Quem sou eu

Minha foto
Sapucaia do Sul/Porto Alegre, RS, Brazil
Sócio e divulgador do Clube de Cinema de Porto Alegre, frequentador dos cursos do Cine Um (tendo já mais de 100 certificados) e ministrante do curso Christopher Nolan - A Representação da Realidade. Já fui colaborador de sites como A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento, Cinesofia e Teoria Geek. Sou uma pessoa fanática pelo cinema, HQ, Livros, música clássica, contemporânea, mas acima de tudo pela 7ª arte. Me acompanhem no meu: Twitter: @cinemaanosluz Facebook: Marcelo Castro Moraes ou me escrevam para marcelojs1@outlook.com ou beniciodeltoroster@gmail.com

Pesquisar este blog

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Cine Especial: Clube de Cinema - 'James Dean: O Mito Sobrevive'

 Nota: Filme exibido para os associados no dia 10/10/26

Sinopse: Vinte anos após a morte de James Dean, um grupo de mulheres que fazia parte de seu fã-clube se encontra em uma pequena loja no Texas. Entre lembranças do passado e acontecimentos do presente, o encontro traz à tona antigas relações, segredos e frustrações que haviam permanecido ocultos por duas décadas.

Comecei a prestar maior atenção na filmografia de Robert Altman a partir do filme "Três Mulheres" (1977) e de como ele possui uma visão mais íntima com relação ao universo feminino. Vale salientar que o realizador trabalhou bastante na televisão, dirigindo diversos episódios da clássica série "Alfred Hitchcock Apresenta", iniciada em 1955. Somando a isso, temos "James Dean: O Mito Sobrevive" (1982), filme no qual o cineasta transita entre as linguagens cinematográfica, televisiva e teatral, expondo o lado mais íntimo das mulheres em tempos mais conservadores.

Baseado na peça de teatro homônima escrita por Ed Graczyk, a trama se passa em 1975, em McCarthy, Texas. Na lanchonete da loja de conveniência local, as integrantes do fã-clube de James Dean se reencontram carregando segredos do passado. Através de flashbacks, o filme revela como elas eram quando o ator ainda estava vivo, tornando claro que, com o passar do tempo, perderam a inocência. Entre as mulheres reunidas está a perturbada Mona (Sandy Dennis), que foi figurante em "Assim Caminha a Humanidade" (1956) e, nove meses depois, teve um filho cuja paternidade atribui a James Dean.

É curioso observar que, no início dos anos 1980, houve uma clara mudança no cinema norte-americano. Na minha visão cinéfila, a "Nova Hollywood" se encerrou com o clássico "Touro Indomável" (1980), e cujo cinema mais autoral cedeu espaço ao modelo blockbuster dominante daquela década. Os cineastas dos anos 1970, por sua vez, tentaram continuar desenvolvendo uma linguagem autoral transitando, curiosamente, entre cinema, teatro e TV. Francis Ford Coppola, por exemplo, arriscou tudo em "O Fundo do Coração" (1982), um dos maiores fracassos comerciais da época, mas que se conecta perfeitamente a essa observação e ao exercício feito em "James Dean: O Mito Sobrevive".

Em um primeiro momento, a sensação era a de estar assistindo a um filme feito para a TV, devido ao orçamento visivelmente reduzido e aos movimentos de câmera que lembram séries oitentistas. Essa percepção muda radicalmente à medida que a narrativa transita entre passado e presente: a câmera se casa com um engenhoso jogo de espelhos e transparências, permitindo que as personagens observem a si mesmas em tempos idos. Nesse cenário claustrofóbico, surge um belo matrimônio entre o cinema e o teatro — uma fórmula estética que não me surpreenderia se tivesse servido de referência para obras posteriores, como "Deus da Carnificina" (2011).

Vale destacar que boa parte do elenco já havia encenado a peça na Broadway. A transição para as telas torna evidente o quanto as atrizes estavam à vontade em papéis que já dominavam. Se Cher dispensa apresentações, é Sandy Dennis quem rouba a cena ao interpretar a complexa e obsessiva Mona — talvez a figura mais apaixonada pelo mito de James Dean, a ponto de construir toda a sua vida em torno desse vínculo. A dinâmica ganha contornos ainda mais dramáticos com a chegada de Joanne (Karen Black), uma figura que inicialmente parece estranha ao grupo, mas que logo se revela intimamente ligada ao passado de todas ali, especialmente de Mona.

Embora lançado sob a atmosfera conservadora da era Reagan, o filme é corajoso ao expor as rachaduras da sociedade norte-americana, que tentava vender uma ilusão de perfeição enquanto convivia com transformações profundas desde os anos 1950. James Dean surge como o símbolo dessa rebeldia reprimida que culminaria nos movimentos contraculturais das décadas seguintes. Joanne, por sua vez, representa uma figura que se tornaria mais recorrente no audiovisual nos anos posteriores, mas que, na época, era uma personagem extremamente à frente de seu tempo — e que certamente causou impacto no público do período.

No geral, é um filme de linguagem universal que, lido hoje, escancara as ilusões do "sonho americano" e o vazio da obsessão por celebridades. Curiosamente, fico imaginando como essa história seria conduzida nas mãos de Pedro Almodóvar, pois não me surpreenderia se este longa de Altman tivesse servido de inspiração para "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos" (1988). Novamente subestimei Robert Altman, e fico feliz por ter sido surpreendido.

"James Dean: O Mito Sobrevive" é sobre a perda da inocência, sobre máscaras hipócritas e sobre a resiliência do universo feminino perante as falsas promessas de um mito.

  Faça parte:

 


Mais informações através das redes sociais:

Facebook  : www.facebook.com/ccpa1948

Twitter: @ccpa1948  

Nenhum comentário: