Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte.
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Nota: Filme exibido para os associados no dia 28/06/26.
Sinopse: Uma sequência de homicídios intriga a polícia japonesa: vítimas diferentes são encontradas com a mesma marca gravada no corpo, embora os autores dos crimes não pareçam ter qualquer ligação entre si.
Kiyoshi Kurosawa chamou a atenção no Japão no momento em que o país iniciava uma espécie de nova onda de filmes de horror, a partir do final dos anos noventa. O realizador sempre optou por tramas que transitam entre o suspense psicológico e pitadas do gênero fantástico, como no caso de "Creepy" (2016), obra onde tive meu primeiro contato com o lado autoral do diretor. Em um de seus primeiros trabalhos, intitulado "A Cura" (1997), o cineasta nos proporciona uma narrativa investigativa com desdobramentos surpreendentes, cujo peso carregamos mesmo após o término da exibição.
Na trama, acompanhamos o detetive Takabe, que busca compreender a origem de um padrão perturbador de assassinatos, enquanto um misterioso homem sem memória surge como a peça central de um enigma cada vez mais inquietante. Kurosawa constrói uma atmosfera policial com pinceladas do subgênero noir, onde as sombras dos ambientes ditam as regras e cuja faísca de luz não significa exatamente esperança. À medida que a história avança, os crimes acontecem e os executores são pegos, mas nenhum deles apresenta uma motivação clara para o ato. Em todos os casos, pessoas comuns cometem homicídios similares, deixando um "X" preto marcado no local e atiçando ainda mais a obsessão do investigador.
Takabe, interpretado brilhantemente por Koji Yakusho, já convive com seus próprios tormentos ao cuidar da esposa, que sofre de problemas psicológicos, enquanto tenta conter o desejo latente de solucionar todos os males do mundo. Uma vez imerso nesse mistério, sua fixação o conduz a um beco sem saída, tornando-o uma presa fácil para o real condutor dos crimes. Este, por sua vez, é vivido de forma assombrosa por Masato Hagiwara, cujo personagem transita entre momentos de aparente inocência e sarcasmo, dando as cartas através de uma persuasão hipnótica e eficaz.
Nesse ponto, o roteiro nos brinda com um estudo verossímil sobre a fronteira entre a lógica e o ocultismo. Vale lembrar que, até o fim do século XIX, a hipnose era frequentemente tachada como charlatanismo ou blasfêmia, passando a ser estudada sob prismas mais científicos e lógicos a partir do surgimento da psicanálise. Apoiado nesse limiar, Kurosawa constrói uma trama em que os personagens convivem com o pesadelo do mundo real, onde indivíduos comuns já guardam seus lados mais sombrios; a persuasão do antagonista funciona como um mero gatilho para que o pior do ser humano venha à tona.
Ao final, o realizador nos deixa com a incômoda certeza de que a escuridão humana prossegue, independente de um indivíduo específico ser detido ou não, pois sempre haverá outros prontos para despertar diante do estímulo certo. Não é à toa que o cineasta daria continuidade a essa atmosfera em títulos posteriores de temática familiar, como "Antes que o Mundo Acabe" (2018) e o recente "Cloud – Nuvem de Vingança" (2025).
Em "A Cura", todos os ingredientes que Kurosawa aperfeiçoaria ao longo de sua carreira já estavam presentes. É a obra que revelou seu talento ao mundo e que, com sua atmosfera psicológica alinhada ao fantástico, permanece perturbadora e genial ainda hoje. Não por acaso, é apontada por muitos como a grande obra-prima de sua filmografia.
Neste sábado (04/07), às 10h15 da manhã, o Clube de Cinema de Porto Alegre se reune na Cinemateca Paulo Amorim para uma sessão de O Estrangeiro, de François Ozon.
Baseado na obra homônima de Albert Camus, o filme traz uma adaptação fiel e visualmente elegante de um dos textos fundamentais do século XX. Ambientado na Argélia colonial e com uma expressiva fotografia em preto e branco, o filme preserva a atmosfera de estranhamento e ambiguidade da obra original, acompanhando um protagonista cuja indiferença diante da vida acaba colocando em xeque as convenções morais da sociedade que o julga.
Aos amantes do cinema francês, é bom lembrar que amanhã (quinta-feira, 02/07), às 19h, damos continuidade ao ciclo "Nouvelle Vague e suas influências", promovido em parecia com a Sala Redenção da UFRGS, com o filme Nas Garras do Vício, de Claude Chabrol. Após a sessão, acompanharemos os comentários da crítica e pesquisadora de cinema Fatimarlei Lunardelli. Neste ano, o ciclo participa de ação de extensão da UFRGS, de forma que oferece certificação aos participantes, possibilitando o aproveitamento de horas complementares. Inscreva-se!
Confira os detalhes da sessão:
SESSÃO DE SÁBADO NO CLUBE DE CINEMA
📅 Data: 04/07 (sábado), às 10h15 da manhã
📍 Local: Cinemateca Paulo Amorim
Casa de Cultura Mário Quintana – Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico, Porto Alegre
O Estrangeiro (L'étranger)
França, 2025, 112min
Direção e roteiro: Fraçois Ozon (baseado em romance de Albert Camus)
Elenco: Benjamin Voisin, Rebecca Marder, Pierre Lottin
Sinopse: Na Argélia dos anos 1930, Meursault leva uma vida marcada pela apatia e pelo distanciamento emocional. Após matar um homem em circunstâncias aparentemente banais, ele enfrenta um julgamento que ultrapassa o próprio crime, transformando sua indiferença diante da morte, do amor e das convenções sociais no verdadeiro objeto de condenação.
