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Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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sexta-feira, 12 de junho de 2026

Cine Especial: Clube de Cinema - 'Três Mulheres'

 Nota: Filme visto pelos associados no dia 30/05/26


Quando se pensa no cinema sueco, imediatamente se pensa em Ingmar Bergman. Ao longo de sua impecável carreira, o realizador criou filmes enigmáticos nos quais falava sobre si mesmo, sobre sonhos, solidão, comportamento e até o papel da religião na vida do ser humano. Não é à toa que o cineasta serviu de inspiração para realizadores no mundo inteiro.

Woody Allen, por exemplo, bem que tentou em "Interiores" (1978), mas alcançou um equilíbrio perfeito entre a homenagem e sua própria visão autoral em "Crimes e Pecados" (1989). Já o nosso Walter Hugo Khouri chegou bastante perto da essência de Bergman através de "Noites Vazias" (1964). Contudo, é de surpreender o resultado final de "Três Mulheres" (1977). Talvez um dos títulos menos conhecidos da filmografia de Robert Altman, quando revisto, torna-se notório que o realizador buscou inspiração na obra do diretor sueco.

Robert Altman nunca se prendeu a uma única assinatura visual ou temática na realização de suas obras; preferia experimentar todos os gêneros que lhe dessem na telha, importando-se pouco se o resultado seria um sucesso ou um fracasso de bilheteria. Não foi alguém que se entregou aos padrões convencionais de Hollywood, tanto que seus títulos mais conhecidos diferem drasticamente entre si. Basta pegarmos obras como "M.A.S.H." (1970) e "Nashville"(1975) para termos um bom exemplo disso.

Segundo as próprias palavras do realizador, ele fez Três Mulheres inspirado em um sonho incomum que teve em uma determinada noite. Na trama, Pinky Rose (Sissy Spacek) é uma jovem que acaba de conseguir um emprego em um spa de idosos. Mildred (Shelley Duvall) é a encarregada de orientar Pinky sobre o serviço. A jovem se encanta por Millie e logo se torna sua amiga. Ironicamente, ninguém gosta de Millie, mas ela tenta passar a imagem de ser muito popular. Pinky fica cada vez mais dependente da nova amiga, mas essa ligação obsessiva ameaça se romper quando ela vê que Millie levou para o apartamento Edgar Hart (Robert Fortier), um cowboy casado com Willie Hart (Janice Rule), uma artista local que está grávida.

Através da relação entre as duas protagonistas, Robert Altman faz uma síntese de um período de mudanças comportamentais que já vinha ocorrendo há algum tempo em solo norte-americano, mesmo que uma sociedade conservadora tentasse negar. Pinky é a representação da jovem que busca desabrochar espelhando-se em alguém que admira, mas sem saber ao certo como conquistá-la. Já Millie é alguém que insiste em se manter no lado convencional da sociedade, enganando a si mesma e perdendo a própria identidade. Curiosamente, o acidente que Pinky sofre na piscina funciona como uma válvula de escape, e é a partir daí que o filme muda completamente.

É neste ponto que a obra me faz relembrar "Persona" (1966), no qual Ingmar Bergman brinca com a dualidade e as identidades reais de suas protagonistas. No caso deste longa, Altman lança diversas teorias sobre as reais personalidades e intenções de suas personagens, onde o sonho se torna uma peça desse mistério — mas sem ser exatamente primordial, para dizer o mínimo. Quem assiste nunca obtém uma resposta fácil, mas, ao revisitarmos a obra, nota-se o quanto o filme cresce à medida que levantamos novas possibilidades.

Curiosamente, a personagem de Janice Rule seria a terceira mulher do título, embora tenha menos tempo de tela. Porém, seu papel acaba se tornando fundamental para a movimentação das peças dentro da trama, já que ela é ambígua, de poucas palavras e exerce um curioso trabalho com suas pinturas. Estas, por sua vez, funcionam como uma referência ao status de cada personagem no decorrer da história, ou simplesmente representam os demônios interiores que aquelas mulheres buscam conter.

No meu entendimento, este é um filme que fala sobre o vazio das mulheres em um período no qual o lado hipócrita e abusivo do homem já estava desgastado demais para ser tolerado. Ao mesmo tempo, reflete tempos em que as mulheres lutavam por posses e independência individual, quando, na verdade, o verdadeiro poder se encontrava na união entre elas, em um mundo que se tornava cada vez mais cruel e desumano. O ato final me despertou esse pensamento, mas claro que posso estar errado, e talvez tenha sido exatamente esse efeito de ambiguidade que Robert Altman queria obter de quem assistisse ao seu enigmático enredo.

"Três Mulheres" talvez tenha sido uma homenagem indireta de Robert Altman a Ingmar Bergman, mas que se tornou algo único e enigmático através dos anos, conquistando a sua própria identidade no cinema.


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Cine Dica: Clube de Cinema de Porto Alegre: "Cleo" (13/06) no Instituto Goethe

Neste sábado, dia 13 de junho, nosso encontro será às 10h15 da manhã, no auditório do Instituto Goethe, onde assistiremos ao filme Cleo, primeiro longa-metragem do cineasta alemão Erik Schmitt.

Misturando aventura, romance e fantasia, o filme transforma Berlim em um espaço repleto de histórias, lendas urbanas e passagens secretas. Ao acompanhar a jornada de uma jovem em busca de um relógio capaz de voltar no tempo, Schmitt constrói animações, truques visuais e referências à história berlinense. Cleo propõe um passeio por diferentes camadas do passado e do presente, explorando a relação entre perdas, desejos e a possibilidade, real ou imaginária, de reescrever a própria vida.

