Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte.
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Sinopse: Acompanha Matt Murdock operando na clandestinidade junto a Karen Page. Enquanto isso, Wilson Fisk, agora prefeito de Nova York, institui lei marcial e cria uma Força-Tarefa Anti-Vigilantes.
Em minha crítica sobre a temporada anterior, apontei o fato de o estúdio não ter criado um recomeço do zero para o personagem, preferindo dar continuidade a eventos apresentados na época da Netflix. Isso resultou em um primeiro ano por vezes irregular, mas que já plantava ideias promissoras — desde que os realizadores respeitassem o fato de que o Demolidor é um dos heróis mais humanos das histórias em quadrinhos e aproveitassem a chance de construir uma narrativa criativa. Felizmente, "Demolidor: Renascido – 2ª Temporada" (2026) não é apenas superior à sua predecessora, mas consegue subir o degrau que o herói tanto precisava.
Na trama, o prefeito Wilson Fisk sufoca a cidade de Nova York enquanto persegue o inimigo público número um: o vigilante de Hell’s Kitchen. Por trás da máscara com chifres, Matt Murdock tenta contra-atacar a partir das sombras para derrubar o império corrupto do Rei do Crime e retomar seu lar. Para isso, velhos aliados ressurgem e articulam silenciosamente uma resistência.
Começando a história exatamente de onde parou, a série explora a fundo o papel das redes sociais, mostrando como elas servem tanto a favor quanto contra Fisk, que tenta controlar a cidade com mão de ferro. O Demolidor torna-se um herói ainda mais clandestino, cujos passos podem ser vigiados por qualquer um que deseje capturá-lo. Ponto para os roteiristas, que decidiram elevar o grau de perigo, deixando o protagonista cada vez mais encurralado.
Em termos de ação, os realizadores acertaram ao não cometer o erro de abusar de CGI nas lutas. Em vez disso, construíram cenas verossímeis, com planos-sequência impactantes e um nível de violência elevado — inédito para um estúdio que costuma colocar a mão no freio. Embora pertença ao mesmo universo dos Vingadores, o Demolidor sempre foi um herói suburbano; o dilema e a brutalidade vistos na tela não diferem muito do que ocorre nas grandes metrópoles hoje em dia. A verossimilhança aumenta à medida que Fisk não mede esforços para se manter no poder, usando a força bruta para esmagar a oposição.
Talvez esse seja o maior acerto deste ano: alinhar-se a temas contemporâneos do mundo real, onde discursos de extrema-direita não medem esforços para usar a desinformação e a influência digital para persuadir a população. Ao mesmo tempo, a oposição se organiza no mesmo ambiente virtual, criando um embate ideológico feroz de todos os lados. Qualquer semelhança com a realidade — especialmente em tempos em que o Brasil vive pré-campanhas para as próximas eleições — não é mera coincidência.
No elenco, Charlie Cox cumpre seu papel com a segurança de sempre, mas é Deborah Ann Woll, como Karen Page, quem se supera, construindo uma personagem dividida entre o bom senso e o desejo de fazer justiça com as próprias mãos após tantas perdas. Contudo, Vincent D'Onofrio rouba a cena em momentos de pura intensidade. Seu Rei do Crime está convicto de que age em defesa de Nova York, nem que para isso precise transformar a cidade em um verdadeiro inferno na Terra. Os episódios finais não só oferecem as melhores atuações do elenco, como também elevam a produção a um novo patamar, superando suas contrapartes do gênero.
Contando ainda com uma participação especial de Jessica Jones, a segunda temporada de "Demolidor: Renascido" já se consolida como o ápice do herói nas telas até aqui. Uma obra que tira o espectador da zona de conforto e surpreende a cada episódio.
