Sinopse: Com a vida desmoronando ao seu redor, Linda tenta lidar com a misteriosa doença de sua filha, seu marido ausente, uma pessoa desaparecida e um relacionamento cada vez mais hostil com seu terapeuta.
Na minha opinião pessoal "Repulsa do Sexo" (1965), do diretor Roman Polanski, é o primeiro filme de horror cujo monstro talvez não esteja dentro do armário, mas sim em nossas mentes a beira de um colapso nervoso. Em tempos atuais em que o mundo real é mais assustador do que qualquer monstro clássico se tornou cada vez mais fácil fazer filme que explorasse o indivíduo à beira de um ataque de nervos perante os obstáculos diversos que vão surgindo. "Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria" (2026) é um desses casos de filmes que nos provoca ansiedade e medo, mas não com a possibilidade da existência de um monstro, mas sim devido à ação e reação da protagonista principal da trama.
Dirigido pela atriz e diretora Mary Bronstein, a trama é sobre a psicóloga Linda (Rose Byrne), uma mãe à beira de um ataque de nervos. Mãe de uma menina doente, a protagonista é obrigada a conviver com obstáculos um atrás do outro quando seu teto cai graças a um vazamento enorme de água em seu lar. Com a vida sua vida caindo aos pedaços ela busca socorro de todos os lados, mas ninguém parece estar disposto ou ser capaz de ajudá-la, nem seu ausente marido.
Já no início a diretora Mary Bronstein nos prega uma peça curiosa, já que a sua câmera foca somente a protagonista em um primeiro plano, enquanto somente ouvimos as vozes da filha e da médica. O filme prossegue e nos passa a impressão que somente iremos observar a ação e reação da protagonista, principalmente no momento em que um buraco surge em sua casa e fazendo ela quase perder o controle da situação. Somente quando ela se muda para um hotel para cuidar de sua filha é que outros personagens surgem e agindo cada de uma forma distinta perante a protagonista.
Seria curioso se somente Rose Byrne se mantivesse em cena e colocando os demais personagens fora do quadro, pois nestes primeiros minutos de projeção ficamos perplexos com a expressão facial da atriz, pois ela consegue passar para nós um ser pronto para explodir perante as adversidades que vão ocorrendo em seu dia a dia e não tendo mais saúde mental para contorná-las. Se o mundo fosse justo Rose Byrne mereceria todos os prêmios que seria indicada.
Aliás, esse é um belo exemplo de sincronia entre a direção e atuação da protagonista em cena, já que a diretora Mary Bronstein não desvia o seu foco e se concentra em todo o trabalho maravilhoso que a atriz nos brinda em cada minuto. Além disso, a realizadora prova que poderá construir uma grande carreira de direção autoral na medida certa, principalmente ao realizar um jogo de edição de cenas caprichado e que remete elementos do já clássico "Réquiem para um Sonho" (2000) de Darren Aronofsky. Curiosamente, Mary Bronstein presta também homenagem, mesmo de forma subliminar, ao mestre David Cronenberg, principalmente pelo fato que o físico e a mente são explorados na história de uma forma que nos dá a entender que uma não vive sem a outra enquanto não estiverem em harmonia.
O filme não somente foca com relação ao desespero mental da protagonista, como também explora uma sociedade, tanto aquela que está pedindo por socorro, como também aquela parte que busca fugir dos problemas e não se prestar a ajudar o próximo. Bom exemplo disso é o colega de profissão da protagonista, que se vê na responsabilidade de ajudá-la, mas logo decide abandoná-la, pois o próprio já não tem forças nem para resolver as suas próprias adversidades na vida. Além disso, a protagonista ainda tem que lidar com pacientes que não são diferentes se compararmos a ela, mas que se encontram cada vez mais à beira do precipício, por mais que Rose procure ajuda-los em meio a toda loucura que está lhe acontecendo.
O filme explora sobre até que ponto uma mente aguenta perante a aceleração que o mundo atual se encontra e fazendo a protagonista ser seduzida pela quietude eterna que lhe seduz em alguns momentos. Embora o minuto final de ao espectador um fio de esperança para a personagem, ao mesmo tempo fica em aberto se tudo não passa de uma cortina de fumaça moldada pela própria para fugir da dor emocional que sempre lhe perseguiu em vida. Não é sempre que um filme obtém uma grande sintonia com os tempos atuais cada vez mais complexos e que nos deixa ainda mais confusos.
"Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria" é assustador por não ter um monstro no armário, mas sim dentro de nossas mentes que não consegue mais acompanhar a aceleração de um mundo cada vez mais complexo.
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