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Sócio do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já 98 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento e Cinesofia. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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domingo, 17 de novembro de 2019

Cine Dica: Em Cartaz: 'A Vida Invisível' - O machismo é a doença e as mulheres são a cura

Sinopse: No Rio de Janeiro dos anos 1950, Guida e Eurídice são cruelmente separadas, impedidas de viverem os sonhos que alimentaram juntas ainda adolescentes.  

Embora com certos avanços atualmente é notório que, em pleno século vinte um, as mulheres ainda sofrem preconceito, abuso e autoritarismo vindo justamente do seu próximo. Se isso é percebido em tempos atuais imagine então em tempos mais conservadores, onde já se havia um discurso hipócrita em defesa e a honra da família. "A Vida Invisível" não é somente um tapa na cara ao testemunharmos essa realidade, como também nos dá um fiapo de esperança mesmo quando ela se encontra perdida.  
Dirigido por Karim Aïnouz, o mesmo diretor de "Praia do Futuro" (2014) e baseado em “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, de Martha Batalha, a trama se passa no Rio de Janeiro, anos cinquenta, onde conhecemos Eurídice, interpretada por Carol Duarte, uma jovem talentosa, mas bastante introvertida, enquanto a sua irmã  Guida, interpretada pela atriz Julia Stockler, é o oposto de seu temperamento em relação ao convívio social. Ambas vivem em um rígido regime patriarcal, o que faz com que trilhem caminhos distintos: Guida decide fugir de casa com o namorado, enquanto Eurídice se esforça para se tornar uma pianista, ao mesmo tempo em que precisa lidar com as responsabilidades da vida adulta e um casamento sem amor com Antenor (Gregório Duvivier).  
É já no primeiro minuto de projeção que Karim Aïnouz nos deixa bastante claro que as duas irmãs protagonistas enfrentarão um inferno em suas encruzilhadas particulares e das quais faram com que fiquem separadas ao longo de suas vidas. Já nas primeiras cenas, por exemplo, sentimos uma química em ambulância entre as duas atrizes, fazendo com que sintamos simpatia pelo carinho em que as suas personagens sentem uma pela outra. A partir do momento em que ambas se separam devido as suas forçadas escolhas, é então que constatamos o quanto as personagens eram ligadas, pois nos passa a sensação de que ambas perderam um pedaço delas mesmas.  
A partir daí, elas sentem na pele quando se entregam ao universo dos homens, que aqui retratados não passam de seres autoritários, egoístas e que se acham no poder de fazer o que bem entenderem. Embora a trama se passe nos anos cinquenta, curiosamente, não há aquela típica fotografia de cores quentes que sintetize uma época mais dourada, mas sim um clima mórbido, sombrio e nenhum pouco acolhedor. É nesse cenário, portanto, que ambas sofrem situações parecidas, mesmo estando separadas, onde as investidas dos homens mais parecem estupros e dos quais só acontecem para satisfazerem as suas necessidades.  
Em uma realidade tão opressiva, o que resta para ambas é se dedicarem ao que melhor elas fazem. Enquanto Guida demonstra força para trabalhar em um cenário nu e cru, sua irmã Eurídice, por sua vez, se dedica a sua paixão pelo piano, para não enlouquecer em um casamento arranjado e cujo seu marido não passa de um projeto de homem perfeito inacabado. É preciso destacar nesses momentos atuação da atriz Carol Duarte, cujo o olhar de sua personagem transita entre a lucides e a loucura e nos brindando com uma grande atuação em cena.  
É preciso destacar também que, embora os homens não passem de seres repulsivos dentro da trama, outros fatores contribuem para que essa realidade se torne ainda mais opressora. Em um país em que a palavra religiosa dita as regras, isso acaba se criando um estado burocrático e do qual não dá nenhum recurso para o indivíduo continuar sobrevivendo. O resultado é um cenário em que as mulheres sobrevivem com que tem em mãos e pela ajuda que recebe do seu próximo mesmo quando as vezes isso se torna em vão.  
Logicamente, ficamos ao longo da projeção torcendo pela união das duas novamente, mesmo quando a gente sabe no fundo que isso não acontecerá facilmente.  Em uma cena do restaurante, por exemplo, constatamos o quanto elas estavam próximas uma da outra, mas o destino tinha outros planos para elas. A cena, aliás, é digna de nota, pois um suspense não é preciso do uso da violência, mas sim na elaboração de elementos para que nos provoque uma ansiedade verdadeira.  
O ato final acaba se tornando um soco no estômago para nós que esperávamos alguma redenção para ambas as protagonistas. Em contrapartida, o filme nos ensina que, por mais que convivemos com uma realidade opressora e mentirosa, por fim, a verdade sempre virá à tona. Portanto, não deixa de ser simbólico a participação mais do que especial e Fernanda Montenegro nos momentos finais do filme e cuja a sua participação é uma mensagem de força e resistência nestes tempos em que tentam nos oprimir, mas que nós não iremos nos calar.  
"A Vida Invisível" é sobre a força, amor e a vida de duas mulheres contra o machismo e de uma realidade moldada por um conservadorismo hipócrita e venenoso.    


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