"What If...?" (2021) foi talvez uma das séries de animação mais criativas do período inicial em que a Marvel apostou alto na produção de filmes e séries para o Disney+. Ao explorar as diversas histórias do multiverso, os roteiristas expandiram seu leque de originalidade, mesmo quando a série decaiu em sua terceira e última temporada. Porém, a produção abriu brecha para a criação de "Marvel Zombies" (2025), onde o simples fato de não pertencer ao universo principal serve para que os realizadores façam o que bem entenderem com a narrativa.
Contando com as vozes de atores como Awkwafina, David Harbour e Simu Liu no elenco original, a série narra a história a partir dos acontecimentos de "What If…?", em que membros dos Vingadores se transformam em zumbis e dão início a um apocalipse em nível global. Agora, os sobreviventes precisarão unir forças para se proteger enquanto buscam uma cura para o vírus.
Por ter apenas quatro capítulos, a série não perde tempo com muitas explicações, mesmo quando os roteiristas aproveitam ao máximo diversos personagens do estúdio já vistos em séries ou no cinema. Para o espectador de primeira viagem, a quantidade de informações pode até parecer confusa, mas a trama diverte pela sua imprevisibilidade, principalmente ao usar personagens populares da casa como zumbis em cenas dignas de um filme de horror. O destaque fica para Elizabeth Olsen, que dá voz à sua Feiticeira Escarlate e fortalece a fé dos fãs de que ela poderá, um dia, retornar ao seu papel no cinema.
Com um final em aberto e extremamente apocalíptico, "Marvel Zombies" é um sinal de que o estúdio ousa, aos poucos, arriscar-se em projetos alternativos como este, mesmo quando a narrativa se atrapalha ligeiramente ao apresentar tantos personagens ao mesmo tempo.
"Pantera Negra" (2018) foi mais do que outra aventura heroica da Marvel; foi uma forma de o estúdio tocar em assuntos políticos espinhosos, desde o preconceito e a colonização até conflitos de potências pelo mundo. Infelizmente, o segundo filme, "Pantera Negra: Wakanda para Sempre" (2022), veio enfraquecido devido à ausência de Chadwick Boseman, embora ainda mantivesse uma temática mais adulta e alinhada com a aventura. "Olhos de Wakanda" (2025) traz um novo frescor à franquia ao explorar o passado deste reino e lançar a possibilidade de novas histórias serem contadas.
Com vozes de Cress Williams, Patricia Belcher e Lynn Whitfield no elenco de dublagem, a trama foca nos Guerreiros de Wakanda, cuja missão é viajar pelo mundo para resgatar perigosos artefatos feitos de vibranium. Ambientada em diferentes períodos de tempo, a série explora o famoso país de T'Challa e aprofunda ainda mais o Universo Cinematográfico Marvel (MCU).
Diferente de "Marvel Zombies", os realizadores optaram aqui por um visual mais colorido, rico em detalhes e que explora o lado cultural de épocas distintas. O ponto positivo é que cada episódio pode ser apreciado como uma trama independente, mesmo quando, no quarto episódio, revela-se que tudo está conectado através dos artefatos preciosos perdidos na história. Em meio a isso, como não poderia deixar de ser, a série possui diversas cenas de ação e luta, coreografadas de uma forma que o espectador compreenda perfeitamente o que está acontecendo na tela.
Se o estúdio for inteligente, a série pode se tornar uma fonte rica para a criação de diversas histórias distintas em próximas temporadas. O lado ruim é o vício do estúdio em sempre querer interligar o passado com algum evento futuro que já testemunhamos no cinema ou na TV. Ao menos, a principal interligação só é revelada no último minuto do capítulo final, e essa revelação genuinamente me surpreendeu.
"Olhos de Wakanda" é um sopro de ar fresco para os fãs da franquia, provando que nunca é demais exercer a criatividade dentro de um universo já tão estabelecido.
É curioso observar que alguns filmes fracassados se tornam cults ao serem revisitados ao longo dos anos. O que leva essas produções a ganharem esse status talvez se deva ao fato de os realizadores não terem se esforçado para obter um orçamento maior, realizando seus projetos com o que tinham à disposição. O resultado acaba gerando produções visualmente precárias, mas nas quais conseguimos sentir a paixão de se fazer cinema vinda dos envolvidos.
