Sinopse: Com acesso inédito ao Senado, o filme acompanha por dentro a trajetória da CPI da Covid-19 e transforma esse registro em um retrato de um dos períodos mais marcantes e difíceis da nossa história recente.
Há quem diga que o brasileiro possui memória curta e, infelizmente, isso é verdade. Basta olharmos para exemplos recentes de nossa história, em que o país foi assolado pela desinformação disseminada por falsos líderes e profetas, provocando diversas tragédias. Seis anos atrás, o mundo passou pelo seu momento mais crítico de saúde pública devido à pandemia da Covid-19. Muito provavelmente, você deve ter perdido algum parente ou amigo para a doença porque ele acreditou que se tratava de uma "mera gripezinha", persuadido pelo discurso dos poderosos.
O Brasil instaurou uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar a negligência do governo federal. E no que deu essa CPI? Infelizmente, parece que a verdade nunca é o suficiente; basta surgirem certos favores para que determinados atores cubram os fatos em nome de lucros futuros. O documentário "Anatomia do Caos" (2026), que acaba de entrar em cartaz, resgata essa revolta em todos os sentidos.
Dandara Ferreira, que codirigiu a cinebiografia "Meu Nome é Gal" (2023), decidiu usar os recursos que tinha em mãos para registrar os acontecimentos de forma direta. Ela não recorreu a entrevistas atuais e tampouco a uma retrospectiva linear sobre o início e o fim da pandemia. Todo o foco dramático gira em torno da CPI e, a partir dela, expõe os erros, acertos e omissões de políticos, médicos e empresários que se recusavam a ver a engrenagem do sistema parar.
Aqueles que acompanharam as transmissões diárias pela TV Senado na época podem pensar que já viram tudo sobre o assunto. No entanto, basta assistir ao documentário como obra cinematográfica para sentir uma raiva até então adormecida. A meta primordial do projeto de Dandara é preservar os fatos e escancarar como os rumos da nossa história poderiam ter sido diferentes. É uma síntese em potência máxima para que as futuras gerações não esqueçam de que o desgoverno da época permitiu que a morte tomasse conta do país durante a sua maior crise sanitária — uma tragédia que vitimou mais de 700 mil brasileiros, incluindo a minha avó e a minha tia.
Além de resgatar as imagens de arquivo da TV Senado, a diretora infiltrou sua própria câmera nos bastidores das sessões para capturar os melhores ângulos e focar nas patéticas declarações daqueles que defenderam medicamentos ineficazes contra o vírus. Talvez um dos momentos mais emblemáticos seja a sequência em que o senador e médico baiano Otto Alencar desmorona a narrativa da doutora Nise Yamaguchi, que tropeça ao tentar defender cientificamente o uso da cloroquina. Fora isso, há um desfile de figuras que sequer mereceriam ser mencionadas, como os empresários negacionistas Carlos Wizard e Luciano Hang, o ex-ministro da saúde Eduardo Pazuello e o deputado federal Osmar Terra, entre outros que foram depor a contragosto.
Revendo esse passado, a indignação só aumenta. Dandara Ferreira revela em "Anatomia do Caos" um Brasil recente em que as feridas da dor ainda estão abertas, por mais que existam aqueles que desejam, a todo custo, que nós as esqueçamos.
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