Os monstros da Universal foram o carro-chefe do estúdio por muito tempo, popularizando personagens clássicos da literatura. No decorrer do tempo, porém, o público amadureceu e chegou a um ponto em que não estava mais satisfeito com as velhas fórmulas de sucesso. Pode-se dizer que, entre os anos quarenta e cinquenta, o público apreciava um bom filme de terror, mas que acrescentasse algo que fizesse refletir sobre seus próprios medos interiores.
"Sangue de Pantera" (1942), dirigido por Jacques Tourneur, por exemplo, possuía elementos já vistos no cinema de horror da época, mas com uma seriedade mais elevada, em que o teor do gênero e o realismo andavam de mãos dadas. É uma pena que não tenham surgido mais títulos como esse naquele período, pois é sempre interessante apreciar obras que vão contra a tendência da época. Enfim, chegamos então a "O Retrato de Dorian Gray" (1945), um filme elegante e sombrio, mas cuja ideia do lado sobrenatural da situação fica somente na superfície.
Dirigido por Albert Lewin e baseado na obra de Oscar Wilde, o filme conta a história de Dorian Gray (Hurd Hatfield), um jovem rico apresentado ao mundo hedonista de Londres pelo lorde Henry Wotton (George Sanders). Um dia, Basil Hallward (Lowell Gilmore), um amigo artista, resolve fazer uma pintura para retratar a beleza jovial de Dorian. O jovem gosta tanto do retrato que declara que, se pudesse, daria até mesmo a alma para permanecer com aquele visual para sempre. A partir de então, todos os pecados e a idade de Dorian são transferidos para a pintura, enquanto ele continua com sua juventude intacta.
Oscar Wilde foi um escritor à frente de seu tempo, ao ponto de não se arrepender e não esconder sua homossexualidade em tempos conservadores. Condenado por isso, arruinado e com a saúde debilitada, exilou-se em Paris, onde morreu tragicamente de meningite em 1900, aos 46 anos. Seu legado foi redimido postumamente, com sua obra literária sendo reconhecida à medida que o tempo passava.
Pode-se dizer que "O Retrato de Dorian Gray" possui um forte subtexto homoerótico, embora não de forma explícita, para não ser julgado pela justiça conservadora da época. Dorian Gray fica perambulando pelos bares à noite em meio a homens que buscam um refúgio para serem eles mesmos fora do alcance de um olhar intolerante. A libertinagem do protagonista, por sua vez, pode ser uma representação do lado cada vez mais deteriorado de seu quadro, enquanto ele continua com sua beleza intacta.
A hipótese de uma maldição vinda da estátua de um gato egípcio serve somente como cortina de fumaça, pois o desejo do protagonista por sua juventude se torna ainda mais forte do que qualquer possibilidade vinda do lado fantástico da trama. Albert Lewin capricha em uma direção precisa, em que cada cena foi feita para ser refletida e analisada, sintetizando o lado psicológico dos personagens em tela. O tom sugestivo das palavras vindas de Dorian acaba sendo mais mortal do que um mero ato físico, fazendo com que as pessoas que um dia o amaram se afastem, caindo em sua desgraça particular no decorrer do tempo.
Hurd Hatfield se sai bem ao interpretar um Dorian Gray com uma cordialidade fria, cuja beleza angelical esconde um ser sombrio, mas que, no fundo, não desejava exatamente estar aprisionado perante seus próprios desejos. Além de um grande elenco, o filme possui uma fotografia em preto e branco elegante, na qual o toque de cores ao revelar a mudança gradual do quadro se torna um toque de gênio por parte dos realizadores — um efeito que nos assusta em um primeiro momento e que funciona até mesmo nos dias de hoje.
Embora a solução final para Dorian seja um tanto quanto previsível, tanto a obra literária quanto essa adaptação para o cinema sobreviveram ao teste do tempo. Conheci o filme primeiramente há vários anos pelo SBT, na extinta sessão Cine Belas Artes, e mais recentemente em uma sessão do Cine Clássicos pela Cinemateca Capitólio, de Porto Alegre. Revisitando a obra, percebo o quanto Oscar Wilde guardava seus desejos interiores, usando o talento da escrita para transmitir esse lado tão calado pela sociedade conservadora de sua época.
"O Retrato de Dorian Gray" é um filme de horror elegante, com teor psicológico e muito à frente de seu próprio tempo.
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