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Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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quarta-feira, 3 de junho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Cordélicos - A Origem do Cabra da Peste'

 Nota: O filme estreia dia 4 de junho.

Sinopse: Uma animação brasileira de comédia que acompanha cinco cangaceiros enviados para o ano de 3333, no "Neo Nordeste".

No decorrer de sua carreira, a diretora Alê McHaddo já dirigiu alguns filmes com atores, mas é na animação que mora o seu verdadeiro talento. Foi dela, por exemplo, o maravilhoso curta "A Lasanha Assassina" (2002) — que contou com a narração em off do nosso saudoso Zé do Caixão e fortalecendo o estúdio 44 Toons. Eis que então chega aos cinemas "Cordélicos - A Origem do Cabra da Peste" (2026), uma divertida produção que consolida ainda mais o potencial das animações brasileiras atuais.

O elenco de vozes conta com Bruno Garcia (Capitão Rocha), Tadeu Mello (Sid), Raissa Xavier (Bonita), Carol Góes (Rimbi), Marcelo Mansfield (Cabra da Peste), Felipe Mazzoni (Tatux e Corisco) e a participação especial de Falcão (Falcão Espacial). Na trama, um grupo de aventureiros do sertão brasileiro foge do temido Cabra da Peste após conseguir roubar os planos de uma máquina do tempo, mas a perseguição acaba por separá-los entre o passado e o futuro. Uma aventura repleta de ação, humor e brasilidade em meio a reviravoltas, perseguições e planos ousados.

A história é uma verdadeira salada de aventura e ficção científica com o melhor da cultura nordestina — do tipo que faria nascer um grande sorriso no rosto de Lampião. O vilão Cabra da Peste, por exemplo, surge como referência a uma expressão muito conhecida do Nordeste, moldando a própria concepção do personagem. A origem dele é, sem sombra de dúvida, uma das maiores surpresas do roteiro, embora o longa espalhe pistas ao longo da projeção que nos instigam a montar um interessante quebra-cabeça.

Com relação a essa última observação, é instigante como a trama vai se tornando uma mirabolante aventura de viagem no tempo. O paradoxo temporal proposto pode até confundir os mais novos, mas se torna um prato cheio para os entusiastas da ficção científica. O grande acerto está no fato de os heróis interagirem com essas situações absurdas agindo como se fosse apenas mais um dia comum no sertão, seja no ano de 1933 ou em 3333. É divertido ver, por exemplo, o Capitão Rocha sempre soltar algum refrão que faz referência ao melhor da cultura pop brasileira.

Tecnicamente, o filme é alinhado à animação tradicional, recorrendo ao CGI em cenas de maior ação. Porém, é através das piadas e de personagens cativantes que o longa se sustenta, sem precisar de pirotecnia excessiva para encantar o público de todas as idades. Mas, quando os efeitos mais grandiosos invadem a tela, espere por referências que vão até Star Wars, tudo feito de um jeito bem-humorado e encantador, para dizer o mínimo.

Trazendo uma interessante homenagem à estátua de Padre Cícero, localizada em Juazeiro do Norte, "Cordélicos - A Origem do Cabra da Peste" é uma divertida aventura de cangaço capaz de agradar facilmente a todos os públicos.


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terça-feira, 26 de maio de 2026

Cine Dica: Em Cartaz - 'Perto do Sol é Mais Claro'

Sinopse: O longa acompanha o luto e as tentativas de recomeçar de Rêgi, um engenheiro carioca de 85 anos que, após a morte da esposa, tenta preservar sua autonomia escrevendo um livro e vivendo um novo amor.

Reginaldo Faria é um ator que se consagrou em clássicos como "Assalto ao Trem Pagador" (1962) e em "Pra Frente, Brasil" (1982). Porém, a minha memória mais antiga sobre ele é de tê-lo conhecido atuando em novelas como Vamp (1991). "Em Perto do Sol é Mais Claro" (2026), ele não somente nos brinda com um dos seus melhores trabalhos recentes, como também desperta o desejo de ir em busca dos seus outros feitos.

Dirigido pelo seu filho Régis Faria, o filme acompanha o luto e as tentativas de recomeçar de Rêgi (Reginaldo Faria), um engenheiro de 85 anos, após perder a esposa. Com o apoio dos filhos e a própria determinação para seguir em frente, Rêgi tenta escapar de sua rotina solitária escrevendo um livro e até se apaixonando por uma atriz. Na medida em que o tempo avança, o protagonista procura equilibrar a sua vida entre ganhos e perdas.

