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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Cine Dica: Em Cartaz: O CLÃ

Sinopse: Em meados dos anos 1980, a Argentina passava pelo fim da Guerra das Malvinas e da ditadura militar. No meio desse clima, o patriarca da família Puccio, Arquímesdes (Guillermo Francella), seus filhos Daniel e Alejandro e alguns amigos sequestram e matam empresários, enquanto tentam manter as aparências de uma família normal.


Não é somente o cinema Brasileiro que, uma vez ou outra, retrata o turbulento período da ditadura militar. Na realidade boa parte da América latina sofreu com as mazelas desse período, mais precisamente durante as décadas de 60, 70 e metade da década de 80. Portanto, não é surpresa que Argentina se encontre nessa fileira em colocar tudo pra fora sobre os atos e consequências desse período e O Clã vem para fortalecer isso.
Na realidade o filme retrata mais as consequências daquele tempo, já que o filme retrata uma família, cujo patriarca (Guillermo Francella, extraordinário) trabalhava para o governo e o que dá entender é que ele sujava as mãos, desde sequestrando ou até matando determinados alvos políticos. Com o fim da ditadura, mas nenhum pouco satisfeito com isso, o protagonista então decide sequestrar pessoas, que por sua vez possui parentescos com pessoas poderosas, para assim então extorquir dinheiro através de sequestro. O problema é que ele mata as pessoas que ele sequestra, e o que é pior, com ajuda de sua própria família que não enxerga o próprio horror acontecendo dentro de casa.
Baseado em fatos verídicos ocorridos na década de 80, o filme somente agora ganhou vida através das mãos do cineasta Pablo Trapero. Não poderia ser mais do que oportuno, já que Trapero gosta de tocar nas feridas de diversos assuntos, seja política, corrupção e o lado podre da sociedade contemporânea. Revendo filmes como Abutres e Elefante Branco, se percebe que eles pareciam uma espécie de ensaio para algo maior que estaria por vir e O Clã é a peça que faltava. Fora o fato de uma reconstituição de época perfeita, Trapero prossegue com o seu vicio na criação dos planos sequência que já foram vistos em seus filmes anteriores. Se a pessoa é familiarizada com a sua obra, ela já estará preparada para o que está por vir, já que quando começa um plano sequência, é sinal que o cineasta irá nos impressionar no final da cena. Pegamos, por exemplo, um sequestro orquestrado pelo protagonista, mas que o resultado acaba sendo de uma chocante reviravolta. Porém, mesmo com toda mão firme do cineasta, o filme não funcionária sem um elenco afiado, mas isso é o que ele tem exatamente em mãos. Arquímedes Puccio, o patriarca da família, com certeza entrará na lista dos melhores vilões do ano e muito disso se deve ao ator  Guillermo Francella: visto em filmes como o já clássico o Segredo dos Seus Olhos, Francella se apresenta aqui envelhecido, mas com uma força que vem através da  insanidade do seu personagem e isso se fortalece ainda mais com o seu olhar frio e calculista.
Nos não sentimos remorso vindo da sua parte, mas sim uma convicção de que ele acredita que está fazendo a coisa certa, tanto para ele como para sua família. Embora não aja um discurso vindo de suas palavras, suas ações e convicções me lembraram muito a interpretação de Charles Chaplin em Monsieur Verdoux (1947), em que o personagem matava as suas mulheres para pegar a sua parte da herança e que, faz uma crítica sobre o governo no final do filme, já que a guerra matou muito mais do que ele próprio, segundo ele. Aqui o protagonista se encontra num terreno familiar, aonde o seu governo e guerras das quais ele veio a presenciar o moldaram a ser o que ele veio a se tornar, dando a entender que, tudo o que ele faz, é porque acredita que o país lhe deve. Com uma família condizente (em aparências) com relação às ações do patriarca, o lado de conflito e remorso se encontra nos ombros do personagem Alejandro (Peter Lanzani). Jogador, e com uma bela namorada, o rapaz sonha com um futuro promissor, mas que se vê sempre arrastado ao  trabalho obscuro vindo do seu pai. Peter Lanzani se sai bem em cena, não devendo nada perante o desempenho magnético Guillermo Francella e sua cena final está entre os momentos mais imprevisíveis da trama e fazendo com que o tal momento não saia tão fácil de nossas lembranças.
Com um final que não há vencedores e nem perdedores nessa realidade crua, O Clã é uma mostra de que como determinados governos são culpados ao criarem determinados monstros e até quando eles conseguem manter escondidos dentro dos seus armários.


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