Talvez um dos melhores exemplos seja "Plano 9 do Espaço Sideral" (1959), do diretor Ed Wood, apontado por muitos como um dos piores filmes já feitos. Porém, Wood tinha uma obsessão em rodar suas histórias mesmo sem nenhum centavo no bolso, e, por conta disso, sentimos essa persistência em cena. Essa mesma teimosia se fazia presente nos longas produzidos pelo lendário estúdio Cannon Films.
A Cannon tornou-se mítica durante os anos 1980 ao ser comandada pelos primos israelenses Menahem Golan e Yoram Globus. Eles sempre investiam em projetos do gênero de ação onde tudo era exagerado: a violência, as atuações e as inúmeras explosões no decorrer das tramas. São deles, por exemplo, "Braddock: O Super Comando" (1984), "Stallone Cobra" (1986) e "Guerreiro Americano" (1985). Só de lembrar esses títulos já nos desperta certa nostalgia, principalmente para quem os assistiu durante a década de 80, seja em uma sessão do Domingo Maior ou em tempos em que a Sessão da Tarde era bem mais politicamente incorreta.
Com o orçamento curto compensado pelo bom dinheiro vindo das bilheterias e locações ao longo dos anos, o estúdio resolveu dar um passo mais ambicioso. Passaram a apostar em superproduções para atrair o grande público, e um desses projetos mais audaciosos foi justamente "Mestres do Universo" (1987). A produção baseou-se no clássico desenho animado que, por sua vez, nascera para impulsionar as vendas dos brinquedos colecionáveis da Mattel. O sucesso da linha infantil foi gigantesco, e muitos fãs esperavam ver seu herói preferido transposto para o cinema.
Dirigido por Gary Goddard — que curiosamente não comandou mais nenhum longa depois deste —, o filme nos mostra o maquiavélico Esqueleto (Frank Langella) invadindo o Castelo de Grayskull e fazendo da Feiticeira (Christina Pickles) sua prisioneira. O herói He-Man (Dolph Lundgren) e seus aliados Mentor (Jon Cypher), Teela (Chelsea Field) e Gwildor (Billy Barty) acabam sendo enviados à Terra por meio da Chave Cósmica, uma invenção de Gwildor que permite a abertura de portais entre quaisquer pontos do universo. Esqueleto, então, resolve vir ao nosso planeta para recuperá-la. O problema é que o artefato caiu nas mãos da jovem Julie Winston (Courteney Cox) e de seu namorado Kevin (Robert Duncan McNeill), que mal sabem da importância do objeto.
Com um orçamento de 22 milhões de dólares — o que para os padrões modestos do estúdio era uma cifra astronômica —, o filme tornou-se um verdadeiro fracasso na época, arrecadando pouco mais de 16 milhões de dólares durante sua exibição nos cinemas. Contudo, com o passar do tempo, ganhou status de cult à medida que os fãs do desenho lhe deram uma segunda chance.
Porém, é preciso ser muito fã da franquia para não reconhecer o lado nitidamente precário da produção, a começar pela abertura. O Castelo de Grayskull é visivelmente uma maquete, assim como o reino de Eternia, que surge ao fundo da cena antes de ser destruído pelas forças do vilão. Ao que tudo indica, boa parte do orçamento foi investida na construção interna do palácio de Grayskull, apontado na época como um dos maiores cenários já construídos em estúdio.
Logicamente, muita fantasia vista na animação acabou ficando de fora das telas. Os fãs sentiram a ausência do Gato Guerreiro e do atrapalhado Gorpo. Este último exigiria uma quantidade de efeitos especiais que o orçamento não cobriria, forçando os produtores a criarem um novo alívio cômico, o anão Gwildor, que acabou se tornando uma figura central e um tanto forçada na trama. Falando em efeitos visuais, eles já eram considerados datados para a época; vistos hoje, revelam de forma escancarada a maneira artesanal como foram concebidos.
