Nota: Filme exibido para os associados no último sábado (10/01/26).
Infelizmente eu fui somente conhecer Abbas Kiarostami a partir do filme "Cópia Fiel" e do qual me enfeitiçou em uma distante sessão orquestrada pelo jornal ZH. De lá pra cá, logicamente, fui conhecendo os seus feitos e fazendo com que eu adentrasse ainda mais o cinema iraniano como um todo. Pode-se dizer que se não fosse por Abbas Kiarostami, somente ficaria conhecendo o Irã pelo lado parcial do cinema norte americano, ou até mesmo pela imprensa sensacionalista como um todo.
No cinema de Kiarostami não há pressa para apresentação da trama, sendo que em muitos momentos a ficção transita para um lado documental e fazendo com que não tenhamos uma dimensão exata de onde começa e onde termina o que é real. Claro que o cinéfilo mais atento irá notar atores amadores, ou simplesmente pessoas comuns que cruzam em seus projetos, mas que acabam dando um acréscimo a mais para render um grande espetáculo. "O Gosto de Cereja" (1997) talvez seja uma das obras mais pessoais do diretor e revelando um pouco de sua pessoa.
Na trama, um homem (Homayoun Ershadi) viaja pelos campos, tentando angariar trabalhadores avulsos para satisfazer seus desejos reprimidos: Ele procura alguém que o ajude a morrer, mas vive em uma sociedade onde suicídio é uma abominação. No decorrer dessa busca ele acaba por ouvir a opinião de alguns e a repulsa de outros com relação ao seu pedido inusitado.
Antes desse filme Kiarostami já tinha uma predileção em contar tramas em que o protagonista dirige um carro e nos convida para adentrar em uma trama que é apresentada aos poucos. Basta pegarmos, como exemplo, o longa "A Vida Continua" (1993), obra que transita muito mais pelo lado documental, já que testemunhamos um Irã ainda se reestruturando devido a um terremoto devastador. Curiosamente, o realizador vai justamente na cidade para reencontrar os atores de "Onde Fica a Casa do Meu Amigo?" 1987) e vê-los se estão todos bem.
No caso de "O Gosto de Cereja" vemos através do protagonista um Irã sempre em movimento, seja em uma pedreira, em uma usina ou em um determinado quartel. O protagonista somente observa esses lugares e busca uma forma de convencer alguém a lhe fazer um trabalho inusitado e do qual pode culminar no seu último dia neste mundo. O protagonista não revela aos seus passageiros mais ou menos o que quer, mas causando reações distintas de cada um e fazendo com que o longa se torne ainda mais verossímil na medida em que a trama avança.
Obviamente se percebe que não vemos atores em cena, mas sim pessoas comuns em meio ao trabalho, mas que são interrompidos pela chamada do protagonista. Ao meu ver, com certeza era o próprio diretor chamando as pessoas para se sentarem no banco de passageiro enquanto ele filmava a ação e reação dessas pessoas durante as suas perguntas. O resultado é de um verdadeiro assombro de genialidade e que revela muito mais do que se imagina dessas pessoas comuns, porém, com histórias que foram ou poderiam ter sido contadas se algumas tivessem atendido o seu pedido.
Homayoun Ershadi até então era um completo desconhecido no seu país de origem. Através desse longa, porém, ele se tornou um dos rostos mais marcantes do cinema de Kiarostami, ao construir para si um personagem que tem um único pensamento em acabar com tudo, mas tendo que obter ajuda e seguindo em uma cruzada em busca da pessoa ideal para colocar em prática esse feito. Na medida em que o tempo passa não queremos que ele encontre a pessoa certa, não porque queremos que ele continue com vida, mas sim para podermos apreciar ainda mais a sua jornada.
Assim como em suas demais obras, o diretor filma como ninguém as estradas de chão que levam os seus protagonistas para determinados lugares, ou simplesmente para lugar algum desde que a história continue. O último passageiro, por sua vez, não somente conta sobre a sua pessoa, como também dá um incentivo para que o protagonista busque uma razão para continuar vivendo, desde em prestar atenção ao céu, como também sentir o gosto de determinados alimentos que nós degustamos em determinada estação. o título do filme vem daí e obtendo um peso maior de significado.
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes na época, o filme dividiu opiniões, mas ganhando força através do tempo. O filme serviu até mesmo de inspiração para o próprio realizador em filmar outras tramas que ocorrem dentro de um automóvel, que vai ao filme "Dez" (2002) como também o já citado "Cópia Fiel". Curiosamente, isso também serviu de inspiração para outros diretores, como foi no caso de Jafar Panahi ao realizar o seu longa "Táxi de Teerã" (2015).
Com um final em aberto, mas ao mesmo tempo surpreendente, "Gosto de Cereja" é uma das obras mais pessoais de Abbas Kiarostami, do qual fala muito sobre a sua pessoa e sobre um Irã que o ocidente ainda não enxerga.
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