Em tempos atuais politicamente corretos me parece que o gênero comédia se encontra morto, pois é difícil hoje em dia fazer uma piada sem que alguém se ofenda e gerar a mania do cancelamento desenfreado que reina pela internet. Bons tempos eram aqueles que éramos despreocupados e que se podia fazer uma comédia ligeira, engraçada e que atraia a grande massa. "Corra que a Polícia Vem Aí" (1988) pertence a uma época da qual não volta, mas que nunca é demais revisitá-la e nos darmos conta de como éramos felizes e a gente não sabia.
Na época o filme foi dirigido e roteirizado por David Zucker e Jerry Zucker, ambos já conhecidos por terem feito o clássico da comédia "Apertem os Cintos o Piloto Sumiu" (1980). Na esteira do sucesso de filmes como "Monty Python em Busca do Cálice Sagrado" (1975), David Zucker teve a ideia de satirizar o gênero de ação policial que estava em voga na época e fazendo piada das principais fórmulas de sucesso, desde as explosões tiros e protagonistas com pinta de durão. Neste último caso, por exemplo, foi muito bem representado pelo inesquecível ator Leslie Nielsen.
Até os anos setenta Nielsen era conhecido por ser um ator sério e tendo já atuado em diversos papéis, tanto para o cinema como também para tv. Porém, foi no papel de coadjuvante no já citado "Apertem os Cintos o Piloto Sumiu" que o intérprete conquistou o público, em uma trama que satiriza os filmes catástrofes da época. A dobradinha entre o diretor e intérprete, portanto, voltaria em questão de tempo e "Corra que a polícia Vem Aí" foi um sucesso já mais do que esperado.
Assim como no clássico de 1980, David Zucker e Jerry Zucker criam uma trama que, não somente satiriza o gênero de ação e policial, como também a própria paranoia que assolava na época nos EUA em tempos de Guerra Fria. Já na abertura, por exemplo, o protagonista enfrenta diversos ditadores em reunião, incluindo uma cópia Mikhail Gorbachev e que passa por uma piada referente a sua mancha na testa. Hoje uma piada como essa seria até mesmo impensável, mas na época era feito e riamos da situação como um todo.
Outro fator determinante para o sucesso do filme foi as inúmeras situações que ocorrem na tela, desde o protagonista agir seriamente em situações absurdas, como também situações cartunescas que rolam ao fundo da cena principal. Leslie Nielsen parece se divertir a todo momento, mesmo aparentando seriedade nas cenas em que as piadas extrapolam, mas fazendo as maiores caretas nos momentos certos. Uma das minhas cenas preferidas é quando ele fica pendurado em um prédio, se segurando no pênis da estátua e culminando em um momento em que quase morri de gargalhada quando pequeno. Curiosamente, foi o filme que eu tive conhecimento sobre a Rainha da Inglaterra, Elizabeth II, e cuja atriz que encontraram na época era extremamente idêntica.
Outra curiosidade é referente aos atores coadjuvantes, como no caso de O. J. Simpson, mundialmente conhecido na época como ídolo do esporte norte americano, mas que posteriormente seria acusado e julgado pelo assassinato de sua própria esposa. Ao assistir ao filme com essa informação hoje em dia, a sensação é um tanto estranha, mas que não tira o brilho do longa. Com a participação inusitada de Priscilla Beaulieu-Presley, o filme se tornou um estouro de bilheteria na época, rendendo mais duas continuações e servindo de modelo para outros filmes sátiras como no caso da franquia "Todo Mundo em Pânico" iniciada em 2000.
O próprio David Zucker retornaria na direção neste tipo de filme em "Todo Mundo em Pânico 3 e 4, além de convidar o seu velho parceiro Leslie Nielsen para uma participação especial. Com a nova versão do clássico chegando aos cinemas isso serve como uma bela desculpa para que essa nova geração vá conhecer o clássico e tendo uma noção de como se fazia uma ótima comédia de tempos longínquos."Corra que a Polícia Vem Aí" foi um divisor de águas para o gênero comédia e que obrigatoriamente merece ser revisitada mesmo nessa época politicamente correta.
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