Sinopse: Acompanha Alice em uma intensa batalha judicial pela guarda de seus filhos. Sob forte pressão, ela enfrenta uma juíza e precisa confrontar o pai das crianças, buscando provar as denúncias de violência e protegê-los antes que seja tarde demais.
O subgênero dos filmes de tribunal é muito apreciado ao longo da história do cinema. Se por um lado temos uma análise acalorada sobre o papel do júri no clássico "12 Homens e Uma Sentença" (1957), do outro, testemunhamos o peso da audiência na questão da separação no filme "Custódia" (2018). É nesse cenário que recebemos o belga "Nós Acreditamos em Vocês" (2026), no qual testemunhamos o relato de ambas as partes, mas onde fica notório quem diz a verdade.
Dirigido por Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys, a trama acompanha Alice (Myriem Akheddiou) em uma audiência para decidir a guarda de seus filhos. Sob grande pressão, a mãe enfrenta a juíza com o desejo de não cometer erro algum, pois a segurança das crianças depende dela e de suas palavras. Acusando o pai (Laurent Capelluto) de um terrível crime, a sessão envereda por caminhos imprevisíveis.
No clássico do cinema mudo "A Paixão de Joana D'Arc" (1928), o diretor foca exclusivamente na atriz Renée Jeanne Falconetti que, ao interpretar a personagem histórica, se entrega de corpo e alma diante da câmera. Algo similar acontece em Nós Acreditamos em Vocês. A câmera foca quase exclusivamente na protagonista, que inicialmente não consegue domar o próprio filho para levá-lo à audiência, tornando os minutos iniciais angustiantes. Tudo é baseado na ação e reação da personagem central, cuja expressão tem mais a dizer do que meras palavras — mérito que se deve, principalmente, à incrível atuação de Myriem Akheddiou.
Gradativamente, começamos a entender o cenário: vemos essa mãe tentar proteger os filhos de um pai ausente e que as crianças não querem ver. Em poucos minutos de filme, compreendemos que os pequenos agem por um impulso quase destrutivo, cujas razões vão sendo esclarecidas à medida que a protagonista expõe as suas dores. É aí que o filme encontra a sua alma: na sequência da audiência.
Devillers e Dufeys procuram dar espaço para cada um dos personagens — a mãe, o pai e seus respectivos advogados —, permitindo que todos defendam suas versões. Em meio a isso, temos a noção de quão difícil é colocar em prática uma "justiça justa", para que não se cometa nenhuma injustiça. Isso é bem sintetizado na expressão da juíza, que não esconde o temor de tomar uma decisão da qual venha a se arrepender depois.
Porém, uma vez que a mãe e o pai apresentam seus depoimentos, tudo fica bastante claro, e a realidade daquela família nos puxa para o seu dia a dia. Através do relato de Alice, temos a dimensão do horror que ela ouviu e testemunhou no decorrer dos anos, que privou seus filhos de uma infância saudável e quase a levou a um colapso. A câmera dos realizadores, por sua vez, capta cada nuance do olhar da protagonista, fazendo com que fiquemos o tempo todo ao seu lado.
Os diretores acertam ao ambientar a audiência em um espaço pequeno, o que torna tudo ainda mais claustrofóbico e faz com que os ânimos fiquem à flor da pele. Curiosamente, todos ali têm um papel relevante, seja nas palavras ou no jogo de olhares que reage ao que está sendo dito. Portanto, a última cena com a juíza, na qual ela se vê esgotada, é a representação de nós mesmos diante daquele testemunho, desejando que ela tome a decisão mais correta.
Em tempos de denúncias cada vez mais frequentes de abusos no ambiente familiar, o filme surge como um alerta para que ninguém sofra em silêncio e para que o passo da denúncia seja dado. Assim, a cena final da mãe com os filhos, após uma montanha-russa de emoções, não é apenas um momento de paz rara, mas também de um peso extraído da própria consciência. Nunca é tarde para fazer o que é certo por si e por quem amamos.
"Nós Acreditamos em Vocês" é poderoso em suas cenas e cirúrgico em seu realismo ao tratar de um assunto que jamais pode ser banalizado em nosso mundo.
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