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Sócio e Diretor de Comunicação e Informática do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já 99 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento e Cinesofia. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Cine Especial: Clube de Cinema de Porto Alegre - ‘A Viagem de Pedro’

Nota: Filme exibido para os associados no último sábado (03/09/2022)

Sinopse: Em 1831, durante a travessia do Atlântico em uma fragata inglesa rumo à Europa, Pedro, o ex-empregador do Brasil, busca forças físicas e emocionais para enfrentar seu irmão, que usurpou seu reino em Portugal. Pedro se vê doente e inseguro. Ele entra na embarcação em busca de um lugar e também em busca de si mesmo. 

Eu me lembro que nos tempos de escola endeusavam até demais as figuras históricas da nossa história, sendo que, por mais que os mesmos sejam importantes em nossa linha do tempo, eles também não deixam de serem seres humanos. O filme "Joaquim" (2017), por exemplo, foi o mais próximo da verdadeira figura de Tiradentes, sendo que até a pouco tempo a sua figura era bastante semelhante ao Jesus Cristo e cuja a comparação era para mim estranha para dizer o mínimo. Eis que então chega "A Viagem de Pedro" (2019) filme que mostra um lado até então obscuro de Dom Pedro I, mas que se aproxima e muito do que ele pode ter sido em um determinado momento.

Dirigido por Laís Bodanzky, responsável pelo ótimo "Bicho de Sete Cabeças" (2001), o filme é um olhar intimista sobre a vida de Dom Pedro I (Cauã Reymond) e dos eventos históricos que giram em torno do príncipe, com atenção para um momento determinante de sua trajetória. Em 1831, o primeiro Imperador do Brasil volta à Europa sob condições adversas, no navio inglês Warspite. Diante de sua abdicação ao trono do Brasil, esse é um momento de profunda reflexão para D. Pedro I, que pondera os erros e acertos de sua administração desde o momento em que chegou no país com sua família aos 10 anos de idade, em 1808.

O filme começa exatamente quando Pedro decide deixar o seu poder nas mãos do seu filho enquanto decide voltar para Portugal, para tirar o seu irmão do trono e colocar a sua filha como verdadeira rainha daquele país. É um registro histórico um tanto que nebuloso para vários estudiosos, já que até hoje não se tem registros precisos sobre o antes e depois sobre essa passagem, mas sim apenas sobre as suas consequências. Portanto, a cena de abertura da estátua de Napoleão é simbólica, pois ela representa a dúvida sobre a pessoa que é lembrada é realmente digna, ou se se a verdadeiros fatos foram pincelados ao longo da história.

Por essa linha de raciocínio, vemos aqui um Dom Pedro falho em suas ações, tanto nas questões políticas como também familiares, ao ponto que não era segredo para ninguém que ele possuía uma queda vertiginosa por diversas mulheres mesmo sendo casado com Maria Leopoldina e cuja a mesma sentiu na pele a fraqueza libertinosa do seu marido. Há indícios que por causa disso Pedro sofreu de sífilis e alinhado com crises de convulsão faziam com que ao longo do tempo a sua saúde física e mental lhe colocavam em uma situação bastante delicada. É neste ponto que o filme explora a figura mais humanizada desse personagem histórico e ganhando até mesmo contornos curiosos para serem explorados.

Em pouco mais de uma hora e meia, boa parte do filme se passa no navio em que Pedro viaja para Europa, mas ao mesmo tempo ele tem que enfrentar diversos problemas, desde a sua saúde precária, como também estar começando a sofrer com alucinações em meio a uma grande tempestade. Por conta disso o filme ganha contornos até mesmo claustrofóbicos, pois o protagonista age de forma explosiva em alguns momentos, mas também muito diferente em momentos de calmaria e que não escondia o seu lado pretensioso perante as pessoas. Cauã Reymond entrega aqui o seu mais intenso trabalho de sua carreira, sendo que ele já havia me surpreendido em outros projetos, mas aqui Reymond desaparece por completo e dando lugar a figura importante de nossa história, mas que buscava a sua própria identidade ao longo da vida.

O filme em si é sobre uma pessoa dívida, ocupada com as suas ambições políticas, mas que talvez em sua reta final buscava uma redenção pessoal através da busca pelas suas raízes, mesmo correndo sério risco de cair no limbo da história para sempre. Isso não ocorreu, porém, o tempo falou mais alto, revelando uma pessoa gente como a gente e não aquele conto de fadas que nos contava na Quarta Série. O tempo tardou, mas não falhou com a verdadeira figura de Dom Pedro I.

"A Viagem de Pedro" é um curioso retrato de um ponto nebuloso da figura de Dom Pedro I, porém, verossímil e muito melhor aceito hoje do que era contado em um passado longínquo. 


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