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terça-feira, 12 de setembro de 2017

Cine Especial: Filmes e Sonhos: Parte 9



Nos dias 16 e 17 de setembro eu estarei na Cinemateca Capitólio de Porto Alegre, participando do curso Filmes e Sonhos, criado pelo Cine Um e ministrado pelo Psicanalista Leonardo Della Pasqua. Enquanto os dias da atividade não chegam, estejam por aqui comigo, para mergulhar nos melhores exemplos cinematográficos e dos quais tentam retratar um pouco esse nosso universo do sonhar.


Estrada Perdida (1997)



Sinopse: Fred Madison (Bill Pullman) é acusado, sob misteriosas circunstâncias, de matar sua esposa Renee (Patricia Arquette). Ele logo se vê transformado em um outro homem, Pete Dayton (Balthazar Getty), possuindo uma vida completamente diferente. Quando Pete é solto no seu corpo e na sua mente, as coisas ficam cada vez mais misteriosas e intrigantes.

Como se trata de um filme de David Lynch, a pessoa não deve procurar uma história convencional e muito menos lógica em alguns momentos. A trama é delirante, com verdadeiros desafios ás leis da física e da realidade. Usando um clima de pesadelo sobrenatural, Lynch oferece uma fantasia sombria, da qual se por um lado incomoda o marinheiro de primeira viagem, por outro agrada o fã de carteirinha do diretor que não tem o que reclamar, com direito de belas imagens e sempre o bom uso da trilha sonora. Foi mais a partir desse que Lynch começou a explorar o uso de “duplo”, ou seja, personagens que se apresentam num primeiro momento, para depois serem apresentados de uma forma completamente diferente. É algo que ele usaria muitíssimo em Cidade dos Sonhos e em seguida em Império dos Sonhos, dando a entender, que a partir de Estrada Perdida, ele formaria uma espécie de trilogia do "duplo" ou então do universo dos sonhos.
É uma obra autoral instigante, que ame ou odeie que tem com um dos seus atrativos o elenco, encabeçado por um paranóico Bill Pullman e uma maliciosa Patrícia Arquette. Um dos melhores filmes dos anos 90, que rapidamente se tornou Cult e conquistou a crítica.   
     



Mulholland Drive (2001)



Sinopse: Um acidente automobilístico na estrada Mulholland Drive, em Los Angeles, dá início a uma complexa trama que envolve diversos personagens. Rita (Laura Harring) escapa da colisão, mas perde a memória e sai do local rastejando para se esconder em um edifício residencial que é administrado por Coco (Ann Miller). É nesse mesmo prédio que vai morar Betty (Naomi Watts), uma aspirante a atriz recém-chegada à cidade que conhece Rita e tenta ajudar a nova amiga a descobrir sua identidade. Em outra parte da cidade o cineasta Adam Kesher (Justin Theroux), após ser espancado pelo amante da esposa, é roubado pelos sinistros irmãos Castigliane.

Foi a partir desse filme, que conheci finalmente o universo bizarro de David Lynh. Mais precisamente, foi numa edição, da saudosa revista SET (com o ET na capa), em que além da crítica sobre o filme, tinha matéria especial falando um pouco de cada filme que ele criou. Isso foi o suficiente para eu ir à caça, para assistir a essa obra, mas nem imaginava que ela me pegaria de jeito, muito menos ter imaginado se tornando o meu segundo filme preferido da minha vida (perdendo apenas para Blade Runner).