Visualmente, o longa se distancia do desenho e se aproxima muito mais da estética estabelecida pela franquia Star Wars, que era a grande febre do período. Vale destacar que os anos 80 foram recheados de aventuras de fantasia científica, que nos deram pérolas como "Flash Gordon" (1980), "Krull" (1983) e "Willow - Na Terra da Magia" (1988). Curiosamente, enquanto alguns faziam sucesso imediato, outros fracassavam para só obter reconhecimento tardio.
Outro mérito a ser destacado em Mestres do Universo é o seu elenco, a começar por Dolph Lundgren. Na época, ele já era conhecido por seu papel em "Rocky IV" (1985) e buscava um filme que finalmente lhe desse o protagonismo. Fisicamente, ele convencia muito bem como He-Man, mas seu sotaque sueco era tão carregado que os realizadores cogitaram usar um dublador para o ator. A ideia foi descartada, e o resultado final ficou registrado nas telas.
Sorte a nossa que Frank Langella entregou um Esqueleto espetacular, deliciosamente teatral, distante da versão puramente infantil do desenho e nitidamente inspirado no Imperador Palpatine de "O Retorno de Jedi" (1983). Langella aceitou o papel porque seu filho era muito fã da série, e o ator abraçou o projeto com tanta seriedade que, até hoje, menciona o Esqueleto como um dos papéis mais divertidos e marcantes de sua carreira.
Outra presença curiosa é a de Meg Foster como Maligna — uma das atrizes de olhos mais marcantes daquela década, mas que frequentemente caía em produções duvidosas. Porém, a maior surpresa para o espectador contemporâneo é ver Courteney Cox bem antes de sua consagração na série "Friends" e na franquia "Pânico". Curiosamente, é ela quem carrega o maior peso dramático da trama, metendo-se no lugar errado e na hora errada no meio desse embate intergaláctico.
Não é preciso ser um gênio para notar que a vinda dos personagens para a Terra foi uma desculpa de roteiro para economizar no design de produção, já que recriar o universo de Eternia exigiria fundos que a Cannon simplesmente não tinha. O que resta é uma aventura despretensiosa, repleta de tiros de laser, atuações canastronas e lutas de espada. Curiosamente, o clímax entre He-Man e Esqueleto foi filmado logo após o estúdio ordenar o encerramento abrupto das gravações por falta de verba.
Gary Goddard teve que tirar leite de pedra para concluir a obra. Para que a emblemática luta de espadas final acontecesse, o diretor teve que tirar dinheiro do próprio bolso para financiar as filmagens e aproveitar os últimos dias dos atores no set. É nítido, nesse momento, que quase não há cenários ao fundo, pois boa parte do estúdio já havia sido desmontada. É o melhor exemplo de como essa produção se tornou complexa e caótica devido à escassez financeira.
Devido ao fracasso desta e de outras produções subsequentes (como Superman IV), a Cannon Films encerrou suas atividades no início dos anos 1990. Quando olhamos para trás, percebemos o quanto o estúdio foi corajoso ao peitar projetos grandiosos com pouco dinheiro, garantindo sua sobrevivência através do mercado de VHS. O filme do He-Man pode ter sido um dos pregos no caixão do estúdio, mas seu legado permanece intacto.
"Mestres do Universo" é o exemplo perfeito de um fracasso monumental que se transformou em uma deliciosa aventura cult e escapista, feita para não ser levada a sério do começo ao fim.
Neste final de semana, teremos sessão dupla no Clube de Cinema!
No sábado, dia 30, nosso encontro será às 10h15 da manhã na Cinemateca Capitólio, onde exibiremos Como Era Verde o Meu Vale, de John Ford. Partindo das lembranças de infância de seu protagonista, Huw Morgan, o filme retrata a transformação social e a desagregação familiar em um País de Gales atravessado pela industrialização.
