No ano de 1982, o termo Cyberpunk começou a surgir de forma silenciosa e quase ninguém havia se dado conta. Embora a palavra tenha sido criada pelo escritor Bruce Bethke como título de um conto lançado em 1983, foi um ano antes que um filme e um mangá se tornaram, aos poucos, os maiores representantes dessa palavra enigmática. "Blade Runner" (1982) foi lançado nos EUA, enquanto o mangá "Akira" começou a ser publicado no mesmo ano, no Japão, pelo autor e desenhista Katsuhiro Otomo.
O filme de Ridley Scott começou a ganhar status cult no decorrer dos anos 1980, enquanto Katsuhiro Otomo criava uma trama distinta, mas na qual se nota a inspiração no longa americano para compor seu futuro apocalíptico. Curiosamente, o filme de Scott retrata o ano de 2019; já no mangá "Akira", a trama se inicia em 1988, mas, devido a uma catástrofe nuclear que dizima Tóquio, a história sofre um salto no tempo para nos apresentar a cidade revitalizada — rebatizada de Neo-Tóquio — se passando exatamente no ano de 2019. Coincidência?
O que mais impressiona na trajetória inicial da obra de Otomo é que a história ainda estava em andamento quando o estúdio TMS Entertainment propôs a adaptação para o cinema. Com o receio de ver outros assumindo a sua criação, o próprio autor decidiu escrever e dirigir o longa. O resultado foi "Akira" (1988), uma adaptação fiel à fonte, mas com identidade própria, condensando mais de duas mil páginas de história em pouco mais de duas horas de projeção.
Na trama, uma grande explosão destrói Tóquio em 1988, despertando a lenda de Akira, uma criança com poderes extraordinários controlada pelo governo. Anos depois, ergue-se a Neo-Tóquio que, em 2019, sucumbe a atentados terroristas e à guerra de gangues pelo domínio das drogas. Kaneda (Mitsuo Iwata) e Tetsuo (Nozomu Sasaki) são amigos de infância e integram um desses grupos de motoqueiros.
Em um duelo entre gangues, Tetsuo esbarra com Takashi (Tatsuhiko Nakamura), uma criança com poderes que servia de cobaia para uma agência secreta do governo. Ferido no encontro, Tetsuo é levado pelo exército antes que os amigos possam ajudá-lo, sob o comando do Coronel Shikishima (Taro Ishida). A partir daí, o jovem passa a desenvolver poderes inimagináveis, sendo comparado ao lendário Akira.
Assim como Blade Runner, o filme de Otomo possui um visual tão rico que, sempre que o revisitamos, descobrimos algo novo. Lançado em 1988, o longa impressiona por ter sido feito na animação tradicional sobre celulóide, mas com um nível de perfeccionismo nos detalhes que impressiona até hoje. A sequência de abertura, com a gangue de Kaneda percorrendo a cidade, é antológica e dá a exata dimensão da escala da produção.
Obra à frente do seu tempo, a produção também foi uma das primeiras a introduzir elementos de computação gráfica de forma fluida e integrada. Outro diferencial técnico foi a gravação das vozes antes da finalização da animação (pre-scoring), permitindo que o movimento dos lábios dos personagens casasse perfeitamente com a dublagem — uma exigência de precisão que serviu de referência para a indústria.
A trilha sonora, composta e regida por Shoji Yamashiro (pseudônimo de Tsutomu Ohhashi à frente do coletivo Geinoh Yamashirogumi), confere um tom épico e profético à narrativa. A combinação de cantos tradicionais e síntese digital eleva o status do filme, com destaque para a intensidade do tema de Tetsuo e para a apoteótica apresentação de Neo-Tóquio na abertura.
Sob uma roupagem adulta, o longa explora temas universais e atuais: a busca pelo poder ilimitado, os limites da intervenção humana sobre a natureza e o retrato de uma sociedade em decadência sob governos corruptos. Tetsuo encarna o perigo desse poder quando despertado sem maturidade, impulsionado por um ressentimento acumulado.
Otomo equilibra essa densidade filosófica com sequências de ação memoráveis. O confronto entre Kaneda e Tetsuo é eletrizante, sobretudo pela coragem de Kaneda em enfrentar o amigo em extrema desvantagem. A lendária moto vermelha de Kaneda se tornou um ícone da cultura pop, exaustivamente referenciada e homenageada ao longo das décadas.
Lançado em 1988, o filme expandiu seu alcance gradualmente. No Brasil, estreou em agosto de 1991 pela distribuição da Sato Company, tornando-se o primeiro longa de anime exibido nos cinemas do país. Ficou quase um ano em cartaz e atraiu mais de 250 mil espectadores, cravando um marco histórico na formação do público local.
A influência de "Akira" ecoa até hoje. Sem ele, marcos posteriores como "Ghost in the Shell" (1995) ou "The Matrix" (1999) não teriam o mesmo desenho estético ou temático. Revisitá-lo reafirma a visão visionária de Otomo sobre a desumanização, o avanço tecnológico e a incerteza do futuro, deixando "Akira" no patamar das obras indiscutíveis do cinema e da ficção científica.
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