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Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Dia D'

Sinopse: Acompanha o colapso global quando um evento inexplicável, transmitido ao vivo na TV, revela que os governos escondem a existência de vida extraterrestre há quase um século, desencadeando pânico e uma crise sem precedentes.

Durante a década de 1950, Hollywood lançou dezenas de filmes sobre monstros radioativos e invasores do espaço. Tudo funcionava como uma espécie de metáfora da paranoia da Guerra Fria, época em que o temor perante o comunismo era tamanho que os norte-americanos mal sabiam o real significado da palavra, embora tivessem certeza de que ela deveria ser temida. Porém, houve um longa-metragem que seguiu pelo caminho inverso dessa tendência.

"O Dia em que a Terra Parou" (1951), de Robert Wise, trazia um alienígena como protagonista que buscava um meio de alertar a humanidade para alcançar a paz, evitando que as pessoas fossem aniquiladas pelas próprias ações errôneas daquele período. Um filme à frente de seu tempo e que, com certeza, influenciou diversos futuros diretores, como é o caso de Steven Spielberg. Sonhador como poucos, o cineasta construiu sua carreira inspirado no que ouviu e assistiu na infância e na adolescência, resultando em verdadeiras obras-primas.

Longas como "Contatos Imediatos do Terceiro Grau" (1977) e "E.T.: O Extraterrestre" (1982) revelavam o lado pacífico desses seres espaciais, e o realizador incrementava a narrativa com um realismo que até hoje impressiona e fascina. Spielberg só voltaria a explorar o mundo dos aliens em "Guerra dos Mundos" (2005) que, revisto hoje, funciona como uma clara metáfora do temor norte-americano após o 11 de Setembro. Vários anos depois, eis que o cineasta nos entrega "Dia D" (2026), obra que caminha de mãos dadas com os dias atuais, nos quais cada vez mais tememos pelo amanhã.

Na trama, Emily Blunt interpreta Margaret, uma apresentadora de telejornal que, certo dia, começa a falar uma língua estranha ao vivo. Ao mesmo tempo, Daniel Kellner (Josh O'Connor) e sua namorada Ane Blankenship (Eve Hewson) possuem arquivos valiosos que revelam que o governo dos EUA sempre teve contato com seres alienígenas, mas escondia o fato da população. Porém, uma organização secreta liderada por Noah Scanlon (Colin Firth) está disposta a tudo para que essas informações não vazem em hipótese alguma.

Steven Spielberg prova neste filme por que é sempre apontado como um dos melhores diretores de todos os tempos; é impressionante a sua qualidade de direção. Além dos jogos de luz e sombra corriqueiros de sua filmografia, é incrível como o realizador faz sua câmera navegar com fluidez. Em diversas cenas, momentos de perseguição automobilística se tornam sufocantes, transmitindo peso e um elevado grau de perigo. Além disso, são espantosos alguns planos-sequência em que algo sempre é mostrado ao fundo do quadro, sem nunca perder o foco no protagonista que busca não ser visto pelos algozes.

Essa é uma prova mais do que bem-vinda de que o diretor continua um grande contador de histórias e um mestre na elaboração de grandes sequências. Em tempos nos quais o CGI dá sinais de desgaste a todo momento, impressiona como o realizador se preocupa em criar momentos verossímeis que prendem o espectador na poltrona imediatamente: a cena do trem, por exemplo, já nasce como uma das melhores sequências de ação do ano.

Porém, acima de tudo, "Dia D" é um filme moldado por personagens extremamente humanos, jogados em situações que eles mesmos buscam compreender. Se por um lado há Daniel, que fará de tudo para revelar a verdade às pessoas, por outro, Ane teme que isso destrua a fé da população, principalmente diante da iminência de uma inevitável Terceira Guerra Mundial. Noah Scanlon, por sua vez, não é um vilão convencional; suas motivações para acobertar a verdade fazem sentido, deixando no ar a grande pergunta: o ser humano está realmente disposto a encarar o fato de que não está sozinho no universo?

