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segunda-feira, 8 de junho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Mestres do Universo'

Sinopse: A história se passa duas décadas após a queda do Príncipe Adam na Terra. Quando a Espada do Poder restabelece sua conexão, o jovem herdeiro é transportado de volta para o reino de Eternia.

Em tempos em que o gênero de super-heróis no cinema anda desgastado, a indústria norte-americana busca de todas as formas uma nova pepita de ouro que gere lucro. Por conta disso, já não é novidade os estúdios olharem para o passado e resgatarem desenhos clássicos da TV para as telonas. Nesse quesito, a franquia "Transformers" acabou se tornando muito bem-sucedida.

Curiosamente, a série surgiu a partir de uma coleção de brinquedos, já que era tendência da época uma fabricante lançar o seu produto e se alinhar a um canal de TV para produzir a animação. Nesse cenário surgiu a Mattel, ao lançar a coleção "He-Man" e dar origem ao desenho de maior sucesso entre a garotada durante os anos 1980. Décadas depois, eis que chega "Mestres do Universo" (2026), longa que não somente é fiel às suas raízes, como também não tem vergonha de ser o que é.

Dirigido por Travis Knight, a trama se passa quase vinte anos após a separação da Espada do Poder que guiava o príncipe Adam (Nicholas Galitzine). Agora que conseguiu recuperar essa conexão, ele precisará voltar para Eternia, seu planeta natal. No entanto, uma ameaça mortal terá que ser derrotada para salvar seus conterrâneos: o diabólico Esqueleto (Jared Leto) está tentando destruir tudo.

Para quem cresceu durante os anos 1980, era comum assistir a desenhos em que os heróis eram incorruptíveis, sempre dando uma lição de moral e rindo de alguma piada no final do episódio. Hoje isso pode parecer bobo, mas estamos falando de tempos mais inocentes, onde o bem e o mal eram claramente definidos — construindo o caráter de uma geração que não ficava presa aos celulares, mas sim assistindo a animações e brincando no quintal de casa. Esse é o grande charme do filme: despertar em nós essas lembranças distantes, as quais nunca é demais recontar para a geração atual.

O grande trunfo da produção também é usar a velha fórmula da Jornada do Herói, de Joseph Campbell, tantas vezes vista em obras de aventura, mas que aqui funciona como uma luva. Adam se encontra preso na Terra, mas sonha em voltar ao seu lar e ser o herói que salvará seu povo. O interessante é testemunhar as pessoas da Terra achando que ele é louco quando conta sobre o seu passado, e esse talvez seja um dos pontos em que mais nos identificamos.

Ao ser alguém excluído por olhares preconceituosos, Adam se torna um alter-ego de todos nós que crescemos e continuamos curtindo os bons tempos de desenhos animados, séries e filmes de aventura. Um nerd no corpo de um adulto, mas que não tem vergonha de ser quem é, lutando pelo que pensa e acredita, o que garante a nossa simpatia imediata. Nicholas Galitzine se entrega a um papel que poderia facilmente soar estúpido nas mãos de outro ator; ele abraça o lado bobo do personagem sem medo, e é por conta disso que seu desempenho se torna tão sincero.

O protagonista, portanto, casa-se com a proposta primordial da obra como um todo: não se levar a sério em nenhum momento, entregando-se ao fantasioso e ao colorido, e nos passando a sensação de que os nossos bonequinhos de infância ganharam vida. Quase todos os personagens clássicos mantêm as personalidades vistas na TV: Teela (Camila Mendes) segue firme como uma guerreira determinada, servindo como a grande parceira do protagonista do começo ao fim da história. Por outro lado, algumas figuras ganham nova dimensão, como o Mentor/Duncan (Idris Elba), que no desenho raramente falhava, mas aqui se mostra vulnerável em alguns momentos, tornando-se talvez o personagem mais humano da trama.

E se Alison Brie entrega todo o ar de ambiguidade que a Maligna nos passava na série, o mesmo pode ser dito em termos de fidelidade com relação ao grande vilão. No desenho, o Esqueleto era um puro mal cartunesco, que queria apenas o poder, mas que nos provocava risadas pelo seu modo sarcástico de lidar com o He-Man. Pelo visto, Jared Leto entendeu a essência do papel ao construir um antagonista megalomaníaco, sendo mau sem nenhuma justificativa complexa — algo cada vez mais raro de se ver hoje em dia.

Talvez esse seja outro ponto positivo do longa: não perder tempo construindo um passado trágico para justificar o vilão, focando puramente na jornada do herói. Em tempos atuais, em que o mundo se encontra cada vez mais complexo, nada melhor do que assistir a um bom filme de aventura e fantasia à moda antiga. Se em "Dungeons & Dragons: Honra Entre Rebeldes" (2023) a fórmula deu muito certo, este filme seguirá pelo mesmo caminho.

Em termos de ação, as sequências acontecem quando o roteiro exige, perfeitamente alinhadas ao tom de humor da produção. O CGI quase não atrapalha, mesmo nos momentos em que soa artificial, pois o nosso cérebro já aceitou que tudo aquilo é baseado em um universo que nasceu de uma linha de brinquedos. Portanto, quando você se deparar com o Castelo de Grayskull na tela e achar que ele parece falso, não se surpreenda: a intenção é exatamente essa.

Vale salientar que a trilha sonora é outro ponto a favor da aventura, sendo quase toda moldada para soar como os anos 1980 — não estranhe se ouvir clássicos da banda Queen. Curiosamente, o grupo de Freddie Mercury compôs a música-tema de "Flash Gordon"(1980), filme que serviu de inspiração para a elaboração de "Thor: Ragnarok" (2017) e que, por fim, serviu de modelo para este "Mestres do Universo". Entenderam o raciocínio?

Para os brasileiros, a experiência se tornará ainda mais especial se o longa for visto dublado, já que alguns dubladores veteranos retornaram para a produção. Mais de quarenta anos depois, Garcia Júnior volta a dar voz ao protagonista e, ao gritar "Pelos Poderes de Grayskull!", dá para sentir o prazer do profissional em seu trabalho. Já Luiz Carlos Persy assume o Esqueleto, tornando-se um sucessor digno do legado do falecido Isaac Bardavid.

E se, no decorrer da projeção, você achar que a produção não é cem por cento fiel ao desenho, aguarde os minutos finais, onde surgem piadas escancaradamente familiares que os fãs irão identificar imediatamente. O filme termina despertando o desejo de revisitar a animação clássica e de nos lembrarmos de tempos mais inocentes e dourados. Nunca é demais apreciar uma boa aventura que traga de volta algo que já estava adormecido em nós há muito tempo.

Com uma bela participação especial de Dolph Lundgren, "Mestres do Universo" é aquele filme de aventura à moda antiga, que não teme ser inocente e se entrega completamente à fantasia.


Leia também: Revisitando 'Mestres do Universo de 1987'


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