Além da sessão de sábado, reforçamos que amanhã (quinta, 11/06), às 19h, damos continuidade ao ciclo "Nouvelle Vague e suas influências", promovido em parceria com a Sala Redenção. O filme da vez é A Chinesa, de Jean-Luc Godard. Após a sessão, haverá um bate-papo com os pesquisadores Alexandre Guilhão e Juliana Costa. Neste ano, o ciclo participa de ação de extensão da UFRGS, de forma que oferece certificação aos participantes, possibilitando o aproveitamento de horas complementares. Inscreva-se!

🗳️ ÚLTIMO DIA PARA VOTAR! A votação para definir os projetos que serão contemplados pela emenda parlamentar que pode beneficiar a preservação da memória do Clube de Cinema se encerra HOJE! Ainda dá tempo de participar, compartilhar com amigos e familiares. A votação leva cerca de 1 minuto: acesse o site, cadastre seus dados, escolha um projeto da saúde e, em "Demais Áreas", selecione Clube de Cinema de Porto Alegre (código 0058). Contamos com a sua ajuda!


SESSÃO DE SÁBADO NO CLUBE DE CINEMA

📅 Data: Sábado, 13/06, às 10h15 da manhã

📍 Local: Instituto Goethe

Rua 24 de Outubro, 112 – Moinhos de Vento, Porto Alegre

🎟️ Entrada franca e aberta à comunidade


Cleo

Alemanha, 2019, 99min

Direção: Erik Schmitt

Roteiro: Erik Schmitt e Stefanie Ren

Elenco: Marleen Lohse, Jeremy Mockridge, Heiko Pinkowski, Max Mauff

Sinopse: Fascinada pelas histórias e mistérios de Berlim, Cleo sonha encontrar um lendário relógio capaz de voltar no tempo. Quando conhece Paul, um jovem caçador de tesouros que possui pistas sobre o paradeiro do artefato, ela embarca em uma aventura que atravessa diferentes lugares, épocas e memórias da cidade.

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Cine Dica: Em Cartaz – 'Trago o Seu Amor'

Sinopse: Mia, uma bruxa egocêntrica, tem um poder inusitado: quem a beija se apaixona por ela ou volta a se apaixonar pela última pessoa que amou.

A comédia romântica atual tem despertado a atenção do grande público após anos de esgotamento de sua fórmula de sucesso. Produções como "Amores Materialistas" (2025) e "Amores à Parte" (2025) caminham de mãos dadas ao retratar as reais dúvidas de uma sociedade cada vez mais individualista e menos sonhadora em relação ao amor. Em contrapartida, o longa brasileiro "Trago o Seu Amor" (2026) retrocede ao passado ao utilizar velhas estruturas do gênero, tornando-se apenas um aperitivo passageiro para aqueles que ainda celebram o Dia dos Namorados.

Dirigido por Claudia Castro, o longa traz Giovanna Grigio na pele de Mia, uma bruxa com o poder de enfeitiçar qualquer pessoa com um beijo. Junto com seu melhor amigo, Ariel (Diego Martins), ela abre um negócio esotérico para atender clientes de coração partido que desejam reconquistar seus ex-amores. O que ela não imaginava era que acabaria se apaixonando por René (Jê Soares), transformando-se, no dia seguinte, no próximo alvo de seu próprio trabalho a pedido de Yuri (João Manoel).

Trabalhando como assistente de direção de filmes e séries ao longo dos anos, Claudia Castro mostra que ainda tem muito a aprender atrás das câmeras — e, portanto, só posso desejar-lhe boa sorte. A produção possui aquela velha fotografia supersaturada e colorida das comédias nacionais tradicionais, funcionando como um cartão de boas-vindas para que o espectador se sinta à vontade para apreciar um mero passatempo. A obra chega a ser curiosa ao cruzar gêneros distintos, mas não vai muito além disso.

Logicamente, é um projeto com o qual o público geral pode se identificar, já que muitos de nós, em algum momento, já recorremos a uma simpatia ou a profissionais experientes no assunto. Giovanna Grigio se sai bem como a "bruxa de autoajuda", mas o fato de ela ser imune aos sentimentos de quem se aproxima já entrega o que acontecerá em seguida. Suas cenas com Jê Soares até fluem com boa química, mas a dinâmica não passa disso.

Porém, quem rouba a cena é Diego Martins. Seu Ariel funciona como uma espécie de consciência para a protagonista, brindando o espectador com os momentos mais divertidos da trama. Curiosamente, o roteiro dá a entender que ele terá uma aproximação com o personagem de João Manoel, mas a subtrama fica estranhamente no ar, como se algum rolo de filme tivesse sido sacrificado na edição final. Uma pena, pois Diego transmite uma energia contagiante sempre que surge em cena, algo de que a narrativa precisava muito.

Se tivesse sido lançado nos anos noventa ou no início dos anos 2000, o filme poderia ser mais apreciado, surgindo até mesmo como uma obra à frente de seu tempo por explorar o afeto homoafetivo. No entanto, ele chega em um cenário em que o gênero exige atualização, e não a insistência em uma fórmula cujo desfecho já conhecemos de cor. Para quem se lembra do final do clássico "um Lugar Chamado Notting Hill" (1999), já adianto: vocês irão presenciar um verdadeiro déjà-vu.

"Trago o Seu Amor" chega atrasado perante o novo panorama da comédia romântica, mesmo com suas boas intenções de atrair os que ainda teimam em acreditar na existência de uma alma gêmea.



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quinta-feira, 11 de junho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz - 'BuenosAires'

Sinopse: Longa acompanha uma pequena cidade do interior que transforma uma coincidência em vínculos afetivos marcados pelo futebol e pela cultura popular.

