Nota: O filme estreia no próximo dia 08 de Janeiro.
Sinopse: Rebecca, filha do missionário Lawrence Byrne, foi declarada um milagre por ter sobrevivido a um acidente de avião na Floresta Amazônica quando criança.
Um filme em que a religião serve como um pano de fundo somente se torna honesto quando a crença bate de frente com a realidade. Em tempos em que o conservadorismo errôneo usa a palavra de Deus em vão para obter poder, não faltam casos de filmes plasticamente falsos e que somente servem para doutrinar os seguidores cegos. Ao menos "Transamazônia" (2026) é um filme honesto em saber transitar sobre o verdadeiro significado da palavra com a realidade que é preciso mais do que fé para ser enfrentada.
Dirigido por Pia Marais, o filme conta a história de Rebecca, filha do missionário Lawrence Byrne, foi declarada um milagre por ter sobrevivido a um acidente de avião na Floresta Amazônica quando criança. Anos depois, ela se torna uma curandeira milagrosa, sustentando a missão com sua fama crescente. Quando madeireiros ilegais invadem as terras dos povos indígenas que estão sendo evangelizados, o pai de Rebecca coloca a família no epicentro de um conflito que só tende a piorar.
Sendo co-produção entre vários países, se percebe um cuidado de produção, principalmente com relação a sua abertura, onde temos uma dimensão do acidente aéreo que se torna o estopim para o nascimento da história. Pia Marais procura nos passar com extremo cuidado o real papel da pregação religiosa para os povos indígenas, sendo que não é exatamente uma forma de persuadir aquele povo, mas transmitir uma espécie de paz que quase nunca é alcançada devido a presença do homem branco. Uma vez que os mesmos se veem ameaçados por garimpeiros é então que os protagonistas Pai e filha se veem em dilemas que nem todos puderam ser solucionados.
Ao mesmo tempo, a questão sobre a real identidade da protagonista é algo que permeia boa parte do filme. Embora a revelação seja um tanto que forçada para dizer o mínimo, a sua origem nos revela também que o lado predestinado em ajudar as pessoas não foi algo exatamente divino, mas sim o que já estava carregado em suas veias. Tendo a conhecido no genial "Transtorno Explosivo" (2019), Helena Zengel tem aqui uma atuação contida, mas não menos interessante, pois através dela nos passa uma sensação de inocência, mas tendo também uma consciência sobre a verdadeira realidade em sua volta.
Porém, é Jeremy Xido que rouba a cena, cujo seu personagem mantém a sua fé intacta para ensinar a filha a passar a mensagem que ele prega. Ao mesmo tempo, se nota também que o mesmo tenha usado a menina, mesmo de forma indireta, para passar a palavra a todo custo, mas tendo que enfrentar uma realidade nua e crua com relação à exploração da floresta que afeta os indígenas. É nestes momentos, por exemplo, que o personagem é testado com relação até onde irá se manter com a sua fé quando a realidade pode lhe assombrar.
O filme, portanto, é lúcido com relação ao verdadeiro uso da palavra da fé perante um sistema explorador e que não mede esforços de extrair o que é da terra e dos verdadeiros povos que moram nela. Embora com maniqueísmo lá e aqui, ao menos o filme nos faz refletir sobre o real inimigo que não vem das sombras, mas sim justamente daqueles que tem poder o suficiente para fazer o que bem entender. Assim como o mundo real, o final fica em aberto, pois a luta pelo equilíbrio continua, seja ele na ficção ou no mundo real.
"Transamazônia" nos revela um embate entre a fé e a razão perante um sistema capitalista que simplesmente destrói para obter poder.
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