Mas, de todos os personagens, é Margaret quem se torna a nossa representação na trama, já que é uma cidadã comum que se vê em uma situação difícil de explicar. Curiosamente, sua jornada remete à do personagem de John Travolta no filme "Fenômeno" (1996), visto que ambos manifestam poderes similares. Porém,  Emily Blunt se sobressai na comparação.

Chamando a atenção inicialmente no longa "Meu Amor de Verão" (2004) e se consagrando em "O Diabo Veste Prada" (2006), Blunt entrega aqui uma das melhores atuações de sua carreira. Sua Margaret é cheia de vida e espirituosa, mas não esconde as lembranças que a assombram e a fazem temer o futuro. No momento em que ela abre sua mente de forma inédita, temos a impressão de que esse gatilho também é acionado em nós, tamanha a facilidade com que a intérprete nos faz identificar com a personagem em sua total plenitude.

Também é interessante observar a maneira como o diretor explora a presença dos alienígenas. Sendo inicialmente sugeridos por meio de animais que surgem na trama, os seres espaciais aparecem de forma gradual. O diretor demonstra uma predileção pelo minimalismo, apostando no que é sugestivo para dar maior peso dramático aos momentos. Quando as criaturas finalmente surgem — principalmente em um flashback revelador —, o momento impressiona, mesmo que cause a leve impressão de ser algo parecido com o que já vimos em outras obras.

Se há um ponto falho no roteiro, é a maneira como a grande revelação é feita. Em tempos de informação instantânea via internet, fica difícil aceitar que o papel das redes televisivas tradicionais ainda seja tão primordial hoje em dia, quando grandes eventos como a Copa do Mundo já não atraem a massa da mesma forma. Ainda assim, as cenas reveladas através da TV, para posteriormente serem espalhadas pelas redes mundiais, impressionam pelo realismo e passam a sensação de que já havíamos testemunhado aquelas imagens em algum momento de nossas vidas.

Em suma, é um filme que chega exatamente no momento em que não sabemos ao certo como será o amanhã, pois vivemos com grandes potências em conflito, desenhando um cenário cada vez mais sombrio. Assim como o clássico "O Dia em que a Terra Parou", Steven Spielberg surge com esta obra para nos fazer parar por um momento. Ele nos força a questionar se somos evoluídos o bastante para voltar a olhar para o céu, ou se estamos predestinados a um fim amargurado através da extinção. A mensagem foi dada; o que falta é colocá-la em prática.

"Dia D" traz o Steven Spielberg dos velhos tempos, onde fantasia, fé e reflexão se unem para nos fazer pensar sobre nós mesmos e sobre o declínio do mundo atual.

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domingo, 14 de junho de 2026

Cine Dica: Streaming – 'Spider-Noir'

Sinopse: O detetive particular Ben Reilly é contratado para casos simples, até que gângsteres, monstros e uma misteriosa femme fatale tecem uma teia que o obriga a confrontar seu passado como o único super-herói de Nova York: O Spider.

As adaptações de HQs de super-heróis para o cinema encontram-se desgastadas hoje, e não adianta esconder o fato de que a principal culpada por isso seja a própria Marvel. Misturando humor com aventura, essa fórmula prevaleceu até "Vingadores: Ultimato" (2019), mas, após isso, foi ladeira abaixo. Para a TV, ao menos, algumas pérolas precisam ser reconhecidas, como nos casos de "WandaVision"(2021),"Agatha Desde Sempre" (2024) e, mais recentemente, "Demolidor: Renascido" (2026).

Outro fator determinante para essa queda vertiginosa é a insistência do estúdio em interligar todas as produções, ao ponto de o espectador desejar assistir a um título, mas ser obrigado a ver outro para entender o contexto. Por conta disso, a Marvel muitas vezes deixa de fazer cinema para vender um produto dependente de outro, e mais outro, chegando ao ponto da saturação e fazendo o público se perguntar onde o estúdio errou. Felizmente, não é o que acontece com "Spider-Noir" (2026), que não somente explora uma versão alternativa do personagem clássico, como também respira de forma independente, sem o auxílio de qualquer série ou filme vizinho.

