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Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Dia D'

Sinopse: Acompanha o colapso global quando um evento inexplicável, transmitido ao vivo na TV, revela que os governos escondem a existência de vida extraterrestre há quase um século, desencadeando pânico e uma crise sem precedentes.

Durante a década de 1950, Hollywood lançou dezenas de filmes sobre monstros radioativos e invasores do espaço. Tudo funcionava como uma espécie de metáfora da paranoia da Guerra Fria, época em que o temor perante o comunismo era tamanho que os norte-americanos mal sabiam o real significado da palavra, embora tivessem certeza de que ela deveria ser temida. Porém, houve um longa-metragem que seguiu pelo caminho inverso dessa tendência.

"O Dia em que a Terra Parou" (1951), de Robert Wise, trazia um alienígena como protagonista que buscava um meio de alertar a humanidade para alcançar a paz, evitando que as pessoas fossem aniquiladas pelas próprias ações errôneas daquele período. Um filme à frente de seu tempo e que, com certeza, influenciou diversos futuros diretores, como é o caso de Steven Spielberg. Sonhador como poucos, o cineasta construiu sua carreira inspirado no que ouviu e assistiu na infância e na adolescência, resultando em verdadeiras obras-primas.

Longas como "Contatos Imediatos do Terceiro Grau" (1977) e "E.T.: O Extraterrestre" (1982) revelavam o lado pacífico desses seres espaciais, e o realizador incrementava a narrativa com um realismo que até hoje impressiona e fascina. Spielberg só voltaria a explorar o mundo dos aliens em "Guerra dos Mundos" (2005) que, revisto hoje, funciona como uma clara metáfora do temor norte-americano após o 11 de Setembro. Vários anos depois, eis que o cineasta nos entrega "Dia D" (2026), obra que caminha de mãos dadas com os dias atuais, nos quais cada vez mais tememos pelo amanhã.

Na trama, Emily Blunt interpreta Margaret, uma apresentadora de telejornal que, certo dia, começa a falar uma língua estranha ao vivo. Ao mesmo tempo, Daniel Kellner (Josh O'Connor) e sua namorada Ane Blankenship (Eve Hewson) possuem arquivos valiosos que revelam que o governo dos EUA sempre teve contato com seres alienígenas, mas escondia o fato da população. Porém, uma organização secreta liderada por Noah Scanlon (Colin Firth) está disposta a tudo para que essas informações não vazem em hipótese alguma.

Steven Spielberg prova neste filme por que é sempre apontado como um dos melhores diretores de todos os tempos; é impressionante a sua qualidade de direção. Além dos jogos de luz e sombra corriqueiros de sua filmografia, é incrível como o realizador faz sua câmera navegar com fluidez. Em diversas cenas, momentos de perseguição automobilística se tornam sufocantes, transmitindo peso e um elevado grau de perigo. Além disso, são espantosos alguns planos-sequência em que algo sempre é mostrado ao fundo do quadro, sem nunca perder o foco no protagonista que busca não ser visto pelos algozes.

Essa é uma prova mais do que bem-vinda de que o diretor continua um grande contador de histórias e um mestre na elaboração de grandes sequências. Em tempos nos quais o CGI dá sinais de desgaste a todo momento, impressiona como o realizador se preocupa em criar momentos verossímeis que prendem o espectador na poltrona imediatamente: a cena do trem, por exemplo, já nasce como uma das melhores sequências de ação do ano.

Porém, acima de tudo, "Dia D" é um filme moldado por personagens extremamente humanos, jogados em situações que eles mesmos buscam compreender. Se por um lado há Daniel, que fará de tudo para revelar a verdade às pessoas, por outro, Ane teme que isso destrua a fé da população, principalmente diante da iminência de uma inevitável Terceira Guerra Mundial. Noah Scanlon, por sua vez, não é um vilão convencional; suas motivações para acobertar a verdade fazem sentido, deixando no ar a grande pergunta: o ser humano está realmente disposto a encarar o fato de que não está sozinho no universo?

Mas, de todos os personagens, é Margaret quem se torna a nossa representação na trama, já que é uma cidadã comum que se vê em uma situação difícil de explicar. Curiosamente, sua jornada remete à do personagem de John Travolta no filme "Fenômeno" (1996), visto que ambos manifestam poderes similares. Porém,  Emily Blunt se sobressai na comparação.

Chamando a atenção inicialmente no longa "Meu Amor de Verão" (2004) e se consagrando em "O Diabo Veste Prada" (2006), Blunt entrega aqui uma das melhores atuações de sua carreira. Sua Margaret é cheia de vida e espirituosa, mas não esconde as lembranças que a assombram e a fazem temer o futuro. No momento em que ela abre sua mente de forma inédita, temos a impressão de que esse gatilho também é acionado em nós, tamanha a facilidade com que a intérprete nos faz identificar com a personagem em sua total plenitude.

Também é interessante observar a maneira como o diretor explora a presença dos alienígenas. Sendo inicialmente sugeridos por meio de animais que surgem na trama, os seres espaciais aparecem de forma gradual. O diretor demonstra uma predileção pelo minimalismo, apostando no que é sugestivo para dar maior peso dramático aos momentos. Quando as criaturas finalmente surgem — principalmente em um flashback revelador —, o momento impressiona, mesmo que cause a leve impressão de ser algo parecido com o que já vimos em outras obras.

Se há um ponto falho no roteiro, é a maneira como a grande revelação é feita. Em tempos de informação instantânea via internet, fica difícil aceitar que o papel das redes televisivas tradicionais ainda seja tão primordial hoje em dia, quando grandes eventos como a Copa do Mundo já não atraem a massa da mesma forma. Ainda assim, as cenas reveladas através da TV, para posteriormente serem espalhadas pelas redes mundiais, impressionam pelo realismo e passam a sensação de que já havíamos testemunhado aquelas imagens em algum momento de nossas vidas.

Em suma, é um filme que chega exatamente no momento em que não sabemos ao certo como será o amanhã, pois vivemos com grandes potências em conflito, desenhando um cenário cada vez mais sombrio. Assim como o clássico "O Dia em que a Terra Parou", Steven Spielberg surge com esta obra para nos fazer parar por um momento. Ele nos força a questionar se somos evoluídos o bastante para voltar a olhar para o céu, ou se estamos predestinados a um fim amargurado através da extinção. A mensagem foi dada; o que falta é colocá-la em prática.

"Dia D" traz o Steven Spielberg dos velhos tempos, onde fantasia, fé e reflexão se unem para nos fazer pensar sobre nós mesmos e sobre o declínio do mundo atual.

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