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Sócio do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já 98 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento e Cinesofia. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Cine Dica: Em Cartaz: Colo e A Terra Estrangeira



Colo  

Sinopse: Em Portugal, a rotina diária de pai, mãe e filha é absorvida pelos efeitos da crise econômica. A mãe se desdobra em dois empregos para pagar as contas, pois seu marido está desempregado. A filha adolescente guarda seus próprios segredos e tenta manter sua rotina diária apesar da falta de dinheiro. Para escapar dessa realidade comum, eles se tornam, lentamente, estranhos uns aos outros, enquanto a tensão se transforma em silêncio e culpa.

Não é necessário retratar de uma forma minuciosa os períodos históricos da crise de um país num filme, pois basta, por exemplo, retratar um grupo de indivíduos para que então aja uma síntese do real estado de espírito daquele período. No filme nacional Terra Estrangeira de Walter Salles, por exemplo, vemos uma família sofrer as consequências do plano Collor, época da qual o governo confiscou as poupanças de todos os brasileiros. Então seguimos essa lógica no presente, ao testemunharmos o filme português Colo, do qual não há políticos discursando, situações que retratem a crise que assola o país ou algo do gênero, mas sim ao vermos os desdobramentos desse período de crise afetar uma família comum da classe média. 
Dirigido pela portuguesa Teresa Villaverde (Os Mutantes) acompanhamos a via cruz de uma família sendo afetada pela crise da qual Portugal passa até recentemente. O pai (João Pedro Vaz) desempregado, mãe (Beatriz Batarda) fazendo uns bicos para se sustentar e a filha Marta (Alice Albergaria Borges) tentando manter a sua rotina normal em meio às mudanças. Essa última, aliás, tem uma amiga da escola chamada Julia (Clara Frost) que está grávida e não sabe o que irá fazer.
Diferente do que a gente espera, não existe nos primeiros minutos de projeção, por exemplo, algo que nos explique os motivos que levaram essa família a se encontrar dessa maneira. Tudo que sabemos é que há uma crise no país e da qual afeta gradualmente o dia a dia dessa família. Quando o filme começa já somos transportados ao apartamento deles e é onde testemunharemos todas as mudanças das quais eles terão que encarar. 
Villaverde faz então um estudo sobre o comportamento do ser humano perante as mudanças bruscas. Antes acostumada com tudo na mão, a filha, por exemplo, não entende num primeiro momento o do porque a situação estar piorando. A mãe, aliás, tenta manter a normalidade na medida do possível, pois o pai começa a entrar numa fase de desesperança. É com ele que o espectador começa a testemunhar a falta de recursos daquele ambiente, desde a falta de comida, ou até mesmo o vermos recorrer a comer restos que se encontram na cobertura do prédio de onde eles vivem. 
Villaverde também opta em não dar muitas explicações sobre o surgimento de personagens ou de terminadas situações que surgem do nada na tela. Temos, por exemplo, a cena da qual o pai entra no carro de um conhecido seu e o força a ir num destino indefinido. É nesse momento em que a cineasta testa a nossa atenção, fazendo com que levantemos inúmeras teorias sobre o que está acontecendo e tornando a situação um dos momentos mais imprevisíveis do filme.
Talvez a grande questão que a obra levanta é que vivemos numa sociedade materialista e que, uma vez perdendo os recursos de lazer, acaba então testando o outro lado da pessoa e da qual ela mesma desconhecia. Se por um lado o marido se sente num beco sem saída, a esposa, por sua vez, tenta de todas as formas em nivelar a situação crítica e recorrer aos velhos recursos para sobreviver. Contudo, a falta de autoestima vinda do marido faz com que ela perca o controle num determinado momento chave da trama e pondo em cheque o futuro daquela família.
Em meio a isso, as jovens amigas Marta e Julia convivem numa realidade separada a dos seus pais, como se vivessem numa cruzada particular de descobertas, onde testemunham uma vida mais simples e que antes passava por elas de forma despercebida. Num dos melhores momentos do filme, vemos as jovens sem rumo após uma noite turbulenta, mas que recebem alimento de um humilde pescador em sua velha casa de trabalho. Esse cenário, aliás, será revisto nos momentos cruciais da trama e que fecha com a proposta principal do filme como um todo. 
Colo é analise complexa sobre pessoas comuns perante uma realidade dura e que os obriga a enfrentar situações até então inéditas no seu dia a dia.   

Cinemateca Capitólio: Demétrio Ribeiro, 1085 - Centro Histórico, Porto Alegre. Horário: 19h30min

 

 A terra vermelha



Sinopse: Um funcionário de uma multinacional é responsável por derrubar árvores em bosques para plantar pinheiros para a produção de papel. Ele conhece uma professora de uma comunidade rural que luta contra o uso inadequado de agrotóxicos e se vê em um fogo cruzado.


Co-produção entre Brasil, Argentina e Bélgica, a trama de A terra vermelha é inspirada em inúmeras histórias verídicas ao tocar em assunto recorrente na América do Sul, a destruição das florestas, a contaminação da natureza e das pessoas pelo uso indiscriminado de pesticidas. Dirigido e roteirizado pelo argentino Diego Martinez Vignatti, do qual trabalhou como diretor de fotografia em Japón (2012) e Batalha no céu (2005), o filme evolui em torno de seu núcleo social, político, ecológico e fazendo uma dura crítica à corrupção política e de uma realidade capitalista opressora.
Mas embora essas questões sejam o mote principal, contudo, elas surgem a partir de um romance, entre o belga radicado na Argentina Pierre (Geert Van Rampelberg), gerente de uma multinacional madeireira, e a professora Ana (Eugenia Ramírez), uma empenhada ativista contra a destruição ambiental. Num primeiro momento, trata-se de um envolvimento complexo, entre duas pessoas que têm tudo para serem oponentes um do outro. Mas é justamente destas posições distintas é que a história obtém boa parte de sua energia, se enveredando numa gradual transformação de Pierre. 
Decidido a ser pragmático e ganhar dinheiro para um dia sair do local onde vive, ele cumpre suas funções em seu emprego, mas tenta ser leal com os empregados que convive. Não acredita nos efeitos nocivos dos pesticidas que seus homens aplicam até que ele mesmo começa a sentir algo de errado com a sua própria saúde. Quando a trama se afasta do desenvolvimento do casal, o filme cria subtramas com relação a outros personagens, sem tanta individualidade e boa dose de maniqueísmo - os sindicalistas e trabalhadores da saúde, o patrão corrupto, a polícia sempre decidida em agir cm à violência para conter os protestos.
Essa dose de realidade, da qual qualquer brasileiro de hoje que se preze irá reconhecer, funciona para compreensão do problema central de que o roteiro quer tratar, fazendo então com que o longa metragem se enverede numa complexidade mais rica para o melhor aprofundamento das questões tratadas na obra. O filme funciona também pelo fato de haver poucos atores profissionais, fazendo então com que as situações, principalmente nos derradeiros últimos minutos da trama, tenham então um resultado cru, porém realístico e impiedoso.

Onde assistir: Casa de Cultura Mario Quintana. Rua das Andradas nº 736, Porto Alegre. Horário: 19horas.   

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