Desenvolvida por Oren Uziel, a série é baseada no personagem Homem-Aranha Noir, que originalmente apareceu nos quadrinhos da Marvel Comics e ganhou grande destaque na animação "Homem-Aranha no Aranhaverso" (2018). Na produção live-action, Nicolas Cage dá vida ao herói aracnídeo dos anos 1930 em uma fase de decadência. Reilly trabalha como investigador particular enquanto contempla seu passado como o outrora único super-herói de Nova York.

Tanto no cinema quanto nas HQs, se o multiverso for usado de forma bem pensada, pode sim gerar boas histórias. É sempre interessante pegar um personagem clássico e colocá-lo em uma situação inédita, ou modificá-lo para apresentar uma nova faceta ao público. É exatamente isso o que acontece com este Homem-Aranha dos anos trinta que, além de possuir uma história fechada e bem amarrada, presta uma bela homenagem a épocas douradas do entretenimento.

Para começar, a figura do herói é toda inspirada nos primórdios das HQs das décadas de 1930 e 1940, que normalmente eram protagonizadas por figuras misteriosas como "O Sombra". Eram tempos em que luzes e sombras moldavam as narrativas, trazendo pinceladas investigativas que tornavam a leitura um verdadeiro prazer. Tempos mais inocentes, mas que dava gosto de apreciar.

Visualmente, a série não só reverencia esse período dos quadrinhos, como também é um grande tributo ao subgênero cinematográfico noir, que teve seu ápice entre os anos 1940 e 1950. O detetive Ben de Nicolas Cage nada mais é do que uma versão caricata — no bom sentido da palavra — do personagem Sam Spade, interpretado por Humphrey Bogart no clássico "Relíquia Macabra" (1941). Foi um período em que os filmes eram moldados em preto e branco, onde o claro-escuro dava o tom da narrativa, tornando a atmosfera mais pesada e sedutora na medida certa.

Curiosamente, a série foi concebida originalmente em preto e branco para sintetizar essa época, mas conta com o recurso para que os fãs possam assisti-la também colorida, cuja fotografia remete aos primórdios do Technicolor no cinema. E se você estranhar determinadas cenas fora dos padrões, com a câmera inclinada, saiba que isso é proposital: o famoso "ângulo holandês", muito visto neste tipo de subgênero. Nada mal para uma série de televisão respirar cinema como um todo.

Colecionando diversos fracassos (e alguns sucessos) recentes, Nicolas Cage desta vez acerta em cheio ao interpretar um personagem que se encaixa como uma luva para ele. Seu Homem-Aranha é uma figura quebrada, distante dos dias de glória e sucumbindo às vezes na bebida. Ou seja, um herói falho com quem a gente se identifica e se diverte quando ele se mete nas mais diversas enrascadas.

É interessante observar que aqui não há um humor bobo, mas sim sombrio, ácido e que não tem medo de explorar territórios mais maduros. Além disso, a clássica femme fatale dos filmes de antigamente é muito bem representada pela atriz Li Jun Li, que desde a primeira cena deixa claro que não é alguém em quem se deva confiar. Os vilões, por sua vez, são figuras familiares do universo tradicional do Homem-Aranha, mas apresentados de forma bem mais obscura, liderados pelo Silvermane (Cabelo de Prata), interpretado de maneira formidável por Brendan Gleeson.

Dito isso, a série chega em um momento de incertezas para o gênero de super-heróis, no qual os realizadores parecem não saber ao certo como agradar a um público mais exigente. Spider-Noir, ao menos, não soa pretensiosa; seu intuito é nos brindar com uma aventura policial à moda antiga, sem a preocupação de lançar ganchos para interligar outras obras. Nunca é demais uma produção saber andar com as próprias pernas.

Com um episódio final que faz uma belíssima referência ao clássico "A Dama de Xangai" (1947), do diretor Orson Welles, "Spider-Noir" é o exemplo perfeito de que o gênero ainda tem muito a oferecer, desde que seja conduzido por mãos talentosas.

Onde Assisitir:  Prime-video 

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Cine Dica: Cine Dica: Próxima Atração do Cine Clube Torres -'Submarino'

 Segunda dia 15, às 20h, o Cineclube Torres vai exibir o filme dinamarquês "Submarino" (2010) de Thomas Vinterberg.