Sobre o Filme: François Ozon é, atualmente, um dos diretores franceses mais curiosos de se analisar de perto, justamente por sua versatilidade. Ele transita com facilidade por boas comédias, como "O Crime é Meu" (2023), e por dramas densos cujos temas soam polêmicos, como no caso de "Está Tudo Bem" (2021). "Em O Estrangeiro" (2025), o realizador prova novamente que alguns clássicos literários ainda podem — e devem — ser reaproveitados nos dias de hoje, entregando uma adaptação que é uma prova mais do que genuína desse potencial.
Adaptação da obra-prima literária do franco-argelino Albert Camus, o filme conta a história de Meursault, um homem indiferente que vive na Argélia ocupada dos anos 1930 e demonstra uma completa apatia perante a vida. Quando sua mãe morre, nenhuma emoção parece comovê-lo. Já no dia seguinte ao funeral, ele começa a se relacionar com sua colega de trabalho, Marie. No entanto, a rotina monótona de Meursault é interrompida por um vizinho que o arrasta para uma série de negociações obscuras até que, num dia quente de verão, uma tragédia ocorre na praia.
Confira a minha crítica já publicada clicando aqui e seja sócio do Clube de Cinema.
Sinopse: Joe (Rogen) e Angela (Wilde), um casal que atravessa uma fase turbulenta no relacionamento. Durante um jantar aparentemente comum com os vizinhos do andar de cima,
MINIONS & MONSTROS
Sinopse: Esta é a história frenética, improvável e totalmente verdadeira de como os Minions conquistaram Hollywood, se tornaram estrelas de cinema, perderam tudo, libertaram monstros no mundo e depois se uniram para tentar salvar o planeta do caos que acabaram criando.
Documentário nacional “Anatomia do Caos” estreia junto do drama turco “Salvação” dia 2 de julho no CineBancários
O CineBancários exibe duas estreias no próximo 2 de julho: o documentário nacional “Anatomia do Caos”, às 17h, e o longa-metragem “Salvação”, Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim, às 19h. Na sessão das 15h, a sala exibe o filme "Quinze Dias", de Daniel Lieff.
“Salvação”, escrito e dirigido por Emin Alper, focaliza os mecanismos por trás de um massacre motivado politicamente no núcleo de um clã na Turquia. É uma parábola perturbadora sobre o medo do outro, na qual o exílio e o retorno alimentam a divisão, a história enterrada ressurge, e um novo poder emerge ao instrumentalizar o passado e as crenças antigas.
Ambientado em uma remota vila montanhosa, "Salvação" gira em torno de um conflito desencadeado por uma disputa de terras. É inspirado em um caso real ocorrido em 2009, no qual 12 membros de uma família em uma vila na região curda da Turquia invadiram um casamento e mataram 44 pessoas, incluindo mulheres e crianças. “Foi um evento chocante para mim. Comecei a me perguntar: ‘Como pessoas podem agir coletivamente dessa maneira?’. Entendi que havia um líder incitando os perpetradores. Então me questionei: ‘Como um líder pode convencer tanta gente?’. Li as notícias, entrevistas, mas não consegui formar uma imagem satisfatória com todas essas informações. Então me vi escrevendo um roteiro que faz referência à história moderna da humanidade, que envolve massacres, genocídios e guerras”, declarou Alper à Variety.
“Como doutor em História, vejo uma conexão clara entre essa história e o contexto mais amplo. Todos estão hoje fazendo a pergunta: ‘Para onde estão levando o mundo esses líderes [Netanyahu, Trump, Putin]?’ Essa questão se tornou repentinamente mais atual do que quando eu estava escrevendo o filme, há quatro anos”, completou o diretor. Este é o quinto longa de sua carreira.
“Salvação” também traz elementos sobrenaturais, que apontam para a tradição sufi e de maneira geral para as experiências religiosas místicas na Turquia, quase sempre atreladas aos sonhos - e sua capacidade de moldar visões de mundo em diferentes culturas. O diretor esteve na Berlinale em 2019 com “A Tale of Three Sisters”, seguido por seu filme arrebatador para Cannes em 2022, “Burning Days”.
“Anatomia do Caos” investiga as omissões na gestão da pandemia de Covid-19
Depois de uma bem-sucedida estreia no cinema de ficção com a cinebiografia de Gal Costa (“Meu Nome É Gal”), protagonizada por Sophie Charlotte, Dandara Ferreira volta ao circuito agora com um documentário político. No dia 2 de julho, chega aos cinemas “Anatomia do Caos”, em que a cineasta baiana mostra a negligência do governo de Jair Bolsonaro na pandemia de coronavírus a partir dos trabalhos da CPI da Covid. A diretora teve acesso aos bastidores da comissão no Senado e entrevistou parlamentares no longa que pretende discutir memória e justiça no Brasil.
O filme chega aos cinemas com distribuição da Descoloniza Filmes e relembra as omissões do governo federal e da extrema-direita durante a pandemia que culminaram na morte de mais de 700 mil brasileiros. A obra traça um panorama nacional de como decisões deliberadas e a falta de respostas adequadas diante de uma emergência sanitária global moldaram o cenário de crise em todo o país, revelando registros de bastidores inéditos de senadores, documentos e investigações que expõem as falhas estruturais na condução da crise.
