Da Tchecoslováquia ao cinema brasileiro, Viva Marília e Bressane 80 chegam à programação
A programação desta semana marca uma mudança de eixo na Cinemateca Capitólio. Depois de três semanas dedicadas ao cinema tchecoslovaco, com a mostra Literakino: entre palavras e imagens da Tchecoslováquia, o cinema brasileiro volta ao centro da programação com a estreia de Viva Marília e a abertura de Bressane 80, retrospectiva que celebra os 80 anos de Júlio Bressane.
Literakino: terceira semana
Até domingo, 11 de outubro, em sessões gratuitas, a Cinemateca Capitólio apresenta a terceira e última semana da mostra Literakino: entre palavras e imagens da Tchecoslováquia. Desde 22 de setembro, a mostra vem reunindo um amplo panorama da produção tchecoslovaca a partir das relações entre literatura e cinema, com um recorte que percorre produções realizadas entre as décadas de 1930 e 1980. A seleção reúne adaptações de autores como Božena Němcová, Karel Čapek, Jaroslav Hašek, Vítězslav Nezval, Milan Kundera e Bohumil Hrabal, além de obras criadas por escritores e filmes inspirados em diferentes universos literários. A curadoria é de Leonardo Bomfim, Věra Matysíková e Rastislav Steranka.
Na sexta-feira, 9 de outubro, às 19h30, a sessão Jakubisko na FAMU apresenta dois filmes realizados por Juraj Jakubisko durante seus estudos em Praga, na lendária FAMU – Escola de Cinema e Televisão da Academia de Artes Cênicas de Praga. Principal nome da cena eslovaca da Nova Onda dos anos 1960, Jakubisko realizou, nesse período, Chuva, inspirado na poeta Vladimíra Čerepková, figura marcante da cena contracultural dos anos 1960, e Esperando Godot, curta influenciado pela obra do dramaturgo irlandês Samuel Beckett. A sessão terá apresentação em vídeo da pesquisadora Klára Trsková.
No domingo, 11 de outubro, às 19h, a mostra se encerra com A Carroça (1966), de Karel Kachyňa. Ambientado no final da Segunda Guerra Mundial, o filme acompanha Krista, uma jovem viúva de uma aldeia tcheca que é obrigada por dois soldados austríacos a conduzi-los em sua carroça em direção à fronteira. Uma das obras de destaque do cinema tchecoslovaco dos anos 1960, o filme é uma adaptação do romance homônimo de Jan Procházka (1929–1971), um dos principais autores ligados à efervescência cultural e cinematográfica da década. A sessão será apresentada por Matouš Hartman, professor de língua tcheca nas comunidades tchecas do Rio Grande do Sul e do Mato Grosso do Sul desde 2022, licenciado pela Universidade Carolina, em Praga, e enviado ao Brasil pelo Estado Tcheco.
Depois de três semanas em que Porto Alegre virou, como muitos espectadores brincaram, a capital da Tchecoslováquia, a programação se volta novamente para o cinema brasileiro, em um percurso marcado por idas e vindas entre os anos 1960 e o presente.
Viva Marília
A partir desta quinta-feira, 8 de outubro, entra em cartaz Viva Marília (2024), de Zelito Viana. O documentário revisita o contexto histórico, político e social do Brasil das décadas de 1960, 1970 e 1980 a partir da trajetória de Marília Pêra, uma das grandes atrizes brasileiras. Ao longo de sua carreira, Marília participou de 49 peças, 29 novelas, 12 séries e 24 filmes, conquistando mais de 80 prêmios nacionais e internacionais. Conduzido pela presença e pelas memórias da própria atriz, Viva Marília reúne um valioso acervo de imagens e depoimentos para acompanhar uma artista que transitou pelo drama, pela comédia, pelo canto e pela dança, além de recuperar a presença de uma geração de mulheres que marcou a cultura brasileira.
A trajetória de Zelito Viana também está profundamente ligada ao período retratado pelo filme. Em 1965, o cineasta e produtor fundou, ao lado de Glauber Rocha, a Mapa Filmes, responsável pela produção de obras como Terra em transe (1966), O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1968) e Cabeças cortadas (1970). Como diretor, realizou filmes como Os condenados (1973), Morte e vida severina (1976), Terra dos índios (1978) e Avaeté, semente de vingança (1985), vencedor da medalha de prata no Festival de Cinema de Moscou.
O ingresso para Viva Marília custa R$ 16,00 (inteira) e R$8,00 (meia). Aceitamos somente pagamento em dinheiro.
Bressane 80
Na terça-feira, 13 de outubro, a Cinemateca Capitólio abre Bressane 80, mostra dedicada aos 80 anos de Júlio Bressane, completados em fevereiro deste ano. A seleção reúne 12 obras realizadas entre 1969 e 2026 e percorre diferentes momentos de uma trajetória que atravessa o Cinema Marginal e chega à produção contemporânea.
Cineasta e escritor, Bressane desenvolveu uma obra marcada pela experimentação formal e pela liberdade na construção de suas narrativas, explorando diferentes relações entre imagem, palavra, literatura e música. Um dos nomes centrais do chamado Cinema Marginal, iniciou sua carreira como assistente de direção de Walter Lima Jr. e estreou na direção com os curtas documentais Lima Barreto – Trajetória (1965) e Bethânia Bem de Perto (1966), dirigindo o seu primeiro longa-metragem no ano seguinte, Cara a Cara (1967). Em 1969, realiza O Anjo Nasceu e Matou a Família e Foi ao Cinema, filmes considerados marcos do Cinema Marginal brasileiro.
Em 1970, fundou ao lado da atriz Helena Ignez e do cineasta Rogério Sganzerla a Belair Filmes, coletivo de produção que realizou seis filmes de longa-metragem em pouco mais de 5 meses: Barão Olavo, o Horrível, Cuidado, Madame e A Família do Barulho, dirigidos por Bressane, e Copacabana, Mon Amour, Sem Essa, Aranha e Carnaval na Lama, dirigidos por Sganzerla. A experiência, interrompida pelas medidas de repressão da ditatura militar, ainda hoje possui uma forte influência estética e política no cinema brasileiro contemporâneo.
O filme de abertura da mostra é Matou a Família e Foi ao Cinema (1969) ao lado de O Fantasma da Ópera (2026), curta-metragem mais recente de Bressane, codirigido com Rodrigo Lima. Os dois filmes serão exibidos na terça-feira, 13 de outubro, às 19h. Na quarta-feira, 14 de outubro, a mostra segue com A Erva do Rato (2008), às 17h, e O Mandarim (1995), às 19h.
Também fazem parte da seleção Memórias de um Estrangulador de Loiras (1971), A Agonia (1976), Tabu (1982), Educação Sentimental (2013), Garoto (2015), Beduíno (2016), Relâmpagos de Críticas Murmúrios de Metafísicas (2024) e Barão Olavo, o Horrível (1970). Este último terá sessão única na sexta-feira, 16 de outubro, às 19h30, seguida de debate com a atriz e diretora Helena Ignez.
A curadoria da mostra Bressane 80 é de Daniela Strack, cineasta, professora e pesquisadora. Todas as sessões de Bressane 80 têm entrada franca.
Confira a programação completa da cinemateca clicando aqui.


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