Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte.
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Sinopse: Katia, uma brilhante documentarista de 35 anos, demonstra singularidade na maneira como vive seus relacionamentos, todos mais ou menos caóticos. Sua participação em uma nova reportagem a leva a, finalmente, dar um nome à sua diferença.
Por mais que o clássico "Rain Man" (1988) tenha dado visibilidade ao autismo, ele também acabou reforçando alguns estereótipos. Nos últimos tempos, porém, surgiram títulos que merecem ser conferidos por trazerem maior autenticidade ao assunto. "Uma Mulher Diferente" (2025) não tem a pretensão de ser um clássico como o filme de Barry Levinson, mas busca entregar algo bem mais verossímil e de grande interesse público.
Dirigido por Lola Doillon, o longa acompanha a rotina de Katia (Jehnny Beth) em uma produtora de documentários. Ela se mostra uma pessoa pouco sociável e com dificuldades para manter relacionamentos estáveis. Em certa ocasião, ao ser convocada para trabalhar em um projeto sobre autismo, ela acaba se descobrindo dentro do próprio espectro.
Lola Doillon constrói uma narrativa que mostra como uma pessoa autista age, tanto em sociedade quanto na intimidade. O resultado faz com que o público se identifique com a protagonista; independentemente de termos ou não um diagnóstico similar, simpatizamos com ela porque o filme nos lembra que ninguém é obrigado a se encaixar em moldes, mas sim a ser autêntico. A obra não serve apenas para abrir uma nova página sobre o tema, mas foi feita para ser debatida e tratada com profundo respeito.
Sendo uma atriz e cantora de grande talento, Jehnny Beth se sai muito bem ao interpretar uma personagem que, embora reservada, busca caminhos para se abrir com os outros, seja no ambiente de trabalho ou com o namorado. Se em um primeiro momento ela se sente perdida ao tentar se enturmar, logo começa a se encontrar a partir do momento em que compreende sua neurodivergência. É a partir daí que a personagem se sente mais leve, percebendo que a resposta sempre esteve à sua frente.
filme também faz uma crítica mais do que justa à forma como essas pessoas historicamente foram tratadas, muitas vezes diagnosticadas de maneira errada e empurradas para o isolamento. Em tempos de redes sociais saturadas por informações que mais atrapalham do que ajudam, a produção nos lembra da necessidade vital de buscar um direcionamento especializado.
Em suma, "Uma Mulher Diferente" é um convite precioso para conhecermos melhor o tema e enxergarmos a questão além do que os nossos olhos podem ver, desconstruindo estereótipos com o máximo de realismo.
Cinemateca Capitólio segue com mostra em parceria com a Cinemateca Brasileira e lança projeto de exibição de filmes clássicos
Após uma semana de interrupção em virtude da programação do 16º Cine Esquema Novo, a Cinemateca Capitólio retoma a partir de 2 de julho a mostra A Cinemateca é Brasileira – Da Comédia ao Drama, inaugurada em 16 de junho. Nesta semana, serão exibidos os longas Última Parada 174, de Bruno Barreto, O Lobo Atrás da Porta, de Fernando Coimbra, Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós, Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, de Roberto Farias, O Estranho Mundo de Zé do Caixão, de José Mojica Marins, Saneamento Básico, o Filme, de Jorge Furtado, Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, O Homem do Pau-Brasil, de Joaquim Pedro de Andrade, Amei um Bicheiro, de Jorge Ileli, Los Silencios, de Beatriz Seigner, e os curtas Escasso, de Clara Anastácia e Gabriela Gaia Meirelles, O Duplo, de Juliana Rojas, e A Entrevista, de Helena Solberg. Todas as sessões da mostra têm entrada franca.
No sábado, dia 4 de julho, às 17, a Cinemateca Capitólio inaugura um novo projeto de exibição, a sessão Clássicos. Inspirada em outro projeto exitoso de exibição da Capitólio, o Raros, a sessão irá promover exibições únicas de filmes considerados clássicos da história do cinema, sempre nos finais da tarde de sábado, com entrada franca. O projeto pretende destacar obras fundamentais da história do cinema, a partir do slogan “filmes que você precisa ver antes de morrer”, mas cujo conhecimento e circulação é inferior à sua importância. Para a sessão de estreia, o filme escolhido é O Retrato de Dorian Gray (1945), de Albert Lewin, suntuosa adaptação do célebre romance homônimo de Oscar Wilde (aguarde divulgação específica).
Também no dia 2 de julho, às 19 horas, a Capitólio recebe a sessão de lançamento do documentário Contos dos Cantos da Cidade, idealizado por Thiago Ramil, com direção de Lucas Moraes, que reúne narrativas, memórias e manifestações artísticas de moradores que experimentam a cidade de Porto Alegre há décadas e sob diversas perspectivas: indígenas, imigrantes, afro-brasileiras, femininas. A sessão tem entrada gratuita e será seguida de debate com a equipe do filme.
Confira a programação completa da cinemateca no site oficial da sala clicando aqui.
Sinopse: Ao contrário do Superman, Kara Zor-El (Milly Alcock) cresceu em Krypton e testemunhou sua destruição. Quando um adversário implacável a ataca, ela faz uma aliança improvável em uma épica jornada interestelar de vingança e justiça.
