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Sócio do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já 98 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento e Cinesofia. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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segunda-feira, 4 de junho de 2018

Cine Dica: Em Cartaz: Tropykaos


Sinopse: O escritor Guima tem prazo para entregar um livro. Mas ele não consegue trabalhar por causa do intenso calor de Salvador. Ele sente medo, raiva e dor por causa do calor que vem de dentro e de fora. Tudo piora quando o ar condicionado da casa pifa e ele precisa desesperadamente de um novo aparelho.

Mesmo num calor escaldante, o verão é a estação associada às férias e praias no Brasil. Porém, o trabalhador, seja ele braçal ou intelectual, sofre com o calor infernal, da qual, por vezes, pode causar delírios, principalmente na falta de recursos ou no nascimento do estresse vindo da própria rotina.  Tropykaos de Daniel Lisboa, em seu primeiro projeto como diretor realiza algo em torno disso e, mesmo com trama se passando em Salvador/Bahia, cujo calor alto é rotineiro, é fácil nos identificarmos, pois o calor sócio – climático nos visita sem aviso e nos faz botar para fora o nosso pessoal conflito.
Uma das ideias mais criativas que Lisboa inseriu na trama é exatamente essa: refletir sobre o direito do personagem principal pelo ar condicionado para sair do seu sufoco físico e mental, do qual o calor infernal pode causar, se tornando, então, uma síntese dos direitos políticos frente a um governo corrupto e que trata o seu cidadão com desdém. Embora o filme não se posicione explicitamente sobre qualquer causa dos males contemporâneos, é muito mais interessante o retrato caricato e crítico contra a mídia que tenta manipular o cidadão comum por meio de um jornal sensacionalista em busca de somente audiência.
Mas independente de qual forma de mídia, somos atingidos por propagandas desenfreadas, capitalistas e se criando da vida do dia a dia uma realidade plástica, mas pronta para implodir. O carnaval, por exemplo, se torna uma válvula de escape, para o cidadão comum saciar as suas necessidades, mesmo que de uma forma passageira, assim como alienação pelo futebol. Não é a toa que o protagonista se encontra num estado conflituoso, ao receber um valor adiantado pelo governo para entregar um trabalho de abertura das festas, mas se não concluí-lo, terá que devolver o dinheiro e o calor, então, se torna o seu calvário. 
Daniel Lisboa consegue com poucos recursos elaborar um retrato da queda física e mental do protagonista, do qual é defendido por uma interpretação assombrosa do ator Gabriel Pardal (Futuro Junho). Essa tensão da trama se cria um verdadeiro suspense psicológico, onde o sol se torna uma espécie de olho maligno, pronto para deixar o protagonista em total desequilíbrio. A fotografia, aliás, se torna um dos pontos altos da produção, pois mesmo num cenário cheio de luz, as sombras se tornam um lugar acolhedor devido ao extremo calor.
Contudo, embora Gabriel Pardal seja a alma do filme, é Manu Santiago que rouba a cena ao interpretar a namorada dele. Sua personagem surge de forma discreta, mas se destacando ao inserir poesia em suas palavras e questionando situações sobre a moral e os bons costumes contemporâneos: a cena em que ela enfrenta um machista na rua, mesmo num curto espaço de tempo, é um dos melhores momentos do longa.
Dando ares de um cinema autoral, Daniel Lisboa aponta para um cinema perfeccionista, onde as cenas se casam com versos poéticos e reflexivos. As tomadas do apartamento do protagonista, por exemplo, mesmo sendo um refugio se tornam claustrofóbicas quando o ar condicionado do local se torna ausente e tornando o seu buraco um refugio, mesmo com o sol forte no lado de fora atingindo. Os minutos finais são puramente filosóficos, onde tiremos nossas próprias conclusões perante uma situação inverossímil, mas ao mesmo tempo, fazendo todo o sentido. 
Tropyakos é mais do que um filme que demonstra o fortalecimento da “nova onda do cinema baiano”, como também sintetiza o lado saturado do homem perante o capitalismo desenfreado desse mundo contemporâneo.

Onde assistir: Cinebancários: R. Gen. Câmara, 424 - Centro Histórico, Porto Alegre. Horário: 15horas.


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