Sinopse: Meninas brincam no árido interior brasileiro, equilibrando-se entre o passado difícil de suas mães e os sonhos fantásticos que inventam para o futuro.
Uma das coisas que mais me fascina quando um documentário foca em crianças é o quanto elas acabam sendo sinceras perante a realidade em que convivem e com relação ao que lhes é ensinado. No documentário "Últimas Conversas" (2015), de Eduardo Coutinho, uma menina esbanja total sinceridade sobre quem é Deus, em uma resposta que surpreendeu até mesmo o veterano cineasta. "A Fabulosa Máquina do Tempo" (2026) mistura o teor documental com pitadas de ficção e o lado mais cru do dia a dia dessas jovens.
Dirigido por Eliza Capai, os eventos que ocorrem na tela se passam no sertão do Piauí, onde meninas navegam entre cultos evangélicos, redes sociais e sonhos de futuro. Ao inventarem uma máquina do tempo, elas revisitam as histórias duras de suas mães e avós, marcadas pela pobreza e pela desigualdade, e viajam para um futuro onde se enxergam livres e realizadas. Entre brincadeiras e fabulação, elas questionam o que significa se tornar mulher.
Eliza Capai opta por poucos recursos, mas os utiliza para realizar uma obra criativa que expande a imaginação das crianças. A simples ideia de imaginá-las viajando no tempo se torna o ponto de partida para que as jovens testemunhem as palavras de suas mães sobre o passado, estabelecendo um paralelo com suas próprias vidas e com como poderia ser o seu futuro. Nota-se, por exemplo, que ainda vigora uma cultura patriarcal naquele local, onde o homem é visto como uma figura dominante enquanto a mulher deve obedecer às suas ordens.
Porém, o documentário procura não abordar esse machismo de forma solene, mas sim de maneira sensível e reflexiva, através do olhar inocente de jovens que ainda estão descobrindo o mundo. Há tanto perguntas feitas pela cineasta quanto momentos em que a realização apenas deixa a câmera rodar enquanto as meninas são elas mesmas ou imaginam o que poderiam ser na vida adulta — uma curiosa transição entre o documental, a ficção e a fábula, unindo criatividade e inocência.
Em suma, o filme é um retrato de uma nova geração que ainda engatinha perante uma realidade nacional cada vez mais complexa, na qual se misturam religião e política, e cujos valores ultrapassados insistem em ter espaço no nosso futuro. É um documentário sobre a esperança de um amanhã melhor, onde o acesso à informação pode formar uma geração mais consciente, desde que orientada por aqueles que nutrem a cultura. Afinal, nunca é demais sonhar com um futuro mais dourado.
"A Fabulosa Máquina do Tempo" é a união da linguagem documental, da ficção e do olhar puro de uma geração que pode, quem sabe, se tornar nossa nova esperança.
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