No domingo, dia 31, nos reunimos na sala Eduardo Hirtz da Cinemateca Paulo Amorim para assistir Três Mulheres, de Robert Altman: um filme hipnótico e difícil de decifrar, em que identidades se confundem, personalidades parecem migrar entre personagens e a lógica narrativa cede espaço a uma atmosfera onírica. Situado numa Califórnia desértica e artificial, Três Mulheres transforma gestos cotidianos, silêncios e relações banais em matéria de estranhamento psicológico e reflexão sobre feminilidade, desejo e construção da identidade.
🗳️ Lembramos que o Clube de Cinema está concorrendo a um recurso disponibilizado por meio de emenda parlamentar para viabilizar um projeto de preservação de sua memória, e você pode nos ajudar! Basta acessar o formulário neste link, preencher seus dados e avançar para a próxima etapa. Primeiro, é necessário votar em um projeto da área da saúde. Depois, na aba “Demais Áreas”, você poderá selecionar o Clube de Cinema de Porto Alegre (código 0058). Após escolher um projeto da saúde e um projeto em “Demais Áreas”, confirme seu voto. Os projetos mais votados serão contemplados. Ajude a preservar a história e a memória do Clube de Cinema!
⚠️ Recebemos um aviso do Instituto Goethe de que após a sessão de Circusboy, ocorrida no último sábado (23/05), foram encontrados resíduos de alimentos no auditório. Reforçamos aos nossos associados a orientação de não consumir alimentos e bebidas durante as sessões nas salas parceiras.
Confira os detalhes da programação:
SÁBADO (30/05, 10h15)
Como Era Verde o Meu Vale (How Green Was My Valley)
EUA, 1941, 118min
Direção: John Ford
Roteiro: Phillip Dunne e Richard Llewellyn
Elenco: Walter Pidgeon, Mareen O’Hara, Anna Lee, Donald Crisp, Roddy McDowall, Sara Allgood, Barry Fitzgerald e Patric Knowles
📍 Local: Cinemateca Capitólio – Rua Demétrio Ribeiro, 1085 – Centro Histórico, Porto Alegre
Sinopse: Em uma comunidade mineradora do País de Gales, o jovem Huw Morgan relembra sua infância marcada pelos vínculos familiares, pelos rituais coletivos e pelas mudanças provocadas pela industrialização. Narrado a partir da memória, o filme acompanha o amadurecimento do protagonista diante das transformações sociais e afetivas que alteram para sempre o vale onde cresceu.
DOMINGO (31/05, 10h15)
Três Mulheres (3 Women)
EUA, 1977, 124min
Direção: Robert Altman
Roteiristas: Robert Altman, Patricia Resnick
Elenco: Shelley Duval, Sissy Spacek, Janice Rule
📍 Local: Cinemateca Paulo Amorim, Sala Eduardo Hirtz
Casa de Cultura Mário Quintana – Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico, Porto Alegre
Sinopse: Em uma cidade desértica da Califórnia, duas mulheres solitárias desenvolvem uma relação ambígua e cada vez mais instável após passarem a viver juntas. Entre deslocamentos de personalidade, desejos reprimidos e imagens recorrentes, o cotidiano gradualmente assume contornos de sonho e pesadelo.
Sinopse: Aírton é um nerd acusado injustamente do desaparecimento de uma colega na época da faculdade. Vinte anos depois, ele vai à festa de reencontro da turma para limpar seu nome.
Diferente do que o senso comum costuma ditar, o cinema brasileiro procura, sim, explorar outros gêneros, surpreendendo inclusive no terror desde os tempos do nosso saudoso Zé do Caixão. O Fantaspoa, por exemplo, consolida-se como um grande farol do cinema fantástico no Brasil, onde já testemunhei vários projetos criativos, mesmo com suas limitações latentes. "Cansei de Ser Nerd" (2025) surge como um caso curioso dessa mistura de vertentes, tornando a sessão, no mínimo, peculiar.
