Quem sou eu

Minha foto
Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte.Me acompanhem no meu: X: @cinemaanosluzFacebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador #cinema #Cinedebate. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #cinema #Cinedebate. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Cine Especial: Próximo Cine Debate - 'Vidas Secas'

A linguagem cinematográfica e a literária são realidades distintas, e nem sempre o cruzamento entre ambas resulta em algo satisfatório aos nossos olhos. O cinema norte-americano, por exemplo, coleciona adaptações literárias que oscilam perigosamente entre a qualidade e a mediocridade — sendo um claro exemplo disso a dispensável adaptação de O "Código Da Vinci" (2006). Não é exatamente o que acontece em solo brasileiro, onde muitas vezes testemunhamos uma transição harmoniosa entre essas linguagens. Talvez quem melhor tenha se saído bem nessa empreitada tenha sido o cineasta Nelson Pereira dos Santos.

Ao lado de Glauber Rocha, o diretor é apontado como um dos fundadores do Cinema Novo, movimento cinematográfico que não apenas nos brindou com o viés mais autoral do cinema nacional, mas também expôs a verdadeira realidade de um país cujas mudanças pareciam emperradas. Nelson Pereira dos Santos demonstrava desde jovem uma predileção pela literatura, mesmo quando suas primeiras realizações, "Rio, 40 Graus" (1955) e "Rio, Zona Norte" (1957), nasceram de roteiros originais de sua autoria. No entanto, essa faceta literária ganhou contornos definitivos a partir de sua obra-prima, "Vidas Secas" (1963).

Baseado no clássico homônimo de Graciliano Ramos, o filme retrata uma família miserável que tenta escapar da seca no sertão nordestino. Fabiano (Átila Iório), Sinhá Vitória (Maria Ribeiro), os dois filhos e a cachorra Baleia vagam sem rumo e quase sem esperanças pelos confins do interior, sobrevivendo à força bruta da natureza e à crueldade dos homens.

Publicado originalmente entre 1937 e 1938, o romance de Graciliano sintetizava um Nordeste desassistido, castigado pela estiagem e abandonado pelo poder público. O que vigorava era o jugo de proprietários de terras e coronéis que mandavam e desmandavam em um cenário onde a única alternativa para os oprimidos era o trabalho braçal exaustivo ou a marcha por caminhos infindáveis em busca de subsistência. É nesse contexto inóspito que acompanhamos a família central da trama, que, em sua cruzada pelo deserto, encontra uma casa abandonada e o vislumbre frágil de um futuro melhor.

Nota-se a permanência da atmosfera literária no decorrer do filme, sobretudo em passagens em que os personagens articulam reflexões e frases que parecem transcender a miséria imediata de sua realidade, emprestando um olhar filosófico sobre um mundo que parece esquecido por Deus. Já nos minutos iniciais, por exemplo, Nelson Pereira dos Santos introduz uma trilha sonora marcada por um rangido metálico incômodo — o som da porteira —, preparando o espectador para a aspereza do que virá. Vemos, portanto, figuras humanas destituídas de quase tudo, onde a esperança permanece como o único refúgio perante aquele inferno na terra.

Átila Iório e Maria Ribeiro brilham intensamente ao dar vida ao casal central, transitando com precisão entre a falsa esperança e os dilemas cotidianos da sobrevivência. O Fabiano de Átila busca manter a dignidade e a firmeza pela família, mesmo cedendo à tentação dos jogos de azar, enquanto Maria constrói uma Sinhá Vitória de força inabalável diante da opressão. São atuações de um naturalismo impressionante, que nos dão a genuína impressão de não estarmos diante de atores, mas de pessoas reais corporificando aquele calvário.

As duas crianças, por sua vez, encarnam a inocência acuada por uma realidade hostil, buscando consolo nas raras brincadeiras ao lado da cachorra Baleia. Esta, aliás, assume uma presença magnética em cena: seu olhar atento e observador transmite uma consciência impressionante daquela tragédia social nos momentos em que contracena com os demais. Consequentemente, sua sequência final se torna não apenas dolorosamente chocante, mas a síntese definitiva do fim da inocência para aqueles meninos, forçados a amadurecer diante de um amedrontador desconhecido.