É a terceira sessão do ciclo dedicado à produção audiovisual de países nórdicos europeus, na Sala Audiovisual Gilda e Leonardo. O filme, do diretor dinamarquês Thomas Vinterberg, representa, ainda que parcialmente, a fase estética do Dogma 95, filmado com câmara na mão e sem excessivo cuidado formal, como em "Festa de Família", do mesmo autor, exibido ano passado.

E assim como em "Festa de Família", os traumas de infância definem o fracasso e a desfuncionalidade dos personagens de Submarino: dois irmãos se encontram no funeral de sua mãe, cada um num caminho de autodestruição, ambos assombrados por uma tragédia ocorrida em sua juventude."Submarino mergulha lá no fundo da alma humana, onde ela praticamente se perde pelo caminho e esquece de deixar a guia para conseguir voltar à superfície. De tão real, é capaz de te levar também para as profundezas e impedir que você aprecie a beleza do filme. Apesar de ser tão cruel. (Cine Garimpo).

A sessão será realizada na Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, na rua Pedro Cincinato Borges 420, em parceria com a Up Idiomas Torres e com entrada franca até a lotação do espaço. O Cineclube Torres é uma associação sem fins lucrativos, em atividade desde 2011; Ponto de Cultura certificado pela Lei Cultura Viva federal e estadual; Ponto de Memória pelo IBRAM; Biblioteca Comunitária no Mapa da Cultura, Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística certificada pelo Ministério do Turismo (Cadastur); Selo Destaque no Turismo da Georrota Cânions do Sul.



Serviço:

O que: Exibição do filme "Submarino" (2010) de Thomas Vinterberg

Onde: Sala Audiovisual Gilda e Leonardo, junto à escola Up Idiomas, Rua Cincinato Borges 420, Torres

Quando: Segunda-feira, 15/6, às 20h

Ingressos: Entrada Franca, até lotação do local (aprox. 22 pessoas).

Cineclube Torres

Associação sem fins lucrativos

Ponto de Cultura – Lei Federal e Estadual Cultura Viva

Ponto de Memória – Instituto Brasileiro de Museus

Sala de Espetáculos e Equipamento de Animação Turística - Cadastur

CNPJ 15.324.175/0001-21

Registro ANCINE n. 33764

Produtor Cultural Estadual n. 4917

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Cine Especial: Clube de Cinema - 'Três Mulheres'

 Nota: Filme visto pelos associados no dia 30/05/26


Quando se pensa no cinema sueco, imediatamente se pensa em Ingmar Bergman. Ao longo de sua impecável carreira, o realizador criou filmes enigmáticos nos quais falava sobre si mesmo, sobre sonhos, solidão, comportamento e até o papel da religião na vida do ser humano. Não é à toa que o cineasta serviu de inspiração para realizadores no mundo inteiro.

Woody Allen, por exemplo, bem que tentou em "Interiores" (1978), mas alcançou um equilíbrio perfeito entre a homenagem e sua própria visão autoral em "Crimes e Pecados" (1989). Já o nosso Walter Hugo Khouri chegou bastante perto da essência de Bergman através de "Noites Vazias" (1964). Contudo, é de surpreender o resultado final de "Três Mulheres" (1977). Talvez um dos títulos menos conhecidos da filmografia de Robert Altman, quando revisto, torna-se notório que o realizador buscou inspiração na obra do diretor sueco.

Robert Altman nunca se prendeu a uma única assinatura visual ou temática na realização de suas obras; preferia experimentar todos os gêneros que lhe dessem na telha, importando-se pouco se o resultado seria um sucesso ou um fracasso de bilheteria. Não foi alguém que se entregou aos padrões convencionais de Hollywood, tanto que seus títulos mais conhecidos diferem drasticamente entre si. Basta pegarmos obras como "M.A.S.H." (1970) e "Nashville"(1975) para termos um bom exemplo disso.

