Nem tinha a intenção de rever este filme tão cedo. Porém, devido a mais nova adaptação recente do conto literário indo ao cinema, me bateu a curiosidade para revisita-la. Clássico em quase todos os sentidos, o filme pertence ao seleto grupo de longas clássicos pertencentes à era de ouro de Hollywood. Mas é clássico no sentido de ser um dos filmes mais lembrados do ano de 1939, sendo apontado por muitos como o ano de ouro do cinema norte americano. Parece exagero, mas é só pegarmos o cardápio de títulos lançados naquele ano para termos uma noção do seu peso histórico.
Outro fator que me fez revisitar "O Morro dos Ventos Uivantes" é da obra ser dirigida por William Wyler, produtor e diretor que dentre outras coisas fez o seu clássico "Ben-Hur" (1959). E, convenhamos, ele realmente fez um belo trabalho, cortando sem piedade personagens pouco importantes para que o filme fluísse bem. As quase duas horas de filme passam como se fossem apenas trinta minutos de projeção.
Na trama, o protagonista Heathcliff, é vivido pelo shakespeariano Laurence Olivier, que dá a dramaticidade necessária para tornar o personagem ao mesmo tempo puro de amor e envenenado por sentimentos de vingança e ressentimento. O personagem surge como um garotinho de aspecto cigano que foi adotado por uma família e que é o xodó do patriarca. Isso, até o velho bater as botas e ele ser transformado em criado, humilhado pelo irmão de criação, enquanto morre de amores por Catherine (Merle Oberon), que desde criança brincava com ele nos campos e com o tempo essa amizade foi se transformando em paixão.
Acontece que Catherine é uma garota que também sente atração pelo luxo, pela riqueza, e sente-se tentada a aceitar o pedido de casamento de um rapaz rico, Edgar (David Niven), não apenas maltratando o coração de Heathcliff, mas humilhando-o. É quando ele sai do vilarejo e volta rico, disposto a se vingar daqueles que o maltrataram. A sua presença repercute como um veneno para os habitantes daquele lugar.
O estilo discreto na direção de William Wyler contribui para que esqueçamos que estamos vendo um filme. Ainda que seja pouco valorizado dentre os adeptos da "política do autor", Wyler possui uma filmografia rica em títulos interessantes e memoráveis. Isso tudo faz com que o longa se torne uma de suas obras mais notáveis. O tema prevalecente é, sobrenaturalmente, o da paixão que vence a morte.
Embora rodado nos arredores de Los Angeles, o filme foi produzido com capricho pelo executivo Samuel Goldwin e, em todos os níveis, reconstitui muito bem a atmosfera gótica do romance, cuja roteirização ficou a cargo da excelente dupla Ben Hecht e Charles McArthur. A fotografia – um elemento chave em um filme de atmosfera – ficou com um dos melhores de Hollywood, o mestre da luz Gregg Toland.
O diretor William Wyler, na época em plena ascensão, fez uma carreira brilhante e não há dúvidas de que este é um dos seus melhores trabalhos, ainda hoje reconhecido pela crítica revisora. Aprendendo com Wyler a atuar diante das câmeras (segundo depoimento pessoal), o até então ator dos palcos londrinos Laurence Olivier encarna um Heathcliff impressionante, embora – reclama a crítica – a bela Merle Oberon não empolgue muito como a atormentada Cathy. De fato, é possível imaginar que show teria dado nesse papel, por exemplo, a insuperável Olívia de Havilland, não estivesse ela ocupada, fazendo a sua parte num filme do mesmo ano, E o vento levou… Por falar nisso, "O morro dos ventos uivantes" teve sete indicações ao Oscar e, com certeza, só não levou o de melhor filme porque o concorrente era justamente E o vento levou…
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