Embora tenha estréia comercial ampla em agosto de 1964, o filme foi exibido antecipadamente em São Paulo nas duas primeiras semanas de março do mesmo ano — justamente no período do golpe civil-militar que viria a estrangular os rumos do Cinema Novo. Exibido no Festival de Cannes, o longa foi laureado com o prêmio da OCIC e o prêmio dos cinemas de arte, alcançando sólida repercussão internacional. É célebre a anedota de que os realizadores fizeram questão de levar a cadela que interpretou Baleia à França, sabendo que o público europeu certamente questionaria se o animal havia sido ou não abatido de verdade em cena.

Aclamada unanimemente pela crítica desde o lançamento, a obra foi alçada ao patamar de patrimônio cinematográfico. Em novembro de 2015, figurou na 3ª posição da lista dos 100 Melhores Filmes Brasileiros de Todos os Tempos, organizada pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), posição reiterada na atualização da mesma lista em maio de 2026.

Revisto hoje, percebe-se o quanto o Nordeste evoluiu em termos de políticas culturais, emprego e infraestrutura ao longo das décadas. Contudo, a seca persiste, assim como a fratura social e a desigualdade de classes, alimentadas por aqueles que insistem em fazer valer a lei do mais forte em detrimento dos vulneráveis. É por essa razão incômoda que a obra-prima de Nelson Pereira dos Santos permanece tão atual: porque o deserto escaldante, em múltiplos sentidos, infelizmente ainda não terminou para muitas famílias.

"Vidas Secas" permanece como um dos pilares sagrados do Cinema Novo, um dos maiores filmes brasileiros de todos os tempos e o testemunho definitivo de como transpor a literatura para a tela grande com genialidade e vigor inabaláveis.

   Faça parte:

 


Mais informações através das redes sociais:

Facebook  : www.facebook.com/ccpa1948

Twitter: @ccpa1948  

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Cine Especial: Próximo Cine Debate - 'Antes de Partir'

Sinopse: Rory MacNeil é um escocês ranzinza que não dá a mínima para a opinião dos outros. Um dia, ele descobre que tem poucos meses de vida, e sua única alternativa de tratamento está em São Francisco.

O cinema é recheado de histórias cujos protagonistas estão à beira da morte, mas nem por isso desistem de desfrutar os dias que lhes restam. No clássico "Viver" (1952), de Akira Kurosawa, por exemplo, o protagonista usa o tempo que lhe resta não apenas para se aproximar de pessoas que antes negligenciava, mas também para realizar algo significativo que não havia feito em vida. "Antes de Partir" (2018) é um filme delicado e leve ao revelar o atrito entre gerações, mostrando como alguém no final da vida ainda tem muito a oferecer.

Dirigido por Oded Binnun e Mihal Brezis, o filme conta a história de Rory MacNeil, um senhor escocês que, mesmo a contragosto, deixa sua ilha nas Hébridas e se muda para São Francisco após descobrir que tem pouco tempo de vida. Enquanto realiza um tratamento médico especializado e passa a morar com o filho distante, a vida de Rory é inesperadamente transformada à medida que ele se reaproxima do filho e desenvolve um vínculo com o neto.

O início do filme já nos apresenta um protagonista pertencente à "velha guarda" escocesa, cujas tradições moldaram o homem daquele lugar e sobre cuja história há muito a descobrir. Porém, uma vez na metrópole norte-americana, ele precisa se acostumar com as luzes e o movimento constante de uma sociedade movida pelo sistema — que já não enxerga as próprias estrelas. É o típico filme sobre o atrito entre gerações distintas, mas em que ambas têm muito a aprender uma com a outra.

Embora previsível em algumas passagens da trama, o longa nos conquista pela relação entre avô e neto, que acaba se tornando muito mais interessante do que a própria reconciliação entre pai e filho. Outro elemento que permanece um pouco na superfície é o casamento desgastado do casal jovem, que tenta se acostumar com a presença do pai na rotina enquanto lida com carreiras que não são exatamente o que desejavam. É algo explorado de forma irregular na narrativa, mas que passa batido perante os dilemas que o protagonista enfrenta.

Grande veterano do teatro e do cinema escocês, além de popularmente conhecido por filmes americanos como "X-Men 2" (2003) e "Tróia" (2004), Brian Cox sempre construiu uma carreira sólida com personagens complexos, mesmo quando o roteiro tangencia o previsível. Aqui, ele consegue criar um protagonista forte perante o inevitável, irredutível quanto à sua cultura, mas sem esconder certos arrependimentos sobre escolhas do passado. Se ele errou na educação do filho, vê no neto a chance de redenção diante do futuro.