Dirigido por Gualter Pupo, o longa acompanha Aírton, o alvo favorito das piadas de seus colegas nos tempos de faculdade. Duas décadas depois, ao ser convidado para a grande festa de reencontro da turma, ele descobre que virou o convidado de honra. De repente reverenciado por todos, ele mal desconfia das reais — e sinistras — intenções por trás da celebração.
Se focarmos estritamente na narrativa, o filme entrega uma verdadeira salada de gêneros que transita pelo horror, pela ficção científica e até pela comédia romântica. No entanto, o roteiro carrega uma previsibilidade que pode decepcionar quem espera soluções mais fora da curva. Por outro lado, no aspecto visual, a produção demonstra fôlego para prender a atenção do espectador.
De início, a obra adota uma linguagem puramente pop, impulsionada por um protagonista que passa quase o tempo todo citando filmes, séries e o clássico embate entre DC e Marvel. Essa dinâmica rende uma abertura bastante divertida que, além de prestar uma bela homenagem à arte dos quadrinhos, dita o tom da jornada. Mas é no cenário da festa, onde os principais desdobramentos acontecem, que os realizadores realmente investiram pesado.
Com uma estética gótica e imersiva, o ambiente passa por constantes metamorfoses, fazendo com que a fotografia mude de tom à medida que os personagens adentram novas etapas do lugar. O ápice visual ocorre na abertura da peça central do cubo, gerando um cenário criativo e muito bem alinhado à movimentação dos atores. Curiosamente, a sequência evoca a atmosfera do clássico sci-fi "Tron" (1982), provando que a velha escola dos efeitos práticos segue mais viva do que nunca.
Quanto ao elenco, as atuações não chegam a ser o forte da produção, já que a maioria parece operar no piloto automático, apenas se divertindo com o absurdo do roteiro. Tanto Fernando Caruso quanto Rita Guedes parecem emulando o limite do riso diante das situações propostas — o que inclui um duelo de faca e espada executado de forma assumidamente amadora no ato final. A cereja do bolo fica por conta de zumbis que surgem de surpresa, um desfecho que sintetiza perfeitamente o descompromisso da obra.
No fim das contas, "Cansei de Ser Nerd" assume-se como um filme descaradamente trash. E é justamente por abraçar o ridículo de sua própria proposta que ele, em muitos momentos, acaba funcionando.
Sinopse: Enquanto a incipiente Nova República trabalha para proteger tudo pelo que a Rebelião lutou, eles recrutam a ajuda do lendário caçador de recompensas mandaloriano Din Djarin e de seu jovem aprendiz Grogu.
A série "O Mandaloriano" foi o pontapé inicial para que a Disney pudesse explorar ainda mais o universo expandido de Star Wars para a TV. Com três temporadas de grande sucesso, muitos se perguntavam se o estúdio exploraria uma nova aventura futura de Din Djarin e seu fiel jovem Grogu. Eis que então a resposta vem através de um longa-metragem, "Star Wars: O Mandaloriano e Grogu" (2026), produção nem um pouco pretensiosa, mas que basicamente nos entrega uma aventura escapista genuinamente redonda.
Dirigido por Jon Favreau, a trama dá continuidade aos acontecimentos vistos nas últimas temporadas da série, onde vemos o lendário caçador de recompensas Mandaloriano Din Djarin (Pedro Pascal) e seu jovem aprendiz Grogu sendo, de vez em quando, contratados pela Aliança a serviço de uma nova missão. Em uma nova aventura, os protagonistas enfrentam os sucessores de Jabba, o Hutt, além de diversas criaturas e caçadores de recompensa. Nesta cruzada, Grogu terá que demonstrar todo o seu potencial através da Força.