Eu já assisti tantos documentários sobre determinadas cidades do interior do Brasil que fica até mesmo difícil me lembrar o nome dos títulos. Porém, eu sempre me lembro que são obras que exploram a cultura local e revelando o quanto ainda há certos costumes de nosso país que a gente ainda desconhece. Um desses casos é "BuenoAires" (2025), documentário que nos revela uma cidade que os nossos hermanos argentinos se sentiriam mais à vontade.

Dirigido por Tuca Siqueira, o documentário se passa na Zona da Mata de Pernambuco, Nordeste do Brasil, o município de Buenos Aires tem o mesmo nome da capital da Argentina. Uma professora de espanhol apresenta personagens e lugares da cidade, uma paisagem de contrastes sociais com influências das diferentes culturas. Apesar de não haver vestígios da passagem de portenhos pelo lugar, alguns habitantes enfatizam a "coincidência” de diversas formas e criam um vínculo afetivo com o país vizinho. Jogos de futebol, um desfile do Maracatu Estrela Dourada e a chegada de um argentino como novo morador evidenciam essas ligações durante a última Copa do Mundo.

É curioso observar que Tuca Siqueira não procura os motivos que levaram essa cidade a ganhar esse nome, mas sim como as pessoas convivem com ela em sua realidade. Visualmente a região possui toda cultura nordestina como um todo, mas tendo inserido aqui e ali elementos culturais dos nossos hermanos, desde as camisetas da seleção, gastronomia e até mesmo um bairro que é uma representação de um local específico da verdadeira Bueno Aires. É neste ponto, por exemplo, que testemunhamos o lado bem humorado dos habitantes de lá, que levam essa situação  na esportiva e preservando essa cultura ano após ano.

Não há rivalidade hostil entre os países através das seleções, mas sim se nota uma discussão saudável entre as pessoas e cada um torcendo de sua maneira. Curiosamente, o documentário foi rodado durante a última Copa, onde a Argentina obteve o seu tri campeonato e fazendo com as gravações ganhassem ainda mais energia durante a produção. Há se destacar também alguns habitantes que são realmente argentinos e que chegaram no local para seguir uma nova vida como um todo.

Um desses é o rapaz argentino que trabalha no ramo em detectar metais abaixo do solo e usando a sua criatividade para manter o ofício ainda intacto. A cena inicial, por exemplo, nos mostra o rapaz chegando à região, como se fosse um guia para essa cidade até então desconhecida para a maioria dos brasileiros. Entre sonhos e esperança, o filme também reserva momentos em que há aqueles que mantêm os seus sonhos intactos, mesmo com poucos recursos, mas é graças ao ambiente amigável da cidade que faz com que certos desejos se mantenham ainda vivos.

Com pouco mais de uma duração,"BuenoAires" é uma representação clara de um Brasil ainda desconhecido e revelando uma cultura que se mescla de forma harmoniosa com o nosso país vizinho. 



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Cine Dica: Cinesemana de 11 a 17 de junho de 2026

A cinesemana de 11 a 17 de junho apresenta três estreias em nossa programação. Uma delas é o novo filme do diretor espanhol Julio Medem, que acompanha os encontros e desencontros de um casal em 8 DÉCADAS DE AMOR. Também temos a estreia do longa CRIADAS, da diretora Carol Rodrigues, em que duas primas retomam o contato depois de muitos anos e revivem dramas familiares. A terceira estreia é BUENOSAIRES, documentário que apresenta as peculiaridades de uma pequena cidade no interior de Pernambuco onde as pessoas são apaixonadas pela cultura argentina.

Seguimos em cartaz com o longa iraquiano O BOLO DO PRESIDENTE, um drama ambientado nos anos 1990 e protagonizado por uma menina de 9 anos que precisa comemorar o aniversário de Saddam Hussein. A França está representada por três coproduções: OLHE O MAR, uma história que une um casal divorciado em torno dos problemas de saúde do filho; CHOPIN – UMA SONATA EM PARIS, que acompanha os últimos anos da vida do pianista polonês; e FANON, com a cinebiografia do psiquiatra Frantz Fanon, reconhecido por seus estudos sobre as consequências emocionais dacolonização.

A programação segue com NATAL AMARGO, o novo filme do cultuado diretor espanhol Pedro Almodóvar e que mostra os dilemas de um cineasta em crise de criatividade. Estes são os últimos dias para conferir o documentário brasileiro ALMA NEGRA, DO QUILOMBO AO BAILE, do diretor Flavio Frederico, e o longa O ESTRANGEIRO, baseado na obra do escritor Albert Camus. 

Confira a programação completa no site oficial da Cinemateca clicando aqui. 

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz - 'COPAN'

Sinopse: O edifício Copan vive dias turbulentos que antecedem as eleições presidenciais de 2022.

Segundo o Antigo Testamento, após o dilúvio, a humanidade falava o mesmo idioma e seguiu em direção à planície de Sinar. Para evitar que se espalhassem pelo mundo e para criar um monumento que os tornasse célebres, os homens decidiram construir uma cidade e uma torre altíssima que alcançasse os céus. Ao ver a ambição e a vaidade do povo, Deus confundiu a língua que falavam para impedi-los. Incapazes de se comunicar, os trabalhadores abandonaram a obra e se espalharam pela Terra.

