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Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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sexta-feira, 26 de junho de 2026

Cine Especial: 'Labirinto - 40 Anos Depois'

O tempo é o verdadeiro juiz de tudo que nos cerca e faz com que determinada obra seja lembrada ou esquecida. No cinema, muitos longas-metragens fazem sucesso, mas logo caem no esquecimento. Porém, há aqueles que fracassam no início para, logo em seguida, serem reconhecidos através dos anos, tornando-se verdadeiros filmes cults.

Talvez não exista melhor exemplo desse tipo de status do que o meu filme favorito, "Blade Runner" (1982). Fracasso na época de sua estreia, o longa acabou sendo redescoberto através do VHS e de exibições em cinematecas, sendo apontado hoje como um dos melhores filmes da década de oitenta. O mesmo caminho trilhou "Labirinto - A Magia do Tempo" (1986), um belo filme de fantasia injustiçado em sua época de lançamento, mas que logo ganhou o seu merecido reconhecimento através do mesmo público que no passado o havia ignorado.

Dirigido pelo saudoso Jim Henson, a história nos apresenta Sarah (Jennifer Connelly), que se sente frustrada por ter de cuidar do irmão caçula enquanto seus pais estão fora. Sonhadora e admiradora de contos fantásticos, Sarah deseja se livrar da criança, que não para de chorar. Atendendo ao seu pedido, o Rei dos Duendes (David Bowie), personagem de um dos livros de Sarah, ganha vida e sequestra o bebê. Vendo o erro que cometeu, ela decide enfrentar um labirinto e resgatar o irmão antes da meia-noite para evitar que ele seja transformado em um duende.

Quem assiste ao longa hoje pensa que ele foi baseado em uma obra literária clássica, o que não é verdade. O filme foi uma criação original vinda da mente de Jim Henson — que na época já era mundialmente conhecido pela sua obra máxima, "Os Muppets" —, e cujo roteiro foi escrito por Terry Jones, consagrado como membro do grupo humorístico Monty Python. Vale salientar que o projeto trazia a marca da produção de George Lucas, cujo nome simbolizava o melhor do cinema de aventura daquela época.

Em tempos em que o público nem sabia ao certo o significado da sigla CGI, o filme foi concebido em uma era na qual todos os envolvidos na produção colocavam a mão na massa, o que dava maior peso visual às obras. Pode-se dizer que Jim Henson usou o seu talento com marionetes em potência máxima na criação de personagens diversos e cheios de detalhes. Em alguns casos, nota-se o uso de atores anões para dar vida às criaturas, como no ambíguo Hoggle, cuja cabeça e olhos eram controlados por controle remoto. Esse artifício se tornaria popular nos anos noventa na criação de personagens que viriam a marcar época, como em "As Tartarugas Ninja" e "Família Dinossauro".

Mas, de todas as marionetes, sem sombra de dúvida a mais impressionante é Humongous, o grande guarda que protege a entrada da cidade dos duendes, controlado por um marionetista em seu interior. Todos esses personagens mágicos, moldados pelas velhas técnicas vindas do universo dos fantoches, são um belo exemplo de como a mão humana é essencial para criar figuras de ficção que nos transmitam vida, resultando em algo bem diferente do que acontece com o CGI hoje em dia. Curiosamente, na abertura surge voando uma coruja feita digitalmente, tornando-se uma das primeiras figuras cinematográficas criadas dessa forma.

Visualmente, o filme também utiliza as velhas fórmulas do fundo verde para a construção de um universo fantástico. Porém, ao invés de cenários virtuais, tudo foi feito através de desenhos e pinturas foscas (matte paintings), passando uma sensação de maior profundidade em algumas passagens da trama. Quando Sarah está perdida no labirinto, por exemplo, sentimos o grande cenário se expandindo, fazendo parecer que o lugar não tem fim. Claro que alguns fundos falsos envelheceram, mas ainda mantêm o calor e o charme daqueles que se dedicaram ao projeto.

Vale destacar que a estética do longa possui um visual que remete a um pouco de tudo: desde os clássicos "O Mágico de Oz" (1939) e "Alice no País das Maravilhas" (1951), até pinceladas que remetem aos bons tempos do expressionismo alemão, como no caso de "O Gabinete do Dr. Caligari" (1920). Além disso, a gente nunca sabe ao certo se a protagonista está vivenciando tudo aquilo ou se a jornada não passa de um sonho vindo de sua imaginação e predileção pelo universo fantástico. Algumas cenas remetem, inclusive, às clássicas pinturas surrealistas de Salvador Dalí; a sequência em que a protagonista se encontra em escadarias que desafiam a lógica da gravidade sintetiza muito bem essa ideia.

Falando em sonhos, é extremamente mágica a cena em que Sarah acaba comendo uma maçã envenenada e começa a transitar entre a realidade e o delírio. É neste momento que ela se vê em um baile de máscaras que parece ter sido extraído dos tempos do Rei Henrique VIII, onde se depara com o Rei dos Duendes. Esta é uma das minhas passagens preferidas e que potencializa a trilha sonora embalada pela voz do próprio David Bowie.

Por sinal, o astro da música pop se encontra mais do que à vontade interpretando esse personagem, cujo visual poderia soar ridículo para qualquer outro ator, mas não para ele. É interessante notar que o seu Rei dos Duendes não é exatamente um vilão convencional, mas sim um antagonista ambíguo, cujas intenções podem ser egoístas, mas que está diretamente relacionado ao amadurecimento da própria protagonista. Talvez o Rei dos Duendes nunca tenha sido o verdadeiro desafio para Sarah, mas sim ela própria.

Mesmo na flor da idade, Jennifer Connelly conseguiu construir uma Sarah que nos transmite uma mentalidade vasta quando o assunto são as fantasias e os mundos mágicos que visitava em seus livros. Porém, a vida adulta cobra o seu preço, e certas responsabilidades precisam ser abraçadas para que ela possa avançar. Portanto, salvar o seu irmão das mãos do Rei dos Duendes funciona como um rito de passagem para a maturidade, sem que ela precise se desvencilhar dos elementos fantásticos que moldaram a sua personalidade.

Infelizmente, esse foi o último grande trabalho de Jim Henson no cinema, que veio a falecer quatro anos depois do lançamento do longa, sem testemunhar o imenso reconhecimento que a sua obra obteve através do tempo. O filme simboliza tempos mais inocentes e fantasiosos, nos quais o modo de se fazer cinema com métodos práticos fazia as obras ganharem alma com mais facilidade. Assim como Sarah, nós crescemos, mas não nos esquecemos de como nos divertimos com o filme quando ele reprisava em uma inesquecível Sessão da Tarde em nossas vidas.

Com várias músicas cantadas maravilhosamente por David Bowie, "Labirinto - A Magia do Tempo" é um belo exemplo de como a magia de fazer cinema como antigamente salvou a obra do esquecimento, transformando-a em um dos longas mais cultuados de todos os tempos.

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