Sinopse: O edifício Copan vive dias turbulentos que antecedem as eleições presidenciais de 2022.
Segundo o Antigo Testamento, após o dilúvio, a humanidade falava o mesmo idioma e seguiu em direção à planície de Sinar. Para evitar que se espalhassem pelo mundo e para criar um monumento que os tornasse célebres, os homens decidiram construir uma cidade e uma torre altíssima que alcançasse os céus. Ao ver a ambição e a vaidade do povo, Deus confundiu a língua que falavam para impedi-los. Incapazes de se comunicar, os trabalhadores abandonaram a obra e se espalharam pela Terra.
Hoje, em pleno século XXI, época em que deveria haver maior comunicação e compreensão em relação ao próximo, tudo indica que retrocedemos ainda mais se compararmos nossa realidade aos eventos bíblicos. É curioso observar que o povo brasileiro atual fala a mesma língua, mas se encontra dividido devido a questões políticas cujos debates se tornam cada vez mais acalorados. "Copan" (2026) é o retrato de uma Torre de Babel erguida pelo homem, mas cujo cenário de cisão não foi imposto pelas mãos divinas.
Dirigido por Carine Wallauer, o documentário revela o cotidiano dos moradores do famoso prédio projetado por Oscar Niemeyer, em São Paulo, durante uma disputa administrativa no local. Com o mesmo síndico há mais de 30 anos, os residentes precisam lidar também com as tensões políticas entre os candidatos à presidência que polarizavam o Brasil. Aos poucos, revela-se um panorama em que as pessoas daquele ecossistema se encontram cada vez mais distantes umas das outras.
Nota-se, no decorrer da projeção, que a diretora nos transmite total segurança ao perambular pelos corredores do prédio e registrar as conversas de seus habitantes. Essa naturalidade se deve ao fato de a realizadora ter residido no local por mais de sete anos, desenvolvendo afeto por quem mora lá. Por conta disso, em nenhum momento a notamos intervir ou direcionar as reações das pessoas na tela; ela mantém uma posição neutra, desnudando os dois lados daquela engrenagem.
Os condôminos não ficam divididos apenas com relação à possível troca de gestão do prédio, mas também pelo clima que antecede o pleito presidencial de 2022. Wallauer registra de forma minuciosa as opiniões e os quase embates que ocorrem nos corredores, ao ponto de o espectador ficar apreensivo com a possibilidade de uma agressão física, já que alguns indivíduos se recusam a ouvir vozes dissonantes. É, portanto, uma síntese do Brasil recente, onde o cenário político dividiu a população de tal modo que não há mais escuta, mas sim uma defesa cega de dogmas pessoais, doa a quem doer.
Devido a isso, o paralelo entre a nossa atualidade e a passagem bíblica é mais do que válido. A diferença é que não houve uma intervenção divina para cortar o diálogo entre as pessoas: elas mesmas provocaram isso por meio da soberba e da falta de empatia. Querendo ou não, todos pertencem à mesma Torre de Babel, e cabe a nós voltar a dialogar antes que tudo desabe sob o peso dos próprios egos.
Vale destacar que a cineasta cria aqui uma espécie de híbrido entre documentário e ficção, ou seja, uma realidade mais nua e crua, onde personagens reais se apresentam como eles mesmos em suas rotinas diárias. Isso não é apenas uma forma de o público se identificar com a premissa, mas também de constatar o quanto o real é complexo. Em suma, é curioso observar como a realidade transcende o imaginário de forma assustadora, superando qualquer ficção hollywoodiana.
"Copan" é o retrato vivo de uma Torre de Babel brasileira, cuja divisão foi imposta pela própria cegueira do homem contemporâneo.
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