Hoje, em pleno século XXI, época em que deveria haver maior comunicação e compreensão em relação ao próximo, tudo indica que retrocedemos ainda mais se compararmos nossa realidade aos eventos bíblicos. É curioso observar que o povo brasileiro atual fala a mesma língua, mas se encontra dividido devido a questões políticas cujos debates se tornam cada vez mais acalorados. "Copan" (2026) é o retrato de uma Torre de Babel erguida pelo homem, mas cujo cenário de cisão não foi imposto pelas mãos divinas.

Dirigido por Carine Wallauer, o documentário revela o cotidiano dos moradores do famoso prédio projetado por Oscar Niemeyer, em São Paulo, durante uma disputa administrativa no local. Com o mesmo síndico há mais de 30 anos, os residentes precisam lidar também com as tensões políticas entre os candidatos à presidência que polarizavam o Brasil. Aos poucos, revela-se um panorama em que as pessoas daquele ecossistema se encontram cada vez mais distantes umas das outras.

Nota-se, no decorrer da projeção, que a diretora nos transmite total segurança ao perambular pelos corredores do prédio e registrar as conversas de seus habitantes. Essa naturalidade se deve ao fato de a realizadora ter residido no local por mais de sete anos, desenvolvendo afeto por quem mora lá. Por conta disso, em nenhum momento a notamos intervir ou direcionar as reações das pessoas na tela; ela mantém uma posição neutra, desnudando os dois lados daquela engrenagem.

Os condôminos não ficam divididos apenas com relação à possível troca de gestão do prédio, mas também pelo clima que antecede o pleito presidencial de 2022. Wallauer registra de forma minuciosa as opiniões e os quase embates que ocorrem nos corredores, ao ponto de o espectador ficar apreensivo com a possibilidade de uma agressão física, já que alguns indivíduos se recusam a ouvir vozes dissonantes. É, portanto, uma síntese do Brasil recente, onde o cenário político dividiu a população de tal modo que não há mais escuta, mas sim uma defesa cega de dogmas pessoais, doa a quem doer.

Devido a isso, o paralelo entre a nossa atualidade e a passagem bíblica é mais do que válido. A diferença é que não houve uma intervenção divina para cortar o diálogo entre as pessoas: elas mesmas provocaram isso por meio da soberba e da falta de empatia. Querendo ou não, todos pertencem à mesma Torre de Babel, e cabe a nós voltar a dialogar antes que tudo desabe sob o peso dos próprios egos.

Vale destacar que a cineasta cria aqui uma espécie de híbrido entre documentário e ficção, ou seja, uma realidade mais nua e crua, onde personagens reais se apresentam como eles mesmos em suas rotinas diárias. Isso não é apenas uma forma de o público se identificar com a premissa, mas também de constatar o quanto o real é complexo. Em suma, é curioso observar como a realidade transcende o imaginário de forma assustadora, superando qualquer ficção hollywoodiana.

"Copan" é o retrato vivo de uma Torre de Babel brasileira, cuja divisão foi imposta pela própria cegueira do homem contemporâneo.


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Cine Dica: PROGRAMAÇÃO CINEBANCÁRIOS 11 A 17 DE JUNHO

 "Tatame”, drama ambientado em Campeonato Mundial de Judô no Irã, e “Criadas”, da brasileira Carol Rodrigues, são as estreias de 11 de junho no CineBancários

Drama esportivo que acompanha atleta iraniana pressionada a abandonar a competição por razões políticas divide a programação com longa nacional que expõe traumas provocados por resquício escravocrata. O CineBancários exibe, na cinesemana de 11 a 17 de junho, os filmes “Tatame”, drama esportivo e político ambientado em campeonato mundial de judô, e “Criadas”, trama dirigida por Carol Rodrigues que perpassa dores comungadas por pessoas negras no Brasil. O iraniano “O Bolo do Presidente” segue em cartaz na sala da Casa dos Bancários.

TATAME

Inspirado em tensões reais da geopolítica contemporânea e exibido no 80º Festival de Veneza, “Tatame” é apresentado como o primeiro longa-metragem codirigido por um israelsense (Guy Nattiv, vencedor do Oscar de curta-metragem por “Skin”, de 2018) e uma iraniana (Zar Amir Ebrahimi, melhor atriz no Festival de Cannes por “Holy Spider”, de 2022).

Durante o Mundial de Judô, a atleta iraniana Leila  (Arienne Mandi)  enfrenta um dilema político e moral: o regime de seu país exige que ela abandone a competição ou simule uma lesão para evitar um possível confronto com uma judoca israelense. Sob pressão da treinadora Maryam (Zar Amir) que viveu traumas semelhantes no passado, Leila se recusa a ceder. O que começa como uma ordem burocrática escala rapidamente para ameaças diretas à segurança e às famílias de ambas, transformando a busca pela medalha em uma luta desesperada por liberdade e integridade própria e de seus familiares em Teerã.

Assim, Tatame articula com eficiência a tensão de uma competição esportiva com o suspense de um thriller político, explorando os limites da autonomia individual diante de estruturas de poder. O dilema central — seguir competindo ou ceder à coerção — não é tratado apenas como um recurso dramático, mas como um impasse ético que atravessa toda a narrativa.

Fotografado em preto e branco, com câmera móvel e próxima aos corpos das atletas, o longa transforma as lutas em cenas de alta tensão cinematográfica, evitando o registro meramente documental. O longa recebeu o Brian Award, prêmio especial do Festival de Veneza concedido a longas que promovem valores como direitos humanos, democracia e liberdade de consciência sem distinção de gênero ou posições religiosas. Em 2024, a mesma distinção foi para “O Quarto ao Lado”, de Pedro Almodóvar.