A gênese do projeto remonta a abril de 2021, quando a diretora decidiu ir a Brasília registrar os trabalhos da comissão em um momento de incerteza e medo. “O que me movia naquele momento era a percepção de que o país atravessava algo maior do que uma crise sanitária. Havia uma disputa brutal em torno da própria realidade”, afirma Dandara Ferreira.
Para a realizadora, a CPI da Pandemia surge no documentário como um palco trágico nacional, um teatro político onde o país encenou publicamente suas fraturas morais e seus mecanismos de apagamento. O filme explora como o discurso oficial produziu uma confusão deliberada, transformando a morte em ruído político e a ciência em inimiga. “Não se tratava apenas de negligência. Havia uma construção narrativa em curso, uma política da desinformação que transformava a morte em estatística e a dor coletiva em deboche”, pontua a cineasta, que buscou capturar o país à deriva enquanto os eventos ainda se desenrolavam em rede nacional.
“Anatomia do Caos” também confronta a impunidade dos responsáveis diretos pela condução política da crise, tratando a ausência de consequências como uma das imagens mais violentas deixadas pelo período. Segundo a diretora, o documentário não busca apenas revisitar o passado, mas questionar o presente e o que significa seguir adiante sem justiça ou responsabilização. “Esse filme nasce da necessidade pessoal de registrar esse período e da certeza de que algumas imagens precisam continuar abertas, porque elas ainda nos olham de volta”, conclui.
PROGRAMAÇÃO CINEBANCÁRIOS DE 2 A 8 DE JULHO
ESTREIAS:
SALVAÇÃO
Turquia/Drama/2025/117min.
Direção: Emin Alper
Sinopse: Numa aldeia remota no alto das montanhas turcas, o regresso de um clã exilado reacende uma antiga disputa de terras. Ressentimentos adormecidos ressurgem e Mesut, irmão do líder local, é acometido por visões perturbadoras que acredita serem avisos divinos. À medida que as convicções religiosas, as lutas pelo poder e as tensões aumentam na comunidade, eles seguirão para a tragédia ou para a salvação? Ganhador do Urso de Prata no Festival de Berlim 2026.
Elenco: Caner Cindoruk, Berkay Ateş, Feyyaz Duman
ANATOMIA DO CAOS
Brasil/ Documentário/89min.
Direção: Dandara Ferreira
Sinopse: Com acesso inédito ao Senado, o filme acompanha por dentro a trajetória da CPI da Covid-19 e transforma esse registro em um retrato de um dos períodos mais marcantes e difíceis da nossa história recente.
EM CARTAZ:
APENAS COISAS BOAS
Brasil/Drama/2025/104’
Direção: Daniel Nolasco
Sinopse: Catalão, interior de Goiás, 1984. A região rural da Batalha dos Neves é formada por grandes pastos de lavoura, algumas poucas fazendas e dividida ao meio pelo rio São Marcos. Antonio vive sozinho e isolado cuidando dos afazeres de sua pequena fazenda até o dia em que seu destino cruza com o de Marcelo, um motoqueiro solitário que sofre um acidente atravessando a região. Antonio cuida das feridas de Marcelo. Os dois se apaixonam e vivem uma história que transforma, desestabiliza e provoca rupturas em cada um deles.
Elenco: Lucas Drummond, Fernando Libonati, Liev Carlos, Renata Carvalho, Igor Leoni, Guilherme Théo, Norval Berbari, Lizz Miranda, Brenda Oliveira
HORÁRIOS DE 02 A 08 DE JULHO
(não há sessões nas segundas)
15h: APENAS COISAS BOAS
17h: ANATOMIA DO CAOS
19h: SALVAÇÃO
Ingressos
Os ingressos podem ser adquiridos a R$ 14 na bilheteria do CineBancários. Idosos (as), estudantes, bancários (as), jornalistas sindicalizados (as), portadores de ID Jovem e pessoas com deficiência pagam R$ 7. São aceitos cartões nas bandeiras Banricompras, Visa, MasterCard e Elo. Nas quintas-feiras, a meia-entrada (R$ 7) é para todos e todas.
A primeira cinesemana de julho marca a estreia de FRANZ, a aguardada cinebiografia do escritor Franz Kafka dirigida pela polonesa Agnieszka Holland. Outra novidade é belga NÓS ACREDITAMOS EM VOCÊS, drama ambientado durante uma audiência em que um casal briga pela custódia dos filhos. Também temos os dez filmes do 8 1/2 FESTA DO CINEMA ITALIANO, que apresenta parte da nova safra da produção italiana e que ainda traz uma cópia restaurada de CARO DIÁRIO, de Nanni Moretti, em comemoração às suas três décadas de lançamento.
A programação segue com UMA INFÂNCIA ALEMÃ, de Fatih Akin, que estreou como favorito do público na semana passada. Também permanecem em cartaz alguns títulos que são sucesso entre nossos frequentadores, como a cinebiografia FANON, o longa NATAL AMARGO, a produção iraquiana O BOLO DO PRESIDENTE e os romances UM TRISTE E BELO MUNDO, ambientado no Líbano, e 8 DÉCADAS DE AMOR, que tem como pano de fundo os conflitos na Espanha.
O encontro de julho com o crítico Waldemar Dalenogare será em torno do longa 2001: UMA ODISSEIA NO ESPAÇO, clássico do cinema lançado há seis décadas.
Confira a programação completa no site da Cinemateca clicando aqui.
Sinopse: Kátia Klein, uma escritora de 45 anos e mãe sobrecarregada, vê sua vida sair do eixo devido a um bloqueio criativo e à falência de seu casamento.