"Supergirl: Mulher do Amanhã" (2021) é, sem sombra de dúvida, uma das melhores HQs de super-heróis dos últimos anos. A encruzilhada da protagonista em buscar o seu lugar no mundo após testemunhar a destruição de seu planeta natal foi escrita por Tom King e ilustrada pela brasileira Bilquis Evely. É uma história definitiva sobre a personagem, o que me fez temer ainda mais pela sua adaptação no cinema.
James Gunn sabia da total responsabilidade que tinha em mãos ao comandar o novo universo DC nas telas. Assim, quando um longa inspirado nessa incrível história foi anunciado, muitos acompanharam o desenvolvimento do projeto passo a passo. Após o sucesso de "Superman" (2025), as esperanças dos fãs só aumentavam — mesmo quando eu preferia manter os pés firmes no chão, para dizer o mínimo. Pois bem, "Supergirl" (2026) não é exatamente fiel à sua fonte original, mas a sua essência está lá, chamando a nossa atenção com um enredo que foge do convencional dentro do gênero.
Dirigido por Craig Gillespie, de "Eu, Tonya" (2017), o filme conta a história de Kara Zor-El (Milly Alcock), que testemunhou o colapso de Krypton aos 14 anos de idade e agora, aos 21, sofre uma crise de identidade por não saber como se encaixar no novo mundo em que vive. Em outro planeta, Kara se encontra com Ruthye Marie Knoll (Eve Ridley), uma alienígena com um desejo ardente de vingança contra o mercenário Krem (Matthias Schoenaerts), responsável pela morte de sua família. Inicialmente, Kara não está interessada em ajudá-la; porém, a partir do momento em que o vilão envenena Krypto, a protagonista decide se aliar a Ruthye para buscar um antídoto e, consequentemente, partir para a desforra.
Inspirado na HQ citada, o filme remete a algumas passagens que já se tornaram conhecidas para aqueles que leram essa obra-prima. No entanto, o longa possui personalidade própria ao não ser uma cópia exata do conto, mesmo quando bate aquela pontada de desejo de que o projeto fosse 100% fiel. Mas estamos falando de um filme que faz parte de um projeto maior e que possui forte interligação com o novo Superman do cinema.
Ainda assim, a obra pode ser apreciada sem a obrigação de ter visto outros longas ou séries anteriores. O que vemos aqui é uma protagonista com superpoderes incríveis, mas que não sabe lidar com a dor do luto e com um novo mundo que não é seu, enquanto tenta buscar dentro de si uma razão para colocar em prática o lado virtuoso que seu primo tanto lhe ensinou. Por conta disso, é hilário vê-la bêbada, curtindo uma música pop e sem se preocupar com o que virá em seguida.
Consagrada na série "A Casa do Dragão", Milly Alcock carrega o filme nas costas com garra, raiva e uma doçura em cena que nos faz identificar facilmente com ela. Nós nos emocionamos com os flashbacks, que nos dão a real dimensão da dor que ela guarda e procura afogar nas baladas espaciais. No momento em que ela se dá conta de que precisa agir, ocorre um belo casamento entre efeitos visuais e ação: a cena em que ela manifesta seus poderes através do sol amarelo se torna um dos melhores momentos de todo o filme.
Eve Ridley, por sua vez, tem a missão ingrata de interpretar uma personagem que acaba se tornando uma mera desculpa para colocar a protagonista em movimento. Ainda assim, podemos interpretá-la como uma representação de nós, espectadores, perante o fato de compreender as motivações de Kara e suas lições de moral sobre não querer matar os vilões da história. A química entre as duas funciona bem, mas muito se deve ao talento da própria Milly Alcock.
Já Matthias Schoenaerts entrega um vilão nada memorável, mas ao menos detestável o suficiente para desejarmos o pior para ele, principalmente quando é revelada a sua exploração de jovens garotas como escravas. Neste ponto, o filme remete a algo parecido com o que foi visto em "Mad Max: Estrada da Fúria" (2015) — e, curiosamente, o longa possui muitos dos elementos do universo apocalíptico orquestrado por George Miller. É interessante observar também como a produção adota uma tecnologia retrô com relação a alguns planetas vistos na tela, o que remete diretamente ao clássico cult "Blade Runner" (1982).
E embora eu tenha dito que o filme funciona de forma independente do restante do universo DC, é curiosa a inserção do personagem Lobo na trama. Inexistente na HQ que serviu de base, Lobo é colocado na história de forma gratuita e não acrescenta em nada à narrativa, a não ser pelo fato de testemunharmos um visual 100% fiel à sua contraparte dos quadrinhos. Jason Momoa nasceu para o papel, mas sua participação especial serve apenas para nos fazer desejar um filme solo do personagem.
Mesmo sendo um blockbuster da temporada de verão norte-americana, os realizadores ao menos não caíram na tentação de usar efeitos em CGI desnecessários do começo ao fim. O filme ganha um peso muito maior quando as protagonistas estão com os pés firmes no chão. Ainda assim, é preciso reconhecer que as cenas de voo da personagem são belíssimas, além de virem entrelaçadas com uma trilha sonora econômica, mas extremamente emocionante. E falando em música, prepare-se para momentos de grande surpresa, principalmente para nós, brasileiros, que apreciamos a boa música do nosso país.