CRIADAS

É com a imagem de “A Redenção de Cam”, do artista espanhol Modesto Brocos, símbolo maior do mito da democracia racial brasileira, em chamas, que “Criadas”, primeiro longa-metragem de Carol Rodrigues, começa. Mas o efeito reverse motion (de reversão), com o fogo reconstituindo o quadro, indica que o reencontro das primas Sandra (Mawusi Tulani), negra retinta, e Mariana (Ana Flavia Cavalcanti), negra de pele clara não obedecerá às linearidades. Como engenheira, a primeira retorna à casa em que foi criada junto da prima, hoje uma chef de cozinha, à procura de fotos de sua mãe Ivone (Ivy Souza), então empregada na residência da prima Olívia (Sarito Rodrigues), durante a infância delas.

Esse é o fio condutor da trama que perpassa dores comungadas por pessoas negras no Brasil, em maior ou menor escala, graças ao colorismo e aos resquícios do sistema escravocrata tão presentes nas relações estabelecidas entre patroas x funcionárias do lar. E, no filme, com o agravante de que elas pertencem ao mesmo núcleo familiar.

Em meio ao acerto de contas com as feridas racistas de seu passado, as primas Sandra e Mariana começam a conviver, na casa onde cresceram, com forças sobrenaturais resistentes às suas novas posições sociais. As duas também são visitadas por suas versões ainda criança, interpretadas, respectivamente, por Vitória Marques Rodrigues e Alice de Jesus Feitosa. Com expressões infantis marcantes, ora de frustração, ora de descontentamento, elas delimitam os lugares sociais que cada uma podia ocupar naquele período.

O chamado de volta ao presente é feito no filme pela personagem Raquel, vivida pela angolana Rudimira Fula, então responsável pela limpeza da casa de Mariana. O retorno afrodiaspórico, por se tratar de uma imigrante, serve um outro ponto de vista territorial. Mulher sábia, ciente da dicotomia vivida naquele espaço pelas duas primas, faz de tudo para fazer seu trabalho e entrar e sair de lá sem sofrer qualquer tipo de prejuízo financeiro.

Diferentes camadas de luta encampadas por pessoas negras também atravessam as personagens em pautas como a invisibilidade no mercado de trabalho, a apropriação intelectual de quem não ocupa cargos de chefia, mesmo tendo competência e superformação para tal e recorrência de que duas pessoas negras ou mais raramente integram uma equipe, em ambientes corporativos montados no limite da cota racial. Subjetividades como a responsabilidade quase universal de honrar os antepassados, em geral, mães e avós, também são trazidas e é um sentimento compartilhado por Carol Rodrigues, que fez do filme uma declaração de amor a própria avó, Esméria, que partiu dessa dimensão 16 dias antes dela começar a rodar.


PROGRAMAÇÃO CINEBANCÁRIOS DE 11 A 17 DE JUNHO


ESTREIAS:

TATAME

EUA-Israel-Georgia-Inglaterra/Drama/2023/105min

Direção: Zar Amir Ebrahimmi e Guy Nativv

Sinopse: durante o mundial de judô, uma judoca iranaiana é ameaçada pelo comitê do próprio país, que quer que ela abandone a competição para não enfrentar uma atleta israelense. Sua permanência no troneio coloca em risco tambem sua família e a de sua treinadora, Maryam, uma ex-atleta.

Elenco: Arienne Mandi, Zar Amir Ebrahimi, Jaime Ray Newman, Nadine Marshall, Lir Katz, Ash Goldeh.

CRIADAS

Brasil/Drama/2025/105min

Direção: Carol Rodrigues

Sinopse: Sandra retorna à casa de sua prima Mariana em busca de uma foto de sua falecida mãe, que trabalhou ali como empregada residente para os pais de Mariana. Embora tenham sido criadas juntas, Sandra, negra de pele escura, e Mariana, negra de pele clara, viveram aquela casa de formas muito diferentes. Ao se reconectarem, memórias há muito enterradas tomam forma ao redor delas. Fantasmas da infância, da ancestralidade, de um amor que nunca foi embora completamente.

Elenco: Ana Flavia Cavalcanti, Mawusi Tulani, Sarito Rodrigues, Ivy Souza, Rudmira Fula


EM CARTAZ:


O BOLO DO PRESIDENTE

Iraque/Drama/2025/105min.

Direção: Hasan Had

Sinopse: No Iraque dos anos 1990, em meio à guerra e à falta de comida, o presidente determina que todas as escolas do país façam um bolo em homenagem ao seu aniversário. Lamia, de apenas 9 anos, tenta escapar da tarefa, mas acaba sendo escolhida entre os colegas. A menina, então, precisa recorrer à sua criatividade para conseguir os ingredientes e cumprir a missão de preparar o bolo imposto pelas autoridades.

Vencedor do prêmio Caméra d’Or para melhor filme de diretor estreante em Cannes e do prêmio do público da Quinzena dos Cineastas, também em Cannes.

Elenco: Baneen Ahmad Nayyef, Sajad Mohamad Qasem, Waheed Thabet Khreibat, Rahim AlHaj



HORÁRIOS DE 11 A 17 DE JUNHO

(não há sessões nas segundas)

15h: O BOLO DO PRESIDENTE

17h: CRIADAS

19h: TATAME (NO DIA 13/6, SÁBADO, NÃO HAVERÁ SESSÃO DE TATAME EM FUNÇÃO DO JOGO DO BRASIL NA COPA DO MUNDO)


Ingressos

Os ingressos podem ser adquiridos a R$ 14 na bilheteria do CineBancários. Idosos (as), estudantes, bancários (as), jornalistas sindicalizados (as), portadores de ID Jovem e pessoas com deficiência pagam R$ 7. São aceitos cartões nas bandeiras Banricompras, Visa, MasterCard e Elo. Nas quintas-feiras, a meia-entrada (R$ 7) é para todos e todas.


