Quem sou eu

Minha foto
Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador #cinemaclássico. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #cinemaclássico. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Cine Especial: Clube de Cinema - 'Uma Mulher Sob Influência'

 Nota: Filme exibido para os associados no último dia 12/07/26.

Há quem diga que a Nova Hollywood se iniciou a partir de filmes como "Bonnie e Clyde" (1967) e "Sem Destino" (1969). O primeiro, por sua vez, foi dirigido por Arthur Penn, que já havia dado sinais de como seria o novo cinema norte-americano através de obras realistas como "O Milagre de Anne Sullivan" (1962) — um filme que me chocou pelo realismo e pela entrega absoluta do elenco. No centro dessa metamorfose pela qual o cinema dos Estados Unidos passava, um nome curioso chamava a atenção: John Cassavetes.

Sinceramente, só fui conhecê-lo primeiro como ator, em produções como "O Bebê de Rosemary" (1968), mas ele era também diretor, produtor e roteirista do cinema independente. Mesmo com pouco dinheiro no bolso, realizou obras que se destacavam pela ousadia e que escancaravam a realidade nua e crua da época, como no caso de "Faces" (1968). Porém, sem sombra de dúvida, "Uma Mulher Sob Influência" (1974) é a sua maior obra-prima.

Na trama, Nick Longhetti (Peter Falk) está sobrecarregado devido ao seu trabalho braçal em um estaleiro. Sua esposa, Mabel (Gena Rowlands), passa por uma fase difícil, vivendo em constante desequilíbrio emocional, o que a leva a uma profunda crise. Quando os filhos começam a ser afetados pelo estado de Mabel, Nick se vê obrigado a hospitalizá-la, o que o força a assumir sozinho o controle do lar.

Isso é apenas um resumo da potência da obra. John Cassavetes constrói um filme com um teor quase documental, principalmente na cena de abertura, onde vemos os operários no estaleiro, o que nos dá a dimensão do peso daquele tipo de trabalho. Ao mesmo tempo, a vida de dona de casa de Mabel também não é nada fácil: ela tenta cuidar ao máximo dos filhos, mas não esconde a frustração do dia a dia e a solidão por não ter o marido por perto da maneira como desejaria. Mabel é a representação da mulher em uma época de transição; ao não se sentir satisfeita, sai à noite com outro homem, mas depois não sabe ao certo como administrar as consequências de seu ato.

Nick, por sua vez, é o típico marido de uma geração patriarcal, que procura mandar e desmandar perante a esposa, o que não significa que ele seja de todo mau. Lembramos que é o início dos anos setenta, época em que era comum as mulheres ficarem restritas ao lar cuidando da família. Portanto, quando ocorrem as mudanças de comportamento de uma geração que não quer mais se esconder atrás da propaganda dos bons costumes, há uma colisão que deixa todos com os nervos à flor da pele. Sentimos raiva, mas ao mesmo tempo pena de Nick ao vê-lo fracassar na tentativa de encontrar uma fórmula para trazer o equilíbrio de volta à esposa — sendo que a própria Mabel quer apenas se expressar à sua maneira, mas não consegue achar o tom exato para agradar o marido.

O longa nos brinda com momentos que geram uma tensão similar à que sentimos quando assistimos a um filme de suspense, mesmo sendo um drama urbano. É o realismo cru que faz toda a diferença. O primeiro grande momento de tensão é, sem dúvida, quando Nick convida seus colegas de trabalho para almoçar em sua casa; o que começa como um encontro descontraído logo caminha para a pura explosão. Tudo é filmado de forma que possamos captar cada microexpressão que os intérpretes estão nos passando, simbolizando que algo está prestes a sair totalmente do controle.

Esses momentos nos passam a nítida impressão de que tudo foi improvisado, como se o realizador apenas ligasse a câmera para ver como os atores reagiriam ao que estava escrito no roteiro. Em determinado instante, por exemplo, surgem planos-sequência que parecem decididos na hora, como se o cineasta não esperasse que os atores saíssem do cenário, mas aproveitasse o imprevisto como a ação que ele tanto buscava. Uma maneira brilhante de elaborar a transição entre a ficção e o lado documental de se filmar uma história.

