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sexta-feira, 29 de maio de 2026

Cine Especial: Revisitando 'Mestres do Universo'

É curioso observar que alguns filmes fracassados se tornam cults ao serem revisitados ao longo dos anos. O que leva essas produções a ganharem esse status talvez se deva ao fato de os realizadores não terem se esforçado para obter um orçamento maior, realizando seus projetos com o que tinham à disposição. O resultado acaba gerando produções visualmente precárias, mas nas quais conseguimos sentir a paixão de se fazer cinema vinda dos envolvidos.

Talvez um dos melhores exemplos seja "Plano 9 do Espaço Sideral" (1959), do diretor Ed Wood, apontado por muitos como um dos piores filmes já feitos. Porém, Wood tinha uma obsessão em rodar suas histórias mesmo sem nenhum centavo no bolso, e, por conta disso, sentimos essa persistência em cena. Essa mesma teimosia se fazia presente nos longas produzidos pelo lendário estúdio Cannon Films.

A Cannon tornou-se mítica durante os anos 1980 ao ser comandada pelos primos israelenses Menahem Golan e Yoram Globus. Eles sempre investiam em projetos do gênero de ação onde tudo era exagerado: a violência, as atuações e as inúmeras explosões no decorrer das tramas. São deles, por exemplo, "Braddock: O Super Comando" (1984), "Stallone Cobra" (1986) e "Guerreiro Americano" (1985). Só de lembrar esses títulos já nos desperta certa nostalgia, principalmente para quem os assistiu durante a década de 80, seja em uma sessão do Domingo Maior ou em tempos em que a Sessão da Tarde era bem mais politicamente incorreta.

Com o orçamento curto compensado pelo bom dinheiro vindo das bilheterias e locações ao longo dos anos, o estúdio resolveu dar um passo mais ambicioso. Passaram a apostar em superproduções para atrair o grande público, e um desses projetos mais audaciosos foi justamente "Mestres do Universo" (1987). A produção baseou-se no clássico desenho animado que, por sua vez, nascera para impulsionar as vendas dos brinquedos colecionáveis da Mattel. O sucesso da linha infantil foi gigantesco, e muitos fãs esperavam ver seu herói preferido transposto para o cinema.

Dirigido por Gary Goddard — que curiosamente não comandou mais nenhum longa depois deste —, o filme nos mostra o maquiavélico Esqueleto (Frank Langella) invadindo o Castelo de Grayskull e fazendo da Feiticeira (Christina Pickles) sua prisioneira. O herói He-Man (Dolph Lundgren) e seus aliados Mentor (Jon Cypher), Teela (Chelsea Field) e Gwildor (Billy Barty) acabam sendo enviados à Terra por meio da Chave Cósmica, uma invenção de Gwildor que permite a abertura de portais entre quaisquer pontos do universo. Esqueleto, então, resolve vir ao nosso planeta para recuperá-la. O problema é que o artefato caiu nas mãos da jovem Julie Winston (Courteney Cox) e de seu namorado Kevin (Robert Duncan McNeill), que mal sabem da importância do objeto.

Com um orçamento de 22 milhões de dólares — o que para os padrões modestos do estúdio era uma cifra astronômica —, o filme tornou-se um verdadeiro fracasso na época, arrecadando pouco mais de 16 milhões de dólares durante sua exibição nos cinemas. Contudo, com o passar do tempo, ganhou status de cult à medida que os fãs do desenho lhe deram uma segunda chance.

Porém, é preciso ser muito fã da franquia para não reconhecer o lado nitidamente precário da produção, a começar pela abertura. O Castelo de Grayskull é visivelmente uma maquete, assim como o reino de Eternia, que surge ao fundo da cena antes de ser destruído pelas forças do vilão. Ao que tudo indica, boa parte do orçamento foi investida na construção interna do palácio de Grayskull, apontado na época como um dos maiores cenários já construídos em estúdio.