CineBancários

Rua General Câmara, 424 – Centro – Porto Alegre

Mais informações pelo telefone (51) 3030.9405 ou pelo e-mail cinebancarios@sindbancarios.org.br

Amanda Zulke 

CineBancários | SindBancários 

(51) 3030-9400 | (51) 99920-6484

Cine Dica: Clube de Cinema de Porto Alegre: "A Chinesa" (11/06, quinta-feira) na Sala Redenção da UFRGS


Nesta quinta-feira, 11 de junho, às 19h, o Clube de Cinema de Porto Alegre realiza, na Sala Redenção da UFRGS, mais um encontro do ciclo Nouvelle Vague e suas influências, com a exibição de A Chinesa (1967), do cineasta francês Jean-Luc Godard. Após a sessão, o filme será comentado por Juliana Costa, professora, programadora e crítica de cinema, e Alexandre Guilhão, cineasta e historiador. O ciclo faz parte de uma ação de extensão da UFRGS e oferece certificação aos participantes, possibilitando o aproveitamento de horas complementares por estudantes. Inscreva-se!

Lançado em meio às transformações políticas e culturais que antecederam o Maio de 1968 na França, A Chinesa acompanha um grupo de jovens estudantes parisienses que se reúne em um apartamento durante as férias para discutir política, revolução e os ensinamentos de Mao Tsé-Tung. Misturando ficção, ensaio e experimentação formal, Godard constrói uma reflexão provocadora sobre militância, ideologia e o papel da juventude na transformação social.

⚠️ Últimos dias para votar! Até o dia 10 de junho, você pode apoiar o projeto do Clube de Cinema para preservar quase 80 anos de história em um website gratuito. A votação leva cerca de 1 minuto: acesse o site, cadastre seus dados, escolha um projeto da saúde e, em "Demais Áreas", selecione Clube de Cinema de Porto Alegre (código 0058). Contamos com sua ajuda!


Confira os detalhes da sessão:

SESSÃO DE QUINTA-FEIRA NO CLUBE DE CINEMA

📅 Data: 11/06 (quinta-feira), às 19h

📍 Local: Sala Redenção – UFRGS

R. Eng. Luiz Englert, 333 – Bairro Farroupilha, Porto Alegre

🎤 Sessão comentada com Juliana Costa e Alexandre Guilhão

🎟️ Entrada franca e aberta à comunidade


A Chinesa (La chinoise)

França, 1967, 96min

Direção e roteiro: Jean-Luc Godard

Elenco: Anne Wiazemsky, Jean-Pierre Léaud, Michel Séméniako, Juliet Berto, Lex De Bruijn, Omar Blondin Diop, Francis Jeanson.

Sinopse: Em um apartamento parisiense, um grupo de jovens militantes dedica as férias ao estudo do maoísmo e à discussão de estratégias revolucionárias. 

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terça-feira, 9 de junho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz - 'O Bolo do Presidente'

 Sinopse: No Iraque dos anos 1990, em meio à guerra e à falta de comida, o presidente determina que todas as escolas do país façam um bolo em homenagem ao seu aniversário.

É curioso que, no decorrer da história do cinema, alguns filmes vindos do Oriente Médio não sejam apenas um retrato sobre seus países de origem, mas também nos permitam testemunhar tramas através da perspectiva da infância. No cinema iraniano, por exemplo, tivemos belos exemplos como "Onde Fica a Casa do Meu Amigo?" (1987), de Abbas Kiarostami, ou "Filhos do Paraíso" (1997), de Majid Majidi. Pelo Iraque, temos agora o recente O Bolo do Presidente (2025), no qual testemunhamos a cruzada de uma menina disposta a cumprir uma tarefa em meio a uma realidade ditatorial.

Dirigido pelo estreante Hasan Hadi, o longa acompanha a vida de Lamia (Banin Ahmed Nayef), uma garota de 9 anos que conhece de perto a realidade da guerra e da fome no Iraque. Retratando o início dos anos noventa, o enredo mostra o momento em que o presidente do país determina que todas as escolas façam bolos para comemorar seu aniversário. Lamia acaba sendo a escolhida para a missão em sua escola. Sem ter muito para onde correr e com poucos recursos, ela parte em uma aventura ao lado da avó, de seu melhor amigo e de seu galo de estimação.

Hasan Hadi talvez venha a ser lembrado futuramente como um realizador pertencente ao que se pode chamar de retomada do cinema iraquiano, após décadas de desmantelamento durante os tempos ditatoriais de Saddam Hussein. O que se vê na tela definitivamente não seria visto anos atrás, pois temos a dimensão de como a persuasão de um governo para obter o apoio da população não era muito diferente das táticas da Alemanha nazista de Hitler. Em meio ao calor do conflito, vemos uma jovem amadurecer gradualmente através de sua jornada.

A busca pelos ingredientes para o doce se torna um pretexto para acompanharmos a pequena protagonista por uma cidade sempre em movimento, mesmo com recursos visivelmente escassos. Antes disso, porém, vemos a relação da jovem com a avó, que não esconde as marcas de uma vida sofrida e já não tem tantas forças para cuidar da neta. Lamia, por sua vez, demonstra o olhar de uma jovem madura para a sua idade, enfrentando a escassez e passando por inúmeros percalços para realizar sua tarefa.