Fui assistir ao filme sem informação, o que aumentou ainda mais a minha experiência, pois, em um determinado momento, achei que não estava vendo o personagem em si, mas sim o próprio Reginaldo Faria sendo ele mesmo em cena. O que não deixa de ser, ao menos em parte, verdade, já que a ideia para a criação do longa surgiu no momento em que o ator e seus filhos ficaram mais próximos durante a pandemia, e o projeto começou a brotar a partir dessa fase sombria. O longa pode até ser uma ficção, mas traz uma parte essencial sobre a pessoa de Reginaldo Faria, como ele é perante um mundo atual sempre em metamorfose e na luta árdua para se manter firme diante da velhice.

No primeiro ato, vemos a apresentação gradual do personagem dentro de sua casa, desde o colocar em prática as rotinas básicas do seu dia a dia até ter que administrar os incômodos de um prédio que está sendo construído ao lado. Ao mesmo tempo, ele procura escrever um livro, e é nesse ponto que vemos o embate de um homem veterano com as novas tecnologias, que às vezes mais atrapalham do que ajudam. Curiosamente, o filme chega em uma fase em que o cinema tem abordado bastante essa temática, fazendo com que o espectador reflita sobre esse ponto específico.

Com uma belíssima fotografia em preto e branco, o filme pertence a Reginaldo Faria como um todo, pois a sua expressão e o modo como ele constrói a personalidade forte de um veterano perante a sua realidade sintetizam muito bem isso. A melancolia, por sua vez, é representada pela ausência de sua falecida esposa, assim como pela relação com os filhos, que são ocupados demais para compreender as reais necessidades de alguém que ainda tem muito a oferecer. Destaque para Marcelo Faria, filho do protagonista na vida real, que busca compreender o pai, mas não esconde no olhar a consciência de que será alguém como ele um dia.

Curiosamente, da melancolia do primeiro ato para o segundo em diante, o longa obtém pinceladas mais otimistas na medida em que o protagonista se mantém firme no que acredita. Isso se fortifica ainda mais quando ele começa a namorar uma atriz de teatro, interpretada por Vanessa Gerbelli, cuja interpretação, assim como a do protagonista, parece carregar uma parte de si mesma. Além disso, a sua personagem é a representação de uma geração de artistas que procuram manter os seus sonhos, mas que caem na tentação das novas tecnologias para obter reconhecimento.

É a partir dessa relação que o filme nos diz que o reconhecimento talvez não venha através de curtidas para obter a tão desejada fama instantânea, mas sim através de um trabalho árduo e de histórias que podem servir de exemplo para as gerações futuras. O ato final pode até ser esperançoso demais, mas, como o restante do filme já havia nos conquistado, esse mero detalhe acaba passando despercebido. Nunca é tarde demais para um veterano de longa data nos transmitir um belo exemplo.

"Perto do Sol é Mais Claro" transita com muita sensibilidade entre o melancólico e o lado revigorante de alguém que ainda tem muito a oferecer.

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quarta-feira, 6 de maio de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'O Rei da Internet'

Nota: O filme estreia dia 14 de Maio. 

Sinopse: Daniel, um rapaz prodígio, fica deslumbrado com as conquistas geradas por sua capacidade excepcional de hackear sistemas, tornando-se o maior hacker do país.

Não é de hoje que o cinema explora histórias reais de larápios que burlam o sistema para se dar bem na vida. Curiosamente, esse tipo de indivíduo acaba se tornando um exemplo de como quebrar as barreiras de um mundo cheio de regras, provando que sempre haverá uma fenda por onde escapar. "O Rei da Internet" (2026) é uma viagem a um passado não tão distante, mas que revela os elementos que hoje se tornaram os pilares do nosso mundo conectado.

Dirigido por Fabrício Bittar e baseado na obra DN pontocom: A Vida Secreta e Glamourosa de um Ex-Hacker, de Daniel Nascimento e Sandra Rossi, o filme conta a história de Daniel (interpretado por João Guilherme) e mostra como ele se destacou como um dos maiores hackers do Brasil. O jovem fez parte de uma organização criminosa que movimentou milhões de reais, viveu intensamente uma vida de ostentação e foi alvo de uma grande operação da Polícia Federal — tudo isso antes de completar 17 anos.

