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Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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terça-feira, 2 de junho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz - 'Backrooms: Um Não-Lugar'

Sinopse: Acompanha Clark, um vendedor de móveis que, em 1990, descobre no porão de sua loja um portal para os "Backrooms" — um labirinto infinito de salas e corredores amarelos surreais.

Não é de hoje que certas lendas urbanas surgem na internet atiçando a curiosidade do público. Talvez um dos pioneiros nesse fenômeno tenha sido justamente "A Bruxa de Blair" (1999), cujos realizadores venderam o filme como um documentário verídico. Aumentando a sensação de autenticidade, eles criaram um site com informações sobre a lenda da bruxa, dando a entender que os três protagonistas estavam realmente mortos. Isso aconteceu nos primórdios da rede e serve de modelo até os dias de hoje.

Contudo, há mitos modernos que nascem na internet e servem de base para a criação de curtas e longas-metragens. Um desses casos é a misteriosa lenda das "Backrooms", que surgiu anos atrás: um conceito no qual pessoas caem em uma espécie de dimensão paralela e labiríntica, descrita como uma série infinita de corredores vazios, com paredes amareladas, carpete úmido e o som incessante de luzes fluorescentes. Em 2019, o jovem diretor Kane Parsons lançou um curta-metragem inspirado nessa creepypasta, alcançando um sucesso estrondoso — o suficiente para ser convidado pelo prestigiado estúdio A24 a realizar Backrooms: Um Não-Lugar (2026), que explora ainda mais esse mistério.

Na trama, acompanhamos Clark (Chiwetel Ejiofor), um vendedor de móveis que faz uma descoberta intrigante no porão de sua loja. O local se transforma em uma espécie de labirinto onde diversos espaços novos surgem, possivelmente abrindo portas para outra realidade. Inquieto com a situação, Clark convence Kat (Lukita Maxwell), sua funcionária, e Bobb (Finn Bennett), namorado dela, a explorarem a extensão do lugar para entender sua magnitude. No entanto, quando Clark desaparece, a Dra. Mary Kline (Renate Reinsve), sua terapeuta, resolve ir atrás dele.

Quem já assistiu ao curta não irá estranhar a abertura do longa, que basicamente resgata o mesmo cenário misterioso, moldado por texturas de VHS dos anos noventa que se casam com perfeição com o subgênero found footage (ou falso documentário). Porém, ao contrário da maioria dos espectadores, que logicamente se lembrará de "A Bruxa de Blair", a introdução me fez recordar o filme nacional "Os Jovens Baumann" (2018), de Bruna Carvalho Almeida. Além de partilhar do formato found footage, a obra brasileira também possui toda essa estética analógica e nostálgica através das imagens de arquivo.

Só por essa abertura, o filme já nos provoca uma forte aflição, despertando uma sensação quase claustrofóbica. O que vem a seguir é uma trama original que sustenta bem as quase duas horas de projeção. A premissa se alinha a dois protagonistas que, já fragilizados por seus problemas particulares, acabam imersos em um cenário que testará suas sanidades. É então que o filme se envereda por assuntos não resolvidos; o teor psicológico ganha destaque e prende a nossa atenção do início ao fim.

Clark é um personagem essencialmente fracassado, que vê seu negócio em ruínas e encontra na descoberta dos misteriosos corredores uma desculpa para escapar de uma vida previsível. Por outro lado, a Dra. Mary revela logo de início carregar um passado traumático, utilizando esse elemento como combustível para ajudar outras pessoas a não caírem no abismo da loucura. Por conta disso, uma vez que os personagens se encontram no derradeiro cenário principal, a verdadeira faceta de cada um se revela, dando-nos a dimensão de suas reais naturezas.

Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve nos brindam com atuações poderosas. O primeiro transita com maestria entre a mediocridade de sua rotina e a revelação de alguém que estava escondido dentro de si a partir do momento em que adentra a dimensão. O roteiro nos coloca de frente com questões que vão desde traumas mal resolvidos até o lado mais obscuro da mente humana, questionando até que ponto o nosso psicológico pode influenciar a realidade à nossa volta. Seria o labirinto uma forma de manifestação de nossas próprias memórias, por vezes distorcidas?

Essa questão ganha força após testemunharmos momentos de puro suspense, nos quais o susto não vem de forma fácil ou barata. O terror se constrói em elementos-chave, fazendo com que o peso de determinadas figuras que surgem ao fundo do corredor se torne profundamente desconcertante. Mesmo com um orçamento visivelmente contido, Kane Parsons conduz o público, já em sua estreia em longas-metragens, a um verdadeiro pesadelo que remete àqueles sonhos tenebrosos nos quais corremos atrás de uma saída para acordar, mas acabamos apenas adentrando outra sala infernal. Nada mal para um realizador tão jovem e que ainda tem muito a oferecer.

Infelizmente, o filme perde um pouco de sua força quando determinadas passagens tentam entregar explicações parciais sobre aquela realidade. Ao meu ver, além de parecerem teorias arquitetadas unicamente para justificar uma eventual sequência, essas respostas quebrantam o mistério; seria muito mais rico deixar que o próprio espectador tirasse suas conclusões. Ao menos os minutos finais são corajosos, encerrando a projeção de forma aberta, assustadora e bastante anti-hollywoodiana.

"Backrooms: Um Não-Lugar" é a prova de que lendas urbanas da internet, por vezes despretensiosas, podem render excelentes ideias e se transformar em um verdadeiro espetáculo de horror psicológico nas telas de cinema.

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