No decorrer da história do cinema, não faltam longas-metragens que exploram a questão do alcoolismo, fazendo com que os seus protagonistas adentrem em um verdadeiro inferno astral. Filmes clássicos como "Farrapo Humano" (1945) e "Despedida em Las Vegas" (1995) levam seus personagens ao limite, em tramas moldadas com um teor dramático indiscutível. Porém, "(Des)controle" (2025) é um caso curioso por tratar esse assunto delicado com pinceladas de humor, provocando no espectador reações diversas.
Sob a direção de Rosane Svartman e Carol Minêm, acompanhamos a jornada de Kátia Klein (Carolina Dieckmann), que vive uma crise criativa impulsionada pela pressão do trabalho e da família. Diante dessa rotina caótica, Kátia busca um alívio na bebida, passando de uma despretensiosa taça de vinho ao descontrole completo. Não demora muito para que um lado seu, antes adormecido, acabe despertando diante da situação.
Svartman e Minêm são diretoras que construíram suas carreiras cinematográficas através daquelas comédias brasileiras supercoloridas — mas que, na maioria das vezes, não têm muita graça. Portanto, não se surpreenda se, em um determinado momento, surgir em cena um cenário com quadros referentes a alguns títulos do gênero, sendo o mais destacado "Minha Mãe é Uma Peça" (2013). Este, por sua vez, é talvez um dos poucos que vale a pena ser lembrado, embora não condiga com o tom deste longa.
O primeiro ato, por exemplo, faz parecer que estamos diante de situações que nos encaminham para uma comédia quase pastelão, repleta de gatilhos que fazem a protagonista perder as estribeiras e recorrer novamente ao álcool. É apenas aos poucos que o filme ganha contornos mais sombrios, o que ainda assim não é suficiente para extinguir a sensação de estarmos diante de uma comédia involuntária. Ao menos, Carolina Dieckmann faz toda a diferença.
Estrela de novelas da Globo, Dieckmann já provou sua versatilidade no cinema em obras como o pesado "O Silêncio do Céu" (2016). Aqui, ela demonstra talento ao dar vida a uma personagem que não sofre apenas com o alcoolismo, mas também com o surgimento de uma outra face de sua personalidade após beber. É interessante notar como ambas as facetas acabam sendo bem distintas uma da outra, um mérito que se deve muito ao talento da artista.
Não que o tema não possa ser tratado com certa leveza ou humor, mas fica a sensação de que o filme planejava ser uma coisa e se enveredou por outra. Se, por um lado, essa oscilação faz com que a obra quase perca sua identidade própria, por outro, a iniciativa de debater o quão prejudicial é o vício do álcool ainda se mostra mais do que válida. O discurso final — com depoimentos de pessoas que aparentam ser reais e que sofreram com a dependência — é um ponto alto que merece ser destacado.
No fim, "(Des)controle" se sustenta graças ao talento individual de Carolina Dieckmann, mesmo quando os seus realizadores parecem não ter encontrado o tom ideal para explorar a complexidade do alcoolismo como um todo.
Nesta quinta-feira (02/07), às 19h, o Clube de Cinema promove mais uma sessão do ciclo "Nouvelle Vague e suas influências", realizado em parceria com a Sala Redenção da UFRGS.
O filme da vez é Nas Garras do Vício (Le beau Serge), de Claude Chabrol. Considerado uma das obras inaugurais da Nouvelle Vague, o longa acompanha o reencontro de dois antigos amigos em um pequeno vilarejo francês e, a partir dessa relação, reflete sobre as frustrações da vida provinciana, o peso da culpa e as possibilidades de redenção. Com grande força dramática, o filme explora a melancolia de seus personagens e da própria cidade, aproveitando ao máximo os cenários reais.
Após a sessão, contaremos com os comentários da crítica e pesquisadora de cinema Fatimarlei Lunardelli. Lembramos ainda que o ciclo integra uma ação de extensão da UFRGS e oferece certificado de participação, possibilitando o aproveitamento de horas complementares para estudantes. Inscreva-se!
Confira os detalhes da sessão:
SESSÃO DE QUINTA-FEIRA NO CLUBE DE CINEMA
📅 Data: 02/07 (quinta-feira), às 19h
📍 Local: Sala Redenção – UFRGS
R. Eng. Luiz Englert, 333 – Bairro Farroupilha, Porto Alegre
🎤 Sessão comentada por Fatimarlei Lunardelli
🎟️ Entrada franca e aberta à comunidade
Nas Garras do Vício (Le beau Serge)
França, 1958, 98 min
Direção e roteiro: Claude Chabrol
Elenco: Gérard Blain, Jean-Claude Brialy, Michèle Méritz e Bernadette Lafont
Sinopse: Após retornar à sua cidade natal para se recuperar de uma doença, François reencontra Serge, um antigo amigo consumido pelo alcoolismo e pelo desencanto. À medida que revive lembranças e observa as tensões daquele pequeno vilarejo, ele tenta ajudá-lo a romper o ciclo de autodestruição que passou a definir sua vida.
Sinopse: Katia, uma brilhante documentarista de 35 anos, demonstra singularidade na maneira como vive seus relacionamentos, todos mais ou menos caóticos. Sua participação em uma nova reportagem a leva a, finalmente, dar um nome à sua diferença.
Por mais que o clássico "Rain Man" (1988) tenha dado visibilidade ao autismo, ele também acabou reforçando alguns estereótipos. Nos últimos tempos, porém, surgiram títulos que merecem ser conferidos por trazerem maior autenticidade ao assunto. "Uma Mulher Diferente" (2025) não tem a pretensão de ser um clássico como o filme de Barry Levinson, mas busca entregar algo bem mais verossímil e de grande interesse público.