Antes de mais nada, é preciso aplaudir a edição frenética do filme, que assume uma linguagem quase de videoclipe — algo que eu não via no cinema brasileiro com tanta força desde "2 Coelhos" (2012). O primeiro ato moldado dessa forma serve para apresentar o protagonista de um jeito que gera identificação com o público, principalmente pelo fato de sua paixão pelo hacking ter começado nos tempos da internet discada. É nesse momento que o longa remete a tempos mais simples, trazendo de volta os computadores de tubo, as salas de bate-papo e o clássico Orkut.

Por meio de uma narração em off, Daniel nos revela passo a passo como se tornou um dos criminosos mais procurados pela justiça, desde a invasão ao sistema do site da editora Abril até o acesso a contas bancárias por todo o país. O filme resgata elementos de outras produções que abordam o universo da informática, como "A Rede Social" (2010), mas, ao mesmo tempo, evoca a atmosfera de "O Lobo de Wall Street" (2013). Em comum, esses protagonistas anseiam pela riqueza, nem que para isso precisem quebrar as regras de um sistema movido por números que governam o mundo.

João Guilherme Ávila se sai muito bem como protagonista e narrador. A narração em off funciona como uma ferramenta criativa para compreendermos as motivações do personagem e o que o levou ao mundo do crime cibernético. O filme se desenha como um verdadeiro estudo de uma parcela de uma geração perdida que procura seu lugar no mundo, enquanto é desprezada por uma sociedade conservadora que dita as regras. Daniel, por sua vez, rema contra a maré não apenas para enriquecer, mas também para ser lembrado de alguma maneira.

O ritmo do longa sofre um declínio na transição do segundo para o terceiro ato, momento em que as cenas frenéticas desaceleram para revelar o lado mais obscuro do submundo em que Daniel se envolveu. Não que isso prejudique a obra como um todo, mas fica a sensação de que esticaram a corda mais do que o necessário, já que os minutos iniciais da projeção já antecipavam o destino do protagonista. Ao final, constatamos que o crime pode até não compensar, mas a máxima do "fale mal, mas fale de mim" nunca esteve tão viva.

"O Rei da Internet" é um filme nostálgico que, além de esmiuçar a vida criminosa do protagonista, nos transporta para tempos mais inocentes, resgatando os primeiros passos da internet em terras brasileiras.


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segunda-feira, 23 de março de 2026

Cine Dica: Em Cartaz - 'Cinco Tipos De Medo'

 Nota: Filme estreia dia 09/04/26

Sinopse: Em meio ao luto, o músico Murilo encontra Marlene, enfermeira que vive um relacionamento tóxico. O destino os conecta a uma policial sedenta por vingança e um advogado misterioso, levando todos a uma jornada sem volta.

Não há como negar que Alejandro González Iñárritu fez escola ao criar tramas cujos os seus protagonistas se interligam através de uma situação inusitada. Se em "Babel" (2006) uma única bala fogo interligou diversos personagens ao redor do globo, por outro lado, "21 Gramas" (2003) todas as vidas se chocam a partir de um acidente de carro. É lógico que antes de Alejandro González Iñárritu o cinema já havia apresentado uma proposta parecida.

Quentin Tarantino, por exemplo, nos apresentou "Cães de Aluguel" (1991) e "Pulp Fiction" (1994), sendo que, além de personagens interligados no decorrer do filme, há sempre um retorno de uma determinada situação, mas sendo vista por outra perspectiva. Tudo isso que eu falei até aqui serviu de ingredientes para que o cinema brasileiro bebesse da fonte e surgisse títulos como "Cidade de Deus" (2002) onde nos apresenta um mosaico de personagens todos interligados e cujo cenário é quase remodelado através do tempo.  "Cinco Tipos de Medo" (2026) nos revela o quanto o cinema brasileiro não deve em nada em questões de histórias, técnicas e nos brindando com um longa caprichado do começo até o final de sua última cena.

Dirigido por Bruno Bini, a trama acompanha a história de um jovem chamado Murilo (João Vitor) que após perder a mãe e sobreviver ao Covid ele se apaixona e se envolve com sua antiga enfermeira Marlene (Bella Campos), que está presa em um relacionamento abusivo com Sapinho (Xamã), um traficante. Um dia, Sapinho é preso pela policial movida por vingança Luciana (Bárbara Colen) e passa a contar com a ajuda do advogado Ivan (Rui Ricardo Diaz) que possui intenções secretas. Todos estão interligados por um único motivo, mas mal sabem disso.

