Nota: Filme exibido para os associados no dia 17/01/26
David Lynch era conhecido como o cineasta do bizarro, ou mais precisamente com relação a filmes que possuíam uma trama, por vezes, não linear. Tanto "Estrada Perdida" (1997) como "Cidade dos Sonhos" (2001) reforçaram muito esse pensamento, mas o que fez ele se tornar um dos melhores diretores autorais de todos os tempos. Contudo, as tramas não eram exatamente incompreensíveis, mas sim o seu modo de filmar é que falava por si.
Enquanto os diretores convencionais criavam cenas que faziam o espectador compreender os fatos, por outro lado, Lynch optou em fazer cenas que nos conduziam para situação, por vezes, surreais mas que chegavam ao ponto em que fazia algum sentido. O realizador optou em lançar o desafio em fazer a gente pensar com relação ao que nos era apresentado e quebrando as nossas expectativas a partir do momento em que nem tudo o que a gente imaginava aconteceu exatamente em cena. O seu "Veludo Azul" (1986) nos conduz para um universo sombrio, mas do qual se encontra escondido em uma realidade que dizia aparentemente perfeita.
Na trama, Jeffrey Beaumont (Kyle MacLachlan), um rapaz simples que acaba de voltar à cidade, envolve-se em uma perigosa investigação inusitada a partir do momento em que encontra uma orelha humana em um terreno abandonado. Com ajuda de Sandy (Laura Dern), ele acaba adentrando na casa de uma cantora de cabaré chamada Dorothy Vallens (Isabella Rossellini), sendo que a mesma é manipulada em meio aos jogos sádicos do traficante de drogas Frank (Dennis Hopper). Não demora muito para que Jeffrey adentra em uma realidade perigosa e que pode não sair com vida.
Abertura do filme já é antológica, onde nos mostra a sociedade norte-americana perfeita, onde o céu azul ilumina todos os quintais das casas perfeitinhas de uma sociedade que se diz viver na terra das oportunidades. Porém, a partir do momento em que o pai do protagonista passa mal enquanto molhava as folhas, a câmera do realizador foca cada vez mais o gramado e onde vemos formigas devorando a carne do mais fraco inseto. Um simbolismo que sintetiza o fato que sempre haverá algo feio por detrás das cortinas, por mais que outros digam ao contrário.
O bizarro achado da orelha decepada é uma das principais características de Lynch, ao criar uma verdadeira aura de mistério em torno desta descoberta e fazendo da obra uma verdadeira homenagem ao subgênero noir de antigamente. Ao mesmo tempo, se nota uma predileção do realizador em nos conduzir para um teor de puro suspense, cuja as mulheres vistas na tela transitam para verdadeiras damas fatais, como também para a mais pura inocência, mas que pode ser a qualquer momento corrompida. Qualquer semelhança ao que o mestre do suspense Alfred Hitchcock fazia não é mera coincidência.
A sua trilha sonora é marcante, misturando composições originais sombrias de Angelo Badalamenti como também canções clássicas, como "Blue Velvet" de Bobby Vinton e "In Dreams" de Roy Orbison, criando uma atmosfera neo-noir perturbadora, destacando-se a voz etérea de Julee Cruise e a melodia "Mysteries of Love". Isso faz com que a atmosfera se torne cada vez mais densa na medida em que o protagonista adentra em um território que não deveria ter chegado, mas que se encontra ali em um beco sem saída. A virada de mesa é quando ele finalmente obtém contato com a cantora de cabaré e onde Isabella Rossellini nos brinda com uma das atuações femininas mais intensas da história do cinema.
É difícil hoje em dia imaginar a personagem Dorothy Vallens sendo interpretada por outra atriz, já que ela transita entre a loucura e um pouco de lucidez que ainda há nela e somente Rossellini naquele momento poderia ter obtido tal feito. Sua atuação ao lado de Dennis Hopper é deveras marcante justamente pelo fato deste último estar completamente fora de si, ao interpretar um personagem viciado em drogas e nas mais puras sordidez. Se o intérprete já havia atuado completamente chapado no clássico "Apocalypse Now" (1979) aqui não me admira se tivesse acontecido o mesmo.
Com situações que transitam entre a loucura, erotismo e o melhor do suspense, o filme dividiu opiniões da época, principalmente através da crítica especializada que talvez não estivesse pronto para o que iriam testemunhar. A frente do seu tempo, o filme foi aos poucos sendo reavaliado, apontado atualmente como um dos filmes norte-americanos mais importantes da história. Em 2008 foi escolhido pelo American Film Institute como um dos dez maiores filmes de mistério dos Estados Unidos.
"Veludo Azul" é uma viagem sensorial de David Lynch sobre o que há por detrás das cortinas de uma sociedade que aparenta ser politicamente correta.
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