Sinopse: O filme retrata o impacto do contexto histórico, político e social do Brasil nas décadas de 1960, 1970 e 1980 na trajetória de Marília Pêra. Ela integrou uma geração de mulheres fortes que transformaram a cultura nacional.
Marília Pêra foi uma das maiores atrizes do nosso país, cujo talento transcendeu as nossas fronteiras. Com reconhecimento internacional, ela se tornou um símbolo de força, arte e perseverança, mesmo diante dos mais diversos obstáculos. "Viva Marília" (2025) é um registro não apenas sobre a pessoa, mas também sobre a construção de sua carreira impecável.
Dirigido por Zelito Viana, o documentário é uma celebração da trajetória da atriz, cantora e bailarina, tendo como pano de fundo as transformações políticas, sociais e culturais do Brasil entre as décadas de 1960 e 1980. Narrado pela própria artista — a partir de um rico acervo de depoimentos e imagens raras de sua vida pessoal —, o filme percorre sua atuação no teatro, na televisão e no cinema, mostrando como as metamorfoses do país atravessaram sua vida e sua obra.
Não é uma tarefa fácil realizar um documentário sobre um talento que nos deixou há algum tempo. Porém, Zelito Viana usou a criatividade a seu favor ao resgatar entrevistas concedidas por Marília ao longo dos anos, entrelaçando-as para construir a linha narrativa. A partir dessa edição, temos uma clara dimensão de suas raízes, de sua infância e do início de sua extraordinária trajetória artística.
Além de acompanharmos os depoimentos da atriz em diferentes épocas, suas memórias ganham vida por meio de registros caseiros com a família. É emocionante testemunhar os primeiros passos da pequena Marília no teatro, já dando sinais do alcance que ela atingiria no futuro. Nota-se que o acervo foi escolhido a dedo, sintetizando períodos de ouro da cultura brasileira no palco, na TV e no rádio.
O documentário consegue, com grande êxito, revelar a essência de uma artista que respirou cultura do início ao fim da vida e que nunca se intimidou diante de desafios grandiosos. Só ela para encarnar Carmen Miranda nos palcos com tal vigor, provando que sua força vocal a faria brilhar intensamente também no universo da música. De sua longa lista de interpretações memoráveis, destaca-se ainda o fato de ter dado vida a ícones como Gal Costa, Dolores Duran e Aracy de Almeida.
Como todo grande nome da época, Marília sofreu com a repressão da ditadura militar, um período em que o pensamento crítico e a liberdade nos palcos eram alvos de severa censura e retaliação do regime. Na televisão, por sua vez, a atriz transitou entre os primeiros anos da Rede Globo e a pioneira TV Tupi, tornando-se uma figura profundamente querida pelo público. Particularmente, lembro-me de que a primeira vez que a vi na TV foi na marcante novela "Brega & Chique" (1987).
Para mim, como crítico de cinema, quando penso em Marília Pêra, vêm imediatamente à mente suas interpretações magistrais na tela grande. O documentário fortalece essa dimensão ao destacar cenas do clássico "Pixote: A Lei do Mais Fraco" (1980), no qual sua atuação visceral como uma prostituta que acolhe meninos de rua lhe rendeu prestígio internacional e diversos prêmios. Também não podemos deixar de mencionar sua divertida e marcante participação no clássico "Central do Brasil" (1998) — contracenando com Fernanda Montenegro —, cujo brilho em cena nos faz desejar que sua personagem tivesse tido ainda mais tempo na tela do longa de Walter Salles.
Em suma, o documentário é um convite imperdível tanto para quem deseja descobrir esse grande talento quanto para quem busca compreender melhor o papel de uma atriz diante dos altos e baixos de uma carreira desafiadora em um Brasil em constante transformação. Marília nos deixou em 2015, mas a sua arte permanece intacta e imortalizada na história da nossa cultura."Viva Marília" é uma verdadeira declaração de amor ao teatro e ao cinema nacionais — um filme que encantará qualquer amante da arte.
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