Em tempos atuais, nos quais convivemos com franquias infinitas, é difícil acreditar que já houve uma época em que fazer uma continuação de sucesso representava um sério risco. Lógico que já existiam cine-séries como "Planeta dos Macacos" e "007" em meados dos anos 1960 e 1970, mas eram exemplos que não buscavam a superação em relação aos primeiros filmes, funcionando mais como uma maneira de lucrar com a marca. Se isso hoje é corriqueiro, percebe-se que, décadas atrás, a lógica talvez não fosse muito diferente da de nosso tempo.
Porém, até os anos 1980, quando se falava em uma continuação que superava o capítulo anterior, o exemplo imediato era "O Poderoso Chefão: Parte II" (1974) — status de perfeição que, posteriormente, passou a dividir com "Star Wars: O Império Contra-Ataca" (1980). Pode-se dizer que tanto George Lucas quanto Francis Ford Coppola foram pioneiros ao provar que uma continuação bem conduzida pode, sim, elevar a ideia inicial da história e expandi-la. Contudo, é preciso também dar mérito ao realizador James Cameron.
Vindo de filmes B como "Piranha II - Assassinas Voadoras" (1982), Cameron provou que, mesmo com um orçamento minúsculo, poderia revolucionar o cinema através de seu pequeno projeto intitulado "O Exterminador do Futuro" (1984). Sucesso de público e crítica, o realizador ainda assinou o roteiro de "Rambo II: A Missão"(1985), mas foi a partir de um convite do estúdio FOX que sua carreira alcançou outro patamar: quando caiu em seu colo o projeto "Aliens, O Resgate" (1986).
Na trama, após um sono criogênico de cinquenta e sete anos, Ellen Ripley (Sigourney Weaver), a única sobrevivente da tragédia espacial, descobre que o planeta onde sua antiga tripulação encontrou a criatura foi colonizado por humanos. Inicialmente relutante, ela aceita retornar para enfrentar seu pior pesadelo e tentar salvar as setenta famílias que lá habitam. Não demora muito para que sua missão, ao lado de soldados treinados, se torne um verdadeiro inferno.
"Alien, o 8.º Passageiro" (1979), do realizador Ridley Scott, era um filme exemplar, perfeccionista e com começo, meio e fim muito bem amarrados. A obra não somente deu um passo à frente no gênero de ficção científica como também, vista hoje, revela o quanto estava à frente de seu tempo — e olha que era uma época em que o mundo já havia testemunhado o fenômeno de "Star Wars: Uma Nova Esperança" (1977). Então, por que arriscar em um projeto tão desafiador?
Com certeza o estúdio via em James Cameron o potencial para domar projetos que muitos não viam com bons olhos, mas cujo resultado fazia com que todos reconhecessem que estavam errados. Talvez o maior acerto do diretor tenha sido não recriar exatamente o visual elaborado por Ridley Scott, mas sim dar continuidade à franquia imprimindo sua própria visão autoral sobre aquele universo. Rever o filme hoje nos faz perceber o quanto ele dialoga com as obras que Cameron dirigiria posteriormente, como o ótimo "O Segredo do Abismo" (1989).
Com carta branca do estúdio, Cameron reuniu quase toda a equipe com a qual havia trabalhado em "O Exterminador do Futuro", utilizando novamente a criatividade para a elaboração dos efeitos visuais em uma época na qual o CGI ainda engatinhava. Nota-se como as cenas da colônia passam um realismo impressionante, mesmo quando, em alguns momentos, transparece a sensação de estarmos assistindo a algo construído em maquete. O mesmo vale para as naves espaciais e veículos terrestres: tudo feito de forma tão criteriosa que mal notamos as limitações técnicas da época.
Mas o que talvez mais diferencie esta obra do primeiro longa é o fato de não estarmos lidando com apenas uma criatura, mas com vários aliens em cena, o que torna todas as sequências ainda mais sufocantes e claustrofóbicas. Surpreendentemente, Cameron utilizou apenas seis dublês vestindo as fantasias do alienígena; a ilusão de um exército de criaturas foi toda criada por meio de ângulos de câmera, edição ágil e iluminação. E se isso já é um grande feito, o que dizer da Rainha Alien?
A sinistra criatura foi concebida como uma imponente marionete animatrônica gigante de 4,2 metros, combinando efeitos práticos, sistemas hidráulicos e operadores humanos. O design foi idealizado por Cameron em parceria com o mestre dos efeitos especiais Stan Winston. O resultado é uma das aparições mais marcantes da história do cinema, que até hoje impressiona por sua imponência.
Contudo, nada disso funcionaria sem um grande elenco, a começar por Sigourney Weaver. Ela retorna ao papel que a consagrou, mas surpreende ao entregar algo muito além do que havia sido mostrado no primeiro capítulo. Aqui, Ripley carrega os traumas do passado e é forçada a encará-los de frente para salvar vidas. Nesse contexto, a jovem sobrevivente Rebecca "Newt" (Carrie Henn) torna-se uma peça fundamental para que a protagonista encontre forças em meio ao horror.
Talvez seja esse o maior trunfo da narrativa: resgatar o lado maternal de Ripley — ferido pelo isolamento de cinquenta e sete anos no espaço. Sua relação com a pequena Rebecca emociona e faz o espectador torcer genuinamente para que ambas saiam vivas dessa jornada. Não à toa, Sigourney Weaver foi indicada a diversos prêmios, e sua indicação ao Oscar de Melhor Atriz foi um feito histórico, dada a raridade de ver atuações em filmes de gênero (ficção e terror) reconhecidas pela Academia. Além da entrega dramática, é eletrizante vê-la se armar até os dentes; a cena em que ela opera o exoesqueleto robótico no confronto direto contra a Rainha figura facilmente entre os momentos mais icônicos do cinema.
Vale destacar também a presença de outros nomes do elenco que já haviam trabalhado com Cameron, como Michael Biehn — que viveu o herói em "O Exterminador do Futuro" e aqui interpreta o Cabo Hicks, o grande aliado de Ripley. Lance Henriksen, como o androide Bishop, é outra figura marcante, protagonizando com sua proeza com a faca diante de um amedrontado Bill Paxton um dos momentos mais descontraídos do longa. Não se pode deixar de mencionar a destemida soldada Vasquez, interpretada com intensidade por Jenette Goldstein, provando o interesse recorrente de James Cameron em destacar figuras femininas fortes.
Sucesso de público e crítica, além de vencedor de dois Oscars, o filme entrou para a história como um belíssimo exemplo de continuação que, se por um lado não supera o antecessor em termos de originalidade, obtém personalidade própria e permanece no imaginário dos fãs de ficção científica. Embora a franquia tenha ganhado outras sequências — umas de qualidade, outras nem tanto —, nenhuma superou os dois primeiros capítulos. Afinal, trata-se de dois longas dirigidos por cineastas de visões autorais distintas e marcantes. Revisto hoje, o longa de James Cameron já dava todos os indícios da grandiosidade de seus projetos seguintes — mas essa é uma história para ser contada mais à frente.
"Aliens, O Resgate" é um exemplo de continuação perfeita: dotado de personalidade própria e cinema autoral de James Cameron em sua forma mais pura.
Faça parte:
Facebook: www.facebook.co m/ccpa1948



Nenhum comentário:
Postar um comentário