Casada com o diretor na época, a atriz Gena Rowlands nos brinda com o que talvez seja o melhor trabalho de sua carreira. Sua Mabel é uma força da natureza enjaulada não somente entre quatro paredes, mas perante um sistema de regras conservador de uma época em que a moral e os bons costumes já não podiam mais ser sustentados por contos de fadas ultrapassados. O desequilíbrio da personagem funciona como uma síntese de uma nova geração de mulheres que ansiavam para sair do casulo de uma vez por todas e dizer "não" a esse sistema.

Já Peter Falk constrói um personagem que procura, a todo custo, manter a sanidade e a estrutura familiar, mesmo quando coloca em prática métodos politicamente incorretos e que hoje seriam intoleráveis. Em um determinado momento, notamos o seu olhar perder o foco em meio ao turbilhão de emoções, procurando achar dentro de si uma doçura que ele raramente exercita. Por isso, as cenas em que ele precisa conviver mais intimamente com os filhos são louváveis, ainda que vistas hoje por um olhar questionador e crítico.

Acima de tudo, é um filme que retrata não somente as mudanças de costumes de uma geração, mas também o declínio moral de uma família cujos segredos desconstroem a vida de cada um. Embora algumas revelações nunca sejam verbalizadas, fica evidente que certas cicatrizes emocionais nunca fecham, fazendo com que o desgaste siga em frente mesmo quando se alcança alguns minutos de cessar-fogo. Ao final, John Cassavetes procura nos entregar um desfecho um pouco mais reconfortante, mas sem esconder que aquele cenário familiar dificilmente encontrará o equilíbrio necessário.

"Uma Mulher Sob Influência" é uma obra-prima, um retrato fiel de seu tempo e a prova de que, ao menos em alguns pontos, a humanidade evoluiu se compararmos os dias de hoje àqueles tempos já longínquos.


  Faça parte:

 


Mais informações através das redes sociais:

Facebook: www.facebook.co m/ccpa1948

twitter: @ccpa1948 

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Cine Especial: Conhecendo 'A Morte e a Donzela'

Roman Polanski é um cineasta autoral, porém, o mesmo procura não ficar preso exatamente a um gênero. Ao mesmo tempo, eu acredito que em suas obras ele fale um pouco sobre a sua pessoa, ou simplesmente uma forma de enfrentar os seus medos e arrependimentos que guarda para si ao longo dos anos. "O Pianista"(2002), por exemplo, talvez tenha sido uma forma de exorcizar um passado traumático, já que o realizador perdeu os seus pais logo cedo nos campos de concentração. Ao mesmo tempo, é um diretor experimental, ao conseguir alinhar a linguagem cinematográfica com a teatral e realizando obras como "Deus da Carnificina" (2012).

Porém, tem alguns filmes que eu fui conhecer posteriormente, como no caso deste agora "A Morte e a Donzela" (1994) e que fez com que eu percebesse que esse namoro pelo universo teatral não havia começado no início desse século. O roteiro é baseado em uma peça de teatro de Ariel Dorfman, um chileno exilado que escapou do regime de Augusto Pinochet. Portanto, a trama gira em um país sul-americano após a queda da ditadura, onde Paulina Escobar (Sigourney Weaver), a mulher de Gerardo Escobar (Stuart Wilson), um famoso advogado, fica sabendo no rádio que Gerardo deverá chefiar as investigações das mortes ocorridas no regime militar. Quando Gerardo a chega o vê acompanhado de um estranho que o socorreu na estrada, mas quando o desconhecido retorna à casa ela o identifica pela voz como sendo Roberto Miranda (Ben Kingsley), o homem que a torturou e a estuprou quando ela fazia militância política.

Pode-se dizer que a obra é uma crítica ferrenha contra todas as ditaduras militares que ocorreram na América do Sul nos anos sessenta, setenta até os anos oitenta. A informação de que o filme é baseado em uma peça escrita por um dramaturgo Chileno faz com que o cinéfilo se localize melhor com relação aquele lugar em que a trama se passa, muito embora isso pouco importa, pois o que vale é o fato de a história representar inúmeras que ocorram nos tempos de chumbo. Sigourney Weaver nos brinda com uma atuação poderosa, pois já nos primeiros minutos observamos todos os sinais de alguém que sofreu nas mãos de torturadores e cuja cena em que ela vai jantar dentro de um armário simboliza o fato que ela não desvencilhou de situações em que ela não tinha nada, a não ser o objetivo de continuar viva.

