Nota: Filme exibido para os associados no último dia 12/07/26.
Há quem diga que a Nova Hollywood se iniciou a partir de filmes como "Bonnie e Clyde" (1967) e "Sem Destino" (1969). O primeiro, por sua vez, foi dirigido por Arthur Penn, que já havia dado sinais de como seria o novo cinema norte-americano através de obras realistas como "O Milagre de Anne Sullivan" (1962) — um filme que me chocou pelo realismo e pela entrega absoluta do elenco. No centro dessa metamorfose pela qual o cinema dos Estados Unidos passava, um nome curioso chamava a atenção: John Cassavetes.
Sinceramente, só fui conhecê-lo primeiro como ator, em produções como "O Bebê de Rosemary" (1968), mas ele era também diretor, produtor e roteirista do cinema independente. Mesmo com pouco dinheiro no bolso, realizou obras que se destacavam pela ousadia e que escancaravam a realidade nua e crua da época, como no caso de "Faces" (1968). Porém, sem sombra de dúvida, "Uma Mulher Sob Influência" (1974) é a sua maior obra-prima.
Na trama, Nick Longhetti (Peter Falk) está sobrecarregado devido ao seu trabalho braçal em um estaleiro. Sua esposa, Mabel (Gena Rowlands), passa por uma fase difícil, vivendo em constante desequilíbrio emocional, o que a leva a uma profunda crise. Quando os filhos começam a ser afetados pelo estado de Mabel, Nick se vê obrigado a hospitalizá-la, o que o força a assumir sozinho o controle do lar.
Isso é apenas um resumo da potência da obra. John Cassavetes constrói um filme com um teor quase documental, principalmente na cena de abertura, onde vemos os operários no estaleiro, o que nos dá a dimensão do peso daquele tipo de trabalho. Ao mesmo tempo, a vida de dona de casa de Mabel também não é nada fácil: ela tenta cuidar ao máximo dos filhos, mas não esconde a frustração do dia a dia e a solidão por não ter o marido por perto da maneira como desejaria. Mabel é a representação da mulher em uma época de transição; ao não se sentir satisfeita, sai à noite com outro homem, mas depois não sabe ao certo como administrar as consequências de seu ato.
Nick, por sua vez, é o típico marido de uma geração patriarcal, que procura mandar e desmandar perante a esposa, o que não significa que ele seja de todo mau. Lembramos que é o início dos anos setenta, época em que era comum as mulheres ficarem restritas ao lar cuidando da família. Portanto, quando ocorrem as mudanças de comportamento de uma geração que não quer mais se esconder atrás da propaganda dos bons costumes, há uma colisão que deixa todos com os nervos à flor da pele. Sentimos raiva, mas ao mesmo tempo pena de Nick ao vê-lo fracassar na tentativa de encontrar uma fórmula para trazer o equilíbrio de volta à esposa — sendo que a própria Mabel quer apenas se expressar à sua maneira, mas não consegue achar o tom exato para agradar o marido.
O longa nos brinda com momentos que geram uma tensão similar à que sentimos quando assistimos a um filme de suspense, mesmo sendo um drama urbano. É o realismo cru que faz toda a diferença. O primeiro grande momento de tensão é, sem dúvida, quando Nick convida seus colegas de trabalho para almoçar em sua casa; o que começa como um encontro descontraído logo caminha para a pura explosão. Tudo é filmado de forma que possamos captar cada microexpressão que os intérpretes estão nos passando, simbolizando que algo está prestes a sair totalmente do controle.
Esses momentos nos passam a nítida impressão de que tudo foi improvisado, como se o realizador apenas ligasse a câmera para ver como os atores reagiriam ao que estava escrito no roteiro. Em determinado instante, por exemplo, surgem planos-sequência que parecem decididos na hora, como se o cineasta não esperasse que os atores saíssem do cenário, mas aproveitasse o imprevisto como a ação que ele tanto buscava. Uma maneira brilhante de elaborar a transição entre a ficção e o lado documental de se filmar uma história.
Casada com o diretor na época, a atriz Gena Rowlands nos brinda com o que talvez seja o melhor trabalho de sua carreira. Sua Mabel é uma força da natureza enjaulada não somente entre quatro paredes, mas perante um sistema de regras conservador de uma época em que a moral e os bons costumes já não podiam mais ser sustentados por contos de fadas ultrapassados. O desequilíbrio da personagem funciona como uma síntese de uma nova geração de mulheres que ansiavam para sair do casulo de uma vez por todas e dizer "não" a esse sistema.
Já Peter Falk constrói um personagem que procura, a todo custo, manter a sanidade e a estrutura familiar, mesmo quando coloca em prática métodos politicamente incorretos e que hoje seriam intoleráveis. Em um determinado momento, notamos o seu olhar perder o foco em meio ao turbilhão de emoções, procurando achar dentro de si uma doçura que ele raramente exercita. Por isso, as cenas em que ele precisa conviver mais intimamente com os filhos são louváveis, ainda que vistas hoje por um olhar questionador e crítico.
Acima de tudo, é um filme que retrata não somente as mudanças de costumes de uma geração, mas também o declínio moral de uma família cujos segredos desconstroem a vida de cada um. Embora algumas revelações nunca sejam verbalizadas, fica evidente que certas cicatrizes emocionais nunca fecham, fazendo com que o desgaste siga em frente mesmo quando se alcança alguns minutos de cessar-fogo. Ao final, John Cassavetes procura nos entregar um desfecho um pouco mais reconfortante, mas sem esconder que aquele cenário familiar dificilmente encontrará o equilíbrio necessário.
"Uma Mulher Sob Influência" é uma obra-prima, um retrato fiel de seu tempo e a prova de que, ao menos em alguns pontos, a humanidade evoluiu se compararmos os dias de hoje àqueles tempos já longínquos.
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