Nota: Filme exibido para os associados no dia 28/06/26.
Sinopse: Uma sequência de homicídios intriga a polícia japonesa: vítimas diferentes são encontradas com a mesma marca gravada no corpo, embora os autores dos crimes não pareçam ter qualquer ligação entre si.
Kiyoshi Kurosawa chamou a atenção no Japão no momento em que o país iniciava uma espécie de nova onda de filmes de horror, a partir do final dos anos noventa. O realizador sempre optou por tramas que transitam entre o suspense psicológico e pitadas do gênero fantástico, como no caso de "Creepy" (2016), obra onde tive meu primeiro contato com o lado autoral do diretor. Em um de seus primeiros trabalhos, intitulado "A Cura" (1997), o cineasta nos proporciona uma narrativa investigativa com desdobramentos surpreendentes, cujo peso carregamos mesmo após o término da exibição.
Na trama, acompanhamos o detetive Takabe, que busca compreender a origem de um padrão perturbador de assassinatos, enquanto um misterioso homem sem memória surge como a peça central de um enigma cada vez mais inquietante. Kurosawa constrói uma atmosfera policial com pinceladas do subgênero noir, onde as sombras dos ambientes ditam as regras e cuja faísca de luz não significa exatamente esperança. À medida que a história avança, os crimes acontecem e os executores são pegos, mas nenhum deles apresenta uma motivação clara para o ato. Em todos os casos, pessoas comuns cometem homicídios similares, deixando um "X" preto marcado no local e atiçando ainda mais a obsessão do investigador.
Takabe, interpretado brilhantemente por Koji Yakusho, já convive com seus próprios tormentos ao cuidar da esposa, que sofre de problemas psicológicos, enquanto tenta conter o desejo latente de solucionar todos os males do mundo. Uma vez imerso nesse mistério, sua fixação o conduz a um beco sem saída, tornando-o uma presa fácil para o real condutor dos crimes. Este, por sua vez, é vivido de forma assombrosa por Masato Hagiwara, cujo personagem transita entre momentos de aparente inocência e sarcasmo, dando as cartas através de uma persuasão hipnótica e eficaz.
Nesse ponto, o roteiro nos brinda com um estudo verossímil sobre a fronteira entre a lógica e o ocultismo. Vale lembrar que, até o fim do século XIX, a hipnose era frequentemente tachada como charlatanismo ou blasfêmia, passando a ser estudada sob prismas mais científicos e lógicos a partir do surgimento da psicanálise. Apoiado nesse limiar, Kurosawa constrói uma trama em que os personagens convivem com o pesadelo do mundo real, onde indivíduos comuns já guardam seus lados mais sombrios; a persuasão do antagonista funciona como um mero gatilho para que o pior do ser humano venha à tona.
Ao final, o realizador nos deixa com a incômoda certeza de que a escuridão humana prossegue, independente de um indivíduo específico ser detido ou não, pois sempre haverá outros prontos para despertar diante do estímulo certo. Não é à toa que o cineasta daria continuidade a essa atmosfera em títulos posteriores de temática familiar, como "Antes que o Mundo Acabe" (2018) e o recente "Cloud – Nuvem de Vingança" (2025).
Em "A Cura", todos os ingredientes que Kurosawa aperfeiçoaria ao longo de sua carreira já estavam presentes. É a obra que revelou seu talento ao mundo e que, com sua atmosfera psicológica alinhada ao fantástico, permanece perturbadora e genial ainda hoje. Não por acaso, é apontada por muitos como a grande obra-prima de sua filmografia.
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