Infelizmente, o filme derrapa em alguns elementos de ação dispensáveis, principalmente por serem repetitivos e parecidos com o que já vimos em outras produções de James Gunn. Ao menos a solução final que a protagonista encontra para Ruthye e para si mesma reflete o quanto a personagem é falha e humana, fazendo-nos compreender o seu sacrifício para que sua companheira não enfrente a mesma dor que ela carregou no passado. Pode não ser um desfecho tão corajoso quanto o da HQ oficial, mas a essência está ali.
"Supergirl" foge das fórmulas convencionais e já desgastadas do gênero, brindando-nos com uma aventura espacial digna e que poderá ser melhor reconhecida com o passar do tempo.
O último filme de junho do Cineclube Torres é "Folhas de Outono" do finlandês Aki Kaurismaki, na segunda-feira dia 29, às 20h, com entrada franca.
O filme encerra o ciclo dedicado à produção audiovisual de países nórdicos europeus, na Sala Audiovisual Gilda e Leonardo. Na fria Helsinque duas almas solitárias, se encontram em um bar de karaokê e tentam construir um relacionamento, porém, o caminho é cercado por desentendimentos e adversidades. O filme ganhou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e foi considerado melhor filme de 2023 pela revista norte-americana Time.
O diretor encena o difícil romance de duas pessoas comuns, dois proletários numa cidade hostil, com a habitual fotografia de cores vívidas e enquadramentos primorosos, para criar uma delicada e emocionante fábula urbana. “Folhas de Outono é ao mesmo tempo um sopro de perseverança e um suspiro terno diante de um mundo absolutamente brutal".
A sessão será realizada na Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, na rua Pedro Cincinato Borges 420, em parceria com a Up Idiomas Torres e com entrada franca até a lotação do espaço. O Cineclube Torres é uma associação sem fins lucrativos, em atividade desde 2011; Ponto de Cultura certificado pela Lei Cultura Viva federal e estadual; Ponto de Memória pelo IBRAM; Biblioteca Comunitária no Mapa da Cultura, Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística certificada pelo Ministério do Turismo (Cadastur); Selo Destaque no Turismo da Georrota Cânions do Sul.
Serviço:
O que: Exibição do filme "Folhas de Outono" (2023) de Aki Kaurismaki
Onde: Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, junto à escola Up Idiomas, Rua Cincinato Borges 420, Torres
Quando: Segunda-feira, 29/6, às 20h
Ingressos: Entrada Franca, até lotação do local (aprox. 22 pessoas).
Cineclube Torres
Associação sem fins lucrativos
Ponto de Cultura – Lei Federal e Estadual Cultura Viva
Ponto de Memória – Instituto Brasileiro de Museus
Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística - Cadastur
Iniciada em 2021, a série sul-coreana "Round 6" se tornou um marco na Netflix ao explorar um reality show mortal e o verdadeiro papel do ser humano perante um sistema de jogo que pode deixá-lo milionário ou custar a sua própria vida. Até aqui, o criador Hwang Dong-hyuk não se vendeu ao convencional; embora a segunda temporada possuísse uma premissa similar à do primeiro ano, ela elevou os elementos imprevisíveis e nos fez perguntar o que aconteceria na sequência. "Round 6 – 3ª Temporada" (2025) encerra esse jogo mortal de forma definitiva, mesmo deixando ganchos para uma eventual expansão da franquia.
A temporada começa exatamente onde a anterior terminou: vemos Gi-hun (Lee Jung-jae) fracassar ao tentar liderar uma rebelião contra os organizadores do reality, sendo obrigado a arcar com as consequências. Ao mesmo tempo, acompanhamos os dramas dos demais personagens secundários, o que nos dá uma dimensão maior sobre quem não irá longe na competição. Fora da ilha, forças do mundo real tentam invadir o local, mas nem tudo sai como o esperado.
Verdade seja dita, tanto a segunda quanto a terceira temporada eram, na realidade, um único arco, cuja divisão em duas partes serviu puramente para inflar a audiência e reter a atenção do público. Se essa decisão foi puramente comercial, ao menos o conteúdo continua corajoso ao rejeitar fórmulas óbvias, culminando em momentos emocionantes e genuinamente dolorosos. Na reta final, personagens com quem simpatizamos partem de forma melancólica, enquanto outros continuam na história unicamente para se tornarem as próximas vítimas do processo. Em meio a isso, vemos um Gi-hun procurando dentro de si alguma lógica para continuar prosseguindo — e a resposta surge com uma nova personagem, que se torna a peça essencial para que ele possa obter a sua redenção.
Hwang Dong-hyuk constrói uma narrativa que expõe o pior lado do ser humano, tanto naqueles que lutam para sobreviver pelo tão cobiçado dinheiro, quanto no "andar de cima", composto por pessoas que se deleitam assistindo a um espetáculo sangrento. Logicamente, o final irá desagradar a muitos, principalmente a quem está acostumado ao convencionalismo hollywoodiano. Porém, o sacrifício é válido, e a mensagem final — de que devemos lutar para não sermos meros peões de um grande sistema — é mais do que justa.
Embora deixe algumas pontas soltas para um possível derivado, "Round 6 – 3ª Temporada" encerra a série de forma melancólica, mas totalmente fiel à corajosa proposta inicial da obra.
