Nota: Filme exibido para os associados no dia 22/08/26
Se há uma palavra que melhor define Leos Carax, essa palavra seria peculiaridade — algo que senti claramente ao assistir a "Holy Motors" (2012) e compreender a dimensão de sua visão autoral como um todo. Em seus filmes não há nada convencional, mas sim uma espécie de experimento constante usado como pretexto para explorar os melhores recursos cinematográficos disponíveis. Talvez, essa sua forma de fazer cinema não pretenda meramente contar uma história, mas sim fazer com que o público sinta a própria linguagem cinematográfica.
Em seu clássico "Sangue Ruim" (1986), adentramos a história de Alex (Denis Lavant) e Anna (Juliette Binoche), que se conhecem no coração de uma Paris desprovida de amor, cujas cores quentes dos anos oitenta surgem sufocadas por um constante temor. Tudo se passa em um futuro distópico ameaçado pelo vírus STBO, que mata casais que se relacionam sem sentimento. Qualquer semelhança com o pavor da AIDS naquela época não é mera coincidência.
Contudo, não é apenas de forma metafórica que o realizador constrói sua narrativa: ele convida o público a imergir em uma trama onde os recursos visuais se tornam parte integrante — e de forma alguma gratuita — do enredo. O protagonista Alex sente-se isolado em uma realidade mórbida, na qual qualquer passo em falso afeta quem está ao seu redor. Mesmo recém-saído de uma prisão onde esteve por quinze meses, a liberdade não se traduz em libertação, mas em um novo patamar de sua própria solidão.
Curiosamente, Alex possui o talento da ventriloquia e usa esse dom para se comunicar quando seu lado exausto já se encontra saturado do mundo que o cerca. Diante de um futuro incerto, ele retoma o contato com velhos conhecidos de seu falecido pai, cuja morte deixou uma dívida com uma mulher estrangeira que agora o assombra. Sua missão passa a ser roubar de uma clínica a cura para o vírus, para que os parceiros de seu pai a vendam e quitem o débito o quanto antes.
Nessa missão quase suicida, Alex conhece Anna, namorada de um dos parceiros do seu pai. Ela desperta nele um sentimento incomum de carinho que contagia também quem assiste. No entanto, ele ainda nutre sentimentos por sua namorada (interpretada por Julie Delpy) e anseia por fugir, viajando sem rumo até que os pneus gastem. Mas a fuga de Alex não é apenas do mundo real; há nele um desejo de escapar para dentro da própria mente em momentos em que o diretor tem muito a dizer, cabendo a cada espectador compreender a sua maneira.
Naquela que é uma das melhores sequências do filme, o protagonista corre em um ritmo frenético ao som de Modern Love, de David Bowie — cena histórica que serviria de inspiração, anos mais tarde, para um momento marcante no genial "Frances Ha" (2012). O diretor, por sua vez, faz questão de focar a câmera na plenitude dos rostos de Juliette e Julie, cujos olhares dizem muito mais do que meras palavras. Vale salientar que este foi um dos primeiros grandes papéis de Juliette Binoche no cinema; sua delicadeza em cena já deixava transparecer a complexidade de atuações marcantes que viria a construir ao longo de sua exemplar carreira.
O lado transparente de sua personagem revela tanto uma pessoa gentil quanto inocente perante uma realidade por vezes opressora. Uma de suas primeiras cenas que chama a atenção é quando ela surge caindo de paraquedas desacordada, como se o protagonista se visse na obrigação de salvá-la, vislumbrando ali a chance de um recomeço. É fascinante notar como eles formam um raro exemplo de casal cinematográfico que não se consolida fisicamente em cena, o que torna a conexão entre eles ainda mais preciosa.
Ao final, o protagonista encontra um destino cruel, mas não sem antes deixar uma marca de seu sangue no rosto de Anna. O sangue não a contamina; pelo contrário, funciona como um impulso que a faz libertar-se e correr sem rumo. Ambientada em uma pista de pouso, a cena final de Juliette torna-se antológica, pois Leos Carax nos passa a nítida impressão de que ela está abrindo as asas e voando.
Leos Carax cria, portanto, um longa-metragem à frente do seu tempo, no qual a paixão não reside apenas no amor carnal, mas em sentimentos que lutam para não serem doutrinados por uma realidade cheia de regras. O espectador pode até esperar por uma consumação romântica tradicional, mas recebe a entrega de uma paixão lírica e profundamente humana, embalada por toda a genialidade e peculiaridade que o diretor emana.
"Sangue Ruim" é o amor sob o olhar único de Leos Carax — uma obra cuja linguagem nada convencional a torna verdadeiramente inesquecível.
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