Logicamente, muita fantasia vista na animação acabou ficando de fora das telas. Os fãs sentiram a ausência do Gato Guerreiro e do atrapalhado Gorpo. Este último exigiria uma quantidade de efeitos especiais que o orçamento não cobriria, forçando os produtores a criarem um novo alívio cômico, o anão Gwildor, que acabou se tornando uma figura central e um tanto forçada na trama. Falando em efeitos visuais, eles já eram considerados datados para a época; vistos hoje, revelam de forma escancarada a maneira artesanal como foram concebidos.

Visualmente, o longa se distancia do desenho e se aproxima muito mais da estética estabelecida pela franquia Star Wars, que era a grande febre do período. Vale destacar que os anos 80 foram recheados de aventuras de fantasia científica, que nos deram pérolas como "Flash Gordon" (1980), "Krull" (1983) e "Willow - Na Terra da Magia" (1988). Curiosamente, enquanto alguns faziam sucesso imediato, outros fracassavam para só obter reconhecimento tardio.

Outro mérito a ser destacado em Mestres do Universo é o seu elenco, a começar por Dolph Lundgren. Na época, ele já era conhecido por seu papel em "Rocky IV" (1985) e buscava um filme que finalmente lhe desse o protagonismo. Fisicamente, ele convencia muito bem como He-Man, mas seu sotaque sueco era tão carregado que os realizadores cogitaram usar um dublador para o ator. A ideia foi descartada, e o resultado final ficou registrado nas telas.

Sorte a nossa que Frank Langella entregou um Esqueleto espetacular, deliciosamente teatral, distante da versão puramente infantil do desenho e nitidamente inspirado no Imperador Palpatine de "O Retorno de Jedi" (1983). Langella aceitou o papel porque seu filho era muito fã da série, e o ator abraçou o projeto com tanta seriedade que, até hoje, menciona o Esqueleto como um dos papéis mais divertidos e marcantes de sua carreira.

Outra presença curiosa é a de Meg Foster como Maligna — uma das atrizes de olhos mais marcantes daquela década, mas que frequentemente caía em produções duvidosas. Porém, a maior surpresa para o espectador contemporâneo é ver Courteney Cox bem antes de sua consagração na série "Friends" e na franquia "Pânico". Curiosamente, é ela quem carrega o maior peso dramático da trama, metendo-se no lugar errado e na hora errada no meio desse embate intergaláctico.

Não é preciso ser um gênio para notar que a vinda dos personagens para a Terra foi uma desculpa de roteiro para economizar no design de produção, já que recriar o universo de Eternia exigiria fundos que a Cannon simplesmente não tinha. O que resta é uma aventura despretensiosa, repleta de tiros de laser, atuações canastronas e lutas de espada. Curiosamente, o clímax entre He-Man e Esqueleto foi filmado logo após o estúdio ordenar o encerramento abrupto das gravações por falta de verba.

Gary Goddard teve que tirar leite de pedra para concluir a obra. Para que a emblemática luta de espadas final acontecesse, o diretor teve que tirar dinheiro do próprio bolso para financiar as filmagens e aproveitar os últimos dias dos atores no set. É nítido, nesse momento, que quase não há cenários ao fundo, pois boa parte do estúdio já havia sido desmontada. É o melhor exemplo de como essa produção se tornou complexa e caótica devido à escassez financeira.

Devido ao fracasso desta e de outras produções subsequentes (como Superman IV), a Cannon Films encerrou suas atividades no início dos anos 1990. Quando olhamos para trás, percebemos o quanto o estúdio foi corajoso ao peitar projetos grandiosos com pouco dinheiro, garantindo sua sobrevivência através do mercado de VHS. O filme do He-Man pode ter sido um dos pregos no caixão do estúdio, mas seu legado permanece intacto.

"Mestres do Universo" é o exemplo perfeito de um fracasso monumental que se transformou em uma deliciosa aventura cult e escapista, feita para não ser levada a sério do começo ao fim.


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