Existe aquele velho ditado que diz que em time que está ganhando não se mexe, e talvez seja isso o que melhor represente esse novo longa-metragem. Se formos analisar de uma forma mais fria, é mais do que óbvio que a trama inicialmente era para ser inserida em uma quarta temporada, mas era questão de lógica os produtores um dia explorarem os protagonistas no cinema. O resultado é um filme sem nenhuma pretensão de reinventar a roda, mas sim de nos brindar com uma boa aventura à moda antiga.
Talvez essa seja a carta escondida na manga do baralho, pois a história não tem nada de novo e não coloca a relação do Mandaloriano com Grogu em um novo patamar, mas sim mantém fiel o que já havia sido construído. Porém, isso não é algo negativo, visto que a relação de pai e filho entre os dois protagonistas sempre foi o coração pulsante da série como um todo, e mudar isso poderia gerar um certo risco. O charme do filme está no fato de vermos queridos personagens na tela grande e disso ninguém poderá discordar, diga-se de passagem.
Porém, é preciso reconhecer o quanto o roteiro colabora para que Grogu se torne não um mero personagem fofinho para ser apreciado na tela, mas sim uma figura enigmática e de grande potencial no decorrer da história. Em um determinado momento, por exemplo, ele se torna a única salvação do protagonista, passagem da trama que se torna o melhor momento do longa. Ao mesmo tempo, é muito bom ver os realizadores conseguindo fazer uma homenagem de forma simbólica ao mestre Yoda de quando o conhecemos pela primeira vez em "O Império Contra-Ataca" (1980).
Em termos de ação, o filme possui o mesmo ritmo do que foi visto na série, mas em uma escala maior no que diz respeito aos efeitos visuais. Porém, é curioso observar que em nenhum momento se nota um CGI de forma desnecessária; pelo contrário, o recurso colabora para o melhor desenvolvimento da trama. Além disso, em tempos em que está cada vez mais raro sentirmos "peso" em cenas digitais, é interessante constatar que sentimos algo verossímil em alguns momentos, principalmente nas cenas em que os X-wings surgem em tela.
Acima de tudo, o filme se casa com a proposta bem antiga que George Lucas pretendia com Star Wars, ao criar uma aventura despretensiosa e que remetesse aos velhos tempos dos seriados matinais e dos filmes de aventura e ficção científica. A franquia pode ter amadurecido conforme os anos foram passando, mas nunca é demais apreciarmos um longa sem nenhuma ambição aparente, que nasceu somente para entreter de uma forma positiva. Sem nenhuma vaidade, mas sendo fiel à sua raiz primordial.
"Star Wars: O Mandaloriano e Grogu" é uma aventura espacial despretensiosa, escapista e que não tem medo de demonstrar não ser nem um pouco ambiciosa.
A última cinesemana de maio traz a estreia de NATAL AMARGO, o novo filme do cultuado diretor espanhol Pedro Almodóvar. Com seu estilo particular, o cineasta conta uma história sobre um diretor em crise de criatividade que mistura fatos pessoais e de seus relacionamentos pra criar um novo roteiro. Outra novidade é o documentário brasileiro ALMA NEGRA, DO QUILOMBO AO BAILE, do diretor Flavio Frederico, que recupera o sucesso da música afrobrasileira nos anos 1960 e 1970.
Seguem em cartaz o longa FANON, uma cinebiografia sobre o psiquiatra Frantz Fanon, autor de livro sobre as consequências emocionais da colonização sobre as populações invadidas, junto com SEIS DIAS NAQUELA PRIMAVERA, produção franco-belga sobre uma mãe que não mede esforços para proporcionar um pequeno período de férias para seus filhos. Sucesso de público, O ESTRANGEIRO, baseado na obra de Albert Camus, ganha mais uma semana de exibição.
Os longas ERUPCJA, sobre duas amigas que vivem dias de reencontro e ebulição interior, e SURDA, sobre a maternidade de uma mãe deficiente auditiva, têm suas últimas sessões nesta semana.
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