Já nos minutos iniciais Bruno Bini nos coloca na ação, onde vemos os principais protagonistas em situação extrema e cuja narração off se casa com perfeição com o título principal da obra. Já na abertura temos uma noção do que podemos esperar do longa, onde uma edição caprichada nos conduz a uma trama que nos prende atenção do começo ao final da obra e nos surpreende ainda mais pelo fato de tudo estar interligado e fazendo com se exige uma atenção redobrada. Há, por exemplo, situações que nos enganam, desde a uma possível morte, como também de um determinado crime.

As principais passagens da história vem e voltam a todo momento, não somente para montar um verdadeiro quebra cabeça, como também nos brindar por outra perspectiva. Logicamente não irá faltar elementos que ressoe com relação aos clássicos brasileiros, que vai desde ao já citado "Cidade de Deus" como também o cultuado "Tropa de Elite" (2007). Porém, diferente desses títulos citados, os dois lados da mesma moeda são apresentados e nos revelando que, querendo ou não, todos estão envolvidos através de um ponto de início e nascendo assim o lado vingativo do ser humano.

Bella Campos, João Victor Silva e principalmente Bárbara Colen interpretam os seus respectivos personagens de forma trágica, sendo que cada um se envolve em situações que jamais gostariam de estar, mas que são forçados a desencadear um lado até mesmo obscuro dentro de si. Se por um lado a personagem de Colen é movida pela vingança, por outro lado, o personagem de João Victor é jogado no olho do tornado e fazendo a gente se perguntar como ele chegou a tudo isso. A pergunta que fica é, se todos os eventos que foram desencadeados foi a partir da pandemia; da relação da mãe de Victor com o vizinho; ou de ele ter se apaixonado?

É um verdadeiro efeito borboleta que, logicamente, alguns irão dizer que o roteirista forçou a barra, mas o próprio mundo real já nos apresenta também situações inusitadas. O filme, portanto, talvez não soe forçado, mas sim esteja atrasado perante uma realidade em que as situações absurdas são tantas que ficção e realidade se encontram somente separadas por uma camada fina. Resta somente a gente assistir ao filme de mente aberta e desfrutar de um bom cinema nacional na medida certa.

Grande vencedor do último festival de Gramado, "Cinco Tipos de Medo" é um exemplo de como o cinema brasileiro pode ir longe em questões de produção e criatividade enquanto estiverem de mãos dadas. 


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quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Cine Dica: Streaming - 'Apocalipse nos Trópicos'

Sinopse: Apocalipse nos Trópicos é um documentário brasileiro dirigido por Petra Costa sobre a influência do cristianismo evangélico na política do Brasil.  

Petra Costa surpreendeu ao lançar "Democracia em Vertigem" (2020), documentário que procura buscar respostas sobre as motivações que levaram ao impeachment dá até então Presidente Dilma e do fortalecimento da Extrema Direita. Em meio a isso, houve um crescimento de discurso de ódio, tanto vindo de lideranças do até então deputado Jair Bolsonaro, como também um crescimento da religião evangélica inserida em território político. "Apocalipse nos Trópicos" (2025) revela que isso não aconteceu ao acaso, mas sim já estava sendo planejado há muito tempo.

No documentário, Petra Costa mergulha na interseção alarmante entre religião e política no Brasil. o longa revela como o movimento evangélico, com sua ideologia apocalíptica, desempenhou um papel crucial na ascensão de Jair Bolsonaro à presidência e levanta questões sobre a ameaça de uma teocracia nacional. Ao mesmo tempo revela um cenário assustador, levando o país para um cenário quase distópico.

Petra Costa procura não vilanizar a religião evangélica, mas sim destacar os seus líderes com interesses políticos e que anseiam pelo controle das instituições. Dentre eles se destaca o Pastor Silas Malafaia, cujo seus seguidores seguiram aumentando ao longo dos anos de forma vertiginosa e fazendo obter poder através de sua palavra. Por conta disso, é notório que tanto ele, como outros líderes dessa área, buscassem alguém que pudesse representar eles para alcançar o poder e Bolsonaro foi esse homem que eles usaram em potência máxima.