Destaco também a presença da veterana Rosanna Arquette — atriz cujo trabalho no passado venho apreciando cada vez mais —, que demonstra uma ótima química com o protagonista. O momento em que se conhecem no museu é marcante: as obras simbolizam um passado que já não existe no presente, mas cujas marcas carregam o peso de uma história que merece ser contada. Da mesma forma, quando o professor convida o protagonista a gravar relatos em seu idioma gaélico nativo, a cena simboliza que as raízes de um passado distante merecem ser ouvidas por uma geração que hoje tem dificuldade de olhar para trás.

No geral, é um filme que combina pitadas de humor refinado com elementos dramáticos inseridos no momento certo, trazendo uma reflexão sobre laços de sangue que ainda funciona muito bem. Não é uma obra que mudará a vida de ninguém, mas serve como um singelo lembrete sobre como as gerações de hoje ainda têm muito a aprender com aqueles que viveram sem os recursos atuais, mas que se tornaram pessoas com sabedoria a transmitir. "Antes de Partir" é sobre o confronto entre o velho e o novo e sobre saber lidar com os percalços do mundo.

  Faça parte:

 


Mais informações através das redes sociais:

Facebook  : www.facebook.com/ccpa1948

Twitter: @ccpa1948  

domingo, 30 de agosto de 2026

Cine Especial: Próximo Cine Debate – 'Viver'

Sinopse: Um funcionário público de Londres tem dificuldade para manter a ordem sob montanhas de trabalho burocrático. Sobrecarregado e solitário em casa, sua vida se torna um drama quando um diagnóstico médico indica que ele tem pouco tempo de vida.  

Akira Kurosawa foi um dos maiores gênios do cinema japonês, mas construiu sua carreira dialogando não apenas com a cultura de seu país. O clássico "Viver" (1952), por exemplo, é inspirado na novela russa "A Morte de Ivan Ilitch", escrita por Liev Tolstói em 1886. O que Kurosawa fez foi transpor a trama para o Japão do pós-guerra, que ainda buscava recuperar sua autoestima.

Mas, se Kurosawa buscava inspiração em outras culturas, seus próprios longas-metragens serviram de modelo para o Ocidente. Se "A Fortaleza Escondida" (1958) inspirou o nascimento de dois personagens clássicos da franquia "Star Wars" (iniciada em 1977), por outro lado, "Os Sete Samurais" (1954) ganhou sua refilmagem norte-americana no faroeste "Sete Homens e Um Destino" (1960). "Viver" (2022) é uma adaptação britânica do clássico japonês que, ao beber muito de sua fonte original, permite ao público atual conhecer essa história tocante.

Dirigido por Oliver Hermanus, o filme acompanha Williams (Bill Nighy), um funcionário público veterano de uma repartição burocrática encarregada da reconstrução da Grã-Bretanha após a Segunda Guerra Mundial. Williams empurra papelada em um escritório do governo até o dia em que é diagnosticado com uma doença fatal. Viúvo, ele esconde a condição de seu filho adulto, passa uma noite de devassidão na companhia de um escritor boêmio e passa a evitar o trabalho. Porém, uma ex-colega de trabalho animada, Margaret, o inspira a encontrar significado em seus dias restantes.

Assim como o clássico de Kurosawa, o filme retoma o conto russo transposto para uma Londres do pós-guerra. A escolha funciona muito bem, já que a trama retrata não apenas um protagonista em crise, mas uma sociedade londrina ainda em recuperação de um conflito mundial devastador. Além disso, Oliver Hermanus acerta ao não atualizar a história para os dias atuais, preservando uma premissa que perderia força em tempos de tecnologia desenfreada.

Por conta disso, o longa possui um visual que remete à era de ouro do cinema: a proporção de tela em 1,33:1 (formato mais quadrado) evoca a linguagem cinematográfica anterior à popularização do Widescreen, consolidado a partir do clássico "O Manto Sagrado" (1953). A fotografia, com cores quentes, busca inspiração na estética clássica do Technicolor — recurso marcante de produções como "O Mágico de Oz" (1939). Ou seja, é um filme que reúne elementos tanto para os interessados pela literatura russa quanto pelos admiradores do cinema de Kurosawa e da era clássica da sétima arte.