Hasan Hadi consegue criar um conto singelo sobre a inocência em meio a uma realidade nua e crua, onde a relação de Lamia com seu melhor amigo vai mudando de acordo com as situações enfrentadas. A brincadeira de não piscarem um diante do outro funciona como uma representação de até quando eles conseguirão manter suas expressões inocentes perante uma realidade na qual achar ovos se torna uma missão quase impossível. O diretor capricha em uma montagem engenhosa, capaz de gerar tensão sobre o que virá a seguir — e a cena que se passa em uma mesquita sintetiza muito bem essa observação.

Ao final, há tanto uma recompensa quanto duras perdas durante o percurso, fazendo com que a jovem protagonista passe a enxergar o mundo da mesma forma complicada que sua avó via. Portanto, a última cena com os jovens se torna impactante, pois simboliza uma geração em que muitos se perderam em um conflito sem sentido. O minuto final, por sua vez, além de trazer um registro real, simboliza toda a hipocrisia de um governo ditatorial que provocou feridas na população — marcas que, ainda hoje, seguem em processo de cicatrização.

"O Bolo do Presidente" é sobre a inocência perdida perante os tempos nebulosos de um país em transe e repleto de conflitos.


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Cine Dica: Newsletter de 11 a 17 de junho de 2026

 Cinema brasileiro em destaque na Cinemateca Capitólio nas próximas semanas

A programação da Cinemateca Capitólio nas próximas semanas tem o cinema brasileiro como destaque, com dois lançamentos recentes em cartaz, o drama Dolores, de Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar, e o premiado documentário Copan, de Carine Wallauer. Realizadora gaúcha radicada em São Paulo, Carine Wallauer participa de uma conversa com o público na quinta-feira, 11 de junho, às 19h, sobre seu documentário em torno do icônico edifício modernista de Oscar Niemeyer localizado na região central de São Paulo, que foi o grande vencedor do festival É Tudo Verdade em 2025.

No dia 16 de maio, a Capitólio inaugura uma de suas principais atrações previstas para 2026, a mostra A Cinemateca é Brasileira – Da Comédia ao Drama, programação com curadoria da Cinemateca Brasileira que inclui 23 títulos de diferentes épocas, incluindo desde clássicos com cópias restauradas (como São Bernardo, Amei um Bicheiro, A Hora e Vez de Augusto Matraga e Roberto Carlos em Ritmo de Aventura) a produções mais recentes (como Morto não Fala, Los Silencios, Que Horas Ela Volta? e Branco Sai, Preto Fica). A mostra, toda com entrada franca, irá se estender até o mês de julho, e é realizada em parceria com a Cinemateca Brasileira (aguarde divulgação específica).

Já na sexta-feira, 12 de junho, a Cinemateca Capitólio recebe mais uma edição do projeto Raros, com a exibição de Escuridão da Morte (Fade to Black), produção de horror de 1980 dirigida por Vernon Zimmerman. O filme acompanha o personagem Eric Binford (Dennis Christopher), que vive para o cinema. Cinéfilo solitário e obcecado pelas estrelas da Era de Ouro de Hollywood, ele encontra refúgio nas imagens que consome compulsivamente. Quando sua vida desmorona, a fronteira entre fantasia e realidade se rompe, e Eric passa a encenar sua vingança incorporando personagens clássicos do cinema. A entrada é franca.

Confira a programação completa no site oficial da Cinemateca  clicando aqui

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Mestres do Universo'

Sinopse: A história se passa duas décadas após a queda do Príncipe Adam na Terra. Quando a Espada do Poder restabelece sua conexão, o jovem herdeiro é transportado de volta para o reino de Eternia.

Em tempos em que o gênero de super-heróis no cinema anda desgastado, a indústria norte-americana busca de todas as formas uma nova pepita de ouro que gere lucro. Por conta disso, já não é novidade os estúdios olharem para o passado e resgatarem desenhos clássicos da TV para as telonas. Nesse quesito, a franquia "Transformers" acabou se tornando muito bem-sucedida.

Curiosamente, a série surgiu a partir de uma coleção de brinquedos, já que era tendência da época uma fabricante lançar o seu produto e se alinhar a um canal de TV para produzir a animação. Nesse cenário surgiu a Mattel, ao lançar a coleção "He-Man" e dar origem ao desenho de maior sucesso entre a garotada durante os anos 1980. Décadas depois, eis que chega "Mestres do Universo" (2026), longa que não somente é fiel às suas raízes, como também não tem vergonha de ser o que é.

Dirigido por Travis Knight, a trama se passa quase vinte anos após a separação da Espada do Poder que guiava o príncipe Adam (Nicholas Galitzine). Agora que conseguiu recuperar essa conexão, ele precisará voltar para Eternia, seu planeta natal. No entanto, uma ameaça mortal terá que ser derrotada para salvar seus conterrâneos: o diabólico Esqueleto (Jared Leto) está tentando destruir tudo.

Para quem cresceu durante os anos 1980, era comum assistir a desenhos em que os heróis eram incorruptíveis, sempre dando uma lição de moral e rindo de alguma piada no final do episódio. Hoje isso pode parecer bobo, mas estamos falando de tempos mais inocentes, onde o bem e o mal eram claramente definidos — construindo o caráter de uma geração que não ficava presa aos celulares, mas sim assistindo a animações e brincando no quintal de casa. Esse é o grande charme do filme: despertar em nós essas lembranças distantes, as quais nunca é demais recontar para a geração atual.

O grande trunfo da produção também é usar a velha fórmula da Jornada do Herói, de Joseph Campbell, tantas vezes vista em obras de aventura, mas que aqui funciona como uma luva. Adam se encontra preso na Terra, mas sonha em voltar ao seu lar e ser o herói que salvará seu povo. O interessante é testemunhar as pessoas da Terra achando que ele é louco quando conta sobre o seu passado, e esse talvez seja um dos pontos em que mais nos identificamos.