O tempo é o verdadeiro juiz de tudo que nos cerca e faz com que determinada obra seja lembrada ou esquecida. No cinema, muitos longas-metragens fazem sucesso, mas logo caem no esquecimento. Porém, há aqueles que fracassam no início para, logo em seguida, serem reconhecidos através dos anos, tornando-se verdadeiros filmes cults.
Talvez não exista melhor exemplo desse tipo de status do que o meu filme favorito, "Blade Runner" (1982). Fracasso na época de sua estreia, o longa acabou sendo redescoberto através do VHS e de exibições em cinematecas, sendo apontado hoje como um dos melhores filmes da década de oitenta. O mesmo caminho trilhou "Labirinto - A Magia do Tempo" (1986), um belo filme de fantasia injustiçado em sua época de lançamento, mas que logo ganhou o seu merecido reconhecimento através do mesmo público que no passado o havia ignorado.
Dirigido pelo saudoso Jim Henson, a história nos apresenta Sarah (Jennifer Connelly), que se sente frustrada por ter de cuidar do irmão caçula enquanto seus pais estão fora. Sonhadora e admiradora de contos fantásticos, Sarah deseja se livrar da criança, que não para de chorar. Atendendo ao seu pedido, o Rei dos Duendes (David Bowie), personagem de um dos livros de Sarah, ganha vida e sequestra o bebê. Vendo o erro que cometeu, ela decide enfrentar um labirinto e resgatar o irmão antes da meia-noite para evitar que ele seja transformado em um duende.
Quem assiste ao longa hoje pensa que ele foi baseado em uma obra literária clássica, o que não é verdade. O filme foi uma criação original vinda da mente de Jim Henson — que na época já era mundialmente conhecido pela sua obra máxima, "Os Muppets" —, e cujo roteiro foi escrito por Terry Jones, consagrado como membro do grupo humorístico Monty Python. Vale salientar que o projeto trazia a marca da produção de George Lucas, cujo nome simbolizava o melhor do cinema de aventura daquela época.
Em tempos em que o público nem sabia ao certo o significado da sigla CGI, o filme foi concebido em uma era na qual todos os envolvidos na produção colocavam a mão na massa, o que dava maior peso visual às obras. Pode-se dizer que Jim Henson usou o seu talento com marionetes em potência máxima na criação de personagens diversos e cheios de detalhes. Em alguns casos, nota-se o uso de atores anões para dar vida às criaturas, como no ambíguo Hoggle, cuja cabeça e olhos eram controlados por controle remoto. Esse artifício se tornaria popular nos anos noventa na criação de personagens que viriam a marcar época, como em "As Tartarugas Ninja" e "Família Dinossauro".
Mas, de todas as marionetes, sem sombra de dúvida a mais impressionante é Humongous, o grande guarda que protege a entrada da cidade dos duendes, controlado por um marionetista em seu interior. Todos esses personagens mágicos, moldados pelas velhas técnicas vindas do universo dos fantoches, são um belo exemplo de como a mão humana é essencial para criar figuras de ficção que nos transmitam vida, resultando em algo bem diferente do que acontece com o CGI hoje em dia. Curiosamente, na abertura surge voando uma coruja feita digitalmente, tornando-se uma das primeiras figuras cinematográficas criadas dessa forma.
Visualmente, o filme também utiliza as velhas fórmulas do fundo verde para a construção de um universo fantástico. Porém, ao invés de cenários virtuais, tudo foi feito através de desenhos e pinturas foscas (matte paintings), passando uma sensação de maior profundidade em algumas passagens da trama. Quando Sarah está perdida no labirinto, por exemplo, sentimos o grande cenário se expandindo, fazendo parecer que o lugar não tem fim. Claro que alguns fundos falsos envelheceram, mas ainda mantêm o calor e o charme daqueles que se dedicaram ao projeto.
Vale destacar que a estética do longa possui um visual que remete a um pouco de tudo: desde os clássicos "O Mágico de Oz" (1939) e "Alice no País das Maravilhas" (1951), até pinceladas que remetem aos bons tempos do expressionismo alemão, como no caso de "O Gabinete do Dr. Caligari" (1920). Além disso, a gente nunca sabe ao certo se a protagonista está vivenciando tudo aquilo ou se a jornada não passa de um sonho vindo de sua imaginação e predileção pelo universo fantástico. Algumas cenas remetem, inclusive, às clássicas pinturas surrealistas de Salvador Dalí; a sequência em que a protagonista se encontra em escadarias que desafiam a lógica da gravidade sintetiza muito bem essa ideia.
Falando em sonhos, é extremamente mágica a cena em que Sarah acaba comendo uma maçã envenenada e começa a transitar entre a realidade e o delírio. É neste momento que ela se vê em um baile de máscaras que parece ter sido extraído dos tempos do Rei Henrique VIII, onde se depara com o Rei dos Duendes. Esta é uma das minhas passagens preferidas e que potencializa a trilha sonora embalada pela voz do próprio David Bowie.
