Sinopse: Acompanhamos Kristófer, um viúvo solitário na Islândia que decide ir atrás de Miko, seu primeiro grande amor de 50 anos atrás.
A bomba atômica de Hiroshima entra para a lista dos piores crimes contra a humanidade e com certeza é um material farto para o cinema. O cinema norte-americano, porém, sempre procurou evitar explorar esse assunto: o antes e o depois do evento chegaram a ser revisitados, mas raramente o dia cataclísmico em si. Nem mesmo o maravilhoso "Oppenheimer"(2023) chegou a esse ponto, embora Christopher Nolan tenha explorado em potência máxima o peso que o criador da bomba carregou como um fardo irreversível.
Fora do território estadunidense, no entanto, surgiram filmes com retratos assombrosos daquele dia, como o impactante anime "Gen, Pés Descalços"(1983). Já na França da Nouvelle Vague, fomos presenteados com "Hiroshima, Meu Amor"(1959), cuja sequência de abertura costuma ser mais lembrada do que a própria história de amor. É nesse cenário que chegamos ao islandês "Touch" (2024), em que a jornada do protagonista rumo às suas raízes do passado revela a ligação da história com Hiroshima.
Dirigido por Baltasar Kormákur e baseado no romance homônimo (Snerting), do autor islandês Ólafur Jóhann Ólafsson, o filme conta a história de Kristófer, um homem que resolve resgatar uma parte significativa de sua vida. Vivendo agora como um viúvo solitário, ele se recorda de Miko (Kōki), sua namorada na década de 1960. Quando jovens, ao se conhecerem no restaurante japonês onde ele trabalhava como lavador de pratos, os dois se apaixonaram perdidamente. Contudo, após um sumiço repentino por parte dela, suas vidas tomaram rumos opostos — até que, muitos anos depois, ele decide reencontrá-la a qualquer custo.
Kormákur possui uma filmografia de certa forma irregular, alternando obras intimistas, como "Vidas à Deriva" (2018), e produções escapistas de ação, como "Dose Dupla" (2013). Aqui, porém, o realizador se sai muito bem ao transitar entre passado e presente, revelando duas fases distintas do protagonista que moldaram quem ele é. Militante de causas estudantis na juventude, sua trajetória ganha novos contornos a partir do momento em que entra em contato com a cultura japonesa naquele simples restaurante — um lugar carregado de memórias reveladas gradualmente.
A convivência do jovem Kristófer com o dono do restaurante e sua filha lhe confere outra perspectiva sobre um mundo repleto de conflitos, onde o preconceito contra os japoneses ainda era latente. A questão de Hiroshima é explorada em ambas as linhas temporais, simbolizando as sequelas daquele evento e o modo como afetaram a vida de pai e filha. O que temos, portanto, é uma análise detalhada de como certos traumas deixam cicatrizes não apenas físicas, mas psicológicas e morais para o resto da vida.
O filme explora a busca do indivíduo por respostas no momento em que sua própria saúde se torna delicada. Curiosamente, a trama se desenrola durante a pandemia da COVID-19, período em que a sociedade temia um vírus mortal — o que não impede o protagonista de seguir em sua cruzada pessoal. É nessa busca que Hiroshima se torna uma peça primordial.
É interessante observar também como o longa retrata o fim de uma era e o início de outra. A sombra da finitude anda à espreita, sem contudo impedir que o afeto e a busca por redenção abram caminho para um novo recomeço. Ao final, constatamos que a vida prossegue, mesmo quando forças destrutivas tentam aniquilar tudo ao toque de um botão.
"Touch" é uma obra sensível sobre a busca por respostas de um passado distante, cujas revelações se mostram tão profundas quanto surpreendentes.
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