Dirigido por Lola Doillon, o longa acompanha a rotina de Katia (Jehnny Beth) em uma produtora de documentários. Ela se mostra uma pessoa pouco sociável e com dificuldades para manter relacionamentos estáveis. Em certa ocasião, ao ser convocada para trabalhar em um projeto sobre autismo, ela acaba se descobrindo dentro do próprio espectro.
Lola Doillon constrói uma narrativa que mostra como uma pessoa autista age, tanto em sociedade quanto na intimidade. O resultado faz com que o público se identifique com a protagonista; independentemente de termos ou não um diagnóstico similar, simpatizamos com ela porque o filme nos lembra que ninguém é obrigado a se encaixar em moldes, mas sim a ser autêntico. A obra não serve apenas para abrir uma nova página sobre o tema, mas foi feita para ser debatida e tratada com profundo respeito.
Sendo uma atriz e cantora de grande talento, Jehnny Beth se sai muito bem ao interpretar uma personagem que, embora reservada, busca caminhos para se abrir com os outros, seja no ambiente de trabalho ou com o namorado. Se em um primeiro momento ela se sente perdida ao tentar se enturmar, logo começa a se encontrar a partir do momento em que compreende sua neurodivergência. É a partir daí que a personagem se sente mais leve, percebendo que a resposta sempre esteve à sua frente.
filme também faz uma crítica mais do que justa à forma como essas pessoas historicamente foram tratadas, muitas vezes diagnosticadas de maneira errada e empurradas para o isolamento. Em tempos de redes sociais saturadas por informações que mais atrapalham do que ajudam, a produção nos lembra da necessidade vital de buscar um direcionamento especializado.
Em suma, "Uma Mulher Diferente" é um convite precioso para conhecermos melhor o tema e enxergarmos a questão além do que os nossos olhos podem ver, desconstruindo estereótipos com o máximo de realismo.
Cinemateca Capitólio segue com mostra em parceria com a Cinemateca Brasileira e lança projeto de exibição de filmes clássicos
Após uma semana de interrupção em virtude da programação do 16º Cine Esquema Novo, a Cinemateca Capitólio retoma a partir de 2 de julho a mostra A Cinemateca é Brasileira – Da Comédia ao Drama, inaugurada em 16 de junho. Nesta semana, serão exibidos os longas Última Parada 174, de Bruno Barreto, O Lobo Atrás da Porta, de Fernando Coimbra, Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós, Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, de Roberto Farias, O Estranho Mundo de Zé do Caixão, de José Mojica Marins, Saneamento Básico, o Filme, de Jorge Furtado, Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, O Homem do Pau-Brasil, de Joaquim Pedro de Andrade, Amei um Bicheiro, de Jorge Ileli, Los Silencios, de Beatriz Seigner, e os curtas Escasso, de Clara Anastácia e Gabriela Gaia Meirelles, O Duplo, de Juliana Rojas, e A Entrevista, de Helena Solberg. Todas as sessões da mostra têm entrada franca.
No sábado, dia 4 de julho, às 17, a Cinemateca Capitólio inaugura um novo projeto de exibição, a sessão Clássicos. Inspirada em outro projeto exitoso de exibição da Capitólio, o Raros, a sessão irá promover exibições únicas de filmes considerados clássicos da história do cinema, sempre nos finais da tarde de sábado, com entrada franca. O projeto pretende destacar obras fundamentais da história do cinema, a partir do slogan “filmes que você precisa ver antes de morrer”, mas cujo conhecimento e circulação é inferior à sua importância. Para a sessão de estreia, o filme escolhido é O Retrato de Dorian Gray (1945), de Albert Lewin, suntuosa adaptação do célebre romance homônimo de Oscar Wilde (aguarde divulgação específica).
Também no dia 2 de julho, às 19 horas, a Capitólio recebe a sessão de lançamento do documentário Contos dos Cantos da Cidade, idealizado por Thiago Ramil, com direção de Lucas Moraes, que reúne narrativas, memórias e manifestações artísticas de moradores que experimentam a cidade de Porto Alegre há décadas e sob diversas perspectivas: indígenas, imigrantes, afro-brasileiras, femininas. A sessão tem entrada gratuita e será seguida de debate com a equipe do filme.
Confira a programação completa da cinemateca no site oficial da sala clicando aqui.
Sinopse: Ao contrário do Superman, Kara Zor-El (Milly Alcock) cresceu em Krypton e testemunhou sua destruição. Quando um adversário implacável a ataca, ela faz uma aliança improvável em uma épica jornada interestelar de vingança e justiça.
"Supergirl: Mulher do Amanhã" (2021) é, sem sombra de dúvida, uma das melhores HQs de super-heróis dos últimos anos. A encruzilhada da protagonista em buscar o seu lugar no mundo após testemunhar a destruição de seu planeta natal foi escrita por Tom King e ilustrada pela brasileira Bilquis Evely. É uma história definitiva sobre a personagem, o que me fez temer ainda mais pela sua adaptação no cinema.
James Gunn sabia da total responsabilidade que tinha em mãos ao comandar o novo universo DC nas telas. Assim, quando um longa inspirado nessa incrível história foi anunciado, muitos acompanharam o desenvolvimento do projeto passo a passo. Após o sucesso de "Superman" (2025), as esperanças dos fãs só aumentavam — mesmo quando eu preferia manter os pés firmes no chão, para dizer o mínimo. Pois bem, "Supergirl" (2026) não é exatamente fiel à sua fonte original, mas a sua essência está lá, chamando a nossa atenção com um enredo que foge do convencional dentro do gênero.