Por sinal, o astro da música pop se encontra mais do que à vontade interpretando esse personagem, cujo visual poderia soar ridículo para qualquer outro ator, mas não para ele. É interessante notar que o seu Rei dos Duendes não é exatamente um vilão convencional, mas sim um antagonista ambíguo, cujas intenções podem ser egoístas, mas que está diretamente relacionado ao amadurecimento da própria protagonista. Talvez o Rei dos Duendes nunca tenha sido o verdadeiro desafio para Sarah, mas sim ela própria.
Mesmo na flor da idade, Jennifer Connelly conseguiu construir uma Sarah que nos transmite uma mentalidade vasta quando o assunto são as fantasias e os mundos mágicos que visitava em seus livros. Porém, a vida adulta cobra o seu preço, e certas responsabilidades precisam ser abraçadas para que ela possa avançar. Portanto, salvar o seu irmão das mãos do Rei dos Duendes funciona como um rito de passagem para a maturidade, sem que ela precise se desvencilhar dos elementos fantásticos que moldaram a sua personalidade.
Infelizmente, esse foi o último grande trabalho de Jim Henson no cinema, que veio a falecer quatro anos depois do lançamento do longa, sem testemunhar o imenso reconhecimento que a sua obra obteve através do tempo. O filme simboliza tempos mais inocentes e fantasiosos, nos quais o modo de se fazer cinema com métodos práticos fazia as obras ganharem alma com mais facilidade. Assim como Sarah, nós crescemos, mas não nos esquecemos de como nos divertimos com o filme quando ele reprisava em uma inesquecível Sessão da Tarde em nossas vidas.
Com várias músicas cantadas maravilhosamente por David Bowie, "Labirinto - A Magia do Tempo" é um belo exemplo de como a magia de fazer cinema como antigamente salvou a obra do esquecimento, transformando-a em um dos longas mais cultuados de todos os tempos.
Neste final de semana, teremos sessão dupla no Clube de Cinema! Sábado (27/06), às 10h15 da manhã, nos reunimos na Cinemateca Capitólio para assistir A Malvada, de Joseph L. Mankiewicz. Ambientado nos bastidores do teatro nova-iorquino, o filme acompanha o embate entre uma atriz consagrada e uma jovem admiradora cuja devoção esconde ambições muito maiores. Com diálogos afiados e interpretações memoráveis, Joseph L. Mankiewicz constrói um retrato mordaz das disputas por prestígio, reconhecimento e permanência em um meio onde o sucesso é sempre provisório.
No domingo (28/06), também às 10h15 da manhã, nosso encontro é na Cinemateca Paulo Amorim, onde exibiremos A Cura, de Kyoshi Kurosawa. Neste filme, o diretor parte da estrutura de um thriller policial para conduzir o espectador a territórios mais inquietantes: enquanto investiga uma série de assassinatos aparentemente sem conexão, um detetive se depara com questões ligadas à identidade, à memória e aos impulsos ocultos da mente humana.
Confira os detalhes da programação:
SÁBADO (27/06, 10h15)
A Malvada (All About Eve)
EUA, 1950, 138min
Direção e roteiro: Joseph L. Mankiewicz
Elenco: Bette Davis, Anne Baxter, George Sanders, Celeste Holm, Gary Merrill, Hugh Marlowe, Thelma Ritter, Gregory Ratoff, Marilyn Monroe, Barbara Bates, Walter Hampden
📍 Local: Cinemateca Capitólio – Rua Demétrio Ribeiro, 1085 – Centro Histórico, Porto Alegre
Sinopse: A veterana estrela dos palcos Margot Channing vê sua rotina transformada quando acolhe Eve Harrington, uma jovem admiradora aparentemente tímida e dedicada. À medida que Eve conquista espaço em seu círculo profissional e pessoal, admiração e rivalidade passam a caminhar lado a lado, revelando os bastidores de um universo marcado por ambição e competição.
Sobre o Filme: Embora tenha sido em tempos mais conservadores foi a partir da entrada da década de cinquenta que certos realizadores decidiram fazer um retrato mais cru da mão que alimenta, ou seja, Hollywood. Embora esbanje glamour com seus astros, alinhado com super produções que valiam ouro, convenhamos, tudo é um jogo de aparências, dos quais quem ganha é quem faz a melhor artimanha. Mas seria possível os engravatados de plantão permitirem tais filmes que critiquem o que rola por detrás das cortinas?
Embora não seja o alvo principal, Hollywood sofre uma crítica acida nas entrelinhas com o seu clássico "A Malvada" (1951), um dos grandes filmes do cinema norte americano. Se tira o cenário de Hollywood e adentramos ao cenário da Broadway, mas há atores, guerra por papeis, estrelismo e fofocas entre os bastidores. Um tiro perfeito vindo de alguém que sabe como funciona as engrenagens e coube ao cineasta Joseph L. Mankiewicz orquestrar a tarefa.
Confira a minha crítica completa já publicada clicandoaqui.
📍 Local: Cinemateca Paulo Amorim, Sala Paulo Amorim
Casa de Cultura Mário Quintana – Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico, Porto Alegre
Sinopse: Uma sequência de homicídios intriga a polícia japonesa: vítimas diferentes são encontradas com a mesma marca gravada no corpo, embora os autores dos crimes pareçam não ter qualquer ligação entre si. À frente da investigação, o detetive Takabe busca compreender a origem desse padrão perturbador, enquanto um misterioso homem sem memória surge como peça central de um enigma cada vez mais inquietante.