Segundo as próprias palavras do realizador, ele fez Três Mulheres inspirado em um sonho incomum que teve em uma determinada noite. Na trama, Pinky Rose (Sissy Spacek) é uma jovem que acaba de conseguir um emprego em um spa de idosos. Mildred (Shelley Duvall) é a encarregada de orientar Pinky sobre o serviço. A jovem se encanta por Millie e logo se torna sua amiga. Ironicamente, ninguém gosta de Millie, mas ela tenta passar a imagem de ser muito popular. Pinky fica cada vez mais dependente da nova amiga, mas essa ligação obsessiva ameaça se romper quando ela vê que Millie levou para o apartamento Edgar Hart (Robert Fortier), um cowboy casado com Willie Hart (Janice Rule), uma artista local que está grávida.

Através da relação entre as duas protagonistas, Robert Altman faz uma síntese de um período de mudanças comportamentais que já vinha ocorrendo há algum tempo em solo norte-americano, mesmo que uma sociedade conservadora tentasse negar. Pinky é a representação da jovem que busca desabrochar espelhando-se em alguém que admira, mas sem saber ao certo como conquistá-la. Já Millie é alguém que insiste em se manter no lado convencional da sociedade, enganando a si mesma e perdendo a própria identidade. Curiosamente, o acidente que Pinky sofre na piscina funciona como uma válvula de escape, e é a partir daí que o filme muda completamente.

É neste ponto que a obra me faz relembrar "Persona" (1966), no qual Ingmar Bergman brinca com a dualidade e as identidades reais de suas protagonistas. No caso deste longa, Altman lança diversas teorias sobre as reais personalidades e intenções de suas personagens, onde o sonho se torna uma peça desse mistério — mas sem ser exatamente primordial, para dizer o mínimo. Quem assiste nunca obtém uma resposta fácil, mas, ao revisitarmos a obra, nota-se o quanto o filme cresce à medida que levantamos novas possibilidades.

Curiosamente, a personagem de Janice Rule seria a terceira mulher do título, embora tenha menos tempo de tela. Porém, seu papel acaba se tornando fundamental para a movimentação das peças dentro da trama, já que ela é ambígua, de poucas palavras e exerce um curioso trabalho com suas pinturas. Estas, por sua vez, funcionam como uma referência ao status de cada personagem no decorrer da história, ou simplesmente representam os demônios interiores que aquelas mulheres buscam conter.

No meu entendimento, este é um filme que fala sobre o vazio das mulheres em um período no qual o lado hipócrita e abusivo do homem já estava desgastado demais para ser tolerado. Ao mesmo tempo, reflete tempos em que as mulheres lutavam por posses e independência individual, quando, na verdade, o verdadeiro poder se encontrava na união entre elas, em um mundo que se tornava cada vez mais cruel e desumano. O ato final me despertou esse pensamento, mas claro que posso estar errado, e talvez tenha sido exatamente esse efeito de ambiguidade que Robert Altman queria obter de quem assistisse ao seu enigmático enredo.

"Três Mulheres" talvez tenha sido uma homenagem indireta de Robert Altman a Ingmar Bergman, mas que se tornou algo único e enigmático através dos anos, conquistando a sua própria identidade no cinema.


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Cine Dica: Clube de Cinema de Porto Alegre: "Cleo" (13/06) no Instituto Goethe

Neste sábado, dia 13 de junho, nosso encontro será às 10h15 da manhã, no auditório do Instituto Goethe, onde assistiremos ao filme Cleo, primeiro longa-metragem do cineasta alemão Erik Schmitt.

Misturando aventura, romance e fantasia, o filme transforma Berlim em um espaço repleto de histórias, lendas urbanas e passagens secretas. Ao acompanhar a jornada de uma jovem em busca de um relógio capaz de voltar no tempo, Schmitt constrói animações, truques visuais e referências à história berlinense. Cleo propõe um passeio por diferentes camadas do passado e do presente, explorando a relação entre perdas, desejos e a possibilidade, real ou imaginária, de reescrever a própria vida.

Além da sessão de sábado, reforçamos que amanhã (quinta, 11/06), às 19h, damos continuidade ao ciclo "Nouvelle Vague e suas influências", promovido em parceria com a Sala Redenção. O filme da vez é A Chinesa, de Jean-Luc Godard. Após a sessão, haverá um bate-papo com os pesquisadores Alexandre Guilhão e Juliana Costa. Neste ano, o ciclo participa de ação de extensão da UFRGS, de forma que oferece certificação aos participantes, possibilitando o aproveitamento de horas complementares. Inscreva-se!