Dirigido por Craig Gillespie, de "Eu, Tonya" (2017), o filme conta a história de Kara Zor-El (Milly Alcock), que testemunhou o colapso de Krypton aos 14 anos de idade e agora, aos 21, sofre uma crise de identidade por não saber como se encaixar no novo mundo em que vive. Em outro planeta, Kara se encontra com Ruthye Marie Knoll (Eve Ridley), uma alienígena com um desejo ardente de vingança contra o mercenário Krem (Matthias Schoenaerts), responsável pela morte de sua família. Inicialmente, Kara não está interessada em ajudá-la; porém, a partir do momento em que o vilão envenena Krypto, a protagonista decide se aliar a Ruthye para buscar um antídoto e, consequentemente, partir para a desforra.
Inspirado na HQ citada, o filme remete a algumas passagens que já se tornaram conhecidas para aqueles que leram essa obra-prima. No entanto, o longa possui personalidade própria ao não ser uma cópia exata do conto, mesmo quando bate aquela pontada de desejo de que o projeto fosse 100% fiel. Mas estamos falando de um filme que faz parte de um projeto maior e que possui forte interligação com o novo Superman do cinema.
Ainda assim, a obra pode ser apreciada sem a obrigação de ter visto outros longas ou séries anteriores. O que vemos aqui é uma protagonista com superpoderes incríveis, mas que não sabe lidar com a dor do luto e com um novo mundo que não é seu, enquanto tenta buscar dentro de si uma razão para colocar em prática o lado virtuoso que seu primo tanto lhe ensinou. Por conta disso, é hilário vê-la bêbada, curtindo uma música pop e sem se preocupar com o que virá em seguida.
Consagrada na série "A Casa do Dragão", Milly Alcock carrega o filme nas costas com garra, raiva e uma doçura em cena que nos faz identificar facilmente com ela. Nós nos emocionamos com os flashbacks, que nos dão a real dimensão da dor que ela guarda e procura afogar nas baladas espaciais. No momento em que ela se dá conta de que precisa agir, ocorre um belo casamento entre efeitos visuais e ação: a cena em que ela manifesta seus poderes através do sol amarelo se torna um dos melhores momentos de todo o filme.
Eve Ridley, por sua vez, tem a missão ingrata de interpretar uma personagem que acaba se tornando uma mera desculpa para colocar a protagonista em movimento. Ainda assim, podemos interpretá-la como uma representação de nós, espectadores, perante o fato de compreender as motivações de Kara e suas lições de moral sobre não querer matar os vilões da história. A química entre as duas funciona bem, mas muito se deve ao talento da própria Milly Alcock.
Já Matthias Schoenaerts entrega um vilão nada memorável, mas ao menos detestável o suficiente para desejarmos o pior para ele, principalmente quando é revelada a sua exploração de jovens garotas como escravas. Neste ponto, o filme remete a algo parecido com o que foi visto em "Mad Max: Estrada da Fúria" (2015) — e, curiosamente, o longa possui muitos dos elementos do universo apocalíptico orquestrado por George Miller. É interessante observar também como a produção adota uma tecnologia retrô com relação a alguns planetas vistos na tela, o que remete diretamente ao clássico cult "Blade Runner" (1982).
E embora eu tenha dito que o filme funciona de forma independente do restante do universo DC, é curiosa a inserção do personagem Lobo na trama. Inexistente na HQ que serviu de base, Lobo é colocado na história de forma gratuita e não acrescenta em nada à narrativa, a não ser pelo fato de testemunharmos um visual 100% fiel à sua contraparte dos quadrinhos. Jason Momoa nasceu para o papel, mas sua participação especial serve apenas para nos fazer desejar um filme solo do personagem.
Mesmo sendo um blockbuster da temporada de verão norte-americana, os realizadores ao menos não caíram na tentação de usar efeitos em CGI desnecessários do começo ao fim. O filme ganha um peso muito maior quando as protagonistas estão com os pés firmes no chão. Ainda assim, é preciso reconhecer que as cenas de voo da personagem são belíssimas, além de virem entrelaçadas com uma trilha sonora econômica, mas extremamente emocionante. E falando em música, prepare-se para momentos de grande surpresa, principalmente para nós, brasileiros, que apreciamos a boa música do nosso país.
Infelizmente, o filme derrapa em alguns elementos de ação dispensáveis, principalmente por serem repetitivos e parecidos com o que já vimos em outras produções de James Gunn. Ao menos a solução final que a protagonista encontra para Ruthye e para si mesma reflete o quanto a personagem é falha e humana, fazendo-nos compreender o seu sacrifício para que sua companheira não enfrente a mesma dor que ela carregou no passado. Pode não ser um desfecho tão corajoso quanto o da HQ oficial, mas a essência está ali.
"Supergirl" foge das fórmulas convencionais e já desgastadas do gênero, brindando-nos com uma aventura espacial digna e que poderá ser melhor reconhecida com o passar do tempo.
O último filme de junho do Cineclube Torres é "Folhas de Outono" do finlandês Aki Kaurismaki, na segunda-feira dia 29, às 20h, com entrada franca.
O filme encerra o ciclo dedicado à produção audiovisual de países nórdicos europeus, na Sala Audiovisual Gilda e Leonardo. Na fria Helsinque duas almas solitárias, se encontram em um bar de karaokê e tentam construir um relacionamento, porém, o caminho é cercado por desentendimentos e adversidades. O filme ganhou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e foi considerado melhor filme de 2023 pela revista norte-americana Time.