Sinopse: Um casal feliz e recém-noivado é colocado à prova quando uma revelação inesperada faz com que a semana do casamento saia dos trilhos.
Em pouco tempo, o diretor norueguês Kristoffer Borgli tem chamado atenção ao criar tramas em que seus personagens não são bem o que aparentam — o que não significa que devamos julgá-los em um primeiro momento. Em "O Homem dos Sonhos" (2024), por exemplo, um protagonista pacato começa a surgir nos pesadelos de diversas pessoas, fazendo com que ele seja julgado antes mesmo de qualquer investigação. Já "O Drama"(2026) explora o quanto um relacionamento se desfaz quando uma simples informação, antes desconhecida, revela o lado até então obscuro do outro.
Na trama, no momento em que um casal está na fase final dos preparativos para o grande dia, eles entram em conflito após a revelação de um grande segredo do passado de um deles. A imprevisibilidade do acontecimento coloca em risco toda a confiança e o amor entre os dois, trazendo ao longa uma nova perspectiva sobre os relacionamentos atuais. A situação eleva os ânimos e conduz ambas as partes a um beco sem saída.
Fui assistir ao longa sem muitas informações sobre o enredo, e essa ignorância prévia colaborou para que a revelação se tornasse ainda mais surpreendente. O que inicialmente era visto como um casal aparentemente perfeito logo se transforma em um relacionamento em que as inseguranças e os medos vêm à tona; é como se a pessoa que conhecíamos deixasse de existir, restando apenas o peso do segredo guardado. A velha frase de que "há sempre um esqueleto no armário" logo nos vem à mente, mas aqui ela é revitalizada de forma surpreendente.
Kristoffer Borgli constrói uma edição de cenas quase frenética, na qual sua câmera registra com precisão a ação e a reação dos personagens principais — seja na expressão corporal ou no modo de olhar, que diz muito mais do que se imagina. A insegurança, portanto, toma conta do cenário, fazendo com que o casal central comece a agir por impulso, movido por medos internos que tentam evitar que venham à tona. Lembranças, sonhos, pesadelos e imaginação se entrelaçam e moldam a mente dos protagonistas, que flertam perigosamente com o desequilíbrio.
Robert Pattinson e Zendaya possuem uma química absurdamente peculiar em cena, fazendo disso o maior trunfo do filme. Eles transmitem com verdade o fato de seus respectivos personagens estarem realmente apaixonados; contudo, a partir do momento em que o segredo é revelado, há uma desconstrução da perspectiva que um tinha do outro, fazendo com que, em alguns momentos, ajam como estranhos. Por mais mórbido que pareça, isso não difere da maneira como enxergamos as pessoas próximas na medida em que as conhecemos a fundo: o que inicialmente era fantasia se estilhaça quando acordamos.
Além disso, o filme tece uma crítica ácida a uma sociedade cada vez mais hipócrita, que endeusa os bons costumes quando, na verdade, cada indivíduo esconde seus próprios segredos mórbidos enquanto julga o próximo. Em tempos de paranoia acalorada e de fake news que distorcem a realidade, a velha fofoca de boca em boca ainda se mostra eficaz para linchar alguém por um erro do passado — esquecendo que ninguém nesta vida é perfeito. Todos nós nascemos com luz e escuridão dentro de nós, e cabe a cada um abraçar as melhores ações para obter a redenção.
Portanto, a reta final da trama se torna simbólica. O casal central, enfim, busca a melhor forma de contornar a situação à sua maneira, mostrando que o fim de um ciclo não impede novos recomeços. O final em aberto se torna poderoso: uma vez que tudo deu errado, ambos são forçados a retornar ao ponto de partida, mas desta vez sem segredos, já que a fragilidade de cada um foi completamente exposta. O esqueleto, enfim, está fora do armário — e sem medo.
"O Drama" é uma análise peculiar e muito bem-vinda sobre como certos segredos, uma vez externalizados, revelam não só uma faceta adormecida de quem os carrega, mas também o olhar preconceituoso e paranoico do mundo à volta.
A última cinesemana de junho traz duas estreias na nossa programação. Uma delas é o longa UMA INFÂNCIA ALEMÃ, uma bela reflexão do diretor Fatih Akin sobre os últimos dias da Segunda Guerra Mundial a partir das percepções de um garoto de 12 anos. Outra novidade é UM TRISTE E BELO MUNDO, filme que acompanha um casal durante três décadas em meio às tensões políticas do Líbano. Também teremos duas sessões de pré-estreia do aguardado FRANZ, cinebiografia da diretora polonesa Agnieszka Holland sobre o escritor Franz Kafka.
Nesta semana, a sala Eduardo Hirtz se integra ao FESTIVAL CINE ESQUEMA NOVO, com nove programas dedicados aos novos formatos e novos realizadores da cena audiovisual brasileira. Também daremos início ao ciclo especial PRESERVAÇÃO E HISTÓRIA DO CINEMA GAÚCHO, que vai exibir, mensalmente, títulos restaurados do acervo do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa. Outra novidade é o início da mostra 8 ½ FESTA DO CINEMA ITALIANO, que vai reunir dez títulos inéditos entre os dias 1 e 8 de julho.