A premissa em si é uma velha conhecida dos cinéfilos, mas ganha novo frescor com a atuação impecável de Bill Nighy. Versátil, Nighy é figura conhecida pelos fãs de grandes franquias como "Piratas do Caribe" (2003–2017), mas também brilha em produções mais intimistas, como "Enquanto Houver Amor" (2019). Aqui, sua atuação se distancia da interpretação marcante de Takashi Shimura no clássico de 1952, ganhando luz própria sob a direção precisa de Oliver Hermanus.

Acima de tudo, é um filme que nos ensina a saborear a vida, mesmo quando estamos na reta final. Até lá, cabe a cada um colocar em prática suas virtudes ocultas, revelando uma faceta até então inédita para os outros. Ao final, o gesto do protagonista pode parecer simples, mas carrega um significado profundo para que outras pessoas possam desfrutar de momentos mais felizes.

Com um desfecho tão tocante quanto o do clássico de Kurosawa, "Viver" é um belo exemplo de obra que sabe se repaginar para conquistar uma nova geração de espectadores.

    Faça parte:

 


Mais informações através das redes sociais:

Facebook: www.facebook.com/ccpa1948

twitter: @ccpa1948 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Cine Especial: Próximo Cine Debate - 'História de um Casamento'

Sobre o Filme: O clássico "Kramer versus Kramer" (1979) foi lançado em uma época em que a separação de casais ainda era vista como tabu para a maioria da sociedade norte americana. Vários anos depois, o divórcio entre as partes se tornou comum, pois uma coisa é haver a separação, mas não significa que não tivesse havido a paixão. "História de um Casamento" vem para lançar uma nova luz sobre as separações dos tempos atuais, pois embora tenham se tornado comuns, não significa que não venha a doer

Dirigido por Noah Baumbach, do filme "Frances Ha" (2012), o filme conta a história de Nicole (Scarlett Johansson) e seu marido Charlie (Adam Driver) estão passando por muitos problemas e decidem se divorciar. Os dois concordam em não contratar advogados para tratar do divórcio, mas Nicole muda de ideia após receber a indicação de Nora Fanshaw (Laura Dern), especialista no assunto. Surpreso com a decisão da agora ex-esposa, Charlie precisa encontrar um advogado para tratar da custódia do filho deles, o pequeno Henry (Azhy Robertson).



Confira a minha crítica já publicada clicando aqui e participe do próximo Cine Debate. 


  Faça parte:

 


Mais informações através das redes sociais:

Facebook: www.facebook.co m/ccpa1948

twitter: @ccpa1948 

domingo, 16 de abril de 2023

Cine Especial: Próximo Cine Debate - 'Adoráveis Mulheres'

 Sobre o Filme: 

"Adoráveis Mulheres" de 1994 se tornou um pequeno clássico daquela década, ao retratar a união de quatro irmãs perante as adversidades do dia a dia. Porém, mesmo com uma trama se passando no século 19, é preciso que aja uma forma do público feminino atual se identificar com as personagens, o que não aconteceria se o mesma versão daquele ano, ou de outras adaptações passadas, fossem levadas agora nas telas do cinema. Felizmente, "Adoráveis Mulheres" de 2019 tenta dialogar com a força do feminismo atual, mesmo que em alguns momentos descarrilhe para o convencional.

Dirigido por Greta Gerwig, do filme "Lady Bird - A Hora de Voar" (2017), e baseado na obra de Louisa May Alcott, a trama se passa durante a Guerra Civil, onde uma mãe com 4 filhas passa por graves problemas financeiros, enquanto o marido está na frente de batalha. A mais intelectualizada das irmãs, que sonha ser escritora, é cortejada por um rico vizinho, mas quando este se declara ela o rejeita e vai morar em Nova York, onde se envolve com um professor. Mas quando chega a notícia de que o estado de saúde de uma de suas irmãs piorou consideravelmente, ela retorna para casa.

Confira a minha crítica completa já publicada clicando aqui e participe do próximo Cine Debate nesta Quarta-Feira.


   Faça parte:


Mais informações através das redes sociais:

Facebook: www.facebook.com/ccpa1948

twitter: @ccpa1948  
Instagram: @ccpa1948 

Joga no Google e me acha aqui:  
Me sigam no Facebook,  twitter, Linkedlin e Instagram.