O diretor encena o difícil romance de duas pessoas comuns, dois proletários numa cidade hostil, com a habitual fotografia de cores vívidas e enquadramentos primorosos, para criar uma delicada e emocionante fábula urbana. “Folhas de Outono é ao mesmo tempo um sopro de perseverança e um suspiro terno diante de um mundo absolutamente brutal".
A sessão será realizada na Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, na rua Pedro Cincinato Borges 420, em parceria com a Up Idiomas Torres e com entrada franca até a lotação do espaço. O Cineclube Torres é uma associação sem fins lucrativos, em atividade desde 2011; Ponto de Cultura certificado pela Lei Cultura Viva federal e estadual; Ponto de Memória pelo IBRAM; Biblioteca Comunitária no Mapa da Cultura, Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística certificada pelo Ministério do Turismo (Cadastur); Selo Destaque no Turismo da Georrota Cânions do Sul.
Serviço:
O que: Exibição do filme "Folhas de Outono" (2023) de Aki Kaurismaki
Onde: Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, junto à escola Up Idiomas, Rua Cincinato Borges 420, Torres
Quando: Segunda-feira, 29/6, às 20h
Ingressos: Entrada Franca, até lotação do local (aprox. 22 pessoas).
Cineclube Torres
Associação sem fins lucrativos
Ponto de Cultura – Lei Federal e Estadual Cultura Viva
Ponto de Memória – Instituto Brasileiro de Museus
Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística - Cadastur
Iniciada em 2021, a série sul-coreana "Round 6" se tornou um marco na Netflix ao explorar um reality show mortal e o verdadeiro papel do ser humano perante um sistema de jogo que pode deixá-lo milionário ou custar a sua própria vida. Até aqui, o criador Hwang Dong-hyuk não se vendeu ao convencional; embora a segunda temporada possuísse uma premissa similar à do primeiro ano, ela elevou os elementos imprevisíveis e nos fez perguntar o que aconteceria na sequência. "Round 6 – 3ª Temporada" (2025) encerra esse jogo mortal de forma definitiva, mesmo deixando ganchos para uma eventual expansão da franquia.
A temporada começa exatamente onde a anterior terminou: vemos Gi-hun (Lee Jung-jae) fracassar ao tentar liderar uma rebelião contra os organizadores do reality, sendo obrigado a arcar com as consequências. Ao mesmo tempo, acompanhamos os dramas dos demais personagens secundários, o que nos dá uma dimensão maior sobre quem não irá longe na competição. Fora da ilha, forças do mundo real tentam invadir o local, mas nem tudo sai como o esperado.
Verdade seja dita, tanto a segunda quanto a terceira temporada eram, na realidade, um único arco, cuja divisão em duas partes serviu puramente para inflar a audiência e reter a atenção do público. Se essa decisão foi puramente comercial, ao menos o conteúdo continua corajoso ao rejeitar fórmulas óbvias, culminando em momentos emocionantes e genuinamente dolorosos. Na reta final, personagens com quem simpatizamos partem de forma melancólica, enquanto outros continuam na história unicamente para se tornarem as próximas vítimas do processo. Em meio a isso, vemos um Gi-hun procurando dentro de si alguma lógica para continuar prosseguindo — e a resposta surge com uma nova personagem, que se torna a peça essencial para que ele possa obter a sua redenção.
Hwang Dong-hyuk constrói uma narrativa que expõe o pior lado do ser humano, tanto naqueles que lutam para sobreviver pelo tão cobiçado dinheiro, quanto no "andar de cima", composto por pessoas que se deleitam assistindo a um espetáculo sangrento. Logicamente, o final irá desagradar a muitos, principalmente a quem está acostumado ao convencionalismo hollywoodiano. Porém, o sacrifício é válido, e a mensagem final — de que devemos lutar para não sermos meros peões de um grande sistema — é mais do que justa.
Embora deixe algumas pontas soltas para um possível derivado, "Round 6 – 3ª Temporada" encerra a série de forma melancólica, mas totalmente fiel à corajosa proposta inicial da obra.
O tempo é o verdadeiro juiz de tudo que nos cerca e faz com que determinada obra seja lembrada ou esquecida. No cinema, muitos longas-metragens fazem sucesso, mas logo caem no esquecimento. Porém, há aqueles que fracassam no início para, logo em seguida, serem reconhecidos através dos anos, tornando-se verdadeiros filmes cults.
Talvez não exista melhor exemplo desse tipo de status do que o meu filme favorito, "Blade Runner" (1982). Fracasso na época de sua estreia, o longa acabou sendo redescoberto através do VHS e de exibições em cinematecas, sendo apontado hoje como um dos melhores filmes da década de oitenta. O mesmo caminho trilhou "Labirinto - A Magia do Tempo" (1986), um belo filme de fantasia injustiçado em sua época de lançamento, mas que logo ganhou o seu merecido reconhecimento através do mesmo público que no passado o havia ignorado.
Dirigido pelo saudoso Jim Henson, a história nos apresenta Sarah (Jennifer Connelly), que se sente frustrada por ter de cuidar do irmão caçula enquanto seus pais estão fora. Sonhadora e admiradora de contos fantásticos, Sarah deseja se livrar da criança, que não para de chorar. Atendendo ao seu pedido, o Rei dos Duendes (David Bowie), personagem de um dos livros de Sarah, ganha vida e sequestra o bebê. Vendo o erro que cometeu, ela decide enfrentar um labirinto e resgatar o irmão antes da meia-noite para evitar que ele seja transformado em um duende.