🗳️ ÚLTIMO DIA PARA VOTAR! A votação para definir os projetos que serão contemplados pela emenda parlamentar que pode beneficiar a preservação da memória do Clube de Cinema se encerra HOJE! Ainda dá tempo de participar, compartilhar com amigos e familiares. A votação leva cerca de 1 minuto: acesse o site, cadastre seus dados, escolha um projeto da saúde e, em "Demais Áreas", selecione Clube de Cinema de Porto Alegre (código 0058). Contamos com a sua ajuda!


SESSÃO DE SÁBADO NO CLUBE DE CINEMA

📅 Data: Sábado, 13/06, às 10h15 da manhã

📍 Local: Instituto Goethe

Rua 24 de Outubro, 112 – Moinhos de Vento, Porto Alegre

🎟️ Entrada franca e aberta à comunidade


Cleo

Alemanha, 2019, 99min

Direção: Erik Schmitt

Roteiro: Erik Schmitt e Stefanie Ren

Elenco: Marleen Lohse, Jeremy Mockridge, Heiko Pinkowski, Max Mauff

Sinopse: Fascinada pelas histórias e mistérios de Berlim, Cleo sonha encontrar um lendário relógio capaz de voltar no tempo. Quando conhece Paul, um jovem caçador de tesouros que possui pistas sobre o paradeiro do artefato, ela embarca em uma aventura que atravessa diferentes lugares, épocas e memórias da cidade.

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Cine Dica: Em Cartaz – 'Trago o Seu Amor'

Sinopse: Mia, uma bruxa egocêntrica, tem um poder inusitado: quem a beija se apaixona por ela ou volta a se apaixonar pela última pessoa que amou.

A comédia romântica atual tem despertado a atenção do grande público após anos de esgotamento de sua fórmula de sucesso. Produções como "Amores Materialistas" (2025) e "Amores à Parte" (2025) caminham de mãos dadas ao retratar as reais dúvidas de uma sociedade cada vez mais individualista e menos sonhadora em relação ao amor. Em contrapartida, o longa brasileiro "Trago o Seu Amor" (2026) retrocede ao passado ao utilizar velhas estruturas do gênero, tornando-se apenas um aperitivo passageiro para aqueles que ainda celebram o Dia dos Namorados.

Dirigido por Claudia Castro, o longa traz Giovanna Grigio na pele de Mia, uma bruxa com o poder de enfeitiçar qualquer pessoa com um beijo. Junto com seu melhor amigo, Ariel (Diego Martins), ela abre um negócio esotérico para atender clientes de coração partido que desejam reconquistar seus ex-amores. O que ela não imaginava era que acabaria se apaixonando por René (Jê Soares), transformando-se, no dia seguinte, no próximo alvo de seu próprio trabalho a pedido de Yuri (João Manoel).

Trabalhando como assistente de direção de filmes e séries ao longo dos anos, Claudia Castro mostra que ainda tem muito a aprender atrás das câmeras — e, portanto, só posso desejar-lhe boa sorte. A produção possui aquela velha fotografia supersaturada e colorida das comédias nacionais tradicionais, funcionando como um cartão de boas-vindas para que o espectador se sinta à vontade para apreciar um mero passatempo. A obra chega a ser curiosa ao cruzar gêneros distintos, mas não vai muito além disso.

Logicamente, é um projeto com o qual o público geral pode se identificar, já que muitos de nós, em algum momento, já recorremos a uma simpatia ou a profissionais experientes no assunto. Giovanna Grigio se sai bem como a "bruxa de autoajuda", mas o fato de ela ser imune aos sentimentos de quem se aproxima já entrega o que acontecerá em seguida. Suas cenas com Jê Soares até fluem com boa química, mas a dinâmica não passa disso.

