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Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

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terça-feira, 20 de outubro de 2026

Cine Dica: Em Cartaz – 'Rosebush Pruning'

Sinopse: A trama acompanha os Taylor, uma rica, excêntrica e privilegiada família norte-americana que vive isolada em uma mansão hedonista sob o sol da Catalunha, na Espanha.

Karim Aïnouz é um cineasta que consegue realizar um belo casamento entre o conteúdo visual e as interpretações do elenco em cena. Além disso, é curioso observar como ele constrói obras nas quais nunca se sabe onde começa o real e onde termina a ficção — a exemplo do maravilhoso "Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo" (2009). Em seu segundo longa em língua estrangeira, "Rosebush Pruning" (2026), temos um retrato tragicômico da burguesia contemporânea, na qual uma engole a outra.

Na trama, acompanhamos essa família americana abastada, cuja dinâmica é marcada por segredos hediondos. Enquanto os irmãos Jack, Ed, Anna e Robert vivem à custa da fortuna familiar, o patriarca se aproveita dos herdeiros, cada vez mais enredados nesse sistema fragmentado. Apesar de o quinteto buscar amor e acolhimento nas relações fraternais, a convivência fica prestes a ruir quando Jack, o irmão mais velho, decide abandonar a todos para morar com a namorada, Martha.

Aïnouz demonstra uma visão autoral consolidada na realização de seus filmes, mas é interessante notar como ele busca interlocução com outros realizadores. Embora esteja distante das amarras formais do Dogma 95, a abertura do filme remete imediatamente aos melhores títulos daquele movimento — principalmente a "Festa em Família" (1998), de Thomas Vinterberg. É uma sequência de abertura que sintetiza com precisão o conteúdo grotesco que testemunhamos a seguir.

A família central se reduz a desejos reprimidos, extravasados esporadicamente apenas para que sintam que estão vivos em uma realidade, por vezes, vazia — para dizer o mínimo. Vale destacar a figura da mãe, dada como morta, cujo local do suposto falecimento é dominado por lobos famintos. A alcateia torna-se uma metáfora da própria família: faminta para devorar a si mesma.

Karim Aïnouz não nos poupa de situações incestuosas, pulsões reprimidas e da busca incessante por um lugar ao sol fora desse cenário esquizofrênico. Jack (Jamie Bell) talvez seja o único em busca de redenção, mesmo quando sua relação com Martha (Elle Fanning) nos coloca em dúvida quanto às reais intenções de ambas as partes. Além disso, é Jack quem esconde o fato de que a mãe está viva, introduzindo-nos a outros desdobramentos grotescos da história.

Por incrível que pareça, Pamela Anderson nos brinda com uma das melhores atuações de sua carreira. No papel da mãe que finge a própria morte, a atriz aproveita para expor seus demônios. Em sua composição, ela explicita o sarcasmo diante do sistema de aparências do mundo — um mundo que, por trás das cortinas, revela-se fraturado e sem remédio. O tempo fez bem à atriz, que finalmente deixa para trás um passado moldado por polêmicas e se entrega a papéis que traduzem melhor sua maturidade dramática.

Tecnicamente quase impecável, Aïnouz constrói uma edição dinâmica, por vezes dialogando com a estética do videoclipe, enquanto a narração em off nos guia pela lógica das cenas. Curiosamente, certas situações se repetem ao longo do longa, como se nos dissessem que determinados traumas retornam ciclicamente para que possamos refletir sobre eles. A figura dos lobos, por exemplo, não sintetiza apenas a podridão daquela família, mas simboliza o próprio colapso dos ditos "bons costumes".

O desfecho do filme me fez recordar a emblemática frase do Coringa em "O Cavaleiro das Trevas" (2008): "Essas pessoas civilizadas vão comer umas às outras". Em tempos de profunda alienação e busca desmedida pelo poder, em que o lado civilizado é jogado para escanteio, o cinema de Karim Aïnouz revela que tudo tem um preço quando a civilidade deixa de ser escolha e passa a ser mera maquiagem para o olhar externo. Ao final da sessão, fica a nítida sensação de que é bem mais seguro se misturar a uma alcateia na floresta.

"Rosebush Pruning" é uma comédia ácida e sombria que desmascara a hipocrisia de uma elite na qual os laços de sangue não impedem que tudo se transforme em uma grande piada à beira do abismo.


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