debate – 'Risa e o Telefone do Vento'

Sinopse: Após o desaparecimento do pai, Risa, de 10 anos, descobre um telefone quebrado que lhe dá a chance de falar com os mortos.

Filmes sobre a vida pós-morte já não são nenhuma novidade no decorrer da história do cinema. Se por um lado o cinema norte-americano tem o seu clássico "Ghost: Do Outro Lado da Vida" (1990), por outro, o próprio cinema brasileiro explorou o assunto com força no início dos anos 2010, como nos casos de "Chico Xavier" (2010) e "Nosso Lar" (2010). Diante disso, "Risa e o Telefone do Vento" (2026) surge como uma singela e sensível história sobre o poder da inocência perante um tema, por vezes, inexplicável.

Dirigido por Juan Cabral, o longa acompanha a pequena Risa, que perdeu o pai quando ainda era muito nova. A sua rotina muda quando ela encontra uma cabine telefônica isolada, através da qual consegue conversar com as vítimas de um incêndio na cidade. Esses espíritos desejam passar mensagens finais para os seus entes queridos que ainda estão vivos, e essa comunicação inesperada fará a protagonista encarar uma realidade que ela nunca imaginou ser possível.

Embora o filme tivesse todos os elementos para ser rodado de forma convencional, é fascinante observar como Juan Cabral constrói as cenas com um rigor quase perfeccionista. Cada ação e reação dos personagens carrega um subtexto, assim como certos objetos repletos de simbolismo que surgem no decorrer do enredo. A cidade onde os eventos ocorrem parece semi-morta, habitada por sobreviventes que se mantêm abraçados à esperança gerada pela cabine telefônica — o que acaba despertando a atenção da pequena protagonista. O filme prende o espectador pelo óbvio, mas alinha a narrativa a elementos imprevisíveis e às reais facetas das personagens principais.

Neste quesito, talvez o melhor exemplo seja o próprio Esteban, interpretado brilhantemente por Diego Peretti. Apresentado inicialmente como uma figura duvidosa, ele logo revela a sua verdadeira essência à medida que passa a se importar com Risa e com aquilo em que ela acredita. O seu visual, inclusive, remete fortemente ao inesquecível Harry Dean Stanton no clássico "Paris, Texas" (1984); em comum, ambos os personagens buscam a redenção através da inocência de uma criança.

O roteiro não se preocupa em dar uma explicação lógica ou plausível para o fenômeno, mas, ao mesmo tempo, tudo soa verossímil. A escolha de não utilizar efeitos visuais mirabolantes para moldar o teor fantástico fortalece a obra, deixando o foco na ideia primordial que movimenta as relações humanas. É interessante notar que este longa argentino estreia em um momento delicado, no qual a cultura do país vizinho enfrenta o sucateamento sob o governo Milei. A produção, portanto, torna-se um belo exemplo de que a criatividade faz toda a diferença, mesmo diante da escassez de recursos.

Em suma, "Risa e o Telefone do Vento" é um longa tocante em que o realismo e o gênero fantástico se alinham perfeitamente. Uma obra que ensina que a empatia e a prática do bem fazem toda a diferença, conduzindo os personagens centrais rumo a uma necessária e bela redenção.


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