Ao ser alguém excluído por olhares preconceituosos, Adam se torna um alter-ego de todos nós que crescemos e continuamos curtindo os bons tempos de desenhos animados, séries e filmes de aventura. Um nerd no corpo de um adulto, mas que não tem vergonha de ser quem é, lutando pelo que pensa e acredita, o que garante a nossa simpatia imediata. Nicholas Galitzine se entrega a um papel que poderia facilmente soar estúpido nas mãos de outro ator; ele abraça o lado bobo do personagem sem medo, e é por conta disso que seu desempenho se torna tão sincero.

O protagonista, portanto, casa-se com a proposta primordial da obra como um todo: não se levar a sério em nenhum momento, entregando-se ao fantasioso e ao colorido, e nos passando a sensação de que os nossos bonequinhos de infância ganharam vida. Quase todos os personagens clássicos mantêm as personalidades vistas na TV: Teela (Camila Mendes) segue firme como uma guerreira determinada, servindo como a grande parceira do protagonista do começo ao fim da história. Por outro lado, algumas figuras ganham nova dimensão, como o Mentor/Duncan (Idris Elba), que no desenho raramente falhava, mas aqui se mostra vulnerável em alguns momentos, tornando-se talvez o personagem mais humano da trama.

E se Alison Brie entrega todo o ar de ambiguidade que a Maligna nos passava na série, o mesmo pode ser dito em termos de fidelidade com relação ao grande vilão. No desenho, o Esqueleto era um puro mal cartunesco, que queria apenas o poder, mas que nos provocava risadas pelo seu modo sarcástico de lidar com o He-Man. Pelo visto, Jared Leto entendeu a essência do papel ao construir um antagonista megalomaníaco, sendo mau sem nenhuma justificativa complexa — algo cada vez mais raro de se ver hoje em dia.

Talvez esse seja outro ponto positivo do longa: não perder tempo construindo um passado trágico para justificar o vilão, focando puramente na jornada do herói. Em tempos atuais, em que o mundo se encontra cada vez mais complexo, nada melhor do que assistir a um bom filme de aventura e fantasia à moda antiga. Se em "Dungeons & Dragons: Honra Entre Rebeldes" (2023) a fórmula deu muito certo, este filme seguirá pelo mesmo caminho.

Em termos de ação, as sequências acontecem quando o roteiro exige, perfeitamente alinhadas ao tom de humor da produção. O CGI quase não atrapalha, mesmo nos momentos em que soa artificial, pois o nosso cérebro já aceitou que tudo aquilo é baseado em um universo que nasceu de uma linha de brinquedos. Portanto, quando você se deparar com o Castelo de Grayskull na tela e achar que ele parece falso, não se surpreenda: a intenção é exatamente essa.

Vale salientar que a trilha sonora é outro ponto a favor da aventura, sendo quase toda moldada para soar como os anos 1980 — não estranhe se ouvir clássicos da banda Queen. Curiosamente, o grupo de Freddie Mercury compôs a música-tema de "Flash Gordon"(1980), filme que serviu de inspiração para a elaboração de "Thor: Ragnarok" (2017) e que, por fim, serviu de modelo para este "Mestres do Universo". Entenderam o raciocínio?

Para os brasileiros, a experiência se tornará ainda mais especial se o longa for visto dublado, já que alguns dubladores veteranos retornaram para a produção. Mais de quarenta anos depois, Garcia Júnior volta a dar voz ao protagonista e, ao gritar "Pelos Poderes de Grayskull!", dá para sentir o prazer do profissional em seu trabalho. Já Luiz Carlos Persy assume o Esqueleto, tornando-se um sucessor digno do legado do falecido Isaac Bardavid.

E se, no decorrer da projeção, você achar que a produção não é cem por cento fiel ao desenho, aguarde os minutos finais, onde surgem piadas escancaradamente familiares que os fãs irão identificar imediatamente. O filme termina despertando o desejo de revisitar a animação clássica e de nos lembrarmos de tempos mais inocentes e dourados. Nunca é demais apreciar uma boa aventura que traga de volta algo que já estava adormecido em nós há muito tempo.

Com uma bela participação especial de Dolph Lundgren, "Mestres do Universo" é aquele filme de aventura à moda antiga, que não teme ser inocente e se entrega completamente à fantasia.


Leia também: Revisitando 'Mestres do Universo de 1987'


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Cine Especial: Próximo Cine Debate - 'História de um Casamento'

Sobre o Filme: O clássico "Kramer versus Kramer" (1979) foi lançado em uma época em que a separação de casais ainda era vista como tabu para a maioria da sociedade norte americana. Vários anos depois, o divórcio entre as partes se tornou comum, pois uma coisa é haver a separação, mas não significa que não tivesse havido a paixão. "História de um Casamento" vem para lançar uma nova luz sobre as separações dos tempos atuais, pois embora tenham se tornado comuns, não significa que não venha a doer

Dirigido por Noah Baumbach, do filme "Frances Ha" (2012), o filme conta a história de Nicole (Scarlett Johansson) e seu marido Charlie (Adam Driver) estão passando por muitos problemas e decidem se divorciar. Os dois concordam em não contratar advogados para tratar do divórcio, mas Nicole muda de ideia após receber a indicação de Nora Fanshaw (Laura Dern), especialista no assunto. Surpreso com a decisão da agora ex-esposa, Charlie precisa encontrar um advogado para tratar da custódia do filho deles, o pequeno Henry (Azhy Robertson).



Confira a minha crítica já publicada clicando aqui e participe do próximo Cine Debate. 


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