Sinopse: Duas histórias paralelas: a de Elsa (Bárbara Lennie), uma publicitária que sofre um ataque de pânico após a morte da mãe e viaja para Lanzarote para lidar com o luto, e a de Raúl (Leonardo Sbaraglia), um roteirista que busca inspiração em sua própria vida.
Quem acompanha Pedro Almodóvar desde sempre sabe muito bem que alguns dos seus filmes nada mais são do que uma representação de sua própria pessoa, ou de eventos que presenciou ao longo da vida. "Dor e Glória"(2019), por exemplo, é quase um filme biográfico sobre ele e seus amores não correspondidos. "Natal Amargo"(2026) é mais um longa que sintetiza esse pensamento e que, talvez, revele seu conflito interno perante os rumos do cinema atual neste momento.
Na trama, acompanhamos duas histórias paralelas que se desenrolam entre Madri e as Ilhas Canárias. De um lado, a ex-diretora de cinema Elsa (Bárbara Lennie) perdeu a mãe durante as festas de Natal e afoga-se no trabalho. Não tendo espaço para lidar com o luto, um ataque de pânico severo a obriga a tirar uma pausa e viajar para Lanzarote, nas Ilhas Canárias, ao lado de sua amiga Patricia, que vive uma crise no casamento. O outro ponto de vista da trama acompanha Raúl Durán (Leonardo Sbaraglia), um diretor e roteirista que enfrenta dificuldades para obter algo construtivo para o seu novo roteiro.
Inicialmente, a premissa do filme me lembrou o longa Mais "Estranho que a Ficção"(2006), de Marc Forster, no qual uma escritora criava a história trágica de um determinado protagonista que acabava se cruzando com sua criadora na reta final da trama. Porém, aqui não há um cruzamento literal de criador e criatura; em vez disso, vemos um diretor quase aposentado tentando elaborar uma história original ao se inspirar em pessoas próximas, enquanto acompanhamos, de forma paralela, o conto que ele elabora. Ou seja, vemos duas narrativas interligadas, em que a trama fictícia continuará dependendo de até que ponto o escritor está disposto a ir para encerrar a sua obra.
Se formos analisar mais a fundo, seria o próprio Pedro Almodóvar falando um pouco sobre si, sobre as pessoas próximas a ele e sobre como elas lidam com o luto no decorrer da vida. Tanto Raúl Durán como sua personagem Elsa seriam alter egos do realizador em cena, já que ambos possuem em comum a predileção pelo cinema, mas convivem com a falta de ideias criativas. O luto, por sua vez, talvez não seja somente sobre seus conhecidos próximos, mas também com relação a si mesmo.
Bárbara Lennie, Aitana Sánchez-Gijón, Victoria Luengo e Milena Smit possuem todas as características das musas que o cineasta apresentou ao longo de sua carreira. Porém, ao mesmo tempo, suas respectivas personagens revelam uma nova faceta do papel da mulher dentro do universo de Almodóvar ao terem que lidar com os novos dilemas de um mundo atual sempre em movimento, cuja vida quase sempre vai se transmutando. Por conta disso, o luto e os amores não resolvidos são os pilares que tornam a trama bastante curiosa, para dizer o mínimo.
E se, por um lado, o personagem de Leonardo Sbaraglia fica em segundo plano no início, por outro, sua figura começa a roubar a cena no momento em que sua criatividade fica escassa e ele passa a ser contrariado por aqueles que acham errado usar pessoas reais e próximas para elaborar uma trama fictícia. É então que o intérprete fala por Almodóvar, ao nos dizer que a sua criatividade talvez tenha certos limites, além de não aceitar muito bem o fato de que, hoje, cada vez mais cineastas se vendem ao streaming. Não chega a ser um grito de desespero partindo do cineasta, mas sim uma forma de dizer o quanto ele se encontra decepcionado com o cenário atual da sétima arte.
É um filme que possui todas as características primordiais do diretor, desde as cores quentes e as homenagens a Madri até o amor ao próprio cinema, tudo embalado pela trilha sonora de seu companheiro e compositor de longa data, Alberto Iglesias. Contudo, inicialmente, talvez venha a ser um filme incompreendido do realizador, pois não é sempre que vemos um cineasta fazer um longa para colocar para fora o seu descontentamento com os rumos da arte que tanto preza. Porém, talvez seja exatamente por isso que o filme venha a ser, aos poucos, reconhecido no seu devido tempo.
"Natal Amargo" talvez não seja somente a síntese da maneira como as pessoas lidam com o luto, mas também a forma de Pedro Almodóvar expressar seu descontentamento com relação aos rumos que o cinema está tomando.
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