Petra Costa não se debruça em teorias da conspiração, mas sim indo em direção ao foco principal e, portanto, é sempre interessante ver as palavras de Malafaia e do próprio Bolsonaro sendo que ambos usaram a palavra de Deus para atrair não somente conservadores, como também jovens desinformados com relação aos verdadeiros fatos da história e assim podendo manipulá-los de modo fácil através de fake news a todo momento. O resultado parece até uma espécie de lavagem cerebral, principalmente onde vemos diversas pessoas orando nas ruas cegamente e mal se importando na possibilidade do nascimento de um governo ditatorial por meio da religião.

O resultado disso foi em crer em qualquer coisa em que o Presidente dizia, principalmente quando ele ignorou todos os alertas sobre os tempos da Pandemia e gerando milhares de mortes, tudo porque os seus seguidores seguiam com a sua desinformação e propagando ainda mais o aumento da doença. É quase como se estivéssemos vendo um filme de ficção cuja realidade era uma distopia, mas que era justamente a nosso mundo real de até alguns anos atrás e fazendo com que as cenas se tornem ainda mais assustadoras. Quem acompanhou de perto tudo isso sabe muito bem o resultado catastrófico e fazendo muitos de nós perderem os seus entes queridos.

O terceiro ato do documentário, portanto, sintetiza a negação, onde vemos seguidores que não aceitam em hipótese alguma o retorno do ex-presidente Lula ao poder. Após a sua última vitória nas eleições presidenciais o que vemos é um país cada vez mais dividido, onde Bolsonaro arquitetou um golpe de estado através dos seus asseclas e resultando nos ataques antidemocráticos no dia 08 de janeiro de 2023. O golpe, porém, falhou, mas revelou o quanto a democracia é frágil perante a persuasão através de determinados líderes e culminando em pessoas que não aceitam mais a verdade por ela não ser mais o suficiente para eles.

Curiosamente, é interessante observar que Petra Costa vai ainda mais a fundo com relação ao nascimento da evangelização, não somente no Brasil, como também nos EUA em tempos em que o governo tornava a palavra comunismo como algo a ser riscado do mapa e usando a religião como uma das principais armas. Ao final, constatamos que, seja religião evangélica ou qualquer outra, ela pode ser facilmente usada como peça primordial para fins políticos e como isso pode mudar o curso da história como um todo. Os livros de história estão aí para nos ensinar a não cometer os erros do passado, mas pelo visto o ser humano está sendo reduzido a seres não pensantes e que podem, infelizmente, serem controlados facilmente.

Apocalipse nos Trópicos é um retrato assustador de uma população sendo doutrinada pelas palavras de falsos profetas e que somente anseiam pelo poder e controle da massa.   

Onde Assistir: Netflix. 

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segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Cine Dica: Em Cartaz - 'O Agente Secreto'

Sinopse: Em 1977, Marcelo trabalha como professor especializado em tecnologia. Ele decide fugir de seu passado violento e misterioso se mudando de São Paulo para Recife com a intenção de recomeçar sua vida.   

No ano de 1977 os meus pais saíram do interior para morar em Porto Alegre. Segundo eles, era comum naquela época pegar um ônibus para logo em seguida ser parados por policiais militares que vinham com a desculpa que estavam procurando determinado meliante, mas a realidade era bem diferente. Assim era o Brasil do final dos anos setenta, onde se fazia tudo do jeitinho brasileiro, mas de um modo para ocultar um país em declínio moral e civilizado.

Kleber Mendonça Filho viveu boa parte de sua vida em Recife e por lá testemunhou as metamorfoses do país como um todo. Isso é sentido, por exemplo, no seu documentário "Retratos Fantasmas" (2023), longa que não somente fala sobre a juventude do diretor, como também sobre uma Recife que estava mudando aos poucos e cujo certos símbolos culturais foram ficando no passado. "O Agente Secreto" (2025) não é somente um dos melhores filmes do diretor, como também sintetiza o calor do momento de um Brasil sem rumo em tempos incertos.

A trama se passa no Brasil de 1977 onde Marcelo (Wagner Moura), que trabalha como professor especializado em tecnologia, sai da movimentada São Paulo e vai para Recife. Ele tenta fugir de algo que, em um primeiro momento, não sabemos ao certo e tendo como objetivo de recomeçar a sua vida. Em Recife ele chega em pleno calor do Carnaval, onde a calmaria dá lugar ao mistério e investigações sobre o seu passado e fazendo se perguntar se Recife se tornou um refúgio ou um beco sem saída.