Estas são as últimas semanas para conferir os longas 8 DÉCADAS DE AMOR, novo filme do diretor espanhol Julio Medem, e NATAL AMARGO, do cultuado diretor espanhol Pedro Almodóvar.
Confira a programação completa no site oficial da cinemateca clicandoaqui.
Sinopse: O casal de recém-casados Marina e Anton, em vez de viajar para a lua de mel, fica preso em um elevador no 60º andar com um homem misterioso e vingativo.
Não é a primeira nem a última vez que vemos filmes cuja trama principal se passa dentro de um elevador. Se por um lado esse cenário serve como abertura para um filme de ação, como em "Velocidade Máxima" (1994), por outro, "Demônio" (2010) faz do local o último lugar onde alguém gostaria de estar. "Down: O Elevador da Morte" (2026) é um filme russo que possui uma premissa interessante, mas decai ao apostar em ideias já muito exploradas pelo cinema americano.
Dirigido por Marius Vaysberg, a história acompanha Marina (Yuliya Melnikova) e Anton (Egor Bulatkin), um casal que acaba de oficializar a união e está prestes a embarcar para a tão sonhada lua de mel. No entanto, os planos românticos são interrompidos de forma abrupta quando os dois entram no elevador de um arranha-céu de luxo. Eles ficam presos no local junto a um estranho (Igor Mirkurbanov), que, aos poucos, demonstra ser muito mais do que aparenta.
Devido a questões políticas, o cinema russo já teve dias melhores — principalmente na época de nomes como Andrei Tarkovsky, Sergei Parajanov e Mikhail Kalatozov. Hoje, ao menos, a indústria local procura alternar entre um cinema autoral e produções comerciais, como os gêneros de ação e ficção científica. O filme de Marius Vaysberg, por sua vez, demonstra que os realizadores conseguem entregar um suspense de horror eficiente, mesmo quando nos passa uma constante sensação de déjà vu.
A obra acerta ao criar um clima claustrofóbico, fazendo o espectador se perguntar qual será o verdadeiro destino dos protagonistas. Ao mesmo tempo, o cineasta pesa a mão na fórmula ao introduzir muitas armadilhas dentro do cenário, soando como algo que já assistimos em outros longas, como a franquia "Jogos Mortais". Porém, o filme ganha a nossa atenção com o surgimento da terceira figura, interpretada pelo ótimo ator Igor Mirkurbanov.
Com uma personalidade forte e uma presença que amedronta, o intérprete consegue construir um personagem ameaçador que, infelizmente, poderia ter ganhado maior espaço em cena. Em contrapartida, o roteiro inventa um quarto personagem misterioso, que acaba arquitetando novos jogos doentios para o casal central enfrentar. Por conta disso, a trama chega a um ponto inverossímil, restando ao público apenas aceitar o que está acontecendo.
Yuliya Melnikova e Egor Bulatkin até se esforçam em seus respectivos papéis, mas não transmitem química em momento algum. Ao menos, são capazes de se entregar a atuações que exigem bastante preparo físico, sobressaindo-se nas cenas de chutes e socos. Mas o final, previsível diga-se de passagem, somente nos brinda com uma lição de moral convencional, que não eleva o filme ao patamar que ele poderia ter alcançado se tivesse sido mais bem desenvolvido.
Em suma, "Down: O Elevador da Morte" é um passatempo divertido para aqueles que não exigem uma história original, mas buscam apenas boas doses de um suspense convencional.
16º Cine Esquema Novo – Arte Audiovisual Brasileira na Cinemateca Capitólio
A Cinemateca Capitólio recebe a 16ª edição do Cine Esquema Novo – Arte Audiovisual Brasileira (CEN) entre os dias 25 de junho e 5 de julho. O festival integra uma programação distribuída em diferentes espaços culturais de Porto Alegre, com atividades na Cinemateca Capitólio ao longo do período. O Cine Esquema Novo é um festival dedicado às relações entre cinema, artes visuais e práticas contemporâneas do audiovisual. Em sua trajetória, busca articular diferentes formatos e modos de produção e exibição de imagens, reunindo obras que transitam entre o cinema e outros campos artísticos.
A edição de 2026 apresenta cerca de 130 obras organizadas em sete mostras, além de sessões especiais, atividades formativas e encontros voltados à reflexão sobre curadoria, produção e circulação audiovisual.
Programação na Cinemateca Capitólio
Na Cinemateca Capitólio, a programação reúne sessões de mostras competitivas, programas especiais e uma exposição na Galeria da instituição, além de atividades de abertura e debates.
Entre os destaques estão a Mostra Competitiva Brasil, principal eixo histórico do festival. Nesta edição, foram selecionadas 36 obras entre 840 inscrições recebidas de diferentes regiões do país e de produções realizadas no exterior por artistas brasileiros e avaliadas pela equipe curatorial formada por Dirneu Prates, Kamyla Belli, Jaqueline Beltrame e Ramiro Azevedo. E a Mostra Artista Convidada – Letícia Ramos, dedicada a um recorte de sua produção em cinema experimental e fotografia.