Porém, quem rouba a cena é Diego Martins. Seu Ariel funciona como uma espécie de consciência para a protagonista, brindando o espectador com os momentos mais divertidos da trama. Curiosamente, o roteiro dá a entender que ele terá uma aproximação com o personagem de João Manoel, mas a subtrama fica estranhamente no ar, como se algum rolo de filme tivesse sido sacrificado na edição final. Uma pena, pois Diego transmite uma energia contagiante sempre que surge em cena, algo de que a narrativa precisava muito.

Se tivesse sido lançado nos anos noventa ou no início dos anos 2000, o filme poderia ser mais apreciado, surgindo até mesmo como uma obra à frente de seu tempo por explorar o afeto homoafetivo. No entanto, ele chega em um cenário em que o gênero exige atualização, e não a insistência em uma fórmula cujo desfecho já conhecemos de cor. Para quem se lembra do final do clássico "um Lugar Chamado Notting Hill" (1999), já adianto: vocês irão presenciar um verdadeiro déjà-vu.

"Trago o Seu Amor" chega atrasado perante o novo panorama da comédia romântica, mesmo com suas boas intenções de atrair os que ainda teimam em acreditar na existência de uma alma gêmea.



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quinta-feira, 11 de junho de 2026

Cine Dica: Em Cartaz - 'BuenosAires'

Sinopse: Longa acompanha uma pequena cidade do interior que transforma uma coincidência em vínculos afetivos marcados pelo futebol e pela cultura popular.

Eu já assisti tantos documentários sobre determinadas cidades do interior do Brasil que fica até mesmo difícil me lembrar o nome dos títulos. Porém, eu sempre me lembro que são obras que exploram a cultura local e revelando o quanto ainda há certos costumes de nosso país que a gente ainda desconhece. Um desses casos é "BuenoAires" (2025), documentário que nos revela uma cidade que os nossos hermanos argentinos se sentiriam mais à vontade.

Dirigido por Tuca Siqueira, o documentário se passa na Zona da Mata de Pernambuco, Nordeste do Brasil, o município de Buenos Aires tem o mesmo nome da capital da Argentina. Uma professora de espanhol apresenta personagens e lugares da cidade, uma paisagem de contrastes sociais com influências das diferentes culturas. Apesar de não haver vestígios da passagem de portenhos pelo lugar, alguns habitantes enfatizam a "coincidência” de diversas formas e criam um vínculo afetivo com o país vizinho. Jogos de futebol, um desfile do Maracatu Estrela Dourada e a chegada de um argentino como novo morador evidenciam essas ligações durante a última Copa do Mundo.

É curioso observar que Tuca Siqueira não procura os motivos que levaram essa cidade a ganhar esse nome, mas sim como as pessoas convivem com ela em sua realidade. Visualmente a região possui toda cultura nordestina como um todo, mas tendo inserido aqui e ali elementos culturais dos nossos hermanos, desde as camisetas da seleção, gastronomia e até mesmo um bairro que é uma representação de um local específico da verdadeira Bueno Aires. É neste ponto, por exemplo, que testemunhamos o lado bem humorado dos habitantes de lá, que levam essa situação  na esportiva e preservando essa cultura ano após ano.

Não há rivalidade hostil entre os países através das seleções, mas sim se nota uma discussão saudável entre as pessoas e cada um torcendo de sua maneira. Curiosamente, o documentário foi rodado durante a última Copa, onde a Argentina obteve o seu tri campeonato e fazendo com as gravações ganhassem ainda mais energia durante a produção. Há se destacar também alguns habitantes que são realmente argentinos e que chegaram no local para seguir uma nova vida como um todo.

Um desses é o rapaz argentino que trabalha no ramo em detectar metais abaixo do solo e usando a sua criatividade para manter o ofício ainda intacto. A cena inicial, por exemplo, nos mostra o rapaz chegando à região, como se fosse um guia para essa cidade até então desconhecida para a maioria dos brasileiros. Entre sonhos e esperança, o filme também reserva momentos em que há aqueles que mantêm os seus sonhos intactos, mesmo com poucos recursos, mas é graças ao ambiente amigável da cidade que faz com que certos desejos se mantenham ainda vivos.

Com pouco mais de uma duração,"BuenoAires" é uma representação clara de um Brasil ainda desconhecido e revelando uma cultura que se mescla de forma harmoniosa com o nosso país vizinho. 



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