Sinopse: Um retrato sensível e contemporâneo da artista Alaíde Costa, combinando muita música, arquivos inéditos, atores e uma abordagem poética da memória. Revela a força estética e emocional de Alaíde, que atravessou diferentes períodos da cultura brasileira sem fazer concessões.
Os documentários brasileiros sobre artistas da música têm me feito sentir, nos últimos anos, como se entrasse em uma máquina do tempo para adentrar cada vez mais a nossa cultura musical. Entre altos e baixos, sempre haverá aquele filme que procura se diferenciar dos outros, mesmo quando fica um pouco aquém do esperado. "A Noite de Alaíde" (2025) fala menos sobre a artista em si ao se enveredar mais pela estética, mas a tentativa não deixa de ser curiosa.
Dirigido por Liliane Mutti, o filme conta a história de Alaíde Costa, garota nascida no subúrbio carioca que passa a frequentar as rodas da Zona Sul do Rio de Janeiro nos anos 1950 e 1960. Lá, obtém reconhecimento por sua voz ao lado de nomes como Tom Jobim, João Gilberto e tantos outros. Porém, no ápice da carreira, Alaíde começa a ser ignorada pelas gravadoras. Junto a Johnny Alf, outro pioneiro negro da Bossa Nova, ela é vetada da lendária apresentação no Carnegie Hall, em Nova York. Prestes a completar noventa anos, ela finalmente obtém o reconhecimento tardio.
Embora seja um documentário, é interessante observar que Liliane Mutti cria passagens encenadas para retratar Alaíde desde a infância até a fase adulta. Interpretada por quatro atrizes, a própria artista usa sua voz como narradora — o que nos faz entender o quão próxima ela esteve da realização do projeto. Se por um lado isso pode soar um tanto pretensioso, por outro, há de se reconhecer o esforço da cantora em relembrar passagens que com certeza ainda lhe doem muito.
Curiosamente, as reconstituições foram trabalhadas com o uso da rotoscopia, técnica em que animadores desenham ou pintam por cima de filmagens reais, quadro a quadro. O resultado é instigante: parece que testemunhamos uma HQ em movimento, ao mesmo tempo em que relembra clássicos da animação norte-americana do século passado. Um artifício estético que ganha peso ao sintetizar a nostalgia de uma época que não voltará.
É interessante observar que Alaíde Costa testemunhou grandes transformações da nossa música, como a Bossa Nova e o Clube da Esquina. Porém, ela nunca se viu totalmente presa a rótulos de movimentos, mantendo-se fiel à sua essência sem se render às exigências mercadológicas das gravadoras da época — que, naturalmente, visavam ao lucro em primeiro lugar. Se por um lado essa postura por vezes dificultou seu alcance comercial, por outro, garantiu sua integridade artística.
Em suma, o tempo se torna o melhor juiz. Embora o documentário não explore a artista como um todo de forma primordial, o longa cumpre o papel de registro e reparação histórica para alguém que só queria viver de sua arte, a despeito dos percalços impostos por uma sociedade conservadora. O filme se encerra com Alaíde, aos noventa anos, conquistando o espaço que lhe foi negado no passado — um desfecho sem preço. A justiça é tardia, mas não falha.
"A Noite de Alaíde" pode ser um registro parcial de uma das maiores vozes da MPB, mas é um convite irresistível para quem deseja conhecê-la.
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