Sinopse: Anabel é uma adolescente que tenta aprender a lidar com a morte da avó. Ao mesmo tempo, ela se aproxima de Meiko, uma jovem que parece conhecer a falecida melhor do que ela mesma.
Eduardo Nunes realizou, no decorrer de sua carreira, longas-metragens focados em questões existenciais do ser humano, mostrando como elas podem ser mais complexas do que imaginamos. Tanto em "Sudoeste" (2012) quanto em "Unicórnio" (2018), o realizador coloca jovens personagens perante dilemas que vão da morte e da solidão ao amadurecimento diante de um futuro indefinido. "Cinco da Tarde" (2026) retoma e explora essas questões, mas elevando-as a um novo patamar.
A trama se passa no período da pandemia, onde conhecemos Anabel, uma adolescente que tenta aprender a lidar com a perda da avó. Ao mesmo tempo, ela se aproxima de Meiko. Conforme essa amizade cresce, as duas descobrem que têm muito em comum.
Ao situar a narrativa nos tempos nebulosos da crise sanitária, Eduardo Nunes revela que as duas jovens convivem com um medo contido e uma angústia expressa nos gestos. Anabel, por exemplo, demonstra sinais de incômodo desde a primeira cena; sua insegurança faz com que o espectador não tenha certeza imediata do que se trata, algo que vai sendo revelado aos poucos. Meiko, por sua vez, pode ser interpretada inicialmente como uma representação do nosso próprio olhar na tentativa de decifrar Anabel, muito embora ela também carregue uma dor emocional profunda.
O diretor confina as personagens em um único cenário, onde o apartamento pequeno se torna claustrofóbico, potencializado pela fotografia em preto e branco que cria uma aura enigmática. O realizador é engenhoso nos enquadramentos: os fundos fora de foco revelam uma segunda camada de interpretação sobre o que acontece em cena, sem que o olhar das atrizes jamais fuja da nossa vista. Além disso, essa atmosfera se interliga a elementos que vão de sonhos e lembranças do passado a pinceladas de um gênero sobrenatural sutil, não assumido dentro do enredo.
É notório que testemunhamos tudo pela perspectiva da dupla — principalmente pelo que Anabel sente ou vê —, mas cabe a cada espectador interpretar o que presencia. Bárbara Luz e Sharon Cho constroem figuras enigmáticas, que agem movidas pela saudade dos entes perdidos, mas que vislumbram um recomeço a partir dessa aproximação. Vale destacar também os ótimos desempenhos de Analu Prestes e Miwa Yanagizawa, cujas presenças evocam um ar de mistério, fortalecido pela forma como o cineasta conduz suas aparições.
O filme se encaixa perfeitamente no contexto pós-pandemia, um período em que tantas pessoas perderam familiares e viram a necessidade de se reaproximar dos que ficaram. Para obter o calor humano, o caminho não passa pelas redes sociais — que muitas vezes nos tornam menos empáticos —, mas sim pela iniciativa interna de dar o primeiro passo. Embora pareça arrastado em alguns momentos, o longa nos mostra como nos desvencilhar de uma tristeza que nos imerge na escuridão.
"Cinco da Tarde" é sobre o nascimento incomum de uma amizade que evoca o calor humano indispensável em épocas que nos deixam apreensivos.
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