Abertura do filme já é simbólica, onde o cineasta joga na tela fotos sobre tudo que estava acontecendo naquele período, desde aos filmes, como também a música, televisão e a cultura geral como um todo. Com uma fotografia de cores quentes, alinhada com uma edição de arte que impressiona, é como se voltássemos no tempo ao nos depararmos com um Brasil onde a terra sem lei não era vista nos noticiários, mas que rolava constantemente fora de nossa vista. A figura do corpo vista nos primeiros minutos do filme simboliza muito bem isso, onde o protagonista se torna o nosso guia para nos levarmos em uma realidade opressora nas entrelinhas.

Kleber Mendonça Filho não tem pressa para revelar a premissa principal da trama, sendo que nem precisa, pois, essa realidade vista na tela já nos encanta e desperta a nossa curiosidade sobre o que acontecia nela. Além disso, o diretor presta uma bela homenagem com relação a uma determinada sala de cinema de Recife, da qual exibia filmes de sucesso da época como "A Profecia" (1976), "Tubarão" (1975) e "Dona Flor e Seus Maridos" (1976). É curioso, por exemplo, ver as reações das pessoas diante do filme, assim como também os seus determinados comportamentos e que sendo colocados em prática hoje seriam politicamente incorretos.   

Falando em "Tubarão", é notório que o clássico de Steven Spielberg talvez seja um dos filmes favoritos de Kleber, pois só mesmo desta forma para explicar a aparição de um Tubarão em uma determinada cena e que trazia consigo uma perna decepada. Aliás, esse membro decepado é simbólico, pois pertence a uma época que os jornais usavam histórias surreais para tentar fugir da censura. Portanto, a sequência que mostra a perna atacando pessoas em plena madrugada sintetiza o folclore que havia se enraizado naquele período através de um jornalismo picareta e cujo sistema ditatorial somente agradecia por isso.

Curiosamente, essa sequência da perna sintetiza o quanto Kleber sabe explorar elementos de horror do gênero fantástico. Porém, o sangue jorrando em momentos que representam a violência que ocorria naquele período simboliza uma realidade muito mais assustadora do que qualquer filme de terror da época. E se determinada cena por sua vez não é explícita, por outro lado, a sugestão se torna algo ainda mais angustiante, principalmente na cena de um camburão que diz tudo mesmo não mostrando nada diante dos nossos olhos.

O horror que não se vê acaba se tornando um elemento relevante do filme como um todo, principalmente nas passagens que é revelado que a trama é apresentada através de duas estudantes do nosso tempo atual que estão ouvindo relatos de Marcelo através de fitas cassetes. É neste momento, portanto, que não só descobrimos a cruzada em que o protagonista está enfrentando, como também é o momento em que Wagner Moura mais brilha na tela como um todo. Vale destacar que neste flashback dentro de flashback é que conhecemos uma personagem importante dentro da trama que é a esposa do protagonista e que mesmo em pouco tempo de cena a atriz Alice Carvalho dá um verdadeiro show de atuação e digno de nota.

O filme é uma visão autoral de Kleber Mendonça Filho, onde cada cena moldura uma parte íntima de sua pessoa, mas que realmente funciona também graças ao seu grande elenco. Maria Fernanda Cândido, Hermila Guedes, Thomas Aquino, Carlos Francisco Udo Kier e dentre outros brilham em seus respectivos papéis, mesmo quando seus momentos são de pequenas passagens da trama, mas de grande relevância. Mas da ala de coadjuvantes se destaca realmente Tânia Maria, Artesã potiguar que começou atuar ao fazer uma rápida, porém, significativa participação em "Bacurau" (2019) e que aqui rouba a cena ao interpretar uma personagem não muito diferente de sua pessoa, mas sendo o suficiente para nos conquistar de forma imediata.

A maioria dos personagens centrais da história acabam por sua vez se cruzando em um ato final digno de nota, onde o cineasta dá uma verdadeira aula de como se faz um verdadeiro filme de suspense e culminando em elementos imprevisíveis. Tudo se direciona para minutos finais simbólicos, onde nos diz que todo o começo tem o seu final, mas o que foi de relevante a história nunca apagará. Resta, porém, saber se essa geração atual está disposta a conhecer a verdade dos fatos como é visto na tela, pois assim como os livros de história o cinema também é uma janela para o conhecimento e que é preciso abri-la para abraçarmos os fatos.

"O Agente Secreto" não é somente a obra prima de Kleber Mendonça Filho, como também uma representação genuinamente histórica de um Brasil que não existe mais, mas que é necessário essa geração atual conhecer. 

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