Quem sou eu

Minha foto
Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

Pesquisar este blog

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte'

Sinopse: Jovem cineasta vai ao encontro de uma atriz reclusa para convencê-la a voltar a participar de uma franquia slasher.

O gênero slasher foi um dos mais explorados entre o final dos anos 1970 e toda a década de 1980. Já moribundo no início dos anos 1990, esse tipo de filme foi revitalizado a partir do primeiro "Pânico" (1996), o que fez com que os estúdios voltassem a explorá-lo à exaustão para obter grandes lucros. Porém, mais do que filmes de horror, essas produções carregavam uma metáfora impregnada em seus projetos.

Na trama, sempre víamos jovens na mais pura azaração, dispostos a fazer sexo de qualquer jeito. Contudo, havia sempre aquela jovem inocente e virgem que se tornava a única sobrevivente da história. Olhando para trás, observa-se que o assassino era uma espécie de representação do temor em relação aos tempos da AIDS: bastava os personagens fazerem sexo para logo serem punidos. Por mais violentos que fossem, esses filmes não deixavam de ser conservadores — alinhados com uma mentalidade que, hoje, seria politicamente incorreta, para dizer o mínimo.

"Acampamento Sinistro" (1983), por exemplo, seria uma produção completamente inviável nos dias de hoje, já que poderia facilmente ser taxada como transfóbica. Porém, assim como o primeiro Pânico, esses longas podem ser revitalizados desde que se explorem os acertos e erros de sua época, tornando a obra uma leitura curiosa para as novas plateias. "Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte" (2026) não é somente uma homenagem a esse subgênero do horror, mas também uma crítica ácida sobre a mentalidade de tempos passados e da própria Hollywood.

Dirigido por Jane Schoenbrun (de "Eu Vi o Brilho da TV", 2024), o longa acompanha a história de uma jovem cineasta queer (Hannah Einbinder) contratada para comandar os bastidores de um reboot da franquia de terror conhecida como Camp Miasma. Ela, por sua vez, decide reencontrar a atriz que protagonizou as cenas finais do longa original — interpretada por Gillian Anderson — e busca nela uma forma de fazer uma nova releitura do clássico. Porém, acontecimentos estranhos fazem com que ela enxergue uma nova realidade, despertando nela algo antes adormecido.

O público acostumado com as velhas regras de um determinado gênero fica tão preso ao convencional que, quando surge um filme que quebra essas fórmulas, ele se torna, em um primeiro momento, incompreensível. Em "A Natureza da Violência" (2024), por exemplo, assistimos à história pela perspectiva do monstro, e não de suas vítimas. "Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte" vai por um caminho similar ao desconstruir o gênero e criar uma nova visão sobre o assunto.

Logo no início do filme, Jane Schoenbrun brinca com o universo slasher ao explorar o quanto os estúdios exploram em potência máxima um determinado sucesso para gerar continuações intermináveis, spin-offs, refilmagens, reboots e produtos para a massa usufruir. Já o cenário principal da trama é explicitamente falso, como se a realizadora nos dissesse para não levarmos aquilo a sério, mas sim os pontos que desconstroem o gênero. Quando a protagonista finalmente se encontra com a atriz reclusa, o filme mostra a que veio.

Conhecida mundialmente como a protagonista da série "Arquivo X" (1993–2002), Gillian Anderson é uma presença que domina a cena assim que surge. Seu olhar peculiar não esconde o fato de ter descoberto, logo cedo, o que realmente move as engrenagens de um estúdio que apenas explorava o lado erótico das jovens moças do passado. Carregando essa bagagem, ela acaba influenciando a percepção da jovem cineasta dentro da trama, além de saber lidar com a própria sexualidade de forma mais aberta. Curiosamente, é notório que a diretora faz um paralelo da personagem de Gillian Anderson com a figura de Norma Desmond, do clássico "Crepúsculo dos Deuses" (1950), tornando essa observação ainda mais rica para os cinéfilos que apreciam o cinema clássico.

Hannah Einbinder nos brinda com uma atuação ainda mais complexa do que se imagina. Ela se apresenta como alguém de mente aberta em relação aos relacionamentos e ao sexo, mas que ainda não liberou seu verdadeiro eu por completo. Sua adoração pelo slasher clássico seria uma forma de reprimir seus verdadeiros desejos, mesmo tendo consciência das mensagens subliminares e conservadoras daquela época. A atuação de ambas juntas em cena é digna de nota: o desejo nasce de forma gradual, nada impulsiva, indo na contramão de quem espera algo imediatamente explícito.

O filme pode ser interpretado das mais diversas formas, inclusive de maneira surreal. Basta pegarmos como exemplo a cena em que as duas personagens centrais assistem ao clássico dentro da trama: o assassino surge no lago e começa a matar os jovens do acampamento de forma absurdamente cartunesca, despertando um riso involuntário. Ao mesmo tempo, é por essa passagem que o filme faz uma crítica certeira aos meios politicamente incorretos de se criar uma história de horror em outros tempos.

