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Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Cine Dica: Em Cartaz: Eu, Tonya



Sinopse: Acompanhe a vida da ex-patinadora no gelo Tonya Harding. Durante a década de 1990, ela conseguiu superar sua infância pobre e emergir como campeã do Campeonato de Patinação no Gelo do Reino Unido e segunda colocada no campeonato mundial. Porém, ela ficou realmente conhecida quando seu marido, Jeff Gilloly, e dois ladrões tentaram incapacitar uma de suas concorrentes quebrando a perna dela durante as Olimpíadas de 1994.
Em alguns casos, as cinebiografias caem na vala comum do esquecimento, já que não basta ser fiel aos fatos como também precisa ser criativo. O pior de tudo, por exemplo, é quando fazem uma reconstituição dos fatos sobre um artista, mas que o público em geral já tem pleno conhecimento de tudo o que já ocorreu. Não é o caso de Eu, Tonya que, mesmo tendo sido um dos principais assuntos nos primeiros anos da década de 90, é um filme que consegue nos passar um frescor na forma de apresentar uma trama e tornando ela diferente das demais cinebiografias. 
Com de roteiro de Steven Rogers e direção de Craig Gillespie (A Garota Ideal), o filme conta a história de Tonya Harding (Margot Robbie, ótima), que despontou como uma das melhores patinadoras do mundo entre os anos 80 e 90. Porém, por detrás das cortinas, havia uma vida sofrida, da qual sofria nas mãos de uma mãe exigente, interpretada de forma extraordinária pela atriz Allison Janney (As Horas) e do marido violento Jeff (Sebastian Stan, o Bucky dos filmes do Capitão América). A situação piora quando ele tenta se envolver na vida esportiva de Tonya para então tentar ajudá-la, mas causando eventos irreversíveis. 
O filme já começa de uma forma incomum ao apresentar a trama, pois por um segundo acreditamos que estamos testemunhando um documentário, onde as principais pessoas envolvidas na história real começam a falar com a gente e assim quebrando a quarta parede. Porém, logo percebemos que são os próprios atores representando os respectivos personagens reais e nos pegando então desprevenidos. Além disso, a quebra da quarta parede acontece com mais frequências, em situações que, ou realmente aconteceram, ou que foram romantizadas para camuflar a real realidade dos fatos.
O artifício do falso documentário (ou pseudodocumentário), além da quebra da quarta parede (quando o protagonista fala com a gente), são artifícios cinematográficos usados com frequência no cinema recente. Esse último, por exemplo, foi usado em filmes como Deadpool e em séries de TV como House Of Cards. A união dessas duas formas de contar uma história faz com que o filme ganhe então um ritmo dinâmico e fazendo com que a gente não desvie os olhos da tela.
Falando em ritmo, a montagem do filme é o que torna a obra um verdadeiro balé cinematográfico. Nas cenas de patinação, por exemplo, há todo um cuidado para que torne as cenas verossímeis, mas ao mesmo tempo tornando elas frenéticas e fazendo com que a câmera não deixe de acompanhar todos os movimentos da protagonista. Assim como em filmes como Whiplash: Em Busca da Perfeição, a montagem fora do seu habitual não se torna um mero artifício para dar ritmo constante ao filme, como também nos dando a sensação de estarmos no meio dos acontecimentos. 
Mas se a parte técnica é o que dá personalidade incomum ao filme, os interpretes em cena não ficam muito atrás e nos brindando com interpretações surpreendentes. Na atual temporada de premiações, muito provavelmente atriz Allison Janney receberá todos os prêmios, pois ela não interpreta uma mera mãe megera, como também uma pessoa imprevisível em seus atos ao tentar fazer de tudo para que a filha seja melhor patinadora do mundo, nem que para isso tenha que feri-la em alguns momentos. Suas ações podem ser até bem questionáveis, mas atriz consegue passar por de baixo da face fria de sua personagem um ser humano de inúmeras cicatrizes, mas que sobreviveu ao ser dura consigo mesma e com as pessoas em volta.
Os atos e consequência de sua pessoa é o que então moldam o ser interior e exterior de Tonya que, se por um lado, demonstra ser uma pessoa frágil e da qual deseja afeto, por outro, demonstra força e frieza na hora em que tenta dar o seu máximo quando se encontra no gelo. Descoberta por Martin Scorsese em O Lobo de O Lobo de Wall Street, além de ter se tornado estampa de camisa ao interpretar Arlequina em Esquadrão Suicida, Margot Robbie nos brinda aqui com o seu melhor desempenho da carreira, onde fragilidade, loucura, persistência e obsessão afloram em sua personagem a cada momento em que surge em cena. Pode não levar um Oscar agora, mas o seu assombroso desempenho aqui dá uma dica do que estará por vir.
Além de um elenco que não freia em seu desempenho, o roteirista Steven Rogers e o diretor Craig Gillespie não se intimidam em cutucar o lado patriótico dos nortes americanos, que sempre tentam vender um mundinho perfeito, quando na realidade não passa de um mundo cheio de mentiras e moldado pela hipocrisia. Tonya sente na carne esse lado hipócrita através dos juízes da modalidade de patinação, pois não importa o quão ela seja boa, pois ela não é, segundo eles, uma representação perfeita que os americanos desejam. Além disso, o filme faz uma dura crítica ao jornalismo sensacionalista, do qual se alimenta através das tragédias dos outros e Tonya era o prato cheio daquele momento.
Embora seja baseado em fatos verídicos, é preciso reconhecer que a situação em que ela se envolveu, mesmo sendo de uma forma indireta, soe boa parte de uma forma absurda em sua reta final. Percebendo isso, os realizadores foram engenhosos ao dosar as situações com ares de comédia, da qual se desliza para um humor sombrio e terminando de uma forma que nos faz lembrar aquele velho refrão que é “preciso rir para não chorar”: a cena em que Tonya nos encara e tenta sorrir em meio ao que restou de sua vida sintetiza muito bem esse clima. 
Com uma trilha sonora nostalgica vinda dos anos 80 e 90, Eu, Tonya é um filme que nos faz pensar sobre a vida, da qual podemos criá-la de uma forma simples, ou fazê-la se enveredar por situações absurdas e imprevisíveis.  


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2 comentários:

Camila Navarro disse...

Eu, Tonya é um filme que poderia facilmente descambar para o sentimentalismo barato: contando com uma protagonista que passou a vida inteira sendo maltratada pelas figuras brutais à sua volta, esta cinebiografia se concentra numa persona machucada e trágica que ainda foi obrigada a ver sua carreira promissora ir por água abaixo. Quando leio que um filme será baseado em fatos reais, automaticamente chama a minha atenção, adoro ver como os adaptam para a tela grande. Tambem recomendo assistir Dunkirk, adorei este filme, é um dos melhores filmes baseadas em fatos reais drama.A história é impactante, sempre falei que a realidade supera a ficção. É interessante ver um filme que está baseado em fatos reais, acho que são as melhores historias, porque não necessita da ficção para fazer uma boa produção.

Marcelo Castro Moraes disse...

Bom dia. Valeu pela sua opinião. Quanto a Dunkirk eu também escrevi sobre ele. Só pesquisar que você irá achar minha crítica. Me siga Camila. Beijos.