MUITO ALÉM DAS CORTINAS VERMELHAS
Para David Lynch, os filmes não precisam fazer sentido, pois a própria vida não faz. Com essa opinião (e dentre muitas), é o que serve de impulso para ele criar filmes, um tanto que inusitados e diferentes de tudo que se vê por ai e o público há de gostar ou odiar. Quando Mulholland Drive estreou no início dessa primeira década do século 21, acabou não só gerando debates, como inúmeras teorias levantadas em diversas mídias, como a internet por exemplo. Nem mesmo Matrix, com todas as suas engrenagens filosóficas, superou em termos de debates, discutições e teorias levantadas ao longo do tempo. 
Se muitos ficaram admirados com número de buscas na rede para entender os mistérios da série Lost, pode-se dizer que foi Lynch que começou com essa mania. Isso graças ao fato de, não somente esse filme, como também outros de sua filmografia, deixar mais perguntas do que respostas nas mentes das pessoas. Para se ter uma ideia da dimensão do cenário da  época que estreou Mulholland Drive houve muitas salas de cinema, que pediam as pessoas (após terem assistido o filme), para que não contasse os mistérios e revelações da trama para aquelas pessoas que iriam pegar a sessão seguinte. Contudo, Mulholland Drive sendo visto por uma segunda ou terceira vez, consegue matar a charada, o que não quer dizer que tenhamos uma resposta para tudo que é mostrado em cena. Digamos que, do primeiro até o final do segundo ato, estejamos (aparentemente) assistindo uma história com começo, meio e fim. Mas ao surgir o enigmático (e melhor cena) momento do Clube Silêncio de uma forma inesperada, tudo que assistimos até ali é revertido e o cineasta nos joga em uma realidade, da qual num primeiro momento, ficamos sem saber o que esta acontecendo realmente.
Mas o diretor nos deixa a ficar vendo navios? Não exatamente, pois com um belo jogo de câmera, Linch nos proporciona um passeio por inúmeras pistas que surgem na tela. Mas não espere ele explicando as cenas, pois é a pessoa que irá assistir que terá que fazer um verdadeiro quebra cabeça mental com as cenas que são jogadas para ele, desde personagens chaves que surgem em cena, como determinados objetos simbólicos que aparecem, como uma chave azul e um piano miniatura como exemplo. Além disso, no decorrer da trama, mesmo com poucos recursos, Lynch gosta de brincar com nossa perspectiva, deixando a gente boiando em alguns momentos, fazendo a gente acreditar, que o que estamos vendo é uma coisa, quando na verdade é outra. Bom exemplo disso é quando surge uma cena de uma atriz cantando, no que aparentemente parece ser um palco, mas a câmera afasta e revela ser um estúdio, que por sua vez revela não estar num prédio, mas sim num deserto do entardecer, mas que por fim, quando a câmera finalmente para de se afastar, é revelado que tudo aquilo está num grande estúdio de cinema.
Na época, o filme acabou consagrando, até então a desconhecida atriz Naomi Watts, num papel que exigiu trabalho em dobro e para aqueles que já viram o filme, sabem do que estou falando. O seu desempenho foi tão elogiado, que muitos lamentaram ela não ter sido indicada ao Oscar, o que não quer dizer que não choveram inúmeros convites para filmes, que somente levantariam mais o seu status de ótima atriz, como Senhores do Crime, 21 Gramas, King Kong e dentre outros.  Vale lembrar, que originalmente Mulholland Drive foi realizado para a TV, como filme piloto que daria origem a uma série, mas, como a rede ABC rejeitou o projeto por achá-lo pesado demais, David Lynch decidiu levá-lo ao cinema. A idéia do filme surgiu quando ele visualizou a placa Mulholand Drive, a mítica estrada de Los Angeles, que atravessa as colinas de Santa Mônica, passando por Hollywood até a praia de Malibu, na Costa Oeste. Durante o último Festival de Cannes, Lynch disse que se inspirou na visão da placa sendo iluminada pelos faróis dos carros que passam pela estrada à noite, permeada pela inocência perdida de seus fantasmas que queriam conquistar Hollywood. "Que as pessoas entrem, então, nesta viagem por Mulholand Drive e sintam algo que não se explica", disse o cineasta à rede ABC de televisão.
 Mulholland Drive rendeu-lhe indicação ao Oscar de Melhor Direção em 2002 e a conquista da Palma de Ouro na mesma categoria no Festival de Cannes 2001, cujo júri foi presidido pelo próprio Lynch. O filme também foi indicado a quatro Globos de Ouro (Filme-Drama, Direção, Roteiro e Trilha Sonora) e venceu na categoria Melhor Fotografia o Independent Spirit Award, além de ter sido eleito o Melhor Filme de 2001 pelas Associações de Críticos de Cinema de Nova York, Boston e Chicago. Com tudo isso, ao longo do tempo, Mulholland Drive veio a se tornar um dos mais importantes filmes da primeira década do século 21. Um filme que mexe com os sentidos do espectador, o faz pensar e adentrar ainda mais no universo de Lynch. Seja por esse filme, ou por outros de sua (quase) impecável filmografia cheia de mistérios.   


Império Dos Sonhos (2006)


Sinopse: Nick Grace é uma atriz casada que é convidada para fazer um filme dirigido por Kingsley Stewart. Será a refilmagem de uma produção polonesa cujos protagonistas morreram durante as gravações. Aos poucos ela vai se envolvendo com o ator principal do filme. Inicia-se então uma trama em que a realidade e a ficção se misturam.


Digamos que Império dos Sonhos encerra uma espécie de trilogia dos sonhos, ou então sobre uma crítica pessoal que David Lynch faz com relação à Hollywood, que começou a partir de Estrada Perdida, que continuou com Cidade dos Sonhos (meu favorito) e se encerra de uma forma tão enigmática, e porque não dizer abstrata. A partir desse filme, Lynch pegou o gosto de filmar a trama digitalmente, abandonando de uma vez a película. Segundo as suas próprias palavras, torna o trabalho de se filmar muito mais fácil, o que faz fluir muito melhor suas ideias vindas de sua mente, após uma boa meditação que ele tanto prega.
Para o público em geral, muitos vão considerar o que rola na tela, algo como incompreensível. Se alguns consideravam Cidade dos Sonhos confuso, esse solta inúmeras imagens, que poderiam muito bem serem comparadas a qualquer obra prima do salvador Dali. Para os fãs de carteirinha do diretor, no entanto, é um filme em que se levantam as inúmeras possibilidades do universo dos sonhos ou da consciência humana que, na maioria dos casos, age como indecifrável, mas que não custa tirar alguma interpretação dali. O filme tem um elenco maravilhoso. As belas Naomi Wats, Julia Ormond, Nastassja Kinski, o ótimo e esquisito William H. Macy, o espetacular Jeremy Irons, e Laura Dern, com sua curiosa trajetória no cinema, indo de “Veludo Azul” a “Jurassic Park”.
Império dos Sonhos talvez seja tudo que há na mente de Lynch e que ele acabou conseguindo passar na tela, mas nunca se sabe qual será a próxima pérola futura desse mirabolante cineasta. 



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