Também integram a programação a exposição A Biblioteca de Jorge Furtado e a Mostra Especial Petrobras – Kleber Mendonça Filho, que reúne curtas do realizador pernambucano. A relação entre o Cine Esquema Novo e a obra de Mendonça Filho acompanha diferentes momentos da história do festival. Ainda em sua primeira edição, em 2003, o CEN exibiu A Menina do Algodão, curta codirigido pelo realizador. Nos anos seguintes, Vinil Verde e Eletrodoméstica também integraram a programação. A mostra de 2026 retoma esse percurso e oferece ao público a oportunidade de revisitar trabalhos que ajudam a compreender a formação de um dos projetos autorais mais relevantes do cinema brasileiro contemporâneo.
A abertura do festival contará com a performance Letícia Ramos + Rossano Snel – Filmes e Música, que combina projeção de filmes com execução ao vivo de trilha sonora e foley por orquestra, sob regência de Rossano Snel e participação de Vagner Cunha, Nina Nicolayewsky e Marcelo Armani.
Destaques da programação
Abertura do festival
25 de junho, quinta-feira, 19h
Performance: Letícia Ramos + Rossano Snel – Filmes e Música
Apresentação com projeção de filmes e execução ao vivo de trilha sonora e foley.
Mostra Artista Convidada – Letícia Ramos
27 de junho, sábado, 19h
Sessão com oito obras realizadas entre 2007 e 2024, incluindo The Blue Night, Null Island e VOSTOK, seguida de conversa com a artista e Rossano Snel.
Exposição – A Biblioteca de Jorge Furtado
Galeria da Cinemateca Capitólio
26 de junho a 01 de julho | terça a domingo, 14h às 19h
Percurso por referências literárias presentes na filmografia do realizador, a partir de livros citados por personagens de seus filmes.
Mostra Especial Petrobras – Kleber Mendonça Filho
01 de julho, quarta-feira
15h: Crítico
17h: Vinil Verde, Eletrodoméstica, Noite de Sexta, Manhã de Sábado, Recife Frio
Mostra Competitiva Brasil
Sessões entre 26 de junho e 30 de junho
Conjunto de 36 obras selecionadas entre 840 inscrições, distribuídas em diferentes programas e acompanhadas de debates após as sessões.
Encerramento
A 16ª edição do Cine Esquema Novo reúne diferentes formatos de exibição e atividades públicas que articulam cinema, artes visuais e pesquisa audiovisual contemporânea. Na Cinemateca Capitólio, a programação integra sessões, debates e exposições abertas ao público. A programação é inteiramente gratuita.
Confira a programação completa no site oficial da Cinemateca clicando aqui.
Sinopse: Elias, de 14 anos, reside em uma aldeia flamenga. Quando Alexander, também de 14, se muda de Bruxelas para a casa do outro lado da rua, Elias experimenta seus primeiros sentimentos de amor.
Recentemente, tenho observado como o cinema tem abordado o surgimento de relacionamentos homoafetivos na transição da infância para a adolescência. Filmes como o belga "Close" (2022) e o japonês "Monster" (2023) retratam o nascimento dessas relações de forma singela, embora orquestrados para fins trágicos e reflexivos. Já o britânico "Corações Jovens" (2025) conduz essa dinâmica com igual delicadeza, mas ganha contornos esperançosos à medida que a história avança.
Dirigido por Anthony Schatteman, o longa acompanha Elias, um jovem de 14 anos que se sente atraído por seu novo vizinho, Alexander. Logo, ele percebe que está se apaixonando pela primeira vez. Ao contrário de Elias, Alexander é extrovertido e cativante, o que desperta uma admiração imediata. Temendo o julgamento de familiares e amigos diante do desconhecido, Elias esconde seus sentimentos e mente para todos, enquanto a convivência com o novo amigo o deixa cada vez mais confuso.
A transição para a adolescência é um período sabidamente confuso, repleto de sentimentos conflitantes que nos fazem questionar onde nos encaixamos perante uma sociedade ainda conservadora. Schatteman constrói uma narrativa com a qual o espectador facilmente se identifica, já que Elias é o reflexo de muitos jovens — de ontem e de hoje — que se viram desorientados diante das próprias emoções e receosos com a opinião alheia. Paralelamente, notamos a busca do protagonista por ser ouvido, seja através dos pais, muitas vezes atarefados com a rotina, ou através do avô, cuja longa experiência de vida se transforma em acolhimento, colocando-se no lugar do neto por já compreender o que ele atravessa.
Lou Goossens e Marius De Saeger entregam ótimas atuações. O primeiro transmite, por meio de um olhar profundo, toda a turbulência mental de Elias. Já Marius confere total segurança ao seu personagem, construindo um Alexander bem resolvido e decidido a seguir em frente, independentemente das hesitações do vizinho. Como é de se esperar, os conflitos logo surgem, inserindo Elias em um cenário de tensão que desperta o temor do público pelo destino dos garotos.
Contudo, Anthony Schatteman opta por um caminho mais solar, em que as pessoas mais próximas escolhem o acolhimento em vez da neutralidade convencional. Em tempos complexos, torna-se fundamental escutar o outro e aceitá-lo em sua totalidade. Talvez o filme peque por não ser tão autoral quanto "Monster", ou tão visceral e corajoso quanto "Close", mas uma luz no fim do túnel é, no mínimo, um acalento bem-vindo.
"Corações Jovens" é uma singela carta de amor para aqueles que redefinem e abraçam seus verdadeiros sentimentos na flor da juventude.