Quem assiste ao longa hoje pensa que ele foi baseado em uma obra literária clássica, o que não é verdade. O filme foi uma criação original vinda da mente de Jim Henson — que na época já era mundialmente conhecido pela sua obra máxima, "Os Muppets" —, e cujo roteiro foi escrito por Terry Jones, consagrado como membro do grupo humorístico Monty Python. Vale salientar que o projeto trazia a marca da produção de George Lucas, cujo nome simbolizava o melhor do cinema de aventura daquela época.
Em tempos em que o público nem sabia ao certo o significado da sigla CGI, o filme foi concebido em uma era na qual todos os envolvidos na produção colocavam a mão na massa, o que dava maior peso visual às obras. Pode-se dizer que Jim Henson usou o seu talento com marionetes em potência máxima na criação de personagens diversos e cheios de detalhes. Em alguns casos, nota-se o uso de atores anões para dar vida às criaturas, como no ambíguo Hoggle, cuja cabeça e olhos eram controlados por controle remoto. Esse artifício se tornaria popular nos anos noventa na criação de personagens que viriam a marcar época, como em "As Tartarugas Ninja" e "Família Dinossauro".
Mas, de todas as marionetes, sem sombra de dúvida a mais impressionante é Humongous, o grande guarda que protege a entrada da cidade dos duendes, controlado por um marionetista em seu interior. Todos esses personagens mágicos, moldados pelas velhas técnicas vindas do universo dos fantoches, são um belo exemplo de como a mão humana é essencial para criar figuras de ficção que nos transmitam vida, resultando em algo bem diferente do que acontece com o CGI hoje em dia. Curiosamente, na abertura surge voando uma coruja feita digitalmente, tornando-se uma das primeiras figuras cinematográficas criadas dessa forma.
Visualmente, o filme também utiliza as velhas fórmulas do fundo verde para a construção de um universo fantástico. Porém, ao invés de cenários virtuais, tudo foi feito através de desenhos e pinturas foscas (matte paintings), passando uma sensação de maior profundidade em algumas passagens da trama. Quando Sarah está perdida no labirinto, por exemplo, sentimos o grande cenário se expandindo, fazendo parecer que o lugar não tem fim. Claro que alguns fundos falsos envelheceram, mas ainda mantêm o calor e o charme daqueles que se dedicaram ao projeto.
Vale destacar que a estética do longa possui um visual que remete a um pouco de tudo: desde os clássicos "O Mágico de Oz" (1939) e "Alice no País das Maravilhas" (1951), até pinceladas que remetem aos bons tempos do expressionismo alemão, como no caso de "O Gabinete do Dr. Caligari" (1920). Além disso, a gente nunca sabe ao certo se a protagonista está vivenciando tudo aquilo ou se a jornada não passa de um sonho vindo de sua imaginação e predileção pelo universo fantástico. Algumas cenas remetem, inclusive, às clássicas pinturas surrealistas de Salvador Dalí; a sequência em que a protagonista se encontra em escadarias que desafiam a lógica da gravidade sintetiza muito bem essa ideia.
Falando em sonhos, é extremamente mágica a cena em que Sarah acaba comendo uma maçã envenenada e começa a transitar entre a realidade e o delírio. É neste momento que ela se vê em um baile de máscaras que parece ter sido extraído dos tempos do Rei Henrique VIII, onde se depara com o Rei dos Duendes. Esta é uma das minhas passagens preferidas e que potencializa a trilha sonora embalada pela voz do próprio David Bowie.
Por sinal, o astro da música pop se encontra mais do que à vontade interpretando esse personagem, cujo visual poderia soar ridículo para qualquer outro ator, mas não para ele. É interessante notar que o seu Rei dos Duendes não é exatamente um vilão convencional, mas sim um antagonista ambíguo, cujas intenções podem ser egoístas, mas que está diretamente relacionado ao amadurecimento da própria protagonista. Talvez o Rei dos Duendes nunca tenha sido o verdadeiro desafio para Sarah, mas sim ela própria.
Mesmo na flor da idade, Jennifer Connelly conseguiu construir uma Sarah que nos transmite uma mentalidade vasta quando o assunto são as fantasias e os mundos mágicos que visitava em seus livros. Porém, a vida adulta cobra o seu preço, e certas responsabilidades precisam ser abraçadas para que ela possa avançar. Portanto, salvar o seu irmão das mãos do Rei dos Duendes funciona como um rito de passagem para a maturidade, sem que ela precise se desvencilhar dos elementos fantásticos que moldaram a sua personalidade.
Infelizmente, esse foi o último grande trabalho de Jim Henson no cinema, que veio a falecer quatro anos depois do lançamento do longa, sem testemunhar o imenso reconhecimento que a sua obra obteve através do tempo. O filme simboliza tempos mais inocentes e fantasiosos, nos quais o modo de se fazer cinema com métodos práticos fazia as obras ganharem alma com mais facilidade. Assim como Sarah, nós crescemos, mas não nos esquecemos de como nos divertimos com o filme quando ele reprisava em uma inesquecível Sessão da Tarde em nossas vidas.
Com várias músicas cantadas maravilhosamente por David Bowie, "Labirinto - A Magia do Tempo" é um belo exemplo de como a magia de fazer cinema como antigamente salvou a obra do esquecimento, transformando-a em um dos longas mais cultuados de todos os tempos.