Pelo fato do filme se passar em um único cenário, ou seja, dentro da casa do casal central, o filme ganha ares de suspense psicológico, dos quais se tornam cada vez mais sufocantes na medida que a personagem de Weaver transita entre a lógica e o desiquilíbrio, principalmente a partir do momento em que ela encara o que ela acredita ser o seu algoz vindo do passado. Já Stuart Wilson cria para o seu personagem uma espécie de equilíbrio com relação aos fatos, mas que aos poucos começa a se deteriorar quando não sabe mais em que direção tomar, se acredita em sua esposa, ou na inocência do homem em que ela acredita ser um verdadeiro monstro. Já Ben Kingsley nos brinda com uma atuação ambígua, já que quase nunca sabemos ao certo se ele é culpado ou inocente com relação aos fatos, mas aos poucos tiramos nossas próprias conclusões a partir de suas próprias palavras e ações ao longo do percurso.

Na medida em que o tempo avança o clima fica cada vez mais sufocante, cuja fotografia que transita entre as cores quentes e a escuridão de uma noite chuvosa alimentam ainda mais essa sensação. Assim como Brian De Palma, o realizador também é um grande adorador de Alfred Hitchcock e não me surpreenderia se o mesmo tivesse buscado inspiração no que o mestre do suspense havia feito. Vale destacar o ótimo trabalho do compositor Wojciech Kilar e cuja sua trilha aqui nos lembra os melhores momentos dos filmes de Hitchcock.

Falando nisso, o longa presta uma bela homenagem a Schubert com a sua clássica música "A Morte e a Donzela", que dá título ao filme e se torna peça fundamental dentro da trama. Aos poucos, nota-se que o desequilíbrio entre os personagens, assim como o ambiente dentro da casa, que começa a desmoronar e tudo que resta é uma confissão, mesmo na possiblidade dela soar falsa. A meu ver não há falso testemunho quando ocorre no limiar da trama, pois talvez o próprio realizador esteja usando os seus personagens como avatares para confessar sobre a sua verdadeira pessoa.

No passado, após a sua esposa Sharon Tate ter sido brutalmente assassinada de forma brutal em 09 de agosto de 1969 por Charles Manson e integrantes do culto o qual liderava, anos depois, o diretor foi condenado por estupro de uma garota chamada Samantha Geimer e que tinha apenas 13 anos de idade em 1978 e cujo crime ocorreu na mansão do ator Jack Nicholson. Desde então Roman Polanski viveu na Europa, para não ser preso. Em outubro de 2013, Samantha Geimer afirmou, durante a apresentação do seu livro de memórias, "The Girl: A Life in the Shadow of Roman Polanski" ("A menina: Uma vida na sombra de Roman Polanski"), em Paris, que há "muito tempo" perdoou o cineasta.

Porém, na minha opinião, talvez o próprio cineasta não tenha se perdoado pelo que cometeu e neste filme eu percebo que ele assume isso através do personagem de Ben Kingsley. No ápice da trama, quando o mesmo não vê saída, ele decidiu assumir as atrocidades que ele havia cometido no passado contra a personagem de Sigourney Weaver, mas sinto que o personagem de Kingley sai de cena e entra as palavras de Polanski e assumindo, enfim, a culpa. É como se o cenário que ele descreveu através do personagem foi a forma como ele viu na mansão do ator Jack Nicholson e fazendo com que cometesse tal ato.

Quem for ler esse texto e logo em seguida assistir ao filme cabe cada um irá tirar as suas próprias conclusões. Roman Polanski é um artista, porém, falho como ser humano e cabe a justiça julgá-lo, mas antes disso talvez fosse realmente necessário ele assumir, não com palavras, mas sim através da sétima arte da qual alavancou a sua carreira. Em tempos de cancelamento, principalmente como a internet que torna tudo isso mais fácil, cabe não julgarmos o artista e a sua obra, mas sim a sua pessoa e do qual os seus filmes talvez tenham-lhe dado uma saída.

"A Morte e a Donzela" é mais do que um belo suspense, como também uma confissão camuflada do diretor Roman Polanski. 

Faça parte:


Mais informações através das redes sociais:

Facebook: www.facebook.com/ccpa1948

twitter: @ccpa1948  

Instagram: @ccpa1948 

Joga no Google e me acha aqui:  
Me sigam no Facebook twitter, Linkedlin Instagram e Tik Tok