Jane Schoenbrun acerta ao homenagear e alfinetar o slasher, que por muito tempo usou a figura de jovens mulheres para despertar o monstro da trama — quando, na verdade, o próprio monstro era uma alusão a tempos mais conservadores e hipócritas. Na reta final, a obra cai de cabeça na mais pura metalinguagem ao sugerir que talvez tenhamos culpa por alimentar Hollywood a produzir tantas franquias intermináveis, seja no horror ou em qualquer outra fórmula de sucesso. Quando vemos as duas protagonistas despertas em relação a isso, elas cruzam com uma sociedade alienada e consumista, que já não se importa com o que assiste ou consome, desde que continue entretida em suas bolhas particulares.

"Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte" funciona tanto como uma bela homenagem ao gênero slasher quanto como uma inteligente crítica construtiva sobre a mentalidade politicamente incorreta desse tipo de cinema e da indústria hollywoodiana.


    Faça parte:

 


Mais informações através das redes sociais:

Facebook: www.facebook.com/ccpa1948

twitter: @ccpa1948 

Cine Dica: Newsletter Cinemateca Capitólio - 3 a 9 de setembro de 2026

 Festival de documentários, estreia brasileira e cinema ucraniano em destaque na Cinemateca Capitólio

A semana da Cinemateca Capitólio entre 3 e 9 de setembro será movimentada, com atrações que incluem lançamento exclusivo de longa brasileiro premiado, festival de documentários, programação infantil, mostra de filmes ucranianos e nova edição da sessão Clássicos. Até sábado, 5 de setembro, a Capitólio segue recebendo a programação do festival de documentários POA Doc.

Na quinta-feira acontece a estreia exclusiva de um dos títulos brasileiros mais elogiados do ano, Aquele que Viu o Abismo, de Gregorio Gananian e Negro Leo. O filme teve sua estreia durante a Mostra de Cinema de Tiradentes em 2024, onde recebeu o prêmio de Melhor Filme na mostra Olhos Livres. Após exibições em diversos festivais e mostras no país (incluindo o festival Cine Esquema Novo em 2024), o filme finalmente chega aos cinemas. Com uma atmosfera magnética a partir de um visual alucinante e de uma trilha sonora perturbadora, a trama se projeta em um futuro distópico, dominado por uma organização misteriosa que recruta civis sob a promessa de uma vida melhor. Bebendo diretamente na fonte do cinema de invenção brasileiro, o filme desafia as narrativas convencionais para propor uma experiência profundamente sensorial.

Para a criançada, a atração da Sessão Vagalume de setembro é o clássico Babe, o Porquinho Atrapalhado, com sessões sábado e domingo, às 15h. Dirigido por Chris Noonan, o filme é uma adaptação do romance The Sheep-Pig (1983), também conhecido nos Estados Unidos como Babe: The Gallant Pig, do escritor britânico Dick King-Smith. O enredo gira em torno de um porquinho que deseja fazer o trabalho de um cão pastor. Centenas de animais foram necessários para a produção do filme. Os animais centrais foram interpretados por uma combinação de porcos reais com réplicas animatrônicas. Um filme que marcou mais de uma geração de jovens cinéfilos.

Mostra de cinema ucraniano

No domingo, dia 6 de setembro, às 19h, a Cinemateca Capitólio inaugura a mostra Dias de Cinema Ucraniano, que vai apresentar ao público portoalegrense uma cinematografia pouco conhecida no Brasil. A abertura será com o clássico Sombras dos Ancestrais Esquecidos, de Sergei Paradjanov. A mostra, que se estende até o dia 16 de setembro, está passando por 8 cidades brasileiras (Brasília, Curitiba, Prudentópolis, Ribeirão Preto, Belo Horizonte, Salvador, Rio de Janeiro e Porto Alegre). A realização é da Fundação de Caridade Dveri, de Kiev, e conta com o apoio da Embaixada da Ucrânia no Brasil, da Agência Estatal de Cinema da Ucrânia, da Representação Central Ucraniano-Brasileira, da Associação Ucraniano-Brasileira de Relações e Artes, da Aliança Francesa e do Goethe-Institut.

A mostra Dias de Cinema Ucraniano traz ao público brasileiro a diversidade do cinema da Ucrânia, com filmes que abordam história, identidade, tradição, sociedade e cultura, buscando ampliar as percepções sobre o país no Brasil nestes tempos de guerra, revelando a força de uma cinematografia com estética própria, humor, memória histórica e diferentes formas de experimentação artística.

A mostra na Cinemateca Capitólio exibe seis longas metragens (quatro ficções e dois documentários), incluindo títulos recentes com passagem por festivais importantes como Cannes (Pamfir) e Visions du Réel (Fragmentos de Gelo).

Confira a programação completa no site oficial da Cinemateca clicando aqui.