Sinopse: No Iraque dos anos 1990, em meio à guerra e à falta de comida, o presidente determina que todas as escolas do país façam um bolo em homenagem ao seu aniversário.
É curioso que, no decorrer da história do cinema, alguns filmes vindos do Oriente Médio não sejam apenas um retrato sobre seus países de origem, mas também nos permitam testemunhar tramas através da perspectiva da infância. No cinema iraniano, por exemplo, tivemos belos exemplos como "Onde Fica a Casa do Meu Amigo?" (1987), de Abbas Kiarostami, ou "Filhos do Paraíso" (1997), de Majid Majidi. Pelo Iraque, temos agora o recente O Bolo do Presidente (2025), no qual testemunhamos a cruzada de uma menina disposta a cumprir uma tarefa em meio a uma realidade ditatorial.
Dirigido pelo estreante Hasan Hadi, o longa acompanha a vida de Lamia (Banin Ahmed Nayef), uma garota de 9 anos que conhece de perto a realidade da guerra e da fome no Iraque. Retratando o início dos anos noventa, o enredo mostra o momento em que o presidente do país determina que todas as escolas façam bolos para comemorar seu aniversário. Lamia acaba sendo a escolhida para a missão em sua escola. Sem ter muito para onde correr e com poucos recursos, ela parte em uma aventura ao lado da avó, de seu melhor amigo e de seu galo de estimação.
Hasan Hadi talvez venha a ser lembrado futuramente como um realizador pertencente ao que se pode chamar de retomada do cinema iraquiano, após décadas de desmantelamento durante os tempos ditatoriais de Saddam Hussein. O que se vê na tela definitivamente não seria visto anos atrás, pois temos a dimensão de como a persuasão de um governo para obter o apoio da população não era muito diferente das táticas da Alemanha nazista de Hitler. Em meio ao calor do conflito, vemos uma jovem amadurecer gradualmente através de sua jornada.
A busca pelos ingredientes para o doce se torna um pretexto para acompanharmos a pequena protagonista por uma cidade sempre em movimento, mesmo com recursos visivelmente escassos. Antes disso, porém, vemos a relação da jovem com a avó, que não esconde as marcas de uma vida sofrida e já não tem tantas forças para cuidar da neta. Lamia, por sua vez, demonstra o olhar de uma jovem madura para a sua idade, enfrentando a escassez e passando por inúmeros percalços para realizar sua tarefa.
Hasan Hadi consegue criar um conto singelo sobre a inocência em meio a uma realidade nua e crua, onde a relação de Lamia com seu melhor amigo vai mudando de acordo com as situações enfrentadas. A brincadeira de não piscarem um diante do outro funciona como uma representação de até quando eles conseguirão manter suas expressões inocentes perante uma realidade na qual achar ovos se torna uma missão quase impossível. O diretor capricha em uma montagem engenhosa, capaz de gerar tensão sobre o que virá a seguir — e a cena que se passa em uma mesquita sintetiza muito bem essa observação.
Ao final, há tanto uma recompensa quanto duras perdas durante o percurso, fazendo com que a jovem protagonista passe a enxergar o mundo da mesma forma complicada que sua avó via. Portanto, a última cena com os jovens se torna impactante, pois simboliza uma geração em que muitos se perderam em um conflito sem sentido. O minuto final, por sua vez, além de trazer um registro real, simboliza toda a hipocrisia de um governo ditatorial que provocou feridas na população — marcas que, ainda hoje, seguem em processo de cicatrização.
"O Bolo do Presidente" é sobre a inocência perdida perante os tempos nebulosos de um país em transe e repleto de conflitos.
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