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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Cine Dica: Em Cartaz: GRAVIDADE

Nascemos sozinhos e morreremos sozinhos. Viver então sozinho não deveria ser um desafio, mas um mero detalhe.

Sinopse: A Dra. Ryan Stone médica e engenheira espacial está em sua primeira missão fora da Terra ao lado do astronauta Matt Kowalsky na última missão de sua carreira. Durante uma caminhada em torno de seu ônibus espacial eles são atacados por uma chuva de meteoros que os deixa sem contato com a base na Terra e à deriva no espaço. Eles precisam agora trabalhar juntos para tentar sobreviver.

Ao longo da minha vida sempre conheci pessoas que não gostam da solidão, por simplesmente temerem ou não suportarem ela, tanto que a idéia de dormirem sozinhos em uma casa no escuro acaba se tornando um verdadeiro filme de terror. Necessitamos do próximo, mas acredito que até certo ponto, pois ele está ali para lhe dar conforto, mas quando surge a necessidade de darmos conta do recado, tudo que ele pode fazer é nos dar apenas um empurrão e o resto é por nossa conta. Isso tudo me veio à mente ao assistir o impressionante Gravidade, em que o cineasta mexicano Alfonso Cuarón, em apenas uma hora e meia de filme, cria uma metáfora sobre nós perante o medo da solidão e nada mais terrível do que estar sozinho no espaço infinito.
Quando se esta lá em cima, você é apenas um fragmento, ou uma mera célula perante o espaço, mesmo estando perto da mãe terra, mas testemunhando o quão somos frágeis perto do nosso maravilhoso azul. Sabendo disso, Cuarón já no inicio do filme, nos presenteia com uma das mais deslumbrantes imagens da terra jamais vistas no cinema, nos fazendo ter a mesma sensação que os astronautas (Sandra Bullock e George Clooney) estão tendo, quando precisam fora da espaçonave concertar certo aparelho. O teste de fogo perante a maravilha do desconhecido acontece quando fragmentos de outra espaçonave os atingem em cheio e fazendo que ambos se percam no nada.
Isso tudo acontece nos primeiros vinte minutos de projeção, que para o nosso espanto, não há cortes em nenhum momento nesse meio tempo. Para aqueles que já assistiram ao ultimo filme do diretor (Filhos da Esperança), já esperavam por algo parecido, mas ninguém imaginava o quão longe ele chegaria, fazendo junto com sua câmera algo mágico e poucas vezes testemunhado na tela grande. Como se já não bastasse, por vezes a câmera de Cuarón se torna os olhos da personagem de Bullock, captando o que ela está vendo e nos fazendo ter a sensação de verdadeira montanha russa do que ela esta passando no espaço.
A intenção do cineasta, ao lado do seu filho roteirista Jonas esta mais do que clara: fazer com que o espectador sinta as mesmas sensações que a personagem está sentido durante a projeção. Para que isso aconteça, acontece aqui, o que talvez seja o melhor casamento da técnica cinematográfica com o bom desempenho dos atores que é algo que não se via a um bom tempo. Fora a mágica que o diretor cria com a câmera já citada, testemunhamos aqui o bom uso do 3D, que para o espanto de todos é o famigerado convertido, mas que não deve nada ao formato de um filme que foi criado dessa forma do começo ao fim. O segredo dessa façanha está no fato de Cuarón ter pensando em cada cena que estava filmando, em como ela ser comportaria em 3D e nos apresentando então, uma verdadeira aula de como se faz com bom uso dessa ferramenta e ensinando para aqueles cineastas que converteram os seus filmes, mas falharam erroneamente.
Se a técnica não falha, o mesmo pode-se dizer também pelo ótimo desempenho de Sandra Bullock, ao interpretar uma cientista que guarda uma dor vinda do seu passado e que se sente fora do seu mundo, ao adentrar e se perder no espaço infinito. É fácil nos identificarmos com ela, mesmo ela passando por algo que poucos de nos passou um dia, mas o medo de morrer sozinha em meio ao nada é algo que com certeza a maioria de nos ninguém quer passar e, portanto torcemos por ela a cada momento, mesmo quando da à impressão que ela esta pronta para desistir de tudo. O seu passado pessoal o assombra, fazendo com que ela se sentisse perdida e sozinha muito antes do acidente espacial.
Com isso, o personagem Matt Kowalsky (George Clooney) se torna o seu empurrão para continuar em frente, uma espécie de corrente na qual Ryan não pode se desprender e mesmo ele desaparecendo no decorrer do filme, o seu personagem acaba se tornando uma força matriz para ela. A partir disso, vemos o amadurecimento da personagem perante aos obstáculos, seja com os objetos espaciais que a atingem, seja devido a uma nave que não quer funcionar quando deveria. Testemunhamos então, o nascimento gradual de uma nova Ryan, diferente que nos foi apresentada no inicio da trama, pois se aquela não deixasse de existir, tudo seria então bem pior.
Se fossemos resumir então o filme como um todo, seria algo como “conhece-te a ti mesmo”, em que o cenário, que é o espaço infinito, nos remete imediatamente a 2001: Uma Odisséia no Espaço. Ambos os filmes compartilham sobre autodescobrimento, seja ele interno ou externo, muito embora ainda não fosse dessa vez que a obra máxima de Kubrick sobre o espaço foi superada, mas bem que chegou perto. Falando em referencias, o filme possui inúmeras delas, sendo que o cinéfilo mais atento percebera homenagens ao já citado 2001 e que vai de Alien e até mesmo Wall-e.
Gravidade é, portanto, um filme que merece ser visto e revisto na tela grande, de preferência no Imax 3D, que lhe dará um espetáculo de som imagem que valerá o seu investimento na ida do cinema. Um filme que nos remete aos bons tempos em que o cinema americano fazia grandes espetáculos, mas aliados a um ótimo roteiro e com emoção humana genuína. Num ano que parecia que seria lembrado como um período de inúmeros fracassos cinematográficos, Gravidade veio para provar que ainda há esperança para aqueles que buscam assistir o cinema espetáculo de verdade. 


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