Filme exibido para os associados no dia 03/10/26.
Poucas obras conseguiram traduzir os contrastes da modernidade de forma tão precisa quanto o cinema do francês Jacques Tati. A sua filmografia é atravessada por reflexões profundas sobre a estrutura social na qual somos inseridos, e "Meu Tio" (1959) figura como um exemplo emblemático desse embate entre o avanço tecnológico e a conduta humana.
Na trama, Tati nos reencontra com a candura e a pureza do Sr. Hulot. O protagonista visita a irmã, Madame Arpel, uma mulher fascinada pelas inovações futuristas que compõem sua residência. A obra se inicia em um canteiro de obras no qual as próprias placas do local apresentam os créditos iniciais — uma metáfora perspicaz para demonstrar uma sociedade que ainda edifica suas estruturas e valores. Ali, operários manuseiam maquinários pesados na erguição de colunas gigantescas que simbolizam os alicerces desse novo estilo de vida. Na sequência, a câmera corta para um grupo de vira-latas perambulando sem rumo por um bairro modesto. Os cães reviram o lixo, saltam poças, atravessam terrenos baldios e finalmente alcançam o setor modernizado da cidade, onde um deles adentra a propriedade automatizada dos Arpel. A cena pode parecer aleatória à primeira vista, contudo ela guarda uma função narrativa crucial para o decorrer do longa.
Após essa abertura rica em simbolismos, acompanhamos o cotidiano do casal Arpel. O conceito de modernidade atravessa cada canto do imóvel, desde o chafariz de estética duvidosa no jardim até a cozinha, cujo visual evoca um laboratório futurista. Cada elemento em cena é desenhado para escancarar a futilidade daquele excesso de aparelhos. A tecnologia, criada em tese para facilitar a rotina doméstica, converte-se em um obstáculo, exigindo um manuseio mais complexo do que o próprio trabalho manual. O comportamento lembra o de alguém que perde vários minutos tentando acionar uma função no celular por comando de voz quando poderia simplesmente digitar o comando em poucos segundos.
A fotografia do filme adota uma paleta acinzentada para a casa dos Arpel, reforçando a frieza do ambiente e enfatizando sua arquitetura impessoal. Em contrapartida, o bairro popular onde Hulot reside é banhado por cores quentes, transmitindo uma sensação de acolhimento ausente no lar de sua irmã. Além da distinção visual, Tati contrapõe o estilo de vida de ambos os cenários. Enquanto Madame Arpel cultiva uma fixação obsessiva pela limpeza, na comunidade de Hulot a higienização é um detalhe irrelevante. Há até um gari local que, a cada tentativa de recolher um monte de sujeira, acaba distraído pelas interações ao redor. Longe de retratar o personagem como desleixado, a direção utiliza esse momento para destacar modos opostos de encarar o cotidiano. Na vila, a vida fluía com simplicidade e convivência real — entre conversas de calçada, desentendimentos espontâneos, festas e laços comunitários. Já na casa dos Arpel, ostenta-se a conectividade entre os eletrodomésticos enquanto os próprios moradores não conseguem dialogar entre si nem com o filho, Gerard.
Para compreender a dinâmica do jovem Gerard, vale retomar a cena inicial dos cães. O trecho culmina com o animal retornando à casa dos Arpel, onde a dona do imóvel o repreende por uma suposta sujeira nas patas. Fica nítido que o cão está limpo; o incômodo da personagem reflete, na verdade, sua neurose pela preservação do espaço. Essa mesma postura rígida afeta a criação do filho, que vive uma rotina engessada e privada do livre brincar. É justamente a figura do tio, o Sr. Hulot, que surge como a válvula de escape para o garoto. Ao lado de Hulot, Gerard recupera a ludicidade e a espontaneidade da infância, despertando o ciúme do pai.
A presença de Hulot vai além do papel de libertador do sobrinho: ele se torna um elemento desestabilizador para o Sr. Arpel, que o enxerga como uma ameaça ao modo de vida moderno da família. Para aquele núcleo, existe um valor ainda mais relevante do que o uso dos aparelhos eletrônicos: a exibição pública de seu patrimônio. Tati expõe como a vacuidade daquela rotina se traduz na necessidade constante de impressionar as visitas. O chafariz em forma de peixe ilustra perfeitamente essa dinâmica. A engrenagem é acionada sempre que a campainha toca para borrifar água aos visitantes; contudo, ao perceberem que se trata apenas de Hulot, o dispositivo é desligado imediatamente. Afinal, Hulot já demonstrou total indiferença perante tais artifícios, enxergando neles apenas objetos bizarros e desprovidos de utilidade.
A direção de arte de Meu Tio cumpre um papel fundamental ao expor o vazio dessas inovações. Embora planejado sob os padrões urbanísticos mais avançados da época, o novo bairro aparenta ser estéril e desprovido de alma. As fachadas de lojas, indústrias e colégios repetem uma estética cinzenta e uniforme que elimina qualquer vestígio de calor humano. É nesse ponto que reside a crítica central do cineasta: o impasse não é o avanço tecnológico em si, mas a forma como a arquitetura e a modernidade podem privar a cidade de sua humanidade, reduzindo espaços urbanos a blocos frios onde não há lugar para brincadeiras, conversas espontâneas ou para os animais correrem soltos. Trata-se de um design concebido para ostentar progresso, mas que acaba isolando as pessoas e enfraquecendo as relações interpessoais.
Alheio a esse deslumbre fútil, o Sr. Hulot permanece como o último reduto de humanidade em meio a uma engrenagem social automatizada e fria. Em "Meu Tio", Jacques Tati não condena a inovação em si, mas sim a nossa submissão a ela. Por mais sofisticados que sejam os recursos tecnológicos, eles jamais substituirão o valor das conexões genuínas e da convivência humana.
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