Sinopse: O detetive particular Ben Reilly é contratado para casos simples, até que gângsteres, monstros e uma misteriosa femme fatale tecem uma teia que o obriga a confrontar seu passado como o único super-herói de Nova York: O Spider.
As adaptações de HQs de super-heróis para o cinema encontram-se desgastadas hoje, e não adianta esconder o fato de que a principal culpada por isso seja a própria Marvel. Misturando humor com aventura, essa fórmula prevaleceu até "Vingadores: Ultimato" (2019), mas, após isso, foi ladeira abaixo. Para a TV, ao menos, algumas pérolas precisam ser reconhecidas, como nos casos de "WandaVision"(2021),"Agatha Desde Sempre" (2024) e, mais recentemente, "Demolidor: Renascido" (2026).
Outro fator determinante para essa queda vertiginosa é a insistência do estúdio em interligar todas as produções, ao ponto de o espectador desejar assistir a um título, mas ser obrigado a ver outro para entender o contexto. Por conta disso, a Marvel muitas vezes deixa de fazer cinema para vender um produto dependente de outro, e mais outro, chegando ao ponto da saturação e fazendo o público se perguntar onde o estúdio errou. Felizmente, não é o que acontece com "Spider-Noir" (2026), que não somente explora uma versão alternativa do personagem clássico, como também respira de forma independente, sem o auxílio de qualquer série ou filme vizinho.
Desenvolvida por Oren Uziel, a série é baseada no personagem Homem-Aranha Noir, que originalmente apareceu nos quadrinhos da Marvel Comics e ganhou grande destaque na animação "Homem-Aranha no Aranhaverso" (2018). Na produção live-action, Nicolas Cage dá vida ao herói aracnídeo dos anos 1930 em uma fase de decadência. Reilly trabalha como investigador particular enquanto contempla seu passado como o outrora único super-herói de Nova York.
Tanto no cinema quanto nas HQs, se o multiverso for usado de forma bem pensada, pode sim gerar boas histórias. É sempre interessante pegar um personagem clássico e colocá-lo em uma situação inédita, ou modificá-lo para apresentar uma nova faceta ao público. É exatamente isso o que acontece com este Homem-Aranha dos anos trinta que, além de possuir uma história fechada e bem amarrada, presta uma bela homenagem a épocas douradas do entretenimento.
Para começar, a figura do herói é toda inspirada nos primórdios das HQs das décadas de 1930 e 1940, que normalmente eram protagonizadas por figuras misteriosas como "O Sombra". Eram tempos em que luzes e sombras moldavam as narrativas, trazendo pinceladas investigativas que tornavam a leitura um verdadeiro prazer. Tempos mais inocentes, mas que dava gosto de apreciar.
Visualmente, a série não só reverencia esse período dos quadrinhos, como também é um grande tributo ao subgênero cinematográfico noir, que teve seu ápice entre os anos 1940 e 1950. O detetive Ben de Nicolas Cage nada mais é do que uma versão caricata — no bom sentido da palavra — do personagem Sam Spade, interpretado por Humphrey Bogart no clássico "Relíquia Macabra" (1941). Foi um período em que os filmes eram moldados em preto e branco, onde o claro-escuro dava o tom da narrativa, tornando a atmosfera mais pesada e sedutora na medida certa.
Curiosamente, a série foi concebida originalmente em preto e branco para sintetizar essa época, mas conta com o recurso para que os fãs possam assisti-la também colorida, cuja fotografia remete aos primórdios do Technicolor no cinema. E se você estranhar determinadas cenas fora dos padrões, com a câmera inclinada, saiba que isso é proposital: o famoso "ângulo holandês", muito visto neste tipo de subgênero. Nada mal para uma série de televisão respirar cinema como um todo.
Colecionando diversos fracassos (e alguns sucessos) recentes, Nicolas Cage desta vez acerta em cheio ao interpretar um personagem que se encaixa como uma luva para ele. Seu Homem-Aranha é uma figura quebrada, distante dos dias de glória e sucumbindo às vezes na bebida. Ou seja, um herói falho com quem a gente se identifica e se diverte quando ele se mete nas mais diversas enrascadas.
É interessante observar que aqui não há um humor bobo, mas sim sombrio, ácido e que não tem medo de explorar territórios mais maduros. Além disso, a clássica femme fatale dos filmes de antigamente é muito bem representada pela atriz Li Jun Li, que desde a primeira cena deixa claro que não é alguém em quem se deva confiar. Os vilões, por sua vez, são figuras familiares do universo tradicional do Homem-Aranha, mas apresentados de forma bem mais obscura, liderados pelo Silvermane (Cabelo de Prata), interpretado de maneira formidável por Brendan Gleeson.
Dito isso, a série chega em um momento de incertezas para o gênero de super-heróis, no qual os realizadores parecem não saber ao certo como agradar a um público mais exigente. Spider-Noir, ao menos, não soa pretensiosa; seu intuito é nos brindar com uma aventura policial à moda antiga, sem a preocupação de lançar ganchos para interligar outras obras. Nunca é demais uma produção saber andar com as próprias pernas.
Com um episódio final que faz uma belíssima referência ao clássico "A Dama de Xangai" (1947), do diretor Orson Welles, "Spider-Noir" é o exemplo perfeito de que o gênero ainda tem muito a oferecer, desde que seja conduzido por mãos talentosas.
Onde Assisitir: Prime-video
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